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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: O Quinto Filho

“O Quinto Filho” – Doris Lessing, 1988

Este é um livro perturbador, muito duro, que li de forma compulsiva. Já antes havia tido contacto com a escrita peculiar de Doris Lessing, da qual já lera três outros livros, mas este é, sem dúvida, o mais poderoso e mesmo inesquecível. O facto de deixar o final em aberto torna esta obra ainda mais interessante.

Embora o livro parta de um casal inglês conservador com um projecto de vida em torno de constituírem uma família numerosa, em que à pergunta “Querem ter muitos filhos? Quantos?” a resposta dos dois era invariavelmente “Muitos” “Muitos”, a verdade é que vai ser Harriet Lovatt, a mãe, quem vai assumir o papel central no destino de toda a família. A enorme casa vitoriana que adquirem, nos arredores de Londres, que mais se assemelha a um hotel, é também uma personagem central neste romance de Doris Lessing. É o local de encontro de toda a família nas festas de Natal e da Páscoa e nas férias de Verão. Aparentemente, tudo flui, aquela família feliz é um ímã e mesmo quando há algum azedume nas discussões e alguma crítica velada ou quando opiniões divergentes ocorrem, as nuvens escuras são passageiras e a vida continua sem sobressaltos. Quem diria que um dia Harriet quisesse “acabar de vez com aquela casa de infelicidade e com os pensamentos que a acompanhavam.” (pág. 151)

“O Quinto Filho” narra a situação do nascimento de um filho diferente, para daí analisar os comportamentos das pessoas, da família, das instituições, da comunidade relativamente ao que sai fora do expectável. Doris Lessing trata com maestria os mais variados sentimentos vividos por aquela família feliz, quando confrontada com aquele novo ser, o quinto filho tão diferente dos que o tinham antecedido: surpresa, medo, culpabilização, crueldade, remorso, afastamento, apatia. “Condenação, crítica e incompreensão: Ben parecia causar estas emoções, fazê-las emergir nas pessoas, trazendo-as ao de cima…” (pág. 69) Focando na mulher, na mãe, não só o ónus da estranheza, como a culpa, deixando-a sozinha, completamente só. “Dirigiu-se para a porta e olhou para trás. Na cara da médica viu o que já esperava: um sombrio olhar fixo que reflectia o que a mulher estava a sentir, que era horror pelo desconhecido, rejeição normal daquilo que estava para além dos limites humanos. Horror por Harriet, que trouxera Ben ao mundo.” (pág. 126)

Em anteriores livros de Doris Lessing que li, tal como aqui, a autora é crítica relativamente ao funcionamento das instituições do estado não poucas vezes insensíveis quando deveriam responder às necessidades dos seus cidadãos: pela forma fria e desumanizada como funcionam sem atender aos indivíduos nas suas especificidades, num sistema padronizado aparentemente “profissional” e “sem falhas” que é cego e desumanizado. O mal-estar social surge logo numa fase inicial da narrativa, no início dos anos 1970: “A cidadezinha onde viviam transformara-se durante os cinco anos que lá tinham morado. Incidentes brutais e crimes que outrora chocariam toda a gente eram agora lugar-comum. Havia bandos de jovens que frequentavam certos cafés e becos e que não tinham respeito por ninguém. A casa ao lado já fora assaltada três vezes; a dos Lovatt ainda não, talvez porque estava sempre lá gente. No fim da rua havia uma cabina telefónica que fora destruída tantas vezes que as autoridades tinham desistido: ficara ali sem préstimo. (…) Esses acontecimentos representavam uma separação horrível: cada vez mais parecia que a Inglaterra era habitada por dois povos em vez de um, dois povos inimigos, que se odiavam um ao outro, que não ouviam o que cada um dizia. Os Lovatt começaram a ler os jornais e a ver os noticiários da televisão, embora não tivessem vontade de fazer nem uma coisa nem outra. Pelo menos deviam saber o que se passava fora da sua fortaleza, do seu reino, no qual três preciosas crianças eram criadas e onde tantas pessoas iam para mergulharem em segurança, conforto, amabilidade.” (pág. 27)

Este livro que pode ser lido literalmente, pode também ser encarado como uma fábula dos males da sociedade com muitas camadas e muitos pontos de análise e reflexão. Por outro lado, é muito actual e até intemporal e a sequência dos acontecimentos é vertiginosa, daí que qualquer pessoa que o comece a ler tenha muita dificuldade de o poisar e interromper a leitura.

