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quarta-feira, 18 de março de 2026

"Como Animais" de Violaine Bérot

Há livros que nos tocam mais profundamente. Este foi um deles. É bom que nada leiam dele, como fiz, para serem surpreendidos como eu fui. Como tal tentarei nada revelar mas, ao mesmo tempo, explicar-vos como esta leitura foi especial para mim.

Foi a forma como a autora conseguiu contar esta história sem a ela se referir concretamente. Testemunhos captados de várias pessoas sobre certo assunto, sem que percebamos com quem elas estão a falar. Respondem a questões que lhes são colocadas e, assim, a história vai-se fazendo e compondo. Diversas percepções sobre um mesmo acontecimento.

É uma novela breve que se lê num ápice e o leitor vai compondo a história como um puzzle.

Fala-nos de como as pessoas que não correspondem ao "normal" podem ser estigmatizadas durante a sua vida, como podem ser mal compreendidas, fala-nos de preconceitos e lendas tributo de uma aldeia isolada. Preconceitos face à diferença, violência institucional, julgamentos sociais mas também sobre empatia e sensibilidade (visível em algumas personagens).

Gostei muito. Na verdade, adorei! Surpreendeu-me sobretudo como a história é contada, o que é dito por meias palavras, o que o leitor subentende...

Terminado em 28 de Janeiro de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse
COMO ANIMAIS (2021), novela breve e magnética, emerge dos depoimentos dos habitantes de uma aldeia isolada nos Pirenéus, quando uma criança desconhecida é avistada numa gruta e a suspeição se abate sobre um deles, reavivando antigas lendas e mistérios. Desta polifonia se tece um conto da montanha, forte e ambicioso, sobre o direito à diferença, que revisita o tema da criança selvagem.

Um livro que se lê de um só fôlego e nos deixa uma duradoura pergunta: quando os que vivem pacificamente à margem da sociedade esbarram na incompreensão de um mundo cada vez mais desumano e alheado da natureza, quem são afinal os animais?

Cris

terça-feira, 17 de março de 2026

A convidada escolhe: "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”

“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” -Tiago Rodrigues, 2024

O título é suficientemente polémico, para se desejar ver a peça em palco, mas conseguir arranjar bilhetes antes que todas as sessões se esgotem? Li o texto dramatúrgico, li o extraordinário posfácio da autoria de Gonçalo Frota e voltei de novo ao texto, para o ler desta vez com mais atenção aos detalhes  sobre que se debruça o posfácio. 

Que grande texto de Tiago Rodrigues, que peça perturbadora e tão polémica esta “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.  Começado a ser construído a partir da ideia de uma família que se reúne anualmente para vingar a morte de Catarina Eufémia, símbolo das mortes de todas as mulheres, ainda com os ecos dos protestos das feministas pelo absurdo do acórdão do juiz Neto Moura que se baseia em citações da Bíblia e no Código Penal de 1886, a eleição do primeiro deputado do Chega em Outubro de 2019 foi o gatilho para o texto cuja apresentação pública estava prevista para meados de 2020. A leitura do posfácio ajuda-nos, leigos, a perceber a complexidade do trabalho de criação de texto e de montagem duma peça teatral, do método de trabalho de Tiago Rodrigues até ao momento da apresentação da peça ao público. Atento ao que se passa no mundo, sensível às ideias e propostas dos actores, rodeando-se de uma equipa que vai de historiadores, a músicos, a estilistas, bailarinos, há todo um trabalho colectivo de criação aberto a alterações e mudanças que podem ser radicalmente diferentes da ideia original. Quando a equipa de actores partiu para a residência artística em Motemor-o-Novo, na primeira semana de Março de 2020, estava longe de imaginar que a pandemia iria alterar definitivamente todo o calendário de trabalho previsto inicialmente. No entanto, em Montemor-o-Novo, o trabalho colectivo, as conversas informais, as ideias individuais, os momentos de lazer, tudo isso foi o combustível que permitiu criar um texto dramatúrgico praticamente finalizado. Com a entrada em cena da pandemia, a interdição de ensaios presenciais trouxe a frustração do trabalho à distância, em tudo contrário à dinâmica criada por Tiago Rodrigues. 

Eram muitas as dúvidas que se colocavam quando se fizeram os primeiros ensaios em Junho de 2020. “A pandemia roubou-nos a confiança de imaginarmos o futuro” (p. 181). A peça foi à cena pela primeira vez em Dezembro de 2020 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, seguindo depois para o Centro Cultural de Belém em Lisboa. A peça situa-se em 2028, no sul de Portugal, com um governo fascista. Em palco, encontra-se reunida a família descendente de uma ceifeira companheira de Catarina Eufémia que há 75 anos deixou uma carta como herança para a família, para que nunca cale a injustiça onde confessa: “Hoje matei um homem. Não o matei pelo mal que me fez, embora estivesse no meu direito. Matei-o pelo bem que não fez” (p. 42). Todas as personagens se chamam Catarina, excepto o fascista também em cena, o ideólogo do partido de extrema direita, raptado para ser morto por uma das mulheres da família. 

