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sexta-feira, 29 de maio de 2026

"A Correspondente" de Virginia Evans

Um livro que adorei ler! Os acontecimentos (e são bem variados e inesperados!) que se sucedem na vida de Sybil, uma senhora com a provecta idade de 73 anos, divorciada e que vive sozinha (com a ameaça de um lar muito por perto), com uma doença que sabe que a tornará invisual e que não quer contar aos filhos por essa razão. Reformada de uma carreira jurídica de sucesso, adoptada em criança por uns pais que lhe deram carinho, tem um irmão igualmente fruto de adoção que vive em França. 

A comunicação utilizada para contactar familiares, amigos e escritores; as cartas, se bem que apareçam também alguns e-mails. E há também cartas escritas e não enviadas que constituem um mistério para o leitor.

Muitos assuntos abordados com subtileza e que vão enriquecer a vida desta senhora e, consequentemente, a narrativa. 

A cereja no topo do bolo: adora ler! As referências bibliográficas são imensas. Preparem-se para tomar nota porque vão querer ler alguns livros que ela refere.

"Fazemos escolhas. O tempo não volta para trás. As coisas boas que acontecem das coisas más podem chegar a parecer-nos insuportáveis" (pag 262) e acrescentaria eu: no início.

Terminado em 19 de Abril de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
Sybil Van Antwerp sempre usou cartas para dar sentido ao mundo e ao seu lugar nele. Aos 70 anos, esta advogada aposentada dedica as suas manhãs a corresponder-se com família, amigos, vizinhos, antigos colegas e até com os seus autores preferidos. Teimosa, ranzinza, excessivamente opinativa e, ainda assim, imensamente cativante, Sybil partilha as suas reflexões sobre tudo: do casamento à maternidade, da amizade à perda, do luto ao envelhecimento.

Através das suas cartas, conhecemos o mundo fascinante de Sybil e as personagens que o habitam. Mas há uma carta que ela escreve há anos e que nunca teve coragem de enviar.

Sybil espera que o seu mundo continue como sempre foi. Contudo, quando cartas de alguém do seu passado a forçam a examinar um dos períodos mais dolorosos da sua vida, ela percebe que não pode mais adiar o inevitável. Para seguir em frente, terá de encontrar no seu coração a força para perdoar e, finalmente, enviar a carta mais difícil da sua vida.

Uma história comovente e agridoce sobre o poder transformador da palavra escrita e a beleza de abrandar para nos reconectarmos com as pessoas que amamos. Sybil é uma personagem que permanecerá consigo muito depois de pousar as suas cartas.

Cris

quarta-feira, 27 de maio de 2026

"Maldição de Família" de Oyinkan Braithwaite

Um livro que gostei muito de ler porque é de leitura compulsiva e entrei na história rapidamente. Faz uma mescla entre um drama familiar e alguns aspectos de realismo mágico, refletindo sobre as tradições e crenças e como elas podem influenciar a vida de alguém e o papel da mulher na sociedade nigeriana.

Ao nascer no dia da morte trágica de sua tia Monife, e pelo facto de ser parecida com ela, Eniiyi, surge como uma reencarnação da mesma. Pelo menos é o que acreditam alguns elementos da família. Esse facto condiciona de tal modo a vida desta menina pelas decisões que tomam em relação a ela que, mais tarde, ela própria já questiona se realmente isso é verdade, muito embora tenha uma forte personalidade e tente construir a sua própria identidade.

Este facto e por estarem fortemente ligadas à crença de que existe nessa família uma maldição que condena as mulheres da família a sofrerem por amor e a nunca encontrarem a felicidade e estabilidade junto a um homem, condiciona as reações dos elementos femininos desta familia, onde existe uma forte predominância de mulheres. Esta mulheres sentem que estão presas a um destino inevitável o que, por si só, já condiciona as suas atitudes.

O passado e o presente da vida famililar de Einiiyi, suas tias, prima e mãe, onde o sobrenatural se mistura com a vida do dia a dia, mostrando ao leitor algumas tradições culturais e espirituais do povo nigeriano.