Um grande e poderoso livro.

25 de Outubro de 2025

Almerinda Bento

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Quem Tem Medo dos Santos da Casa" de Sara Duarte Brandão

Estava expectante quando peguei neste livro porque tinha ouvido boas opiniões e o resultado da leitura foi muito positivo. Gostei muito da construção de todo o ambiente narrado, das tricas e invejas habituais de pequenos lugarejos, neste caso uma pequena vila piscatória, e de como os personagens foram crescendo de densidade e delicadeza com o decorrer da leitura. A escrita tem uma pitada de poesia de quando em vez o que me agradou imenso, mesmo não sendo eu leitora desse género literário. 

A trama é narrada num constante vai e vem em termos de alguns espaços temporais e acompanhamos Maria Teresa quer na sua infância, quer no casamento e na velhice. Na minha opinião o leitor não se vê em nada aptrapalhado com estes saltos temporais e não se perde. Pelo contrário, isso dá uma vivacidade fantástica à narrativa pois vão sendo descobertos a pouco e pouco os segredos e os acontecimentos que fizeram de Maria Teresa uma mulher solitária e ostracizada pelos habitantes da vila. Como referi, os pormenores vão sendo desvendados com o decorrer da leitura, sendo que muitas vezes são contados nas entrelinhas, aspecto que mantém o leitor sempre cativo.

A vida de Maria Teresa vai sendo marcada pelas expectativas sociais, familiares e religiosas muito restritas que condicionam sobremaneira a sua vida futura. 

E a cereja no topo do bolo é a importância da leitura na sua vida desde criança, importância essa que transporta até à velhice. A sua amizade, aquando idosa marginalizada pela vila onde habita, com uma criança que não se importa de se aproximar da "bruxa" é um sopro de luz na sua vida. Uma vez mais o papel da leitura como aproximação ao outro. O que está por detrás dessa solidão quase que auto imposta? Como se libertou das algemas que a prendiam a uma vida sensaborona?

Abordam-se aqui temas muito interessantes como a importância da liberdade, da identidade e pertença, como a tradição e religião podem condicionar as expectativas de alguém. 

Gostei e recomendo muito esta leitura! Atirem-se de cabeça, não se vão arrepender!

Terminado em 30 de Novembro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse 
Uma estreia auspiciosa de uma jovem escritora, romance que já venceu o Prémio Literário Cidade de Almada.

Esta é a história de Maria Teresa, uma mulher que cresceu numa pequena vila piscatória entre a austeridade familiar e a liberdade que encontrava nos livros e numa paixão clandestina.

Condenada a viver à sombra do que o pai e o marido haviam sonhado para ela, resolveu pôr em causa as ordens e as tradições, tomar as rédeas do seu destino, deixar para trás uma vida de conforto e atravessar o rio em busca de emancipação.

Hoje encontramo-la a tecer tapetes numa casa escura que ninguém sabe o que esconde e é considerada uma espécie de bruxa que assusta as crianças; porém, é numa amizade improvável com Joana, uma menina que aprende com ela a amar os livros, que Maria Teresa encontrará a redenção.

Com um ritmo poético e introspetivo, a narrativa desenrola-se em pequenos fragmentos belíssimos que refletem as superstições de uma comunidade marcada por um episódio com consequências dramáticas.

Mas onde todos veem horror Maria Teresa vê beleza e possibilidade.

Terão, ela e Joana, medo dos santos da casa?
Romance inspirado na história dos santos do escultor Altino Maia, que foram retirados da Igreja de São Pedro da Afurada, é na ficção que esta obra desafia algumas verdades.

Cris 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Como Animais

Como Animais” – Violaine Bérot, 2021

Um livro breve, que se lê de um fôlego, mas com um grande impacto e abordando vários temas com grande importância.