É uma peça que nos perturba. O que está ali em jogo: justiça ou vingança? Vale a pena continuar a apostar em eleições, em manifestações, em petições, ou a resposta ao ascenso do extremismo fascista tem de se combater com acções radicais? “Deve ou não dar-se a palavra a alguém que discursa contra o edifício democrático? Deve aceitar-se que tenha palco, que use a liberdade para falar sem censura ou, pelo contrário, ser silenciado?” (p. 222)

Se o texto é extremamente forte pelas questões que coloca, pelo carácter quase premonitório de um futuro governo liderado por fascistas, também alerta para os alçapões e fragilidades do sistema democrático que deram azo a que a desconfiança, o ressentimento e a raiva medrassem e dessem espaço ao discurso sedutor, simplista, manipulador e perigoso da extrema-direita. 

27 de Fevereiro de 2026 

Almerinda Bento 

segunda-feira, 16 de março de 2026

"O Mel Sem Abelhas" de Judite Canha Fernandes

Depois de ter ouvido falar muito bem desta obra, peguei nela com bastantes expectativas. Creio não ter lido ainda nada desta autora e estava bem na hora de o fazer.  O título tem a ver com uma expressão antiga que se refere à cana de açucar como os juncos que produzem mel sem abelhas, o que ignorava por completo. E gostei desse pormenor que desconhecia.

A narrativa é feita na primeira pessoa através de Marta, uma jovem raptada em Angola e feita escrava, levada a trabalhar na Ilha da Madeira, numa plantação de cana de açúcar. Com momentos muito explícitos de violência que impressionam o leitor, este livro é forte, cru e intenso nas descrições numa escrita sem cedências, facto que apreciei sobremaneira. Não custa ao leitor visualizar as situações extremas descritas e que, certamente, reproduzem com clareza os anos em que a Madeira foi palco de escravatura, ligada às plantações de açúcar, sobretudo entre os sec XV e XVI, segundo apurei.

Gostei especialmente do final. Uma forma perfeita de acabar uma história ficcionada baseada em factos reais. Uma forma inteligente de acabar uma história que não poderia ter um final feliz porque não traduziria verdadeiramente o passado.

Terminado em 20 de Janeiro de 2026

Estrelas: 5*

Sinopse

O Mel sem Abelhas, o mais recente romance de Judite Canha Fernandes, vencedora do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2018 com Um Passo Para Sul, é uma ficção histórica centrada na cultura da cana do açúcar na ilha da Madeira.

O seu título nasceu da expressão «Juncos que produzem mel sem abelhas», utilizada para designar a cana-de-açúcar, quando a encontraram pela primeira vez Índia, cerca do século v a. C.

A novela descreve a história de Marta, que chega à cidade do Funchal vinda de Angola no decorrer do século XVI, para trabalhar como escrava na cultura da cana.

Com o olhar do medo, acompanhado pelo fascínio do novo que se lhe apresenta na ilha, vê-se na necessidade de encontrar na cidade do Funchal alguma forma de abrigo e, simultaneamente, inventar um modo de voltar a casa.

Fruto de uma exaustiva investigação histórica e da afirmação de um talento literário singular já anunciado no seu primeiro romance, Judite Canha Fernandes traça a história da escravatura portuguesa e da sociedade colonial madeirense do século XVI açucareiro através voz de uma mulher escravizada, num romance profundamente original que é também um fresco de uma época e de uma condição social.

Cris

terça-feira, 10 de março de 2026

A Convidada escolhe: "Gaza está em toda a parte"

“Gaza está em toda a parte” – Alexandra Lucas Coelho, 2025

Conhecia Alexandra Lucas Coelho de ler no jornal “Público” as suas crónicas sobre o Brasil e Jerusalém, e também duma série que passou na televisão sobre livros, com um nome sugestivo “Volta ao Mundo em Cem Livros”. No entanto, nunca tinha lido nenhum livro escrito por ela e este ano não resisti na Feira do Livro de Lisboa a comprar o seu mais recente “Gaza Está em Toda a Parte”. 

