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sábado, 27 de junho de 2015
Na minha caixa de correio
Comprados numa loja Cash and Carry: Bilhete de Identidade, Luta Por Um Sonho e A Montanha Da Alma.
Oferta da Planeta: O Olhar e a Alma e Ora Como Eu Dizia...
Oferta da Matéria Prima: O Assassino de Catarina Eufémia
Beijo Fatal veio da Porto Editora
Da Topseller, Filhas da TempestadeO Como Ser Feliz e Ora,
Da Objetiva, Na Pele de Uma Jihadista e Como Ser Feliz.
O meu muito obrigada às editoras referidas.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
"O Dia Em Que Estaline Encontrou Picasso Na Biblioteca" de Alice Brito
Primeiro a sua escrita. Acolhedora, comovente, vivida, ousada, onde pululam as figuras de estilo e onde a personificação tem um lugar de destaque porque, sendo tantas, nos encantam de tão belas que são. Certeira na escolha das palavras. Palavras que vão do oito ao oitenta. Mas todas cabem na história porque a ela pertencem. Uma história que nos conta a História. De Portugal, de Espanha, do mundo. Da guerra, da ditadura, ou melhor, das guerras e das ditaduras em prol de muito poucos, a desfavor de muitos Homens.
E se primeiro está a escrita de Alice Brito, logo a seguir vem a história que, de tão bem contada, nos encanta e nos prende. A narrativa tem dois planos temporais, passados simultaneamente antes e após a ditadura em Portugal . E dito desta forma reduzimo-la, infeliz e inevitavelmente, a algo já contado por alguém. Mas desenganem-se porque não é assim. Ela, a história, está pejada de factos verídicos, de costumes da época, de acontecimentos marcantes da História que, juntamente com (repito) a escrita única de Alice Brito, fazem deste romance uma doce surpresa para quem não leu seu anterior livro, As Mulheres Da Fonte Nova. Eu, que já esperava muito, fiquei de novo rendida. O próximo, espero que esteja para breve, não me escapa. Mesmo!
Adorei o narrador! De quando em vez opina, sugere, intromete-se na narrativa, dá um ar de sua graça,,, Coisa pouca mas com graça.
Não posso deixar de referir como a apresentação deste livro na Fnac do Chiado me agradou e surpreendeu. Como gostava que todas as apresentações de livros assim fossem! Com o dom da palavra, os apresentadores (Helena Vasconcelos e Alfredo Barroso) deixaram a plateia interessada, motivada e, sobretudo, com vontade de permanecer. Mas, Alice Brito, quando chegou a sua hora de "botar" discurso, não se ficou pelos agradecimentos do costume... A sua escrita, a forma tão peculiar do seu discurso escrito, saiu-lhe pela boca e maravilhou quem a estava a ouvir. Deu para perceber o quanto faz (não se ficando apenas pelo desejo) para que o mundo seja melhor. Porque somos nós que o fazemos bom ou mau, não apenas os outros.
Como sei que quem por aqui anda sente o mesmo que eu ao pegar num livro, vou vencer a minha preguiça e colocar aqui um exerto, pequeno embora, deste livro:
"O livro é um espaço habitável. Há livros que até têm lotação esgotada. Tem de se esperar para entrar. Ou porque estão a ser lidos por alguém, ou porque ainda a cabeça não tem bilhete de entrada. Mas quando, por fim, se chega lá, que bem a gente se sente. Tão bem que nos assenhoreamos de cada frase, privatizamos capítulos inteiros, tornamo-nos amigos ou inimigos de personagens que de vez em quando nos visitam. Há até casos extremos de personagens que abusam eentram dentro de nós com grande á-vontade. Confundem-nos e confundem-se connosco."
Terminado em 21 de Junho de 2015
Estrelas: 6*
Sinopse
Juan e Maria Bento, as personagens centrais que constroem os seus próprios destinos, ficarão para a memória leitora como um par improvável e apaixonados já vistos - entre o anarquismo convicto de Juan e a militância inflexível de Maria Bento, que as ligações ao KGB disciplinam, há uma ponte incerta que oscila, baloiça e finalmente se verga ao peso da paixão.c
E se primeiro está a escrita de Alice Brito, logo a seguir vem a história que, de tão bem contada, nos encanta e nos prende. A narrativa tem dois planos temporais, passados simultaneamente antes e após a ditadura em Portugal . E dito desta forma reduzimo-la, infeliz e inevitavelmente, a algo já contado por alguém. Mas desenganem-se porque não é assim. Ela, a história, está pejada de factos verídicos, de costumes da época, de acontecimentos marcantes da História que, juntamente com (repito) a escrita única de Alice Brito, fazem deste romance uma doce surpresa para quem não leu seu anterior livro, As Mulheres Da Fonte Nova. Eu, que já esperava muito, fiquei de novo rendida. O próximo, espero que esteja para breve, não me escapa. Mesmo!
Adorei o narrador! De quando em vez opina, sugere, intromete-se na narrativa, dá um ar de sua graça,,, Coisa pouca mas com graça.
Não posso deixar de referir como a apresentação deste livro na Fnac do Chiado me agradou e surpreendeu. Como gostava que todas as apresentações de livros assim fossem! Com o dom da palavra, os apresentadores (Helena Vasconcelos e Alfredo Barroso) deixaram a plateia interessada, motivada e, sobretudo, com vontade de permanecer. Mas, Alice Brito, quando chegou a sua hora de "botar" discurso, não se ficou pelos agradecimentos do costume... A sua escrita, a forma tão peculiar do seu discurso escrito, saiu-lhe pela boca e maravilhou quem a estava a ouvir. Deu para perceber o quanto faz (não se ficando apenas pelo desejo) para que o mundo seja melhor. Porque somos nós que o fazemos bom ou mau, não apenas os outros.
Como sei que quem por aqui anda sente o mesmo que eu ao pegar num livro, vou vencer a minha preguiça e colocar aqui um exerto, pequeno embora, deste livro:
"O livro é um espaço habitável. Há livros que até têm lotação esgotada. Tem de se esperar para entrar. Ou porque estão a ser lidos por alguém, ou porque ainda a cabeça não tem bilhete de entrada. Mas quando, por fim, se chega lá, que bem a gente se sente. Tão bem que nos assenhoreamos de cada frase, privatizamos capítulos inteiros, tornamo-nos amigos ou inimigos de personagens que de vez em quando nos visitam. Há até casos extremos de personagens que abusam eentram dentro de nós com grande á-vontade. Confundem-nos e confundem-se connosco."
Terminado em 21 de Junho de 2015
Estrelas: 6*
Sinopse
Juan e Maria Bento, as personagens centrais que constroem os seus próprios destinos, ficarão para a memória leitora como um par improvável e apaixonados já vistos - entre o anarquismo convicto de Juan e a militância inflexível de Maria Bento, que as ligações ao KGB disciplinam, há uma ponte incerta que oscila, baloiça e finalmente se verga ao peso da paixão.c
domingo, 21 de junho de 2015
Ao Domingo com... João Reis
A noiva partiu mas, ainda assim, está presente. O Tradutor procura-a, ilude-se, perde-se nos meandros da sua mente. E o Tradutor sou eu e não sou eu, o Tradutor é um homem que contém em si todos os homens, o desespero e a esperança, e o criador vive no que cria e no que já não lhe pertence. O Tradutor sou eu e todos nós, o Tradutor tem em si as minhas dicotomias, o ódio e o amor a alguém, a um país, o horror ao mundo dos homens em que vive mas ao qual não pode escapar, à sociedade que abomina e a que, no entanto, se verga em troca de uma vela, de um ensopado de lentilhas. E o mundo arde e só ele o vê, ou será que não é só ele quem o vê, e não é só ele quem se sente arder por dentro?
A Noiva do Tradutor é o meu primeiro livro sério, o primeiro Livor, uma novela, um romance, o nome pouco importa, o primeiro em que os contos de uma diversão espontânea e imediata deram lugar à essência, à escrita visceral, ao sofrimento e ao alívio de quem escreve dividido entre o Norte e o Sul sem pertencer totalmente a nenhum.
Sou um tradutor, sim, e sou o Tradutor. Não vivo na sua época, mas poderia viver, porque os homens não mudam por mais que os elétricos sucumbam aos aviões. A essência é a mesma, e a minha está num Tradutor que procura a Noiva que, na verdade, nunca perdeu.
João Reis
sábado, 20 de junho de 2015
Na minha caixa de correio
Oferta do Clube do Autor: O Sítio Secreto e Ventos de Mudança
Oferta da Asa: A Menina Escrava e Lupita
Oferta da Espera dos Livros: Confissões de uma Mulher Madura
Espiões em Portugal foi ganho nos passatempos do JN
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Novidade Clube do Autor
Ventos de Mudança em Summerset Abbeyde T. J. Brown
A chegada da Primeira Guerra Mundial muda tudo em Summerset Abbey. Sobretudo a forma de se viver em sociedade e o próprio conceito de classe social. Os costumes da época forçam as três amigas Rowena, Victoria e Prudence a seguir caminhos diferentes. O orgulho ameaça sobrepor-se aos laços de amizade e ameaça abrir muitas feridas. Algumas serão curadas, mas outras prometem manter-se abertas por muito tempo... Será que, no fim, a amizade vai prevalecer contra tudo e contra todos?