Gostei muito e recomendo.

Terminado em 12 de Abril de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
Este é o regresso da autora do divertido A Minha Irmã É uma Serial Killer: uma casa de mulheres sem homens, de paixões de mulheres jovens e de crenças das mulheres velhas.

Eniiyi nasceu no dia em que a tia foi a enterrar. E, devido à sua estranha semelhança com Monife, a avó e a tia-avó acreditam que ela é uma reencarnação. Apesar dos esforços da mãe, Eniiyi cresce na sombra da bela e obstinada Monife. E, quando se apaixona pelo rapaz bem-parecido que salvou de se afogar, tudo leva a crer que estará destinada à mesma história de desilusão amorosa – a sofrer a maldição que assola as mulheres da família: «Nenhum homem chamará lar à tua casa e, se algum tentar, jamais terá paz. As tuas filhas hão de perseguir os homens sem nunca alcançarem o mínimo de poder sobre eles. As tuas netas hão de amar em vão. As tuas bisnetas hão de lutar por reconhecimento, mas hão de ficar sempre aquém das outras mulheres. Todas as tuas descendentes hão de sofrer por causa dos homens. »

Será que Eniiyi vai conseguir romper com o misterioso ciclo? Este romance conta a história de uma casa de mulheres sem homens, histórias de coração e cabeça (e estômago! ), das paixões de mulheres jovens e das crenças das mulheres velhas, enfim, do que é racional e do inexplicável.

Cris

segunda-feira, 25 de maio de 2026

"Lavores de Ana" de Ana Cláudia Santos

Romance curto que se lê rapidamente e até me lembro de estar a gostar de o fazer mas, escrevendo a opinião passado já mais de um mês foi-me difícil recordar do que se tratou. Nada como a leitura das primeiras frases para me recordar das aventuras e vivências de Ana em Nápoles aquando da sua juventude. A liberdade vivida, um romance intenso, as conversas literárias, o sexo vivido sem culpas.

Escrito na primeira pessoa o livro relata-nos memórias passadas de um amor vivido e da transformação interior que essas vivências implicaram e reflexões intimas. Apercebemo-nos que o livro é o olhar de Ana sobre esse periodo vivido em Nápoles e o regresso a Lisboa.

A questão da maternidade também aqui é colocada. Os limites que o tempo traz no corpo duma mulher e as expectativas sociais relacionadas com este tema. "O tempo urge; os meses equivalem a anos. Com cada mulher nasce uma clepsidra. (...) Quantos ciclos me restam ainda?" pag 97/98

Quem é esta Ana que tem o mesmo nome da autora? Até que ponto a autora está aqui representada? Esta dúvida surge no leitor durante esta leitura mas, sinceramente, não lhe dei grande importância. O foco, creio eu, está na passagem dos anos, de uma jovem que acredita na liberdade absoluta para uma mulher que se vai apercebendo dos limites do tempo, do corpo e das expectativas sociais.

Li com gosto.

Terminado em 30 de Março de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
«Foi, até certa idade, a minha história: uma juventude fértil em paixões, sem Deus e sem pecado; a sensação de ser fêmea sempre presente; uma necessidade involuntária de seduzir; a volúpia de me ver sempre através de olhos diferentes. E o que hoje penso é que uma mulher pode fazer amor com quantos homens queira, contanto que não o faça por falta de amor-próprio.»

Nápoles e Lisboa. O fim da juventude e o começo da idade adulta. Uma mulher entre dois países e entre duas idades: assim é Ana, moderna nas liberdades do corpo e anacrónica no que lhe alimenta o espírito. Lavores de Ana, história de uma travessia, é também um divertimento: seduz o leitor com cenas entre amantes, passeios de motoreta no Verão meridional e vistas bucólicas para o Vesúvio; serve-se da mística da viagem, do louvor da feminilidade, da simplificação da liberdade; joga ardilosamente com a sobreposição dos nomes próprios de autora e narradora.