É uma colectânea de textos com a força do conhecimento da realidade palestina, ligada ao seu vínculo afectivo e político com aquele povo. Constituída por crónicas e reportagens já publicadas, tem ainda alguns textos inéditos e um conjunto valioso de fotografias captadas antes e depois do 7 de Outubro. Embora a maior parte do livro seja formado por crónicas e reportagens sobre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia depois do 7 de Outubro, a introdução é um trabalho jornalístico publicado na revista Visão História de Julho de 2017, que corresponde à última vez que Alexandra Lucas Coelho esteve em Gaza (Maio de 2017). Através da reportagem então feita, a autora mostra que as dificuldades para a vida daquele povo não começaram com o 7 de Outubro.  Experienciou ela própria ao entrar na Faixa de Gaza, por Erez no norte, quer pelos check points montados por Israel quer pelo Hamas, que compara ao “… cenário de uma distopia altamente militarizada” (pág. 15). “Gaza é uma prisão” (pág. 33) e isso reflecte-se na saúde física e mental da população, maioritariamente jovem, sem emprego, sem futuro, com elevados níveis de suicídio. Desemprego, escassez de água, frequentes cortes de electricidade, na altura, para dois milhões de habitantes, apenas dois psiquiatras! Apesar de a Faixa de Gaza se estender ao longo de 40 quilómetros junto ao Mar Mediterrâneo, os pescadores apenas podem pescar até 6 milhas, sujeitos a ser abatidos pela armada israelita, caso ultrapassem esse limite.

Uma prisão, um gueto, uma ratoeira, um campo de concentração que passou a campo de extermínio depois de 7 de Outubro. A Nakba de 1948 que nunca deixou de existir, que obrigou milhões de palestinianos a viver como refugiados na Síria, no Líbano, no Egipto e um pouco por todo o mundo ao longo dos últimos 75 anos, intensificou-se com o 7 de Outubro. Impossibilitada de poder ir ao terreno para fazer o seu trabalho como jornalista, Alexandra Lucas Coelho contextualiza a situação através de crónicas entre Outubro e Novembro de 2023. Atónitos com a destruição que se vai vendo através da comunicação social e pelas redes sociais, o tempo corre enquanto assistimos às mortes e à destruição ao vivo, sem que o mundo dito dos direitos humanos, o mundo “ocidental” mexa uma palha. Guterres passou a persona non grata quando levantou a voz contra Netanyahu e disse que “… o 7 de Outubro não aconteceu no vazio”. A Europa, refém da culpa do holocausto, é incapaz de denunciar o governo de Israel pelos bombardeamentos, destruição maciça e deslocação forçada das populações para sul da faixa de Gaza. Netanyahu utiliza a experiência do holocausto sobre os judeus na 2ª Guerra Mundial como arma de arremesso e chama antissemita a qualquer um que se oponha à política de extermínio que o seu governo de extrema direita está a impor ao povo de Gaza, para além das incursões dos colonos israelitas no território da Cisjordânia. Ao contrário da cobardia dos governantes europeus, os povos começam a manifestar-se nas ruas para dizer que a Palestina tem direito a ser livre. Numa troca de mensagens com W., o amigo palestino de Alexandra, ele pedira-lhe que contasse o que se estava a passar em Gaza, ciente do poder da solidariedade e da força das ruas. 

Alexandra Lucas Coelho traz ao longo do livro inúmeros nomes e exemplos de heroicidade num tempo de desumanidade e horror. O médico de Al-Shifa que se recusou a deixar o hospital e a abandonar os doentes à sua sorte; o herói e líder nacional Marwan Barghouti, preso desde 2002 e condenado a prisão perpétua; os milhares de jovens e crianças presos arbitrariamente nas prisões israelitas e sujeitos a torturas atrozes; Ahmed Tobasi e o seu Freedom Theatre que faz do teatro a sua forma de resistência; os Tamimi e os habitantes duma pequena aldeia da Cisjordânia empenhados em defender a sua água e a câmara que Bilal usou para documentar e levar ao mundo através do canal de You Tube as incursões dos buldozers israelitas; as consequências de se ser objector de consciência e recusar o serviço militar obrigatório como é o caso da jovem israelita Sofia Orr, presa por ser considerada traidora. Embora sejam uma ínfima minoria os israelitas que defendam abertamente os direitos humanos ou que sejam antimilitaristas, a maioria, mesmo criticando Netanyahu, apenas lutam pelo regresso dos reféns na posse do Hamas, mas não têm uma postura de defesa dos direitos humanos do povo palestino. 

