Gosta deste blog? Então siga-me...

Indique o seu email para receber actualizações

Também estamos no Facebook e Twitter

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Passatempo de Natal 2016 / Marcador

 


Para mais informações sobre o passatempo, clique aqui.

Passatempo de Natal 2016 / Saída de Emergência

 

Para mais informações sobre o passatempo, clique aqui.

Passatempo de Natal 2016 / Editorial Presença


Para mais informações sobre o passatempo, clique aqui.

A escolha do Jorge: O Coração do Homem

A publicação de “O Coração do Homem” de Jón Kalman Stefánsson encerra a trilogia iniciada com “Paraíso e Inferno” (2013) e “A Tristeza dos Anjos” (2014). A trilogia foi publicada na íntegra pela Cavalo de Ferro que nos apresentou mais um autor islandês desconhecido do público português e que em Setembro último foi um dos convidados do “Folio” – Festival Literário de Óbidos.

Tendo como cenário o branco da neve e do gelo que ocupa uma boa parte do ano a Islândia, “O Coração do Homem” apresenta-se como a parte da trilogia em que o homem dá um passo em frente na forma como domina a natureza tentando, na medida do possível, tirar partido desta para seu próprio benefício e desenvolvimento do país-ilha. Passado na transição do século XIX para o século XX, este romance apresenta-nos uma Islândia que, progressivamente, se vai afirmando, ainda que de forma tímida, face aos demais países nórdicos, como um ponto estratégico na relação com as outras economias da região.

O incremento da economia da Islândia permite a abertura do país-ilha ao exterior estabelecendo-se a necessidade da aprendizagem de outras línguas, nomeadamente, o inglês, não só como forma de comunicação, mas também como forma de tantos nomes da literatura poderem ser lidos na Islândia através das poucas traduções que vão surgindo aqui e ali.

A importância dos livros, que é um tema tão desenvolvido na literatura islandesa e o denominador comum desta trilogia de Jón Kalman Stefánsson, afirma-se, mais do que nunca, neste volume, como a grande necessidade de toda uma sociedade ávida de conhecimento ao ponto de um simples livro de gramática inglesa constituir uma alegria imensa para as pessoas porque é a compreensão e interiorização das regras de funcionamento de uma língua que não só contribui para o desenvolvimento do raciocínio, mas também como elemento facilitador na comunicação entre as pessoas.

O passar dos anos tornou o rapaz, o personagem principal, mais maduro e desejoso de compreender os mistérios das letras através da poesia, mas também o seu corpo e mente passaram a desejar os prazeres da carne através da experiência sexual, cujas descrições são soberbas e bastante intensas face aos sentimentos e sensações envolvidos.

O amor nasce e cresce sendo alimentado pela carne e pelo amor aos livros, em especial a poesia que toca a alma mais sensível. O rapaz torna-se mais reflexivo. O pudor face aos seus sentimentos e desejos assim o obriga. Torna-se homem.

Outro dos aspectos de relevo neste terceiro volume da trilogia tem que ver com a emancipação feminina, em que as mulheres afirmam-se gradualmente em relação aos homens no que respeita aos direitos no contexto familiar, mundo do trabalho e até do ponto de vista sexual. Não deixa de ser interessante que foi na Islândia que a Europa teve na figura de Vigdís Finnbogadóttir (n. 1930) a primeira mulher a ser eleita democraticamente para o cargo de Chefe de Estado, cargo político que exerceu no período compreendido entre 1980 e 1996.