Novidade Manuscrito
Imperatriz D. Leopoldina
de Marsílio Cassotti
Leopoldina de Habsburgo é uma personagem decisiva da história do império português no Brasil. Contudo, foi sempre retratada como uma mulher frágil, traída pelo marido, passiva e sem qualquer vontade política. Este livro traz-nos a sua verdadeira história.Numa viagem que nos leva desde a infância da jovem arquiduquesa, durante as guerras napoleónicas contra a Áustria, até ao seu casamento estratégico com o tão belo como Adónis Pedro de Bragança, herdeiro da coroa do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. No final de 1817, Leopoldina chega ao Rio de Janeiro. Uma parte da corte, liderada pela rainha Carlota Joaquina, recebe-a com frieza. Preferiam «uma portuguesa ou uma espanhola». D. Pedro desfaz-se em atenções e durante noites a fio vivem uma enorme paixão, mas cedo o príncipe do Brasil volta para os braços da sua amante. «Os homens são cópias das mariposas», escreve a princesa germânica à sua irmã mais velha. Desprezada pelo marido refugia-se na alegria da maternidade. Em 1821, depois do regresso de D. João VI a Portugal, quando as «revolucionárias» cortes portuguesas retiram ao Brasil a categoria de Reino, Leopoldina deixa de lado o rancor e empenha-se em ajudar D. Pedro, que a humilhava ao passear pelo Rio de Janeiro de braço dado com a bela e astuta Domitila de Castro. Na iminência de um possível ataque português ao Rio, Leopoldina aconselha o marido a separar o território brasileiro da pátria-mãe e a assumir-se como Imperador. Para calar os rumores que lhe minam o prestígio, em novembro de 1826 o Imperador decide ir defender a província de Cisplatina. Antes do beija-mão de despedida, obriga a esposa grávida a ficar ao lado da amante. Perante a sua nega, Pedro trata «de forçar D. Leopoldina a entrar no salão onde se realizaria a cerimónia». Nessa noite, o estado de saúde da Imperatriz agrava-se perigosamente… Baseada no que relatam (e no que ocultam) as cartas de Leopoldina, o autor bestseller Marsilio Cassotti leva-nos ao Brasil do século XIX, para nos narrar, nesta biografia apaixonante, a história de uma mulher destinada a ser rainha de Portugal, que, apesar das humilhações que sofreu, acabou por ter um papel decisivo na independência do Brasil.
de Marsílio Cassotti
Leopoldina de Habsburgo é uma personagem decisiva da história do império português no Brasil. Contudo, foi sempre retratada como uma mulher frágil, traída pelo marido, passiva e sem qualquer vontade política. Este livro traz-nos a sua verdadeira história.Numa viagem que nos leva desde a infância da jovem arquiduquesa, durante as guerras napoleónicas contra a Áustria, até ao seu casamento estratégico com o tão belo como Adónis Pedro de Bragança, herdeiro da coroa do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. No final de 1817, Leopoldina chega ao Rio de Janeiro. Uma parte da corte, liderada pela rainha Carlota Joaquina, recebe-a com frieza. Preferiam «uma portuguesa ou uma espanhola». D. Pedro desfaz-se em atenções e durante noites a fio vivem uma enorme paixão, mas cedo o príncipe do Brasil volta para os braços da sua amante. «Os homens são cópias das mariposas», escreve a princesa germânica à sua irmã mais velha. Desprezada pelo marido refugia-se na alegria da maternidade. Em 1821, depois do regresso de D. João VI a Portugal, quando as «revolucionárias» cortes portuguesas retiram ao Brasil a categoria de Reino, Leopoldina deixa de lado o rancor e empenha-se em ajudar D. Pedro, que a humilhava ao passear pelo Rio de Janeiro de braço dado com a bela e astuta Domitila de Castro. Na iminência de um possível ataque português ao Rio, Leopoldina aconselha o marido a separar o território brasileiro da pátria-mãe e a assumir-se como Imperador. Para calar os rumores que lhe minam o prestígio, em novembro de 1826 o Imperador decide ir defender a província de Cisplatina. Antes do beija-mão de despedida, obriga a esposa grávida a ficar ao lado da amante. Perante a sua nega, Pedro trata «de forçar D. Leopoldina a entrar no salão onde se realizaria a cerimónia». Nessa noite, o estado de saúde da Imperatriz agrava-se perigosamente… Baseada no que relatam (e no que ocultam) as cartas de Leopoldina, o autor bestseller Marsilio Cassotti leva-nos ao Brasil do século XIX, para nos narrar, nesta biografia apaixonante, a história de uma mulher destinada a ser rainha de Portugal, que, apesar das humilhações que sofreu, acabou por ter um papel decisivo na independência do Brasil.
Novidade Esfera dos Livros
Os Alimentos Também Curam de Francisco Varatojo
Para nos alimentarmos, perdemo-nos nas prateleiras dos supermercados, entre embalagens coloridas e slogans tentadores. Quantas vezes, para nos curarmos de um pequeno problema de saúde, não corremos para o médico ou para o hospital, ávidos de uma resposta rápida? A alimentação e o estilo de vida são os nossos remédios primários e mais preventivos. A Natureza e, particularmente, os alimentos que nos são fornecidos por ela são a nossa farmácia essencial:
- A couve-lombarda na sopa, assim como o aumento do consumo de vegetais redondos, são ótimos para debelar as dores de estômago.
- O uso regular de arroz integral pode ser um precioso auxiliar no tratamento da diabetes.
- Os vegetais verdes de rama, cozinhados ao vapor, ou o chá de cenoura com rábano são poderosos aliados no tratamento da pneumonia.
- No caso das crianças, o sumo de maçã morno pode ajudar a combater a febre, enquanto o chá de feijão azuki é importante, por exemplo, para tratar as otites.
Estes são alguns dos ensinamentos de Francisco Varatojo, diretor do Instituto Macrobiótico Português e autor de Mente Sã, Corpo São, nos apresenta neste livro essencial que nos leva por uma viagem pelo nosso corpo, redescobrindo os órgãos que dele fazem parte e as suas funções, e que nos permite perceber que a cura pode estar ao alcance de todos, se dedicarmos algum do nosso tempo a conhecermo-nos bem por dentro e a compreender o poder de alimentos fundamentais para termos uma vida com mais qualidade.
Novidades Planeta
A Rainha Brancade Philippa Gregory
A história de uma plebeia de grande beleza, que ascende à realeza, servindo-se dos seus trunfos e que casa com o rei Eduardo IV.
Embora de origens humildes, ela mostra estar à altura da sua elevada posição social e que luta tenazmente pelo êxito da sua família.
Uma mulher cujos filhos estarão no âmago de um mistério que há séculos intriga os historiadores: o misterioso desaparecimento dos dois príncipes encarcerados na Torre.
Através da sua visão única, Philippa Gregory explora o maior mistério por resolver, baseando-se numa investigação rigorosa e recorrendo ao seu inimitável talento como contadora de histórias.
O Chefe - Deslumbrada
de Abigail Barnette
Sophie Scaife quase tinha fugido ao destino, quando trocou o bilhete que a levaria para a faculdade por um bilhete para Tóquio. Mas um atraso no voo e um encontro escaldante com um desconhecido fê-la mudar de ideias, colocando-a no bom caminho para alcançar um ambicionado emprego numa revista de moda em Nova Iorque.
Quando o irresistível desconhecido daquela noite extraordinária se revela como o novo chefe, o milionário magnata da comunicação Neil Elwood, Sophie não resiste à oportunidade para reacender a chama entre os dois... e a oportunidade para explorar o seu lado submisso com o homem mais dominador que alguma vez conheceu.
Neil é o único homem que compreendeu a sua necessidade de se submeter sexualmente, o único homem que conseguiu satisfazer esses desejos. Quando a sua relação tórrida e descomprometida se
transforma em algo mais, Sophie terá de escolher entre a carreira e o coração... ou arriscar-se a perder ambas as coisas.
Novidade Clube do Autor
O Sítio Secreto de Tana French
Um jovem é encontrado morto nos jardins de um colégio feminino. A polícia não consegue apurar os culpados, nem clarificar as circunstâncias do crime. Mas alguém viu e sabe o que se passou…“Sei quem o matou” é a legenda de uma foto do rapaz assassinado, que aparece misteriosamente afixada no Sítio Secreto: o quadro de avisos da escola feminina, onde as alunas afixam segredos de forma anónima. Esta pista inesperada relança o detetive Stephen a desvendar um nó de segredos para chegar à verdade.
quinta-feira, 18 de junho de 2015
A Escolha do Jorge: O Baile
"O Baile" de Irène Némirovsky é a proposta de leitura desta semana. Num registo direto e apaixonante, a escritora envolve-nos numa história sempre muito visual e que uma vez mais não deixa de criticar a sociedade do seu tempo, sobretudo os judeus residentes em Paris que ambicionam o dinheiro e a vida fácil.
Paris, Anos 20. A família Kampf vive numa faustosa mansão fruto de um golpe de sorte através de um inusitado investimento na Bolsa. Os Kampf são uma família judia em que apenas aquilo que os liga à comunidade são somente as tradições e não propriamente as questões de fé.
Uma família que de repente ficou rica e que anos antes enquadrava-se numa classe média baixa com algumas dificuldades económicas aspirando, no entanto, ascender socialmente são os personagens centrais de "O Baile".
Bafejada pela sorte, os Kampf sentiram uma necessidade imensa de imitar os ricos da sociedade parisiense em todos os seus rituais e se enquanto elementos da classe média faltavam-lhe o dinheiro para fazer frente aos burgueses, agora que o possui falta-lhe o nível e a classe daqueles. A intriga e as aparências, bem como a necessidade de se mostrar perante os outros fazem desta família uma perfeita deturpação e, de algum modo, um reflexo da sociedade de então. A afirmação do ter, do possuir, do mostrar-se perante os outros segue também em linha com a necessidade de viver e, neste caso em particular, esquecer os anos das dificuldades. A própria mentalidade de então, do primeiro após guerra, os famosos "anos loucos" constituíram, pois, o palco ideal para os Kampf se afirmarem perante a alta sociedade.
Um senhor Kampf trabalhador, mas pouco empenhado e uma esposa de nome Rosine, com passado duvidoso, mãe desinteressada, mulher fútil, tenta aproveitar-se das intrigas em torno dos grandes para poder ascender socialmente através de jogadas pouco claras. Antoinette é a filha de quinze anos que vive agora perdida na grande mansão sob os olhares atentos de uma preceptora inglesa e o desinteresse da mãe.
Como forma de os Kampf obterem um lugar ao sol na sociedade, decidem promover um baile em sua casa acolhendo, desta forma, as mais prestigiadas personalidades. Toda a preparação do evento é reflexo de uma futilidade ambulante, desde o envio dos convites, a contratação de músicos para o efeito, a decoração do salão, a comidas e bebidas, as roupas para brilharem numa noite que se pretende ser um sucesso que fique de recordação para todos, servindo assim, de catapulta para a escalada social.
Mas as coisas começam a correr mal a partir do momento em que Rosine comunica a Antoinette que esta não irá participar no baile por ter somente 15 anos. Esta ideia de recusa não é digerida pela adolescente acabando por tecer um plano maquiavélico com contornos emocionais e psicológicos sem precedentes e sem que tenha uma total consciência dos seus atos.
O ato de Antoinette vai conduzi-la inevitavelmente na entrada da idade adulta ao passo que a sua mãe, procurando conforto na filha, têm um momento único, o primeiro, em que se encontram verdadeiramente, mas em rumos opostos. "«No caminho da vida», foi o instante inapreensível em que elas se cruzaram: uma ia a subir e a outra a afundar-se na penumbra. Nenhuma delas o sabia." (p. 55)
Excerto:
"- É tua, imbecil, a culpa é tua, a tua estúpida vaidade, o teu orgulho de pavão, é tudo culpa tua… O senhor quer dar bailes! Receber! Mas, é de morrer a rir! Palavra de honra, tu pensas que as pessoas não sabem quem tu és, donde vens! Novo rico! Estão-se bem nas tintas para ti, hem, os teus amigos, os teus belos amigos, ladrões, vigaristas!