Em jeito de polifonia, cada capítulo é uma voz, um testemunho diferente. Começando com a voz de uma professora, somos confrontados com um enigma: uma família “disfuncional” que escolheu viver fora da aldeia, constituída por uma mulher e o filho autista, para o qual a escola nunca conseguiu ter uma resposta inclusiva, antes o quis direccionar para uma instituição, o que a mãe liminarmente recusou. E uma menina sobre a qual nada se sabe. Aquilo para que Violaine Bérot nos convida, à medida que as diversas vozes surgem dando o seu testemunho às autoridades, é olharmos também para nós como espectadores/as, como membros da sociedade, porque uma daquelas vozes pode ser a nossa. Como reage a sociedade ao que não entende? Como reage a sociedade ao outro, que sai fora da norma estabelecida? A sociedade intromete-se; a sociedade julga; a sociedade reprime.

Para além da crítica à escola que não está preparada para responder à individualidade das crianças na sua diversidade e nas suas necessidades, e em especial às crianças com deficiência, as outras instituições aqui em foco são a polícia e os media mais interessados em embarcar no “circo mediático” do que informar com seriedade. O título “Como Animais”, se por um lado mostra a estranheza da população que rotula de animais quem, como é o caso, se isola e não vive segundo os padrões das sociedades de consumo, padronizadas; por outro nos leva a questionar se não serão afinal os animais aqueles que se afastaram de tal forma da natureza que já perderam a capacidade de empatia para com os humanos.

Como anteriormente referi, os diferentes testemunhos, as diferentes vozes são únicas e inconfundíveis, levando-nos a ouvi-las/vê-las pela sua singularidade e individualidade através de frases curtas que nos transportam para situações de diferentes personagens respondendo a interrogatórios. E a autora consegue fazê-lo de uma forma notável. Inesquecíveis os depoimentos da mãe – Mariette – que tenta ao limite defender o filho duma sociedade que o exclui, e o depoimento da farmacêutica – Viviane Desroches – uma longa confissão, inesquecível, de alguém que engravidou na sequência de uma violação.

À laia de separadores entre os diferentes capítulos, surgem as vozes das fadas que vivem nas grutas, observam o mundo e estão prontas para libertar as mães que não querem ser, para acolher as crianças das mães que as rejeitaram. Transcrevo um desses poemas, dum livro que dificilmente esquecerei:

Nós

as fadas

vemos

o que alguns homens

por vezes

fazem às mulheres

sem lhes perguntarem

nada.


Sem pedirem

às mulheres

o seu consentimento

sem lho pedirem

os homens

antes.


Nós

as fadas

adivinhamos

o que pode significar

no mundo de baixo

ser menina

ser rapariga

ser mulher.


Nós

nos nossos pequenos corpos

nos nossos pequenos corpos de fadas

compreendemos

o que deve ser

um homem

que se exime

antes de entrar

de pedir.”

(págs. 105 e 106)

 

20 de Setembro de 2025

Almerinda Bento



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

"O Caminho da Cidade" de Natalia Ginzburg

Uma curiosidade sobre o presente livro desta autora que muito aprecio; este foi o seu primeiro romance, publicado sob um pseudónimo devido à censura fascista e leis anti-semíticas em Itália.

O livro gira em torno de uma adolescente e é narrado na primeira pessoa, a Delia. Vive num lugarejo pobre e a cidade constitui uma promessa de sonhos a realizar. Segundo ela a sua independência encontra-se lá. Ao engravidar de um rapaz economicamente mais abastado, as suas expectativas são, dia a dia, goradas. A passagem de uma adolescência cheia de sonhos para uma vida adulta com restrições impostas, familiar e socialmente.

Crítica social intensa, a autora com uma prosa simples, nua e crua, sem julgamentos, mostra bem como as expectativas não conduzem necessariamente à realidade.

Novela que se lê num ápice e que aconselho vivamente.

Terminado em 26 de Novembro de 2025

Estrelas: 5*

Sinopse
O Caminho da Cidade foi o primeiro romance escrito por Natalia Ginzburg e tem já o tom inconfundível que vai caracterizar a sua obra posterior. Foi publicado em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, sob o pseudónimo de Alessandra Tornimparte. 

Cris