E, contudo, sabemos que autora e narradora não coincidem, que o delírio amoroso esbarra em famílias conservadoras ou na falta de dinheiro, que as festas pagãs não bastam para calar sermões de padres ou comentários de vizinhas. E sabemos que a liberdade, para as mulheres, tem o tempo contado. Não sabemos, no entanto, quem é Ana.

Auspiciosa estreia de Ana Cláudia Santos na ficção longa, Lavores de Ana equilibra-se magistralmente entre o clássico instantâneo e a condição volátil de um sonho inventado.

Cris

sexta-feira, 22 de maio de 2026

"De Quanta Terra Precisa o Homem" de Lev Tolstói

Um conto que se lê num ápice e que nos fala sobre a ambição humana. Há limites para esse desejo insaciável do Homem por mais e mais?

Um camponês simples que acaba por mergulhar numa rede de insatisfacão e quer possuir cada vez mais terras à medida que vai conseguindo adquirir mais algumas. Surge-lhe uma oportunidade única que quer aproveitar na sua totalidade: ouve falar de um povo que oferece toda a terra que ele conseguir percorrer a pé durante um dia. A única condição é que consiga voltar ao ponto de partida antes do sol se pôr. 

Estão a imaginar o resultado, não? a ambição humana no seu melhor, ou seja, no seu pior... A forte crítica a esse sentimento que corroi o ser humano está presente em todo este pequeno livro. A ambição como motor da destruição da pópria vida e como impedimento da valorização do que realmente importa.

Gostei. Nada que não saibamos já mas, ainda assim, faz-nos refletir.

Terminado em 29 de Março de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
Um texto breve e magistral, que atravessa gerações e continua a interpelar o leitor com a mesma clareza implacável: no fim, tudo se reduz à medida exata da nossa existência.Pakhóm é um homem simples, mas inquieto. Trabalha a terra, conhece o esforço e o valor do pão, mas carrega dentro de si um desejo que nunca repousa: possuir mais. Mais campos, mais horizontes, mais segurança. A cada conquista, porém, a terra parece encolher, e o coração tornar-se ainda mais insatisfeito.

Quando lhe surge a possibilidade de conquistar toda a terra que conseguir percorrer entre o nascer e o pôr do sol, Pakhóm entrega-se a uma corrida silenciosa contra o tempo, o corpo e a própria consciência. O dia avança, o sol inclina-se, e a ambição transforma-se num fardo tão pesado quanto a terra que ele deseja possuir.

Com a sobriedade e a lucidez que marcam a sua obra, Tolstói constrói uma história de aparente simplicidade e profunda força simbólica, onde, a cada passo, ecoa uma pergunta essencial: quanto é o suficiente para um homem? No desfecho, inevitável e fulgurante, revela-se a verdade última: austera, humana e eterna.

Cris

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Convidada escolhe: "O País dos Outros"

 “O País dos Outros” – Leïla Slimani, 2021

(tradução de Tânia Ganho)

“O País dos Outros” com o subtítulo “A guerra, a guerra, a guerra” é o primeiro de uma trilogia. A autora nascida em Rabat, oriunda de uma família de expressão francesa, é filha dos filhos da independência de Marrocos. “O País dos Outros” que inicia a saga da família Belhaj, é inspirado na história da avó da autora.  Leïla Slimani, com um percurso no jornalismo e com um interesse particular pelos problemas das jovens marroquinas para quem muitas causas e direitos de igualdade e emancipação estão ainda longe de estar alcançados, busca na sua obra trazer a história, a memória, as causas sociais e políticas. Numa entrevista ao Jornal de Letras de 9 de Agosto de 2022, diz que através da sua obra “quer pôr palavras sobre o silêncio, desafiar a amnésia.” 

A história passa-se após a segunda Guerra Mundial e nos anos 50, quando irrompe a luta contra o colonialismo francês em Marrocos. Adime vai combater contra o nazismo, integrado nas fileiras do exército francês. Mathilde é uma jovem alsaciana que lhe serve de guia em França e por quem se apaixona. 