- E os teus, os teus condes, os teus marqueses, os teus alcoviteiros!
Continuaram a gritar um para o outro uma enxurrada de palavras arrebatadas, que corriam como uma torrente. Depois, de dentes cerrados, Kampf disse muito baixo:
- Quando te recolhi, já tinhas andado sabe Deus por onde! Pensas que não sei, que nunca reparei em nada! Eu, eu pensava que tu eras bonita, inteligente, que se ficasse rico tu me respeitarias… Enganei-me redondamente, não há dúvida, que grande negócio, modos de regateira, uma velha com maneiras de cozinheira…" (p. 52)
Texto da Autoria de Jorge Navarro
Paris, Anos 20. A família Kampf vive numa faustosa mansão fruto de um golpe de sorte através de um inusitado investimento na Bolsa. Os Kampf são uma família judia em que apenas aquilo que os liga à comunidade são somente as tradições e não propriamente as questões de fé.
Uma família que de repente ficou rica e que anos antes enquadrava-se numa classe média baixa com algumas dificuldades económicas aspirando, no entanto, ascender socialmente são os personagens centrais de "O Baile".
Bafejada pela sorte, os Kampf sentiram uma necessidade imensa de imitar os ricos da sociedade parisiense em todos os seus rituais e se enquanto elementos da classe média faltavam-lhe o dinheiro para fazer frente aos burgueses, agora que o possui falta-lhe o nível e a classe daqueles. A intriga e as aparências, bem como a necessidade de se mostrar perante os outros fazem desta família uma perfeita deturpação e, de algum modo, um reflexo da sociedade de então. A afirmação do ter, do possuir, do mostrar-se perante os outros segue também em linha com a necessidade de viver e, neste caso em particular, esquecer os anos das dificuldades. A própria mentalidade de então, do primeiro após guerra, os famosos "anos loucos" constituíram, pois, o palco ideal para os Kampf se afirmarem perante a alta sociedade.
Um senhor Kampf trabalhador, mas pouco empenhado e uma esposa de nome Rosine, com passado duvidoso, mãe desinteressada, mulher fútil, tenta aproveitar-se das intrigas em torno dos grandes para poder ascender socialmente através de jogadas pouco claras. Antoinette é a filha de quinze anos que vive agora perdida na grande mansão sob os olhares atentos de uma preceptora inglesa e o desinteresse da mãe.
Como forma de os Kampf obterem um lugar ao sol na sociedade, decidem promover um baile em sua casa acolhendo, desta forma, as mais prestigiadas personalidades. Toda a preparação do evento é reflexo de uma futilidade ambulante, desde o envio dos convites, a contratação de músicos para o efeito, a decoração do salão, a comidas e bebidas, as roupas para brilharem numa noite que se pretende ser um sucesso que fique de recordação para todos, servindo assim, de catapulta para a escalada social.
Mas as coisas começam a correr mal a partir do momento em que Rosine comunica a Antoinette que esta não irá participar no baile por ter somente 15 anos. Esta ideia de recusa não é digerida pela adolescente acabando por tecer um plano maquiavélico com contornos emocionais e psicológicos sem precedentes e sem que tenha uma total consciência dos seus atos.
O ato de Antoinette vai conduzi-la inevitavelmente na entrada da idade adulta ao passo que a sua mãe, procurando conforto na filha, têm um momento único, o primeiro, em que se encontram verdadeiramente, mas em rumos opostos. "«No caminho da vida», foi o instante inapreensível em que elas se cruzaram: uma ia a subir e a outra a afundar-se na penumbra. Nenhuma delas o sabia." (p. 55)
Excerto:
"- É tua, imbecil, a culpa é tua, a tua estúpida vaidade, o teu orgulho de pavão, é tudo culpa tua… O senhor quer dar bailes! Receber! Mas, é de morrer a rir! Palavra de honra, tu pensas que as pessoas não sabem quem tu és, donde vens! Novo rico! Estão-se bem nas tintas para ti, hem, os teus amigos, os teus belos amigos, ladrões, vigaristas!
- E os teus, os teus condes, os teus marqueses, os teus alcoviteiros!
Continuaram a gritar um para o outro uma enxurrada de palavras arrebatadas, que corriam como uma torrente. Depois, de dentes cerrados, Kampf disse muito baixo:
- Quando te recolhi, já tinhas andado sabe Deus por onde! Pensas que não sei, que nunca reparei em nada! Eu, eu pensava que tu eras bonita, inteligente, que se ficasse rico tu me respeitarias… Enganei-me redondamente, não há dúvida, que grande negócio, modos de regateira, uma velha com maneiras de cozinheira…" (p. 52)
Texto da Autoria de Jorge Navarro
segunda-feira, 15 de junho de 2015
"Um Anjo Impuro" de Henning Mankell
Uma história que decorre maioritariamente na antiga Lourenço Marques mas que tem a sua origem na Suécia. Estamos por volta de mil novecentos e pouco. Henning Mankell conta-nos a história de Anna, uma rapariga que por circunstâncias várias na sua vida se põe a caminho em busca de trabalho e chega a África. Um retrato fiel do que poderia ser a vida nesse continente, com duas culturas tão diferentes, uma dominadora e muitas vezes cruel, a outra, oprimida e mesmo assim cheia de vida e alegre.
Hanna procura trabalho mas, sobretudo, um sentido para a sua vida. Qual é o seu lugar? Onde pertence? Que laços a unem aos que a rodeiam? E, o mais importante, como agir?
Habilmente, Henning Mankel transporta-nos para outra época onde culturas diferentes se confrontam e, paralelamente, nos confrontam com uma realidade que não é a nossa. O ódio está lá, em cada olhar, em cada silêncio, esperando uma oportunidade para agir. De ambas as partes, de ambas as culturas. Hanna aprende, apreende e faz escolhas. Será Hanna Branca ou Hanna Preta?
Saber que nessa época existiu esta mulher, mas que pouco se sabe dela em concreto, fez-me admirar a imaginação deste autor pois com tão pouco, muito fez.
Um final imprevisível. Gostei muito.
Terminado em 13 de Junho de 2015
Estrelas: 5*
Sinopse
Para fugir à miséria que avassalou os campos da Suécia em 1904, Hanna Lundmark, arranja um trabalho de cozinheira num navio com destino à Austrália. Após uma paragem no porto de Lourenço Marques, Hanna toma a ousada decisão de abandonar o barco e começar uma vida nova na cidade.
Após uma série de acontecimentos que fazem dela a mais bem-sucedida proprietária do bordel mais famoso de Lourenço Marques, Hanna está determinada a tentar alterar as mentalidades que caracterizavam a sociedade branca moçambicana nos princípios do século XX. Porém, a sombra do racismo que paira sobre brancos e negros é de tal forma densa que só pode conduzir à tragédia e à morte.
Para mais informações sobre o livro ver Editorial Presença aqui!
Hanna procura trabalho mas, sobretudo, um sentido para a sua vida. Qual é o seu lugar? Onde pertence? Que laços a unem aos que a rodeiam? E, o mais importante, como agir?
Habilmente, Henning Mankel transporta-nos para outra época onde culturas diferentes se confrontam e, paralelamente, nos confrontam com uma realidade que não é a nossa. O ódio está lá, em cada olhar, em cada silêncio, esperando uma oportunidade para agir. De ambas as partes, de ambas as culturas. Hanna aprende, apreende e faz escolhas. Será Hanna Branca ou Hanna Preta?
Saber que nessa época existiu esta mulher, mas que pouco se sabe dela em concreto, fez-me admirar a imaginação deste autor pois com tão pouco, muito fez.
Um final imprevisível. Gostei muito.
Terminado em 13 de Junho de 2015
Estrelas: 5*
Sinopse
Para fugir à miséria que avassalou os campos da Suécia em 1904, Hanna Lundmark, arranja um trabalho de cozinheira num navio com destino à Austrália. Após uma paragem no porto de Lourenço Marques, Hanna toma a ousada decisão de abandonar o barco e começar uma vida nova na cidade.
Após uma série de acontecimentos que fazem dela a mais bem-sucedida proprietária do bordel mais famoso de Lourenço Marques, Hanna está determinada a tentar alterar as mentalidades que caracterizavam a sociedade branca moçambicana nos princípios do século XX. Porém, a sombra do racismo que paira sobre brancos e negros é de tal forma densa que só pode conduzir à tragédia e à morte.
Para mais informações sobre o livro ver Editorial Presença aqui!
domingo, 14 de junho de 2015
Ao Domingo com... Carla Fonseca
É com imenso agrado que aceito o convite para participar deste blog
inspirador. Solicitam-me um pequeno texto sobre mim.Falar de nós
próprios é sempre um assunto delicado. Talvez por isso tão introspectivo
e analítico. Para minha definição diria que sou uma mulher de paixões,
um ser humano na busca constante da felicidade e do saber, deslumbrada
com a descoberta incessante da vida e de mim própria. Tenho como
paixões, o vício salutar da leitura, a escrita, as viagens de moto, bem
como a aventura de poder acompanhar o crescimento diário dos meus
filhos.
"Serás sempre uma Dádiva" é o meu
primeiro livro e relata o amor nas mais diversas facetas. O amor por nós
próprios e a importância da descoberta do "eu"; o valor da amizade; a
partilha do amor traduzido no trabalho de voluntariado; a paixão
arrebatadora entre Alexia e Paulo que vai crescendo ao longo do livro e
serve de fio condutor ao romance e de base à introdução das diversas
personagens.
Composto por várias histórias reais este livro
pretende trazer à luz os preconceitos e pré-conceitos que formulamos
sobre a realidade que nos envolve. Surge como um questionar e uma
abordagem invulgar de temas controversos, estigmas da sociedade atual,
como a droga, a velhice, o aborto, a solidão, o suicídio, mas também
sobre a coragem, a determinação e o despertar para a espiritualidade.
Carla Fonseca
Na minha caixa de correio
Oferta da Quinta Essência: A Prisioneira
Compras na FLL : Destinos Entrelaçados, A Firma, Lugares Escuros e Ouro do Inferno
sábado, 13 de junho de 2015
A Escolha do Jorge: A Noiva do Tradutor
João Reis é um dos nomes que se tem aos poucos afirmado no contexto da tradução para língua portuguesa de obras de referência de vários países do norte da Europa.