Entre Dezembro de 2023 e Janeiro de 2024 Alexandra Lucas Coelho esteve na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e Israel onde fez reportagens e tirou fotografias que constituem a segunda parte do livro. Documentou as dificuldades do quotidiano dos refugiados em Jenin, a “Pequena Gaza”, a constante presença dos drones israelitas e a arrogância dos colonos a expulsar os palestinos do seu território. A autora testemunhou em Belém o “Natal mais triste de sempre”, sem turistas, apenas com jornalistas e correspondentes, em que a artista Rana Bishara colocou uma incubadora com Jesus morto pelas bombas israelitas no exterior da Basílica da Natividade, para lembrar as crianças mortas que o mundo não quer ver. E em Telavive a praça mais triste de Israel com uma mesa vazia posta à espera dos reféns ainda na posse do Hamas e o piano de um dos reféns presos. Na altura já estavam contabilizados 79 jornalistas palestinianos mortos na Faixa de Gaza, um número imenso, tendo em conta que desde o 7 de Outubro nunca mais tinha sido possível a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza.

A terceira parte do livro é constituída por crónicas escritas entre Janeiro de 2024 e Março de 2025, altura em que “Gaza Está em Toda a Parte” vai para a gráfica. Longos meses em que a situação se agrava para os palestinos em Gaza e na Cisjordânia. A UNRWA agência para os refugiados palestinianos criada pela ONU em 1949 e que era um apoio indispensável para muitos palestinianos é extinta. A ajuda externa é impedida e a fome, a doença e a subnutrição de toda uma população chegam-nos diariamente pelos telejornais. A 2 de Fevereiro, na última mensagem de W. para a autora, ele escreve: “O meu povo hospitaleiro e decente tornou-se mendigo ou ladrão. Fomos privados de tudo, até da nossa humanidade”. (pág. 384). E R. o intérprete que Alexandra conhecera em 2017 usa a palavra ““pedintes” entre aspas, como se nem suportasse outra forma.” (pág. 384) Vozes fortes como a de Guterres e de Lula, Francesca Albanese ou Jorge Borrell, governos que se destacam como o de Espanha ou da Irlanda quebram o silêncio da maioria dos governantes da União Europeia subjugados à desumanidade do governo sionista de Netanyahu. A repressão sobre jovens manifestantes universitários nos EUA, em França e na Alemanha faz emergir cada vez de forma mais clara uma geração de jovens que se mobilizam pela defesa do futuro do planeta e pela defesa da paz no mundo. Apesar de o peso da direita e da extrema direita se acentuar em Israel e de os pró-Palestina serem uma ínfima minoria, a mais importante associação de direitos humanos israelita divulga um relatório arrasador com relatos de torturas a mando da dupla Ben-Gvir/Smotrich, para quem os palestinos não são gente, tal como para os nazis os judeus eram untermensch. Igualmente, Lee Mordechai, um historiador israelita documentou no relatório Bearing Witness to the Israel-Gaza War informação factual sobre o que se passa em Gaza. “Considera o ataque do Hamas e outros grupos a 7 de Outubro uma atrocidade. Tal como considera a resposta de Israel um genocídio, e no fim explica porquê.”  (pág. 489)

Nos EUA, Biden e Kamala Harris preparam as eleições e ignoram Gaza, não usam sequer os seus discursos para dar voz e denunciar o genocídio. A hipocrisia é tal que ao mesmo tempo que se fala em cessar fogo se enviam milhões em armamento para Israel. E tudo piorou ainda mais com a eleição de Trump. Na noite em que se anuncia o cessar fogo (Janeiro de 2025) são mortos 81 palestinianos. Tal como hoje, no final do ano de 2025, tenta-se normalizar o genocídio, como bem disse a Relatora Especial da ONU Francesca Albanese. Somos confrontados diariamente com projectos e discursos obscenos sobre o futuro da faixa de Gaza, como a dita Riviera do Médio Oriente. Há muitos anos Hannah Arendt afirmou que “a morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie”. 

Estou a escrever este breve texto sobre um livro imperdível, ao mesmo tempo que no meu computador surgem mensagens com votos de um Feliz Ano Novo. É com pessimismo que prevejo os acontecimentos de 2026, mas tento reter as palavras de Alexandra Lucas Coelho : “Mas o pessimismo é um luxo, os palestinianos não se dão a ele. Estão ocupados a tentar não morrer.” (pág. 474)

28 de Dezembro de 2025 

Almerinda Bento

segunda-feira, 9 de março de 2026

"Hamnet" de Maggie O'Farrell

Tenho livros muito bons, creio eu, por ler e às vezes é só necessário um pequeno impulso para pegar neles. Foi o caso deste livro! Recebi um convite para ver a ante-estreia e, como prefiro ler primeiro o livro e ver depois o filme nele baseado, peguei de imediato e comecei a ler.

Que boa que foi esta leitura! Baseando-se na morte do filho de Shakespeare aos 11 anos (provavelmente vítima da peste bubónica) e da qual pouco se sabe, a autora elaborou um romance tendo como foco, sobretudo, uma personagem feminina forte, determinada, com um quê de rebeldia, não muito compreendida pelos habitantes de Stratford-upon-Avon dado a sua ligação à natureza e a um certo misticismo: a mãe do filho falecido, Agnes. Note-se que Shakespeare nunca é mencionado como tal, é sempre referido como o pai, o marido, o filho... 