Terminada a guerra, o jovem casal vai viver para Marrocos, para uma pequena terra Meknès. À fase do encantamento pelo desconhecido e pela novidade, segue-se a desilusão e a perceção de que aquela é uma viagem sem regresso. Afastada da família, lá longe na Alsácia, rapidamente se vê confrontada com uma cultura profundamente preconceituosa relativamente às mulheres. Desamparo, desespero, solidão, insegurança são os sentimentos vividos pela jovem Mathilde. “– Aqui, é assim. Ela ouviria aquela resposta muitas vezes. Nesse preciso instante, compreendeu que era uma estrangeira, uma mulher, uma esposa, um ser à mercê dos outros.” (pág. 20). Amine, obcecado em transformar o terreno pedregoso e estéril que tinha herdado do pai em terra arável e produtiva, à semelhança dos colonos seus vizinhos, era incapaz de minimamente atender às necessidades e aspirações da jovem mulher. Num período em que Mathilde teve uma profunda crise nervosa, é significativa a pergunta do médico que a vai observar: “- Desculpe a indiscrição, minha cara senhora, mas estou curioso. Como é que aterrou aqui, por deus?” (pág. 133). Só uma vez, quando o pai morre e ela decide voltar à Alsácia, a vontade de ficar e de voltar costas ao marido e aos filhos quase se sobrepõe às obrigações sociais e familiares que havia construído em Marrocos. A resignação vence a momentânea rebeldia e o sonho de um futuro diferente. Mais tarde, num desabafo com uma amiga também estrangeira, Mathilde diz-lhe: “Não tenho alternativa a não ser a solidão. Na minha situação, como é que quer que tenhamos vida social? Não imagina o que é ser casada com um indígena, numa cidade como esta.” “Corinne quase lhe respondera que também nem sempre era fácil ser casada com um judeu, um meteco, um apátrida e ser uma mulher sem filhos.” (págs. 160 e 161). Também a filha, Aïcha, a estudar numa escola católica, é ostracizada pelas colegas que a gozam por causa do cabelo indomável e das roupas usadas. 

Os anos 50 trazem o desejo de independência dos marroquinos que não querem mais ser colonizados pelos franceses. Para além da questão política da luta de libertação com revoltas, ataques e mortes, incêndios às plantações e às casas dos colonos, também no seio da sociedade marroquina as jovens aspiram à sua libertação das amarras e dos preconceitos patriarcais que as querem dóceis e submissas. Esses dois mundos em choque são retratados neste livro através de Mouilala, Amine, Omar e Selma, respetivamente a mãe, os dois filhos e a filha e irmã mais nova. Dificilmente se poderá esquecer a violência extrema de Amine contra Mathilde e Selma, que por pouco não termina em femicídio. Crimes de honra, casamentos forçados, conversões… 

Também neste livro há registo da solidariedade entre as mulheres como é o caso da viúva Mercier que dá livros a Mathilde ou Corinne, mulher do ginecologista, judeu refugiado e amigo do casal Mathilde/Amine. E mesmo de Mouilala e Mathilde. 

Esta primeira parte – guerra, guerra, guerra – termina num momento crítico em que a propriedade de Amine e Mathilde é poupada, mas com o país em convulsão profunda. Fica a vontade de continuar e seguir esta saga da família Belhaj. Os próximos volumes da trilogia serão “Vejam como Dançamos” e finalmente “Levarei o Fogo Comigo.”

1 de Abril de 2026

Almerinda Bento

quarta-feira, 20 de maio de 2026

"Furor Botânico" de Laura Agustí

Este livro é uma maravilha para os olhos. Repleto de ilustrações lindíssimas sobre flores, frutos, animais.
Ilustrações a preto e branco e tambem coloridas quase em todas as páginas refletem a profissao da autora, licenciada em Belas Artes. A natureza, portanto. É uma obra autobiográfica e acompanhamos todo o processo da sua mudança de Barcelona para uma pequena aldeia nos Pirinéus, Nevà. Rodeada de plantas, uma vasta floresta e  recorda os saberes da aldeia transmitidos de geração em geração, onde a avó, a mãe e a irmã possuem um papel relevante.