Além da sua faceta como tradutor, João Reis apresentou-se também aos leitores portugueses na qualidade de escritor, primeiro com "Os Quatro Pontos Corporais" (2014) e "O Falhado" (2015), publicados em formato e-book através da Coolbooks (Porto Editora), num registo menos sério, mas sempre bem-disposto, por vezes em tom mais brejeiro, cuja finalidade é divertir o leitor, sem, no entanto, deixar de associar os personagens principais das suas narrativas à ideia de um destino que se cumpre ao qual não se pode fugir.
A mais recente aposta de João Reis no âmbito da escrita chegou às livrarias no início de junho com a publicação de "A Noiva do Tradutor" (Companhia das Ilhas) cujo resultado afasta-se completamente do registo anteriormente publicado, agora mais sério, eloquente, melancólico, angustiante, acutilante, reflexivo e até dilacerante na forma como o personagem principal não só se relaciona com as pessoas à sua volta, mas também na forma como nos relacionamos com esse mesmo personagem.
Sem referência a um espaço exato onde decorre a narrativa, a mesma apresenta traços que refletem em certa medida as cidades do norte da Europa, mas também há momentos em que vislumbramos o personagem principal, o tradutor, a deambular por ruas de uma Lisboa, por exemplo. Quanto ao período em que decorre a narrativa que não ultrapassa as 48 horas, a mesma poderá situar-se algum tempo após a 1ª Guerra Mundial na sequência de algumas descrições.
João Reis conseguiu transpor para "A Noiva do Tradutor" toda uma herança patente na literatura nórdica da qual não só traduz, mas também na qualidade de leitor com propriedade que se reflete invariavelmente na sua escrita. A par desta característica, o (agora) autor também articula a herança acima indicada com o modo de ser português tão bem captado na sua essência, bem visível através dos diálogos tidos entre o tradutor e os demais personagens. As situações comezinhas e até mesquinhas que tão bem os portugueses transpõem em modo de discurso direto têm aqui um impacto deveras negativo nomeadamente na forma como o tradutor não só não se consegue articular com as demais pessoas à sua volta porque, acima de tudo, não se identifica minimamente com elas, desprezando a sociedade no seu todo e em absoluto.
À medida que mergulhamos na narrativa, rapidamente somos absorvidos por longos parágrafos, vertiginosos, cuja cadência das palavras e das frases reflete os pensamentos do tradutor que, apresentando-se tensos e, por vezes, entrecortados, são no fundo a forma como também as ideias e os pensamentos nos vêm à mente.
Passado o primeiro capítulo, o leitor já está mergulhado numa encruzilhada da qual não pretende sair ainda que preveja que as deambulações do tradutor o conduzam a um beco sem saída face ao seu desespero latente.
Na sequência do aspeto acima indicado, João Reis apresenta-nos um tradutor que para quem leu o clássico do norueguês Knut Hamsun "Fome" irá certamente fazer algumas associações, nomeadamente o facto de nunca sabermos o nome nem de um nem de outro, porém, este tradutor que também deambula numa cidade que se apresenta como um híbrido de cidade nórdica e mediterrânica em simultâneo, também sente fome, mas sem apetite porque a sociedade lhe tira o apetite de viver ao contrário do personagem de "Fome" que passa fome porque não tem dinheiro para se alimentar ao ponto de sentir uma fome que rói e corrói o estômago e o espírito.
Compreensivelmente, o destino de ambos os personagens não é muito diferente. As deambulações pela cidade em busca de emprego, no caso específico do tradutor, enreda-nos em certa medida no mundo das quezílias editoriais que já vêm de outros tempos, dando-nos uma ideia das difíceis relações (por vezes) entre vários editores, a sua relação com os tradutores e os tradutores entre si que se digladiam na esperança de lhes ser proposto um novo trabalho, uma nova tradução.
Há ainda a salientar o elemento feminino em "A Noiva do Tradutor" fazendo jus a este romance de João Reis. O tradutor vê a sua noiva partir num navio, mas ilude-se com o seu regresso. Helena abandona-o, mas este tudo faz para garantir que regresse em breve ou então que ele próprio abandone a cidade para se lhe juntar mais tarde. Mas o tradutor sabe e não sabe ao mesmo tempo que tal não é possível enquanto deambula pela cidade, talvez como uma forma de encontrar o seu equilíbrio, no fundo a sua sobrevivência, que não podendo contar com a sociedade, sabe que Helena é e será o seu porto de abrigo. "O meu cepticismo vence-me sempre, deixo a esperança morrer uma e outra vez, mantendo-a, ao mesmo tempo, viva, parece impossível, mas faço-o, não sei como (…). (p. 83)
Se "A Noiva do Tradutor" tem muitos pontos em comum com "Fome" de Knut Hamsun, há também uma ligação muito forte e bem conseguida à obra mais emblemática do escritor alemão Patrick Süskind "O Perfume". Dificilmente o leitor mergulha em "A Noiva do Tradutor" sem se recordar do primeiro capítulo de "O Perfume", pejado e intenso de odores nauseabundos que refletem não só a sociedade em si, mas a forma como a mesma funciona. São inúmeras as passagens de "A Noiva do Tradutor" que fazem alusão aos cheiros nauseabundos, ao esterco da cidade e das pessoas, em suma, da sociedade que, na verdade, está morta e putrefacta. "(…) Cheira-me a urina, a brisa traz as recordações que as pessoas deixam junto aos edifícios, nem a chuva limpa por completo estes vestígios, algumas mulheres vendem peixe no passeio, gritam a alto e bom som, quase me ensurdecem ao passar por elas, nem o cheiro a peixe tapa a fragância a urina, fecho bem a boca para não engolir os odores desta cidade, sim, é mesmo um monte de esterco, quem aqui fica muito tempo acaba por apodrecer, estamos vivos por fora mas mortos por dentro, completamente putrefactos, melhor seria se todos nos uníssemos e nos lançássemos ao rio, seríamos arrastados até ao mar, perder-nos-íamos no seu fundo, livraríamos o mundo de tamanhas aberrações, destruímos tudo, somos parasitas (…)." (p. 65)
A loucura ou a esquizofrenia tomam gradualmente conta do tradutor à medida que este deixa de conseguir vislumbrar a esperança no mundo que o rodeia através da bondade existente entre os homens deixando-se arrastar para um poço sem fundo, muito ao estilo kafkiano porque o mote é mesmo sofrer porque tem de se sofrer havendo uma única forma de expiar esse mesmo sofrimento para alcançar a alegria eterna até porque "Talvez sejamos mesmo um nada neste mundo, não sei se sonho ou existo, a estrumeira arde e seremos todos engolidos num mar de lodo e conspurcação, a vida é grotesca, não sei porque me agarro a ela (…)." (p. 83)
"O cheiro a queimado regressa, sai-lhe da boca um vapor sulfuroso, todo o esterco é remexido por uma poderosa manápula, uma garra criadora agita o mundo e os homens cambaleiam, tentam erguer-se, o vento arrasta os gritos, ah!, todos somos consumidos pelas chamas, um homem não volta atrás, é pena, sim, uma grande tristeza, mas foram tomadas decisões, o vento sopra imperturbável, tudo se resolve como convém." (p. 103)
"A Noiva do Tradutor" apresenta-se como um pequeno grande livro que traz consigo uma lufada de ar fresco no que respeita ao panorama editorial português do momento, afirmando-se como uma excelente proposta de leitura que dificilmente se esquecerá.
Texto da autoria de Jorge Navarro
Além da sua faceta como tradutor, João Reis apresentou-se também aos leitores portugueses na qualidade de escritor, primeiro com "Os Quatro Pontos Corporais" (2014) e "O Falhado" (2015), publicados em formato e-book através da Coolbooks (Porto Editora), num registo menos sério, mas sempre bem-disposto, por vezes em tom mais brejeiro, cuja finalidade é divertir o leitor, sem, no entanto, deixar de associar os personagens principais das suas narrativas à ideia de um destino que se cumpre ao qual não se pode fugir.
A mais recente aposta de João Reis no âmbito da escrita chegou às livrarias no início de junho com a publicação de "A Noiva do Tradutor" (Companhia das Ilhas) cujo resultado afasta-se completamente do registo anteriormente publicado, agora mais sério, eloquente, melancólico, angustiante, acutilante, reflexivo e até dilacerante na forma como o personagem principal não só se relaciona com as pessoas à sua volta, mas também na forma como nos relacionamos com esse mesmo personagem.
Sem referência a um espaço exato onde decorre a narrativa, a mesma apresenta traços que refletem em certa medida as cidades do norte da Europa, mas também há momentos em que vislumbramos o personagem principal, o tradutor, a deambular por ruas de uma Lisboa, por exemplo. Quanto ao período em que decorre a narrativa que não ultrapassa as 48 horas, a mesma poderá situar-se algum tempo após a 1ª Guerra Mundial na sequência de algumas descrições.
João Reis conseguiu transpor para "A Noiva do Tradutor" toda uma herança patente na literatura nórdica da qual não só traduz, mas também na qualidade de leitor com propriedade que se reflete invariavelmente na sua escrita. A par desta característica, o (agora) autor também articula a herança acima indicada com o modo de ser português tão bem captado na sua essência, bem visível através dos diálogos tidos entre o tradutor e os demais personagens. As situações comezinhas e até mesquinhas que tão bem os portugueses transpõem em modo de discurso direto têm aqui um impacto deveras negativo nomeadamente na forma como o tradutor não só não se consegue articular com as demais pessoas à sua volta porque, acima de tudo, não se identifica minimamente com elas, desprezando a sociedade no seu todo e em absoluto.
À medida que mergulhamos na narrativa, rapidamente somos absorvidos por longos parágrafos, vertiginosos, cuja cadência das palavras e das frases reflete os pensamentos do tradutor que, apresentando-se tensos e, por vezes, entrecortados, são no fundo a forma como também as ideias e os pensamentos nos vêm à mente.
Passado o primeiro capítulo, o leitor já está mergulhado numa encruzilhada da qual não pretende sair ainda que preveja que as deambulações do tradutor o conduzam a um beco sem saída face ao seu desespero latente.
Na sequência do aspeto acima indicado, João Reis apresenta-nos um tradutor que para quem leu o clássico do norueguês Knut Hamsun "Fome" irá certamente fazer algumas associações, nomeadamente o facto de nunca sabermos o nome nem de um nem de outro, porém, este tradutor que também deambula numa cidade que se apresenta como um híbrido de cidade nórdica e mediterrânica em simultâneo, também sente fome, mas sem apetite porque a sociedade lhe tira o apetite de viver ao contrário do personagem de "Fome" que passa fome porque não tem dinheiro para se alimentar ao ponto de sentir uma fome que rói e corrói o estômago e o espírito.