 Passado e presente intercalados nos finais do sec XVI, o luto, a perda e a memória e as suas repercussões no seio de uma família, personagens fortes, escrita rica, um romance que custa a largar.

Sei de opiniões diametralmente opostas a esta por isso experimentem e deixem-se conquistar. Digam alguma coisa se o lerem ou tiverem já lido. 

O filme está, a meu ver, muito bem "esgalhado". Bons actores, bons cenários. Quem tiver lido o livro antes, mais facilmente consegue identificar as situações e as personagens. 

Uma maravilha. Adorei!

Terminado em 14 de Janeiro de 2026

Estrelas: 6*

Sinopse 
Hamnet é um romance sobre o filho de Shakespeare. Mas esse é apenas o ponto de partida para Maggie O’Farrell construir uma obra actual, que interroga a origem da dor e envereda por caminhos menos conhecidos do amor e da maternidade. Numa narrativa que mistura realidade e ficção, a autora irlandesa cria uma das mais importantes obras literárias deste início do século XXI.

Cris


sábado, 7 de março de 2026

sexta-feira, 6 de março de 2026

A Convidada escolhe: “Anos de Brasa – Contos e outros Títulos”

“Anos de Brasa – Contos e outros Títulos” – Luís Farinha, 2025

Tal como diz o título, “Anos de Brasa – Contos e outros Escritos” é constituído por um conjunto de dez pequenos contos, seguido de textos sobre personagens marcantes da nossa história recente e com ligação ao período revolucionário do 25 de Abril. É um livro denso, muito abrangente no retrato da sociedade portuguesa no período do 25 de Abril, assim como no que o antecedeu e nos anos seguintes. Dá-nos a perspectiva da complexidade desse período único que a nossa geração viveu e protagonizou. Daí o interesse de o trazer a este público que na altura teria entre os vinte e os trinta anos, como memória, mas também como testemunho num tempo de recuo nos direitos que estamos actualmente a viver, lembrando-nos que os direitos conquistados têm de ser preservados pois a sua existência não é um dado adquirido. E se hoje, para os jovens, é com estranheza e até incredulidade que escutam relatos do que era a ditadura e a vida antes do 25 de Abril, “Anos de Brasa” é um testemunho real a necessitar de ser divulgado 

Como se lê no prefácio de Maria Helena Ventura, o 25 de Abril de 74 foi “O confronto quase mítico dos oprimidos com o nada … e o quase tudo, na abertura de múltiplas perspectivas de futuro, … no desesperado anseio de bens essenciais por um proletariado exausto, contra a negação dos que temiam perder privilégios e se agarravam a um passado de 48 anos.”  E acrescenta que o “… povo que, não sendo uma massa homogénea, estava irmanado no despojamento de condições básicas de vida. E de repente, como se levantado do chão pelos braços dos mais fortes, afagava a decisão de obter iguais liberdades para a sua diversidade,” (pág. 7). O desafio era imenso: mudar a vida, mudar mentalidades e lutar contra os saudosistas, sem contar com o receio de represálias que se tinha incrustado ao longo de 48 anos de repressão e medo.  A energia que irrompeu, nunca antes vista, fez nascer uma coragem colectiva, um criar laços, um transformar os sonhos em realidade, não sem contradições, que constituíram esses “anos de brasa” que aqui nos traz Luís Farinha. 

Num tempo em que o analfabetismo em Portugal era uma vergonha, sobretudo entre as mulheres e nos campos, foram as jornadas de alfabetização as primeiras acções que levaram centenas de jovens por esse país fora a descobrir esse mundo esquecido de tantas pessoas que só queriam saber escrever o seu nome para deixarem “a vergonha de ter o dedo no cartão de identidade” (pág. 20). O primeiro conto intitulado “Se tivesse durado mais algum tempo…”  mostra-nos quanto esses jovens – o “bando” – aprenderam (porventura mais do que ensinaram!) confrontando as suas teorias, os seus saberes académicos com a realidade, com a desconfiança, com os preconceitos e com o caciquismo viesse ele da igreja, ou de casa.  O grupo, sobretudo de alunas, “vinha à escola como se fosse dia de festa” com um objectivo muito prosaico: saber escrever o seu nome. “Ninguém estava ali para chegar de imediato às estrelas, talvez apenas para nascer com o dia e ver crescer na horta o fruto com que se dá de comer aos filhos.” (pág.25)

As revoluções, mesmo as que são feitas com cravos, são sempre momentos de profundas transformações e todos estes contos nos trazem essas memórias. O surgimento de partidos e organizações, antes na clandestinidade, trouxe ao de cima as diferenças ideológicas, o confronto entre grupos, estudantes e operários com as suas reivindicações, o radicalismo de quem esperou tanto tempo e agora queria tudo e já, o boicote e a sabotagem de quem não queria perder privilégios nem poder, a generosidade e o entusiasmo de quem queria mudar o mundo e o cepticismo de quem achava que “o mundo é feito de ricos e pobres.  Sempre foi assim e sempre será!” Nas revoluções, mesmo as que foram feitas com cravos, a luta de classes não deixa de existir. Antes fica mais acesa. 