Todas as ilustrações, lindas por sinal, volto a repetir, foram feitas pela própria autora e são acompanhadas por curiosidades botânicas que muito nos ensinam. Reflexões que a autora faz sobre a sua vida stressante na cidade, como foi a transição para um ambiente calmo que nos impelem a pensar no nosso próprio ritmo acelerado.

"Esta mudança foi um convite para refletir sobre o que deixei para trás na cidade(...). vivo os reencontros com as minhas amigas com uma nova intensidade (...) e esses momentos recorda-me da importância de cultivar estas relações tão valiosas, que nos sustêm e nos acompanham sem medo da distância" pág 138

"A calma das montanhas, o ritmo pausado da natureza, começam a porporcionar-me um bem estar muito para além do físico; é uma sensação de pertença e serenidade. Sem a pressa de antes cada instante ganha um significado especial, e os momentos de solidão constituem uma oportunidade para encontrar paz e enraizamento num ambiente que me recebe com silêncios e espaços abertos. Esta solidão, longe de ser negativa, tornou-se uma aliada: nela descobri um equilibrio que antes desconhecia". pág 138

História intimista que faz uma ode à natureza! 

Terminado em 27 de Março de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
Cansada da vida stressante da cidade, Laura decide mudar-se de Barcelona com o seu companheiro para uma casa em Nevà, uma pequena aldeia junto aos Pirenéus Aragoneses. A ideia é passar lá três meses, à experiência, antes de se atrever a dar o grande salto e talvez mudar-se definitivamente.

Não demorará a reencontrar-se com um ecossistema muito familiar e que quase esquecera: o da sua infância na terra fria de Teruel, rodeada da linguagem das flores, das árvores e das plantas, bem como de toda uma estirpe de mulheres comprometidas com o amor e o conhecimento da natureza, que despertaram nela o «furor botânico» – essa necessidade de cuidar do mundo natural que tudo sustém e de se rodear de vida e beleza –, enquanto lhe ensinavam mil truques e cuidados. A sua bisavó Pilar, que curava os desânimos com açafrão-das-índias e hipericão; a avó Carmen, com quem Laura apanhava a azeitona; a mãe, que ainda hoje lhe manda cremes naturais para massagens; e a irmã Marina, que acalma as birras da filha com óleos essenciais.

Entre recordações entrelaçadas com esplêndidas ilustrações, passeios pelos caminhos dos bosques para apanhar cogumelos, projetos para a sua nova casa e conselhos para ajardinar as nossas vidas, Laura Agustí combina neste livro natureza, arte e design, revelando a benevolência exuberante do universo das plantas e contagiando o leitor com o seu Furor Botânico.

Cris

segunda-feira, 18 de maio de 2026

"Lampedusa Ir e Não Chegar" de Ana França

Livro impressionante de uma jornalista portuguesa que nos prende pela escrita simples e factos verídicos. Uma reportagem que tem por base o naufrágio de 3 de Outubro de 2013 ao largo da ilha italiana de Lampedusa, onde morreram mais de 300 pessoas. 

O livro relata a vida de pessoas ligadas a essa tragédia, sobretudo Solomon, um sobrevivente da travessia, e Adal que perdeu o irmão no naufrágio.

O adjectivo que o caracteriza é, realmente, impressionante, como já referi. A autora reconstrói o percurso dos migrantes desde os seus países de origem (Eritreia. Etiópia), a sua passagem pela Líbia, pelo deserto, pelo tráfego humano e condições horriveis por que passam até chegar à ilha siciliana. O sofrimento físico e psicológico é tremendo.

A desumanização retratada de forma brutal. Um livro a ler, sem sombra de dúvida. Lê-se com a sensação que não pode ser verdade! Só que não.