Mas viver na Islândia é sobreviver às condições climatéricas adversas. A neve, o gelo e o frio ao longo de quase todo o ano obrigou a população da Islândia a saber como sobreviver ao branco permanente de gerações e gerações, vivendo em pequenas comunidades isoladas e distantes umas das outras. A introdução do Cristianismo na ilha constituiu também uma das formas de amenizar a solidão face ao vazio imenso envolvente. A solidão contribuiu para a consciência de que cada ser humano tem um valor inestimável não devendo haver espaço para ódios e desavenças porque todos, os poucos que existem, são necessários à sobrevivência e desafios da Islândia. O Cristianismo contribuiu para amenizar sentimentos fazendo com que o homem se torne mais humano. O falecimento de um amigo e o transporte do corpo ao longo de quilómetros para que fosse enterrado numa pequena comunidade é encarado como a necessidade de os mortos deverem estar próximos dos vivos e não abandonados e enterrados perdidos na solidão imensa do solo gelado num qualquer ponto inóspito da ilha.

Profundamente humano, “O Coração do Homem” apresenta-nos uma Islândia que se tornou pragmática face à adversidade imposta pela natureza. Num país que pouco tem para oferecer aos próprios autóctones, há que sobreviver civilizadamente. O frio obrigou à tomada de consciência da fragilidade humana face à força e grandiosidade da natureza e que um passo ao lado pode significar pôr a vida em risco. O cenário branco também é sinónimo de pureza, o local ideal para os anjos, mesmo quando os anjos demonstram a sua tristeza.

“O Coração do Homem” encerra deste modo uma trilogia que se apresentou como uma das experiências mais notáveis da literatura nórdica dos últimos anos. A doçura das palavras de Jón Kalman Stefánsson ficarão gravadas no espírito de quem as lê, afirmando-se como uma experiência literária ímpar e viciante.


Excertos:
"O homem precisa de pouquíssimas coisas: de amar, ser feliz, comer; e, depois, morre. No entanto, falam-se mais de seis mil línguas em todo o mundo - porque existem tantas para se darem a conhecer desejos tão simples? E porque tão raras vezes conseguimos fazê-lo, porque é que a luz das palavras se desvanece assim que as escrevemos? O toque pode dizer mais do que todas as palavras do mundo, é verdade, mas o toque desaparece com o passar dos anos e, então, necessitamos, de novo, das palavras, são elas as nossas armas contra o tempo, a morte, o esquecimento, a infelicidade." (p. 87)

"Gísli dissera: dificilmente se pode descrever a importância das traduções. Enriquecem-nos e fazem-nos crescer, ajudam-nos a perceber melhor o mundo, a perceber-nos. Um país que traduz pouco e que se concentra apenas nos seus pensamentos está limitado, e se, ademais, contiver uma grande população, torna-se também perigoso para os outros, porque a maior parte das coisas que não os seus pensamentos e hábitos lhes é estranha. As traduções expandem as pessoas e, por conseguinte, o mundo. Ajudam-nos a compreender nações distantes. As pessoas odeiam menos, ou receiam menos, aquilo que compreendem. Compreender pode salvar as pessoas de si mesmas. Os generais têm mais dificuldade em converter alguém a matar quando essa pessoa tem o conhecimento do seu lado. Digo-te que o ódio e o preconceito equivalem a medo e ignorância, e podes anotar o que acabei de afirmar." (p. 156)

“Algo acerca dos perigos dos sonhos, dos perigos da poesia. No entanto… quem se lembra de quem raras vezes ou nunca se distraiu e perdeu em sonhos, não sentiu a centelha da vida e se tornou aos poucos cinzento, cinzento e pálido e destroçado, sem pouco se debater, caindo na monotonia, de quem se tornou a própria monotonia e desapareceu muito antes da sua morte? Podemos, nesse caso, almejar a centelha, ainda que esta nos possa cobrar a vida demasiado cedo? Arrisquemos e vivamos.
Se ao menos o tivéssemos feito…” (p. 176)

Texto da autoria de Jorge Navarro


Passatempo de Natal 2016

Como já vem sendo hábito, O Tempo Entre os Meus Livros quer presentear os seus seguidores com algumas prendinhas para que o vosso Natal tenha mais uns miminhos. Livros, claro está! 