“Casas sim! Barracas não!” quem não se lembra desta palavra de ordem? Tão actual nos dias de hoje, passados quase 52 anos de Abril. O direito à habitação como direito básico gera um movimento muito forte, com grande mobilização das mulheres, nas ocupações de casas devolutas. Também dessa altura, assiste-se à construção de casas da noite para o dia, só possível graças à solidariedade e entreajuda dos moradores, num tempo em que a força do povo conseguia mover montanhas e responder a necessidades básicas. Também aqui o associativismo através da constituição de Comissões de Moradores foi o impulso para enormes transformações ao nível das infraestruturas, acessíveis de forma assimétrica e muito rudimentar no todo nacional. Nas escolas, pela primeira vez, substituem-se os reitores, muitos coniventes com o antigo regime e experimenta-se a gestão democrática partilhada, enfrentando-se o gigantesco desafio de pensar a escola como bem público aberto a todas as crianças e jovens, independentemente das posses dos pais. Cometeram-se erros? Certamente, mas abriu-se a escola a todos e deram-se os passos essenciais para implantar a Escola Pública como uma das grandes conquistas que depois a Constituição inscreveu como direito fundamental. 

A luta estudantil que tinha começado a ter expressão com o eclodir da guerra colonial, intensificou-se com a morte de Salazar e com o marcelismo que, ao contrário do que era expectável, não só não diminuiu a repressão, como a aumentou. Luís Farinha traz em “Anos de Brasa” as incursões da polícia de choque nas universidades e o intensificar da resistência estudantil que lutando contra os bufos e a ausência de liberdade de expressão, se mobiliza abertamente contra a guerra colonial. As tertúlias de intelectuais oposicionistas, as salas míticas de cinema e os cineclubes, alguns poucos professores que se distinguiram na época como o Padre Manuel Antunes, as leituras censuradas e proibidas que eram partilhadas, a morte do estudante Ribeiro dos Santos, todo esse caldo fervia e um dia permitiu a adesão popular massiva que levou o Povo a aprender rapidamente a falar nas assembleias e decidir sobre os seu destino. 

Mas nada é linear e a história também não se faz sem sobressaltos, sem contradições, sem desilusões, sem cortes. O sonho da utopia e os caminhos para lá chegar eram diversos e desde cedo se percebeu que a alegria daquele 1º de Maio em que todo aquele mar de gente corria todo para o mesmo lado, não ia durar sempre. Para avançar na revolução era preciso acabar com privilégios, tirar o poder a quem sempre fora único dono e senhor. As nacionalizações e sobretudo a reforma agrária eram medidas demasiado avançadas para poderem resistir. Muitos problemas sociais subsistiram apesar das muitas leis que pela primeira vez deram direitos fundamentais a quem nunca os tinha vivido. Portugal abriu-se ao mundo, aderiu à CEE, acreditou que o fosso que nos separava do mundo iria diminuir. A queda do muro de Berlim e o fim da URSS constituiu para muitos o fim do tempo da utopia. Muitas certezas se desmoronam com a queda do muro, ao mesmo tempo que o individualismo vai paulatinamente substituir o espírito colectivo agregador que tinha irmanado tantos no sonho de um mundo mais igual e mais justo para todos. 

A segunda parte de “Anos de Brasa” traz aos leitores testemunhos de conversas entre o estudioso, o historiador Luís Farinha e importantes figuras com relevo na construção deste período revolucionário. Emídio Guerreiro, exilado durante 42 anos, que considerava que tinha tido uma segunda vida aos 75 anos quando ocorreu o 25 de Abril. Homem duma energia e têmpera notáveis morreu com 105 anos em 2005. Não deixava ninguém com dúvidas quando afirmava que nunca tinha sido do PSD, mas sim do PPD. 

António Borges Coelho com quem Luís Farinha fez um percurso enquanto aluno, enquanto parceiro nos corpos directivos do Museu do Aljube e enquanto parceiro na produção e divulgação da História em Revistas com o foco na memória da resistência. Homem vincadamente de esquerda, foi inovador em todos os campos a que dedicou a sua inteligência e conhecimento.