Compreensivelmente, o destino de ambos os personagens não é muito diferente. As deambulações pela cidade em busca de emprego, no caso específico do tradutor, enreda-nos em certa medida no mundo das quezílias editoriais que já vêm de outros tempos, dando-nos uma ideia das difíceis relações (por vezes) entre vários editores, a sua relação com os tradutores e os tradutores entre si que se digladiam na esperança de lhes ser proposto um novo trabalho, uma nova tradução.
Há ainda a salientar o elemento feminino em "A Noiva do Tradutor" fazendo jus a este romance de João Reis. O tradutor vê a sua noiva partir num navio, mas ilude-se com o seu regresso. Helena abandona-o, mas este tudo faz para garantir que regresse em breve ou então que ele próprio abandone a cidade para se lhe juntar mais tarde. Mas o tradutor sabe e não sabe ao mesmo tempo que tal não é possível enquanto deambula pela cidade, talvez como uma forma de encontrar o seu equilíbrio, no fundo a sua sobrevivência, que não podendo contar com a sociedade, sabe que Helena é e será o seu porto de abrigo. "O meu cepticismo vence-me sempre, deixo a esperança morrer uma e outra vez, mantendo-a, ao mesmo tempo, viva, parece impossível, mas faço-o, não sei como (…). (p. 83)
Se "A Noiva do Tradutor" tem muitos pontos em comum com "Fome" de Knut Hamsun, há também uma ligação muito forte e bem conseguida à obra mais emblemática do escritor alemão Patrick Süskind "O Perfume". Dificilmente o leitor mergulha em "A Noiva do Tradutor" sem se recordar do primeiro capítulo de "O Perfume", pejado e intenso de odores nauseabundos que refletem não só a sociedade em si, mas a forma como a mesma funciona. São inúmeras as passagens de "A Noiva do Tradutor" que fazem alusão aos cheiros nauseabundos, ao esterco da cidade e das pessoas, em suma, da sociedade que, na verdade, está morta e putrefacta. "(…) Cheira-me a urina, a brisa traz as recordações que as pessoas deixam junto aos edifícios, nem a chuva limpa por completo estes vestígios, algumas mulheres vendem peixe no passeio, gritam a alto e bom som, quase me ensurdecem ao passar por elas, nem o cheiro a peixe tapa a fragância a urina, fecho bem a boca para não engolir os odores desta cidade, sim, é mesmo um monte de esterco, quem aqui fica muito tempo acaba por apodrecer, estamos vivos por fora mas mortos por dentro, completamente putrefactos, melhor seria se todos nos uníssemos e nos lançássemos ao rio, seríamos arrastados até ao mar, perder-nos-íamos no seu fundo, livraríamos o mundo de tamanhas aberrações, destruímos tudo, somos parasitas (…)." (p. 65)
A loucura ou a esquizofrenia tomam gradualmente conta do tradutor à medida que este deixa de conseguir vislumbrar a esperança no mundo que o rodeia através da bondade existente entre os homens deixando-se arrastar para um poço sem fundo, muito ao estilo kafkiano porque o mote é mesmo sofrer porque tem de se sofrer havendo uma única forma de expiar esse mesmo sofrimento para alcançar a alegria eterna até porque "Talvez sejamos mesmo um nada neste mundo, não sei se sonho ou existo, a estrumeira arde e seremos todos engolidos num mar de lodo e conspurcação, a vida é grotesca, não sei porque me agarro a ela (…)." (p. 83)
"O cheiro a queimado regressa, sai-lhe da boca um vapor sulfuroso, todo o esterco é remexido por uma poderosa manápula, uma garra criadora agita o mundo e os homens cambaleiam, tentam erguer-se, o vento arrasta os gritos, ah!, todos somos consumidos pelas chamas, um homem não volta atrás, é pena, sim, uma grande tristeza, mas foram tomadas decisões, o vento sopra imperturbável, tudo se resolve como convém." (p. 103)
"A Noiva do Tradutor" apresenta-se como um pequeno grande livro que traz consigo uma lufada de ar fresco no que respeita ao panorama editorial português do momento, afirmando-se como uma excelente proposta de leitura que dificilmente se esquecerá.
Texto da autoria de Jorge Navarro
terça-feira, 9 de junho de 2015
A Convidada Escolhe: Galveias
Mais um excelente livro de um jovem escritor português. "Galveias" teve um pré-lançamento em Setembro de 2014, no dia dos 40 anos do autor e é uma homenagem à sua terra natal e ao imaginário rural que marca profundamente a sua escrita.
A acção está balizada entre Janeiro e Setembro de 1984. Precisamente nove meses, o tempo de uma gestação. "Uma coisa sem nome" chega durante a noite a Galveias e vai impregnar o ar da terra, tornando-se omnipresente na vida dos galveenses. O cheiro permanente a enxofre, o sabor amargo no pão são presenças inexplicáveis, sendo o pano de fundo das diversas histórias das personagens retratadas neste livro. "A coisa sem nome" traz uma chuva repentina e inclemente durante sete dias seguidos, a que se seguem nove meses de seca. Para fazer face à imensa seca, o padre Daniel acaba por aceder a um ritual considerado milagroso de fazer uma missa, seguida da distribuição de papas de milho a todos os habitantes, aguardando que se concretize o milagre tão necessário.
"Galveias" é um ciclo de vida, um ciclo que começa com um acto de amor protagonizado pelos Sem Medo e termina com o nascimento de uma menina filha do casal, que restitui aos habitantes a memória do tempo sem o cheiro pestilento a enxofre. "Galveias" é um painel muito vasto de personagens que vivem naquela terra, mas que podem viver em qualquer aldeia ou vila do país.
As personagens e as suas vidas entrelaçam-se ao longo da narrativa, vão desvendando segredos, partilham com o leitor os seus rancores, sonhos, fantasias, fragilidades. Há um tom de dureza nas relações que se estabelecem, os ciúmes, a maledicência própria dos lugares pequenos, a violência física, a tragédia e a morte que pairam sobre Galveias, mas também há lugar para a reconciliação e para o amor improvável, como acontece com Justino e o irmão o senhor Cordato, desavindos durante cinquenta anos ou Rosa Cabeça e Joana Barreta. O carteiro Joaquim Janeiro ligado às memórias da guerra na Guiné, que ciclicamente volta a Bissau onde deixou mulher e filhos, a quem desfia as histórias dos seus conterrâneos, deixando-os presos às suas palavras e para quem Galveias "era um lugar imenso". A professora, uma estranha vinda de fora, cujo voluntarismo é considerado sobranceria e que é "castigada" e violentada. As mulheres que querem o melhor para os seus filhos, mesmo opondo-se aos maridos, ou aquelas que tudo fazem para dar um sentido e uma vida digna aos filhos com incapacidades físicas ou mentais. As prostitutas, seres humanos com emoções, com sentimentos, ignoradas e discriminadas, mas a quem todos recorrem para comprar o pão, o único que consegue não ter o terrível sabor a enxofre que contaminou tudo e todos. Isabella, desejosa de regressar ao Brasil natal, mas irremediavelmente presa a Galveias por amor a um homem. O padre Daniel dominado pelo alcoól e cujas homilias são verdadeiros sermões para si próprio.
E depois há os cães, leais aos seus donos, escorraçados e maltratados, que vagueiam pela terra à procura de uma sombra, de um degrau para descansar, de algum petisco que pode ser a sua morte. Podem ser o único amigo de alguém que vive só, surgem como os únicos que conhecem segredos inconfessáveis e povoam Galveias como verdadeiras personagens.
O nascimento da menina no final do livro é o sinal de esperança na vida de Galveias. "Tinha o cheiro normal das crianças acabadas de nascer. Não cheirava a enxofre". … "Há muitas formas de estar morto". … "A coisa sem nome conservava ainda o seu mistério, talvez nunca viesse a perdê-lo, mas as ruas estavam já cheias de gente a caminhar na sua direcção. Galveias não pode morrer."
Almerinda Bento
A acção está balizada entre Janeiro e Setembro de 1984. Precisamente nove meses, o tempo de uma gestação. "Uma coisa sem nome" chega durante a noite a Galveias e vai impregnar o ar da terra, tornando-se omnipresente na vida dos galveenses. O cheiro permanente a enxofre, o sabor amargo no pão são presenças inexplicáveis, sendo o pano de fundo das diversas histórias das personagens retratadas neste livro. "A coisa sem nome" traz uma chuva repentina e inclemente durante sete dias seguidos, a que se seguem nove meses de seca. Para fazer face à imensa seca, o padre Daniel acaba por aceder a um ritual considerado milagroso de fazer uma missa, seguida da distribuição de papas de milho a todos os habitantes, aguardando que se concretize o milagre tão necessário.
"Galveias" é um ciclo de vida, um ciclo que começa com um acto de amor protagonizado pelos Sem Medo e termina com o nascimento de uma menina filha do casal, que restitui aos habitantes a memória do tempo sem o cheiro pestilento a enxofre. "Galveias" é um painel muito vasto de personagens que vivem naquela terra, mas que podem viver em qualquer aldeia ou vila do país.
As personagens e as suas vidas entrelaçam-se ao longo da narrativa, vão desvendando segredos, partilham com o leitor os seus rancores, sonhos, fantasias, fragilidades. Há um tom de dureza nas relações que se estabelecem, os ciúmes, a maledicência própria dos lugares pequenos, a violência física, a tragédia e a morte que pairam sobre Galveias, mas também há lugar para a reconciliação e para o amor improvável, como acontece com Justino e o irmão o senhor Cordato, desavindos durante cinquenta anos ou Rosa Cabeça e Joana Barreta. O carteiro Joaquim Janeiro ligado às memórias da guerra na Guiné, que ciclicamente volta a Bissau onde deixou mulher e filhos, a quem desfia as histórias dos seus conterrâneos, deixando-os presos às suas palavras e para quem Galveias "era um lugar imenso". A professora, uma estranha vinda de fora, cujo voluntarismo é considerado sobranceria e que é "castigada" e violentada. As mulheres que querem o melhor para os seus filhos, mesmo opondo-se aos maridos, ou aquelas que tudo fazem para dar um sentido e uma vida digna aos filhos com incapacidades físicas ou mentais. As prostitutas, seres humanos com emoções, com sentimentos, ignoradas e discriminadas, mas a quem todos recorrem para comprar o pão, o único que consegue não ter o terrível sabor a enxofre que contaminou tudo e todos. Isabella, desejosa de regressar ao Brasil natal, mas irremediavelmente presa a Galveias por amor a um homem. O padre Daniel dominado pelo alcoól e cujas homilias são verdadeiros sermões para si próprio.