E, sem as editoras parceiras isso não seria possível! Como tal, quero agradecer em especial àquelas que tornaram este passatempo uma realidade. São elas: Editorial Presença, Saída de Emergência, Marcador, Bizâncio, Planeta, TopSeller, Objectiva, Suma de Letras e Arena.
O passatempo é bem fácil de participar! Ora vejam:

1) Só o podem fazer uma vez. Ficam habilitados automaticamente a todos os livros, que irão sendo apresentados ao longo do dia 15 (a partir das 12:00).

2) O blogue agradece que partilhem no FB o passatempo. Se enviarem o link da partilha ficam habilitados a um livro surpresa, ..........................

3) Devem enviar um e-mail para otempoentreosmeuslivros@gmail.com, com o vosso nome completo, morada e nick do seguidor do blogue.

4) O passatempo decorre até dia 25 de Dezembro.

5) O blogue e as editoras não se responsabilizam por qualquer extravio dos CTT. Os livros só serão enviados em Janeiro para evitar extravios que, infelizmente, acontecem nesta altura.

6) Os resultados sairão dia 31, último dia do ano.

Boa sorte!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Novo Exército de Robert Muchamore

Atenção! Pais que anseiam por ver os seus filhos "agarrados" a um livro! Já conhecem a coleção dos livros da Cherub? 

aqui vos falei destes livros que conseguiram que o meu filho do meio se sentisse atraído pela leitura. O mais novo também devora estes livros mal acabam de ser editados... 

Este último livro, que conclui a série, não foi excepção. Aqui estão as suas palavras, comentando o que sentiu ao lê-lo: "Este livro da série Cherub continua a ser tão aliciante como todos os anteriores. Gostei especialmente do facto de ficarmos a conhecer mais sobre as principais personagens da 1ª série (o Bruce,  o James e o Kerry). Excelente!"

O melhor presente para uma mãe leitora (eu!): ver o seu filho pegar com gosto num livro e embrenhar-se na leitura...

Cris

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A convidada escolhe: “A Rapariga no Comboio”

Um livro que nos prende e que a partir de certa altura nos "obriga" a não parar e querer chegar ao fim, para perceber a trama e responder à pergunta sobre o desaparecimento de uma rapariga.

Um thriller que lembra Hitchcock.

“A Rapariga no Comboio” é construído por episódios ao longo de vários dias e meses, vividos e narrados na primeira pessoa por três mulheres, que constroem o “filme” dando dele a sua perspectiva e leitura particular. O/a leitor/a acede assim à(s) realidade(s) a partir dessas diferentes perspectivas e relatos e é conduzido/a a desvendar o mistério do desaparecimento de uma jovem. Mas nem sempre o que parece óbvio é e é esse suspense que torna a leitura deste livro viciante e urgente.

Nas viagens pendulares de comboio entre os subúrbios de Londres e a grande capital, os passageiros passam pelos prédios embrenhados nos seus problemas, a ler um livro ou a ver as notícias no telemóvel, alheados das vidas lá fora. Mas para Rachel não é assim. Ela fantasia, inventa nomes para as suas personagens, fá-las viver histórias felizes, cria um mundo bonito e harmonioso que contrasta com a sua solidão, com a sensação de fracasso de que é feita a sua vida, após um divórcio e com a degradação resultante da compulsão pelo álcool. Se por um lado não consegue libertar-se do álcool, por outro tenta desesperada e repetidamente fugir-lhe. O vinho é o escape para enfrentar a realidade; o filtro que apaga, tolda e faz esquecer, quando há momentos na vida que é perciso recordar, reavivar e voltar a trazer ao consciente.

Este livro revela também um problema social muito importante que as sociedades ocultaram durante muito tempo – o da violência doméstica. Por detrás de uma aparente felicidade e harmonia, quantas vezes não se escondem atitudes de controlo, de ciúme, de posse, de desconfiança que, não sendo violência física, são violência psicológica que retira autonomia, gera pavor e baixa autoestima e destroi completamente as pessoas (neste caso mulheres)?