Álvaro Cunhal, personagem mítica, amado e odiado, que transformou a programada entrevista de meia hora em cinco horas de conversa. Afinal, aquele poço de sabedoria, o mítico secretário-geral era mesmo inacessível?

José Medeiros Ferreira que no 3º Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, em 1973, defendeu uma tese inovadora que um ano depois o MFA parecia decalcar. À teoria dos 3D como ficou conhecida – Democratizar, Descolonizar, Desenvolver – Medeiros Ferreira acrescentou - Socializar. Medeiros Ferreira ambicionava Portugal soberano, fora do controlo quer dos EUA quer da União Soviética. 

O livro de José Saramago “Levantado do Chão” e o excelente roteiro que foi concebido pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo para dar a conhecer essa obra merece destaque nos “Anos de Brasa”. E cito: “Roteiro também para os leitores de Saramago e para muitos outros que hão-de começar a sê-lo se perceberem que a literatura, a verdadeira literatura, não é um devaneio deleitoso para entretenimento de ociosos, mas antes uma leitura profunda da vida para compreender e transformar o mundo.” (pág. 176)

Termina Luís Farinha esta sua lição de história com a referência a Manuel Francisco Rodrigues, professor e tradutor, um pacifista, naturista, adepto do vegetarianismo, considerado pela polícia política um “perigoso anarquista”, preso em 1940 quando entrou em Portugal vindo de Espanha. Passou pelo Aljube e pelo Tarrafal. A singularidade das suas ideias e pensamento sempre foram difíceis de serem entendidos por quem com ele lidou, sendo frequentemente considerado lunático. Reabilitado em 1963, voltou a exercer a sua profissão docente em Chaves.

Termino mais uma vez agradecendo a Luís Farinha esta sua incursão na literatura, trazendo-nos este retrato dum tempo que mudou o rumo da nossa história recente e que marcou a nossa juventude.


28 de Janeiro de 2026 

Almerinda Bento


quinta-feira, 5 de março de 2026

"Vinte Anos de Manicómio" de Carmen de Figueiredo

Peguei neste livro para uma categoria de um desafio literário cujo mote seria ler alguma autora cujos
livros tivessem sido proíbidos. Confesso que a minha curiosidade estava ao rubro. O que conteria tal obra para ser proibida?

Tendo sido publicado em 1951/1952, foi proibida de circular em 30 Janeiro de 1952, através de um despacho da PIDE, a polícia política do Estado Novo. O motivo: continha conteúdos e descrições de sexualidade e de moralidade imprópria. 

O enredo é centrado na vida de uma família, mais propriamente de uma mulher (devassa, se considerarmos as normas sociais de então!) que, desde cedo, foge dos padrões sociais conservadores impostos sobretudo às mulheres. O adultério é um dos temas dominantes. 

Fica aqui um pequeno spoiler: o título pegou-me de surpresa porque depreendi (mal!) que, devido ao seu comportamento desviante a personagem principal teria sido internada à força, como era apanágio de então.

Um dado que achei muito interessante foi esta edição conter, logo na primeira página, a reprodução da carta escrita pelo director da PIDE, proibindo a circulação do livro e, também, uma informação sobre a ida do gerente da editora onde se escusava por ter publicado o livro, alegando que, tendo questionado a autora sobre o seu conteúdo, esta ter afirmado que nada de mal possuía. Foi logo avisado que se voltasse a publicar tais conteúdos a sua empresa seria fechada.

Fiquei curiosa em relação a outro livro da autora, "Famintos", que foi, de igual modo, proibido pelo antigo regime. De referir que Carmen de Figueiredo possui outras obras. Esquecer estas mulheres não devia fazer parte da nossa actualidade!

Terminado em 30 de Dezembro de 2025

Estrelas: 5*

Cris

quarta-feira, 4 de março de 2026

"Angola, Vidas Quebradas" de António Mateus

Este livro é uma obra de não ficção histórica em que o autor efetua uma investigação jornalística sobre uma caravana em fuga de civis, em Angola, obrigados a fugir aquando da sua independência.

Através de testemunhos diretos, o autor reconstrói essa fuga, reconstituindo o colapso social que se verificou e marcou o início da guerra civil que duraria mais de vinte anos (1975 até 2002 com a morte de Jonas Savimbi).

Relatos impressionantes de pessoas que se viram, abruptamente, no caos e na desordem, e forçados a abandonar os seus bens. É focado o abandono que a população portuguesa sofreu por parte das autoridades.

Gostei de ler sobre um tema que não é muito falado e que me diz muito. A minha mãe nasceu em Angola e o meu pai, oriundo de uma aldeia interior do norte, foi para lá ainda jovem para tentar melhorar a sua vida.