"Falava como se estivesse a dar conta de uma qualquer burocracia em falta, um carimbo num papel e pronto, teria logo um passaporte válido que lhe serviria para embarcar para um qualquer país do mundo. Como se um eritreu pudesse comprar um bilhete de avião e sair do país, como se houvesse muitos países a receber eritreus com vistos de turista, como se as autoridades daquele país deixassem os jovens sair assim, sem perguntas." Pág 14

"(...) mas a Eritreia é a Coreia do Norte do continente africano, ninguém sabe o que se passa, só através dos testemunhos de quem foge." Pág 52

"Em Os Que Sucumbem e os Que se Calam, Primo Levi fala disto, da dificuldade que alguns sobreviventes têm em contar todas as partes das suas histórias: vergonha é uma das principais razões e as pessoas adquirem vergonha sem nenhuma razão que possa ser compreendida por quem não viveu um desastre, por quem não foi humilhado, por quem não foi violentado, por quem não sabe o que é sobreviver enquanto outros, em simultâneo ou no espaço de poucos minutos, morrem." Pág 142

Terminado em 23 de Março de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
MEDITERRÂNEO, 3 DE OUTUBRO DE 2013: — O MAIS TRÁGICO NAUFRÁGIO NA ROTA DE IMIGRAÇÃO MAIS MORTAL DO MUNDO, NUM RELATO DA JORNALISTA ANA FRANÇA

Naquela noite sem lua, um barco com cerca de 500 pessoas zarpou da Líbia pelo Mediterrâneo rumo a um qualquer porto na Europa. Naquela noite sem lua, apareceram, ainda assim, outras luzes, de barcos de pesca e navios de resgate das autoridades italianas. Nenhuma se aproximou o suficiente para reparar que aquela traineira velha parada estava a afundar. A bordo, entre as tentativas de pedir ajuda, o pânico fez a traineira virar. Naquela noite que até parecia tranquila, ao largo de Lampedusa, um grupo de amigos despedia-se do verão numa pequena embarcação quando começou a ouvir um som agudo e lamurioso como gritos de gaivotas. Mas não eram gaivotas. Este livro conta a história da sucessão de eventos que levou ao naufrágio de 3 de Outubro de 2013 no Mediterrâneo, resultando em 366 mortes, o mais trágico na história da ilha siciliana que é o território europeu onde chegaram mais migrantes nos últimos 30 anos. Seguimos os passos de Solomon, um dos sobreviventes, e de Adal, que perdeu o irmão nesse dia, ao mesmo tempo que olhamos deste acidente para demasiados outros e deste recanto de Itália para toda a Europa. «Começam a acordar-se uns aos outros e estoira a felicidade a bordo. Voam camisas e sapatos no ar, voam bonés e garrafas de água, as pessoas abraçam-se e gritam e suspiram e limpam as lágrimas para verem melhor o contorno de luz que o farol, com a sua intermitência previsível, vai derramando sobre a salvação tão próxima. Aparece um barco que lança uma luz forte lá de longe. Depois desaparece. Aparece outro, dá a volta à traineira e também desaparece. Sem motor para poder fazer frente à corrente, o barco começa a afastar-se da costa. A montanha de terra que estava perfeitamente desenhada à sua frente, contornos discerníveis, limites precisos, começa a diminuir de tamanho no horizonte. Solomon não entra em pânico, alguém os viu, alguém virá. Mas um burburinho aflito levanta- se das vozes dos passageiros como o vento levanta as folhas secas antes de uma tempestade.»

Cris

sexta-feira, 15 de maio de 2026

"A Lei do Inverno" de Gemma Ventura Farré

Livro curto mas que demorou algum tempo a ser lido porque a escrita poética, nem sempre linear, nalgumas partes, fez-me perder o rumo nalguns dos pensamentos do narrador mas, outros tantos, fizeram todo o sentido.