E depois há os cães, leais aos seus donos, escorraçados e maltratados, que vagueiam pela terra à procura de uma sombra, de um degrau para descansar, de algum petisco que pode ser a sua morte. Podem ser o único amigo de alguém que vive só, surgem como os únicos que conhecem segredos inconfessáveis e povoam Galveias como verdadeiras personagens.
O nascimento da menina no final do livro é o sinal de esperança na vida de Galveias. "Tinha o cheiro normal das crianças acabadas de nascer. Não cheirava a enxofre". … "Há muitas formas de estar morto". … "A coisa sem nome conservava ainda o seu mistério, talvez nunca viesse a perdê-lo, mas as ruas estavam já cheias de gente a caminhar na sua direcção. Galveias não pode morrer."
Almerinda Bento
segunda-feira, 8 de junho de 2015
"Lusitano Fado" de Luís Corredoura
Este livro atraiu-me mal saiu mas como tantos outros continuava na estanta cá de casa à espera de vez... A sua oportunidade surgiu quando recebi um convite para ir conhecer pessoalmente o autor à FLL. A curiosidade venceu e comecei a lê-lo dias antes, "para ter uma ideia da sua escrita"!
O encontro realizou-se e apercebi-me de imediato, pelo discurso de Luís Corredoura, que era um apaixonado pela História e que qualquer livro escrito (Nome de Código Portugraal) ou que venha a escrever terá sempre História na sua história. Assim sucede em Fado Lusitano. Confesso que não sendo a História/Política relativamente recente de Portugal uma das minhas principais paixões, algumas partes li com menos atenção mas o enredo prendeu-me definitivamente.
Um professor de Filosofia suspenso por acusação de assédio sexual; uma professora de Alemão descendente de um antido SS com alguma influência; um velho contador de segredos que passava os dias numa taberna lúgubre; alguns personagens suspeitos de abusos de poder e corruptos e está lançado o mote para um romance que se deseja saber o final.
Marcado por um suspense contínuo, por alguns momentos mais violentos que trazem ao romance entre Alberto e Paula (os professores) um gostinho todo especial, este livro marca a minha estreia com este autor. Gostei muito (mas Luís obrigaste-me a procurar algumas palavras no dicionário, ah?) e fico à espera de encontrar um fôlego maior para me aventurar nas perto de seiscentas páginas do seu anterior livro que parece ser do meu agrado.
Terminado em 7 de Junho de 2015
Estrelas: 4*+
Sinopse
A verdade pode ser muito mais complexa do que a mentira. A justiça parece adormecida, perante um poder oculto, uma sociedade apática, um Portugal parco de virtudes públicas e com demasiados vícios privados. Mas há quem queira denunciar essa maré de corrupção, venalidades, falsos costumes e aparências que há muito se vê, sente e cheira. Tudo na vida tem um preço. Mas Alberto está disposto a tudo fazer para salvar a honra e divulgar a verdade, mesmo que isso implique o maior dos sacrifícios.
Lusitano Fado é uma história surpreendente de coragem e determinação, de mistério e revelação, de vingança e corrupção, mas também de paixão, companheirismo e amizade, que vai empolgar os leitores mais exigentes e que não deixará ninguém indiferente. A história é sempre escrita pelos vencedores, mas os vencidos também têm memória…
O encontro realizou-se e apercebi-me de imediato, pelo discurso de Luís Corredoura, que era um apaixonado pela História e que qualquer livro escrito (Nome de Código Portugraal) ou que venha a escrever terá sempre História na sua história. Assim sucede em Fado Lusitano. Confesso que não sendo a História/Política relativamente recente de Portugal uma das minhas principais paixões, algumas partes li com menos atenção mas o enredo prendeu-me definitivamente.
Um professor de Filosofia suspenso por acusação de assédio sexual; uma professora de Alemão descendente de um antido SS com alguma influência; um velho contador de segredos que passava os dias numa taberna lúgubre; alguns personagens suspeitos de abusos de poder e corruptos e está lançado o mote para um romance que se deseja saber o final.
Marcado por um suspense contínuo, por alguns momentos mais violentos que trazem ao romance entre Alberto e Paula (os professores) um gostinho todo especial, este livro marca a minha estreia com este autor. Gostei muito (mas Luís obrigaste-me a procurar algumas palavras no dicionário, ah?) e fico à espera de encontrar um fôlego maior para me aventurar nas perto de seiscentas páginas do seu anterior livro que parece ser do meu agrado.
Terminado em 7 de Junho de 2015
Estrelas: 4*+
Sinopse
A verdade pode ser muito mais complexa do que a mentira. A justiça parece adormecida, perante um poder oculto, uma sociedade apática, um Portugal parco de virtudes públicas e com demasiados vícios privados. Mas há quem queira denunciar essa maré de corrupção, venalidades, falsos costumes e aparências que há muito se vê, sente e cheira. Tudo na vida tem um preço. Mas Alberto está disposto a tudo fazer para salvar a honra e divulgar a verdade, mesmo que isso implique o maior dos sacrifícios.
Lusitano Fado é uma história surpreendente de coragem e determinação, de mistério e revelação, de vingança e corrupção, mas também de paixão, companheirismo e amizade, que vai empolgar os leitores mais exigentes e que não deixará ninguém indiferente. A história é sempre escrita pelos vencedores, mas os vencidos também têm memória…
domingo, 7 de junho de 2015
Ao Domingo com... Tereza Guerra
Agradeço o convite para participar neste blog. Realmente a escrita é para mim algo muito especial. Desde pequena me habituei a escrever sobre tudo o que acontece ao meu redor e sobre a minha vida... penso que tudo começou quando me ofereceram o primeiro diário (que ainda guardo). Estava em plena adolescência e o mundo dos segredos, das fantasias e das aventuras fazia parte do meu dia a dia. Como naquela altura não podia sair muito, a não ser com os meus pais, vingava-me a escrever e a criar personagem, inventando e imaginando grandes aventuras que me entretinham e faziam rir, chorar, cantar, saltitar, dançar e ser feliz, etc, etc... Ao som de música roqueira na época divertia-me muito lendo, escrevendo e pintando (diziam que tinha também queda para a pintura...) Hoje a vida continua a mostrar-me a importância da escrita e de tudo o que me pode ocupar saudavelmente, sem me deixar tempo para preocupações e outros devaneios desestabilizadores.
Após a minha licenciatura em Filosofia e já me encontrava a lecionar quando fui contactada pela primeira vez por uma editora no sentido de escrever um livro, manual para o 10º ano sobre Introdução à Filosofia. Achei a ideia bem desafiante e como andava a tirar uma pós graduação sobre Hermenêutica da Obra Filosófica, bailavam na minha mente muitas ideias inovadoras que procurei levar a cabo na escrita do manual, juntamente com uma amiga e colega de curso, Manuel Duarte. Depois escrevemos outros para os 10º e 11º, etc...Tratava-se de um tipo de escrita que obedecia a certas exigências e programas do ensino secundário, que não me entusiasmava o suficiente, porque tinha algumas pressões e contingências, pelo que a certa altura deixámos de o fazer.
Comecei a interessar-me pelo tema das Crianças Índigo quando estava a preparar a minha dissertação da tese de mestrado sobre educação, no início dos anos 2000. Percorrendo alguns sites encontrei informação sobre o tema, que me fascinou. Realmente também eu, nos primeiros anos de escola, não tinha sido brilhante, assim como os meus filhos e muitas crianças que conhecia... Procurei averiguar melhor o assunto e comecei a guardar bastante informação sobre o tema índigo, até que um dia um amigo me convidou para dar uma palestra sobre as Crianças Índigo e a Educação. Achei fascinante e lá me incumbi da tarefa que nessa altura foi um êxito. Enchemos um plateia de cerca 200 lugares e, a partir daí, muita gente começou a contactar-me sobre o assunto, até que em 2003 veio o convite de uma editora para escrever um livro, sobre este mesmo tema das Crianças Índigo. Realmente nunca precisei procurar editoras para publicar um livro. Assim que começo a escrever ou a pensar escrever algo, sou contactada por alguma editora, mostrando interesse em publicar um livro meu sobre essa mesma temática, o que felizmente tem facilitado a fastidiosa tarefa de andar a bater de porta em porta, na esperança de ver publicados os meus livros.
Em 2004 veio à luz do dia o meu primeiro livro que foi publicado em Portugal sobre Crianças Índigo. Com ele surge a ideia de criar com Alain Aubry a Casa índigo www.casa-indigo.com e com isso muitas atividades destinadas a pais, educadores e professores, nomeadamente a apresentação do filme Índigo (realizado e produzido por James Twyman, Stephen Simon) que foi passado com êxito de Norte a Sul do Pais, ainda durante o ano 2004 e 2005. Considerado o maior clássico desta temática índigo.
Depois disso e porque a editora que inicialmente publicou o meu primeiro livro faliu, uma outra me contactou interessada em publicar livros meus, pelo que com a Sinais de Fogo republicou-se Crianças Índigo e Cristal e um outro livro que tinha acabado de sair Poder Índigo e Evolução Cristal, destinado a jovens e adultos índigo. Ainda com a Sinais de fogo foi publicado para jovens do 9 aos 99 anos Spaltron, O Mistério dos Maias e ainda para crianças menores de 9 anos, Spaltron, O Menino Índigo que veio das Estrelas. Pouco depois surgiu Madie, Uma Criança Índigo. Em 2013 fui contacta pela Esfera dos Livros para publicar um livro destinado aos pais e educadores e, assim, acaba por nascer finalmente o meu mais recente livro: O meu filho é especial. Tal como vem referido na contra capa do mesmo: “Atualmente quantas crianças são rotuladas de hiperativas, com défice de atenção ou dislexia? Que não se enquadram na escola e no modelo de educação que lhes impomos. Muitos são os pais que se confrontam com este enorme dilema, com o coração apertado pelo facto de não saberem como agir, como educar estas crianças que são especiais porque olham para o mundo que as rodeia de um modo diferente. Mas aquilo que muitas vezes se apresenta como um problema pode ser um potencial escondido que importa despertar. Muitas destas crianças olhadas como diferentes por terem comportamentos estranhos acabam por revelar qualidades que lhes permitem ir mais longe na capacidade de acumular conhecimentos, de perceber os sentimentos dos outros e compreender que o essencial é invisível aos olhos.”
Estou muito grata a todos os que me têm apoiado nesta missão de dar voz a tantas crianças que são especiais e têm dons e/ou capacidades sensoriais invulgares e nem sempre são ajudadas e apoiadas convenientemente para poderem desenvolver todo o seu potencial adequadamente.
Tereza Guerra
sábado, 6 de junho de 2015
Na minha caixa de correio
Suite Francesa e o Miniaturista ganhei nos passatempos Ionline.