Memórias, História e jornalismo, uma combinação que resulta num livro que se lê com interesse.

Terminado em 12 de dezembro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse 
Acedendo a vários documentos inéditos, o autor revela mentiras e excessos cometidos pelos três movimentos de libertação subscritores dos Acordos de Alvor. Expõe também a hipocrisia de uma dualidade de critérios; enquanto atualmente é indiscutível a pertença de um ser humano ao território onde nasceu, independentemente da sua etnia, os brancos nascidos em Angola e que de lá fugiram para Portugal, expulsos pela guerra, pilhagens e atrocidades, foram apodados de retornados. Incluindo as dezenas de milhares que nunca haviam saído de África.

Cris

segunda-feira, 2 de março de 2026

"Huris" de Kamel Daoud

Já faz algum tempo que li este livro. Gosto de fazer a opinião de imediato e não deixar passar tanto tempo mas a forte impressão com que fiquei quando o acabei, manteve-se até hoje. E vai
permanecer.

Contado na primeira pessoa, por uma mulher, o leitor vai-se apercebendo do aspecto físico da mesma pelas descrições que a própria vai fazendo de si. Possui "um sorriso de orelha a orelha". Dito assim parece um aspecto positivo, uma característica fisica favorável. Mas não. Não mesmo. 

Alva é uma mulher que sofreu, em criança, quando tinha apenas 5 anos, uma mutilação, que sobreviveu a uma tentativa de assassinato e o dito sorriso mais não é que a cicatriz que lhe resta desse ataque bárbaro. Sobreviveu com muitas sequelas físicas (ficou sem voz, respira por uma cânula) e psicológicas.

Este livro é uma carta que Alva escreve à filha que está no seu ventre e que ela trata carinhosamente por Huris mas que não quer que nasça pois o mundo em que vive não é um bom mundo para as mulheres.

A história transporta-nos para a História da Argélia, mais propriamente para a guerra civil que durou 10 anos, entre 1990 até 2000. Dez anos de massacres e violência, de mortes e horror. Pior ainda que essa guerra é o facto de se fingir que ela não aconteceu, que tudo não se passou de um mal entendido. Logo, Alva (com a sua situação física) é uma testemunha indesejável.

Esta história é tambem a história de um livreiro, a história do pai de Huris, das mães que teve, da Argélia desconhecida de muitos.

Com uma escrita muito dura, descritiva, emotiva e forte, este livro penetra aos poucos no leitor, marcando-o. As palavras de Huris, as suas lembranças que só muito lentamente são oferecidas ao leitor, são duras e marcantes.

Vale muito a pena mergulhar profundamente neste livro.

"Deram comigo enfiada num canto, como morta, depois de ter rastejado para debaixo do baú de madeira da minha mãe, aquele onde ela guardava os cobertores grossos. tinha-me arrastado até lá ao longo de um oued vermelho. Muitas vezes escondia-me nesse sítio, quando brincava com a minha irmã. Empurrei a minha cabeça com uma mão e o corpo com a outra; da minha irmã, primeiro, só encontraram a cabeça. Depois os rastros de sangue, como um caminho, indicaram outros cadáveres. Os meus pais, não se conseguiu juntar-lhes os pedaços para os enterrar. Aliás nunca se enterrou ninguém inteiro." pág. 123

Terminado em 10 de Dezembro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse

Sou o verdadeiro vestígio, o mais sólido dos indícios a atestar tudo o que vivemos. Escondo a história de uma guerra inteira inscrita na minha pele desde criança.

Minha pequena Huri, que virias tu fazer com uma mãe como eu, num país que não nos quer, às mulheres, ou só as quer de noite? Conto-te tudo o que puder, mas, a certa altura, será preciso parar. Sou um livro cujo fim é o teu.

Alva é uma jovem argelina com uma tragédia marcada no seu corpo: a cicatriz no pescoço e as cordas vocais destruídas, consequência da guerra civil dos anos 90. Muda, sonha em recuperar a voz. A sua história, só a pode contar numa voz imaginada à filha que traz no ventre.

Mas será que ela tem o direito de ter esta criança? Pode uma mulher dar vida quando a sua praticamente lhe foi tirada? Num país que aprovou leis para punir qualquer pessoa que evoque a guerra civil, Alva decide voltar à sua aldeia natal, onde tudo começou, com a esperança de que os mortos possam dar-lhe as respostas que os vivos lhe negam.

Em Huris, um romance corajoso e comovente , poderoso e lírico, Kamel Daoud restitui aos esquecidos, às vítimas inocentes e aos sobreviventes da terrível guerra civil argelina – e de todas as guerras – a voz que lhes foi roubada.

Cris