O luto, a memória e os laços familiares que muitas vezes são complexos constituem o pano de fundo desta história, narrada por uma jovem que vela o avô, gravemente doente. Mergulhando nas suas recordações, as páginas alternam entre momentos presentes e passados. O amor que sente pelo avô e que é plenamente correspondido, as mensagens que relembra que ele lhe deixou durante a sua vida, a aceitação da sua perda iminente, a memória que, acredita, o manterá vivo dentro de si.

"Explicaste-me que há pessoas que nos queimam e outras que nos dão a luz toda." Pág 49

"Mas eu diria que existem dois tempos: o dos relógios e o das memórias. E se os relógios organizam tudo, as memórias fazem o que querem: não podem ser fixadas por um calendário, escapam. Sim sim, têm patas e saltam para onde querem: se nasceram a 1 de Fevereiro, voltam a 3 de abril, a 5 de maio. E não é só isso, aparecem sempre em formatos diferentes: dez anos resumem-se a uma porta a bater, e o beijo de um segundo, à imagem que prolongamos todas as noites antes de dormir." Pag 52

"E mesmo que nos vejamos já feitos, estaremos sempre meio feitos, que morreremos inacabados. E que são as pessoas que nos fazem: há quem nos arrasta para o ódio, quem nos guia para a alegria. E somos um pedaço de barro cheio de marcas." Pag 59

"Amanhã não conseguirei ver que apareceste assim, por acaso, para me dares um ponto de luz. Sim há pessoas que passam para nos levantar do chão e partir. E é tudo, e é tanto." Pág 100

Terminado em 16 de Março de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
Vencedor do Prémio Josep Pla 2023.

A Lei do Inverno é um convite a reconhecer a beleza dos laços intangíveis, a aceitar o ciclo da perda e a escutar o murmúrio daqueles que nos guiam, mesmo quando já partiram.

No silêncio suspenso do inverno, quando as cerejeiras se despem e a casa se enche de suaves ecos, uma jovem vela o avô. Em profunda solidão, discorre entre a memória e a imaginação, descobrindo que as presenças mais profundas são, por vezes, feitas de ausência.

Gemma Ventura Farré tece uma ode delicada ao invisível — aquilo que não se vê, mas que permanece: as vozes que nos sussurram ao ouvido, o amor que resiste ao tempo, a saudade que ilumina os dias e a forma como superamos cada ausência.

Num registo íntimo e mágico, esta é uma história destinada a tocar quem a lê. Celebra a delicadeza, a força do coração e o poder da imaginação, e recorda-nos de que, para renascer, é necessário, antes de mais, deixar ir.

Cris

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A Convidada escolhe: “A Livraria Perdida”

“A Livraria Perdida” – Evie Woods, 2023

Hoje são dezenas os livros que atraem amantes de livros e de gatos com títulos e capas sugestivos, que muitas vezes acabam por ser meros produtos facilmente vendáveis, mas de fraca qualidade literária. “A Livraria Perdida” foi-me oferecido por amigas que sabem desta minha ligação aos livros e à literatura e acho que, também por o romance se passar na cidade de Dublin e ter referências a James Joyce, autor de que lemos “Dubliners”, deve ter sido determinante na escolha deste livro que me ofereceram.  

Se houve aspectos muito interessantes no livro, confesso que com muito menos folhas, o livro não perderia muito. A parte relacionada com os encontros/desencontros amorosos das duas personagens me aborreceu bastante; achei mesmo que o livro tem muitas passagens xaroposas e muitos lugares comuns que me deram vontade de as saltar. Também as partes relacionadas com o realismo mágico são um bocado incongruentes, alguns aspectos da narrativa são pouco consistentes e nem todas as pontas soltas se conjugam, mas mesmo assim gostei de ir até ao fim na leitura do livro da irlandesa Evie Woods. 