Na loja Cash Converters que frequento comprei 4 e Um Quarto e Luz Antiga.
Na FLL comprei Toda a Luz que Não Podemos Ver e Tigres Sob Um Céu Vermelho.
Oferta da Editorial Presença: Um Anjo Impuro
Oferta da Manuscrito: D. Teresa
Oferta da Alfaguara: Younger e O Jantar
quinta-feira, 4 de junho de 2015
A Escolha do Jorge: Os Filhos de K
O texto desta semana recai sobre o mais recente romance de Julieta Monginho (Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB 2008) "Os Filhos de K." publicado pela Teodolito.
Trata-se de um livro com uma estrutura original, contada a três vozes (Carminho, Francisco e Carlito) reservando espaço ao leitor que tecerá os fios desenrolados pelos outros narradores com o objetivo de um (re)encontro final.
Partindo do acidente de Camarate no dia 5 de dezembro de 1980 que parou por completo o país numa época em que gozava os prazeres da liberdade, fruto da ainda jovem democracia, Carminho, Jacinto, Rui e Francisco, estudantes de Direito, apropriam-se dos acontecimentos com os olhos da juventude de uma época que ambicionava o futuro a seus pés e que ao concluírem as licenciaturas nada haveria que os fizesse parar a justiça. O futuro risonho do país dependia em certa medida do desempenho feliz dos jovens desta geração, detentora de plenos direitos, da liberdade, e conhecedora das leis vigentes.
Quão nobres são os sonhos dos jovens que almejam um futuro auspicioso para si e para o seu país! Sonhos e ideais são o que move o mundo e estes jovens acreditavam na sua capacidade de transformar tudo à sua volta! Eram a esperança renovada da geração anterior amarrada pelos bafos de uma longa ditadura que, durante mais de meio século, pintalgou todo um país de cinzento.
A par deste sentido de justiça e de idealizar (de alguma forma) todo um tecido social, Carminho, uma das personagens centrais do romance, recebe como presente "O Processo", o clássico de Franz Kafka, oferecido pelo seu amigo e colega Francisco, mais tarde rebatizado por Franz. Quem é que saiu ileso com a leitura de "O Processo"? Trata-se de um livro tortuoso, tão ao estilo de Kafka que nos mói e espezinha pelo seu caráter, neste caso em concreto, perverso, tão perverso como o início desse (outro) livro em que Josef K. é preso no dia do seu trigésimo aniversário sem que saiba (nem o próprio) exatamente qual o motivo da acusação. Não deixa de ser curioso que ao longo da obra, Josef K. vai também, aos poucos, inculcando essa mesma culpa que o conduzirá a um processo sem retorno como se tratasse de uma necessidade imensa de expiar essa mesma culpa que, apesar de tudo, desconhece qual é. A dada momento diz Carminho "Quando me deu o livro, Francisco não desejava divertir-me. Queria ensinar-me a vida como viria a ser depois da ingenuidade. ‘O Processo’ era uma espécie de baptismo, um aviso à minha navegação solitária. E um presente para o resto dos meus aniversários." (p. 21) "Hoje, depois de ler tantos livros de Kafka e tanta coisa sobre ele, de reler ‘O Processo’, depois de levar uma vida inteira a invejar Milena Jesenská, assalta-me às vezes um calafrio: e se no dia em que me pediu para ler ‘O Processo’ o Francisco quisesse simplesmente lançar-me um feitiço? Os juízes e os seus retratos num sótão pesadélico? Foi essa a prova que me fez passar? Prova que ele, aliás, já tinha passado, renunciando a todo o poder menos àquele que o livraria do perigo: o pacto com a lei. Ignorar o guarda e aceitar o que está além da porta. A única maneira de escapar à inexorabilidade é submeter-se ao seu encanto. (…) Nenhum processo nasce para a felicidade, isso é garantido. O mais que pode é congelar numa preguiça semelhante à paz." (p. 30)
Estaria Francisco (ou simplesmente Franz) ciente das voltas que a busca incessante pela verdade através do funcionamento do sistema de justiça que se apresenta como um labirinto e por essa razão, através do presente (algo envenenado) de ‘O Processo’ a Carminho constituísse em si mesmo um alerta face ao fracasso iminente?
É precisamente esta ideia de fracasso iminente da justiça que conduz Franz a abandonar o barco em termos profissionais partindo à procura de si mesmo e do sentido de justiça pelo mundo fora.
Por outro lado, é a própria experiência profissional de Carminho que ao fim de vários anos a faz regressar ao perturbador ‘O Processo’. "E pronto, aconteceu, saltei para dentro d’"O Processo", onde Franz me esperava. Bem-vinda, disse-me, talvez com ironia. Continuou a cativar-me pela vida fora, arranjando sempre forma de me escapar. Tal como Francisco, que me escrevia de sítios inimagináveis, para logo a seguir desaparecer do mapa. A busca de Franz tornou-se o enredo da minha vida." (p. 33)
Assim, a busca incessante de Franz equipara-se em certa medida à busca do sentido da justiça, apresentando-se, em ambos os casos, como um verdadeiro labirinto onde "a verdade não se pode ocultar nem exibir." (p. 108)
Esta dialética "O Processo" / procura de Franz conduz Carminho à tomada de consciência de que seria ela própria Josef K., em que "o destinatário da ameaça, no livro, confundia-se" com a própria Carminho. (p. 109)
E até que ponto esta procura de Franz, vulgo identificação com Josef K., não torna também cada leitor num Josef K.? Não seremos todos também Josef K.,de uma forma ou de outra?
De que forma é que os sucessivos périplos de Carminho por vários pontos do globo à procura de Franz não tem que ver com a busca e a compreensão de si própria num mundo que se apresenta em si mesmo como um labirinto?
Conseguirá Carminho (re)encontrar Franz em locais tão distantes e tão diferentes como Trogir, Berlim, Nápoles ou até Luanda? Conseguirá Carminho encontrar Franz através do olhar daqueles que conheceram Franz? Terão essas pessoas os olhos de Franz? Serão esses a descendência de Franz e daí Carminho encontrar Franz em cada vida à sua volta?
São inúmeras as questões que podem ser levantadas em "Os Filhos de K.", tantas quantas quisermos e em que direções pretendemos, mas são essencialmente as questões de teor ético e ontológico as que mais me impressionaram na obra. A dialética entre a consciência do eu e o sentido de dever através do cumprimento da justiça que tantas vezes se apresenta num misto de "é-não é" ocupa uma parte significativa da obra. "Acendemos candeias, premimos furiosos botões, calcorreamos séculos, engolimos em seco, damos o peito aos impropérios e, no final, não há outro remédio senão satisfazermo-nos com uma centelha aqui, outra acolá. (…) A distância entre o que fomos ao longo dessa caminhada (…) e o que pudemos vislumbrar no final é imensa e raquítica." (p. 108)
Num ritmo próprio e deveras peculiar, "Os Filhos de K." é um livro que para além das questões que levanta, permite-nos, em certa medida, viajar no tempo, regressando assim ao início dos anos 80 em que a liberdade ainda era entendida como uma conquista que então se saboreava a cada momento e movimento, numa Lisboa que hoje já pouco se encontra ou reconhece e cujos sonhos quase rebentavam como os balões das crianças como que a pretenderem dizer "Acordem!".
Texto da autoria de Jorge Navarro
Trata-se de um livro com uma estrutura original, contada a três vozes (Carminho, Francisco e Carlito) reservando espaço ao leitor que tecerá os fios desenrolados pelos outros narradores com o objetivo de um (re)encontro final.
Partindo do acidente de Camarate no dia 5 de dezembro de 1980 que parou por completo o país numa época em que gozava os prazeres da liberdade, fruto da ainda jovem democracia, Carminho, Jacinto, Rui e Francisco, estudantes de Direito, apropriam-se dos acontecimentos com os olhos da juventude de uma época que ambicionava o futuro a seus pés e que ao concluírem as licenciaturas nada haveria que os fizesse parar a justiça. O futuro risonho do país dependia em certa medida do desempenho feliz dos jovens desta geração, detentora de plenos direitos, da liberdade, e conhecedora das leis vigentes.
Quão nobres são os sonhos dos jovens que almejam um futuro auspicioso para si e para o seu país! Sonhos e ideais são o que move o mundo e estes jovens acreditavam na sua capacidade de transformar tudo à sua volta! Eram a esperança renovada da geração anterior amarrada pelos bafos de uma longa ditadura que, durante mais de meio século, pintalgou todo um país de cinzento.
A par deste sentido de justiça e de idealizar (de alguma forma) todo um tecido social, Carminho, uma das personagens centrais do romance, recebe como presente "O Processo", o clássico de Franz Kafka, oferecido pelo seu amigo e colega Francisco, mais tarde rebatizado por Franz. Quem é que saiu ileso com a leitura de "O Processo"? Trata-se de um livro tortuoso, tão ao estilo de Kafka que nos mói e espezinha pelo seu caráter, neste caso em concreto, perverso, tão perverso como o início desse (outro) livro em que Josef K. é preso no dia do seu trigésimo aniversário sem que saiba (nem o próprio) exatamente qual o motivo da acusação. Não deixa de ser curioso que ao longo da obra, Josef K. vai também, aos poucos, inculcando essa mesma culpa que o conduzirá a um processo sem retorno como se tratasse de uma necessidade imensa de expiar essa mesma culpa que, apesar de tudo, desconhece qual é. A dada momento diz Carminho "Quando me deu o livro, Francisco não desejava divertir-me. Queria ensinar-me a vida como viria a ser depois da ingenuidade. ‘O Processo’ era uma espécie de baptismo, um aviso à minha navegação solitária. E um presente para o resto dos meus aniversários." (p. 21) "Hoje, depois de ler tantos livros de Kafka e tanta coisa sobre ele, de reler ‘O Processo’, depois de levar uma vida inteira a invejar Milena Jesenská, assalta-me às vezes um calafrio: e se no dia em que me pediu para ler ‘O Processo’ o Francisco quisesse simplesmente lançar-me um feitiço? Os juízes e os seus retratos num sótão pesadélico? Foi essa a prova que me fez passar? Prova que ele, aliás, já tinha passado, renunciando a todo o poder menos àquele que o livraria do perigo: o pacto com a lei. Ignorar o guarda e aceitar o que está além da porta. A única maneira de escapar à inexorabilidade é submeter-se ao seu encanto. (…) Nenhum processo nasce para a felicidade, isso é garantido. O mais que pode é congelar numa preguiça semelhante à paz." (p. 30)
Estaria Francisco (ou simplesmente Franz) ciente das voltas que a busca incessante pela verdade através do funcionamento do sistema de justiça que se apresenta como um labirinto e por essa razão, através do presente (algo envenenado) de ‘O Processo’ a Carminho constituísse em si mesmo um alerta face ao fracasso iminente?