São três os narradores do livro, cujos nomes dão título aos diferentes capítulos. Embora Opaline Carlisle – a mais interessante – tenha vivido no século passado, há um vínculo (ou múltiplos vínculos) que os une a todos: a paixão pela literatura e por manuscritos e livros raros; a violência e o abandono nas relações familiares; a capacidade de superação. Opaline é uma mulher muito corajosa para a época, alguém que ama a liberdade mais do que tudo e, portanto, não se sujeita à submissão de um casamento arranjado 

Se o tema da violência doméstica surge bem retratado, foi, no entanto, a questão do encarceramento da jovem Opaline Carlisle durante dezoito anos no hospício do distrito de Cornacht na Irlanda, o que mexeu mais comigo ao longo da leitura deste livro, lembrando-me a recente leitura do maravilhoso “Pequenas Coisas com Estas” de Claire Keegan. “Eu tinha ouvido falar de lares para mães e bebés na Irlanda – sítios para onde mães solteiras eram enviadas pelas famílias para terem os seus bebés em segredo.” (pág. 238) Mulheres com comportamentos fora da norma, neste caso a gravidez de Opaline e a recusa de casar com alguém que ela não escolheu, o que a levou a fugir de casa, eram aprisionadas em hospícios longe da vista de todos e “diagnosticadas” de loucas, de violentas, de histéricas, enfim “mulheres problemáticas, com ideias inconvenientes.” (pág. 259). Lucia, a filha de James Joyce que sofria de esquizofrenia, foi internada numa destas instituições em 1932 e por lá ficou por cinquenta anos… 

Pensar que este tipo de instituições geridas por freiras e financiadas pela igreja Católica, em parceria com o estado irlandês, resistiram e persistiram até 1996, é verdadeiramente chocante. Como diz a nota final no livro de Claire Keegan a que faço referência “Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato”

23 de Abril de 2026

Almerinda Bento




quarta-feira, 13 de maio de 2026

"As Recordações" de David Foenkinos

Gostei muito deste livro. Às vezes os livros esperam pacientemente por nós nas estantes e, subitamente, algum motivo nos leva a pegar neles... A razão, neste caso, foi a escolha de um livro que tivesse sido objecto de filme. 

A temática agarrou-me logo de início. Escrito na primeira pessoa (prefiro tanto que assim seja!), o narrador é um jovem cujo nome, se bem me lembro, fica no anonimato. É alguém que sonha tornar-se escritor, que trabalha num hotel e o foco do livro centra-se, sobretudo, na sua relação com a avó mas também nas suas recordações, nem sempre felizes.

A entrada da sua avó num lar leva o autor e o leitor a uma reflexão conjunta sobre a velhice e o abandono a que muitas vezes está associada, a importãcia da memória, o conflito de gerações, o luto.

Escrito com delicadeza mas com muito foco, apontando questões tão actuais, ainda. Comove porque são temas tratados com muita sensibilidade.

O que fica de nós nos outros? O que deixamos por dizer àqueles que partem sem retorno? Como se sente aquele que tem de deixar a sua casa para ir para um lar com regras diferentes daquelas que possui?

"Sobreveio, então, uma mudança. Não foi um gesto importante, não foi sequer uma decisão, apenas um ínfimo sinal que a minha avó detectou no olhar dos seus filhos. Ela cedeu ao descobriro pânicono olhar deles.Viu, de súbito, a que ponto deixara de ser uma mãe para se transformar num peso. Será essa a verdadeira fronteira da velhice? Quando nos tornamos um problema?Isto era insuportável para ela, que vivera livremente, sem depender de ninguém. Portanto, para simplificar as coisas, sussurrara; está bem!" pág 24

Gostei muito desta obra e queria ver se o filme é tão bom quanto...

Terminado em 14 de Fevereiro de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
Quando a avó do narrador foge do lar onde vive, ele sabe que não pode ficar de braços cruzados à espera de que as autoridades a encontrem. Afinal, se se arrependera de não ter passado mais tempo com o avô antes de ele morrer, não quer agora desistir de uma pessoa que ainda pode ter tanto para lhe dar Numa narrativa que conjuga matizes de humor e poesia, David Foenkinos oferece-nos uma reflexão plena de sensibilidade sobre o tempo, a memória, a velhice, os conflitos de gerações, o amor conjugal, o desejo de criar e a beleza do acaso.

Cris