É precisamente esta ideia de fracasso iminente da justiça que conduz Franz a abandonar o barco em termos profissionais partindo à procura de si mesmo e do sentido de justiça pelo mundo fora.
Por outro lado, é a própria experiência profissional de Carminho que ao fim de vários anos a faz regressar ao perturbador ‘O Processo’. "E pronto, aconteceu, saltei para dentro d’"O Processo", onde Franz me esperava. Bem-vinda, disse-me, talvez com ironia. Continuou a cativar-me pela vida fora, arranjando sempre forma de me escapar. Tal como Francisco, que me escrevia de sítios inimagináveis, para logo a seguir desaparecer do mapa. A busca de Franz tornou-se o enredo da minha vida." (p. 33)
Assim, a busca incessante de Franz equipara-se em certa medida à busca do sentido da justiça, apresentando-se, em ambos os casos, como um verdadeiro labirinto onde "a verdade não se pode ocultar nem exibir." (p. 108)
Esta dialética "O Processo" / procura de Franz conduz Carminho à tomada de consciência de que seria ela própria Josef K., em que "o destinatário da ameaça, no livro, confundia-se" com a própria Carminho. (p. 109)
E até que ponto esta procura de Franz, vulgo identificação com Josef K., não torna também cada leitor num Josef K.? Não seremos todos também Josef K.,de uma forma ou de outra?
De que forma é que os sucessivos périplos de Carminho por vários pontos do globo à procura de Franz não tem que ver com a busca e a compreensão de si própria num mundo que se apresenta em si mesmo como um labirinto?
Conseguirá Carminho (re)encontrar Franz em locais tão distantes e tão diferentes como Trogir, Berlim, Nápoles ou até Luanda? Conseguirá Carminho encontrar Franz através do olhar daqueles que conheceram Franz? Terão essas pessoas os olhos de Franz? Serão esses a descendência de Franz e daí Carminho encontrar Franz em cada vida à sua volta?
São inúmeras as questões que podem ser levantadas em "Os Filhos de K.", tantas quantas quisermos e em que direções pretendemos, mas são essencialmente as questões de teor ético e ontológico as que mais me impressionaram na obra. A dialética entre a consciência do eu e o sentido de dever através do cumprimento da justiça que tantas vezes se apresenta num misto de "é-não é" ocupa uma parte significativa da obra. "Acendemos candeias, premimos furiosos botões, calcorreamos séculos, engolimos em seco, damos o peito aos impropérios e, no final, não há outro remédio senão satisfazermo-nos com uma centelha aqui, outra acolá. (…) A distância entre o que fomos ao longo dessa caminhada (…) e o que pudemos vislumbrar no final é imensa e raquítica." (p. 108)
Num ritmo próprio e deveras peculiar, "Os Filhos de K." é um livro que para além das questões que levanta, permite-nos, em certa medida, viajar no tempo, regressando assim ao início dos anos 80 em que a liberdade ainda era entendida como uma conquista que então se saboreava a cada momento e movimento, numa Lisboa que hoje já pouco se encontra ou reconhece e cujos sonhos quase rebentavam como os balões das crianças como que a pretenderem dizer "Acordem!".
Texto da autoria de Jorge Navarro
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Resultado do Passatempo: A Espia do Oriente
Embora tardiamente, anunciamos agora o resultado do ultimo passatempo aqui no blogue que sorteava o último livro de Nuno Nepomuceno, A Espia do Oriente.
Dos 238 participantes foi escolhido o n* 83 que corresponde a:
- Carolina Mónica Marques do Entroncamento
Muitos parabéns! O autor irá enviar-te em breve o seu livro. Espero que aprecies a sua leitura.
terça-feira, 2 de junho de 2015
A convidada Escolhe: "Eva Luna"
"Eva Luna", Isabel Allende, 1987
Para alguém que aprecia e já leu muitos livros desta autora, acrescido do facto de que "Eva Luna" era um livro que há muito me tinha sido aconselhado por uma pessoa cujas apreciações tenho em consideração, posso dizer que este livro de Isabel Allende é porventura um daqueles que menos apreciei.
Achei-o pouco consistente, ligeiro, com uma estrutura fluida e superficial e, embora tenha ainda para ler "Contos de Eva Luna", sequência natural de "Eva Luna", certamente muitos outros livros que aguardam a sua vez de ser lidos terão prioridade sobre ele.
Eva é uma contadora de histórias, tal como Isabel Allende. Sobrevive e vence as dificuldades de uma vida errante e cheia de peripécias pela sua capacidade de efabular. Aprendeu isso com a mãe – Consuelo – uma mulher silenciosa, invisível, que tinha um prazer especial pela leitura e que quando contava histórias fazia "verdadeira magia". Embora habitando um espaço limitado, restringido à casa, ela capta todo aquele mundo sensorial feito de cheiros e imagens e carregado de fantasia e magia. Eva vai ter diversas experiências, conhecer inúmeras personagens e vai levar essa "bagagem" para recriar histórias e para passar pelo mundo, muitas vezes alheada e à margem do que vai acontecendo. Para contextualizar na época as vivências de Eva Luna, a autora tem a preocupação de ir aludindo a momentos marcantes da história da humanidade a partir dos anos 30 do século passado: as referências à Europa da 2ª grande guerra, as viagens espaciais e a cadela Laica como protagonista dessa aventura humana, a revolução cubana, o Che, a primavera de Praga, o fim da guerra do Vietname… Há também uma crítica aos regimes ditatoriais dos velhos caudilhos, dos Benfeitores, dos Amos da Pátria, dos Presidentes Vitalícios, substituídos por "democracias". Quando o poder cai na rua, a oligarquia financeira rapidamente se restabelece e de novo assume o poder. Antigos delatores e carrascos rapidamente passam por uma reconversão e integram-se na sociedade. Entretanto, os povos das regiões remotas e isoladas – referência aos Andes – continuam fora da realidade e para eles nada de novo acontece e nenhumas mudanças efectivas ocorrem nas suas vidas. Isabel Allende mantém-se fiel à sua leitura crítica sobre o poder e sobre a evolução política das sociedades.
Alguns temas presentes neste livro de Isabel Allende, para além de uma sensualidade e erotismo em que a autora é mestra no uso das palavras, a sua abordagem da transexualidade, a propósito de uma das personagens com que Eva se relaciona. Também a sua relação com a guerrilha – Huberto Naranjo – e com um fotófrafo que filma os guerrilheiros – Rolf Carlé – é motivo para uma série de considerações sobre a postura dos revolucionários e guerrilheiros que sublimam qualquer dor e sofrimento em nome do ideal revolucionário, tornando-se como que máquinas. Como feminista assumida que é, as suas personagens femininas são também ensejo para considerações que lançam o foco sobre as diferentes discriminações a que as mulheres são sujeitas e, no caso das que abraçam a revolução, encaradas como subalternas, contribuindo para a luta, mas excluídas das decisões e do poder.
Embora esta seja, quanto a mim, uma obra menos interessante de Isabel Allende, acho que estes aspectos a que acima aludi são uma marca importante da escrita desta autora da América Latina.
Almerinda Bento
Para alguém que aprecia e já leu muitos livros desta autora, acrescido do facto de que "Eva Luna" era um livro que há muito me tinha sido aconselhado por uma pessoa cujas apreciações tenho em consideração, posso dizer que este livro de Isabel Allende é porventura um daqueles que menos apreciei.
Achei-o pouco consistente, ligeiro, com uma estrutura fluida e superficial e, embora tenha ainda para ler "Contos de Eva Luna", sequência natural de "Eva Luna", certamente muitos outros livros que aguardam a sua vez de ser lidos terão prioridade sobre ele.
Eva é uma contadora de histórias, tal como Isabel Allende. Sobrevive e vence as dificuldades de uma vida errante e cheia de peripécias pela sua capacidade de efabular. Aprendeu isso com a mãe – Consuelo – uma mulher silenciosa, invisível, que tinha um prazer especial pela leitura e que quando contava histórias fazia "verdadeira magia". Embora habitando um espaço limitado, restringido à casa, ela capta todo aquele mundo sensorial feito de cheiros e imagens e carregado de fantasia e magia. Eva vai ter diversas experiências, conhecer inúmeras personagens e vai levar essa "bagagem" para recriar histórias e para passar pelo mundo, muitas vezes alheada e à margem do que vai acontecendo. Para contextualizar na época as vivências de Eva Luna, a autora tem a preocupação de ir aludindo a momentos marcantes da história da humanidade a partir dos anos 30 do século passado: as referências à Europa da 2ª grande guerra, as viagens espaciais e a cadela Laica como protagonista dessa aventura humana, a revolução cubana, o Che, a primavera de Praga, o fim da guerra do Vietname… Há também uma crítica aos regimes ditatoriais dos velhos caudilhos, dos Benfeitores, dos Amos da Pátria, dos Presidentes Vitalícios, substituídos por "democracias". Quando o poder cai na rua, a oligarquia financeira rapidamente se restabelece e de novo assume o poder. Antigos delatores e carrascos rapidamente passam por uma reconversão e integram-se na sociedade. Entretanto, os povos das regiões remotas e isoladas – referência aos Andes – continuam fora da realidade e para eles nada de novo acontece e nenhumas mudanças efectivas ocorrem nas suas vidas. Isabel Allende mantém-se fiel à sua leitura crítica sobre o poder e sobre a evolução política das sociedades.
Alguns temas presentes neste livro de Isabel Allende, para além de uma sensualidade e erotismo em que a autora é mestra no uso das palavras, a sua abordagem da transexualidade, a propósito de uma das personagens com que Eva se relaciona. Também a sua relação com a guerrilha – Huberto Naranjo – e com um fotófrafo que filma os guerrilheiros – Rolf Carlé – é motivo para uma série de considerações sobre a postura dos revolucionários e guerrilheiros que sublimam qualquer dor e sofrimento em nome do ideal revolucionário, tornando-se como que máquinas. Como feminista assumida que é, as suas personagens femininas são também ensejo para considerações que lançam o foco sobre as diferentes discriminações a que as mulheres são sujeitas e, no caso das que abraçam a revolução, encaradas como subalternas, contribuindo para a luta, mas excluídas das decisões e do poder.
Embora esta seja, quanto a mim, uma obra menos interessante de Isabel Allende, acho que estes aspectos a que acima aludi são uma marca importante da escrita desta autora da América Latina.
Almerinda Bento
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