“A Rapariga no Comboio” da jornalista e escritora Paula Hawkins foi adaptado ao cinema, mas está tão bem escrito, é tão visual e é feito duma escrita tão dinâmica, que não penso vê-lo em filme, pois acho que seria redundante e certamente sairia desapontada. Gosto imenso de literartura e de cinema, mas neste caso fico-me pelo livro!

Um thriller empolgante e terrível.

Dezembro de 2016

Almerinda Bento


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

"O Meu Nome é Leon" de Kit The Waal

Só após ter terminado esta leitura é que me apercebi do significado correcto da capa deste livro que, diga-se em abono da verdade, não achei suficientemente apelativa. Assim, quando virei a última página, olhei de novo para a capa e, só então, ela fez todo o sentido para mim. Vê-se Leon, o pequeno protagonista desta história, a andar na sua bicicleta e por cima todo o emaranhado que constituem os seus pensamentos e o entendimento que ele faz das questões dos adultos nas escutas frequentes atrás das portas... Porque ele ouvir bem, ouve, mas entender o que dizem esses adultos que pouco lhe perguntam o que quer fazer, isso já é coisa bem diferente!

Leon é um menino grande para os seus nove anos, filho de mãe branca e pai negro. O seu irmão, que adora, é filho de outro pai. Jake sai à mãe, é loiro de olhos azuis. Leon adora o irmão. Toma muitas vezes conta dele, dá-lhe de comer e brinca com ele. Quando, no entanto, tem também de tomar conta da mãe significa que algo não está bem...

"O Meu Nome É Leon" é uma obra admirável pela história tão original, pela forma terna como a autora soube retratar tão bem os sentimentos de um menino que mais não quer do que ficar junto da mãe e do irmão, quando tudo aos poucos lhe vai sento subtraído. Também ele, a quem tudo é tirado, começa aos poucos a roubar pequenas moedas com o intuito de, um dia, poder juntar a sua família.

Um livro que, com mestria, nos ensina a perceber que a "nossa casa" pode ser noutro lugar, a nossa família pode ser mais alargada do que cremos e que, mesmo com uma realidade bem diferente, os sonhos não são objetos descartáveis e, como tal, não os devemos deitar para o lixo. 

Inspirador, escrito na terceira pessoa mas com a força que a inocência de um menino consegue conferir à escrita e que a autora tão bem soube retratar, este livro é de muito fácil leitura, prendendo de imediato a atenção de quem o lê. Gostei muito.

Terminado em 8 de Dezembro de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse
Uma história apaixonante sobre o vínculo inquebrável de dois irmãos. Uma lição de vida onde se descobre que o caminho para casa pode ser aquele que menos esperamos.
Um irmão adotado. Outro deixado para trás. E o colo de uma família onde nunca esperaríamos encontrá-lo. Pode o amor de uma criança juntar o que os adultos separaram?
Leon tem nove anos e um irmão bebé chamado Jake. Os dois vão viver com Maureen, mãe de acolhimento, que tem um estranho cabelo vermelho e uma barriga grande como a do Pai Natal. Maureen é uma mulher de garra que consegue conquistar o difícil coração de Leon. Mas pouco depois chega a terrível notícia: apenas a deixarão ficar com o irmão mais velho.
A tristeza de Leon é agora constante e apenas algumas coisas o fazem sorrir, como os chocolates, andar de bicicleta, enterrar as mãos na terra, sair com um amigo que é parecido com o seu pai e, sobretudo, roubar moedas até ter dinheiro suficiente para que um dia possa resgatar Jake e voltar com ele para a mãe.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Na minha caixa de correio

   


Ofertados pela Editorial Presença chegaram A Longa Estrada Para Casa e O Mundo de Sofia. O primeiro quero ler muito em breve. Fui à ante-estreia do filme e gostei muitíssimo. Sabendo que se trata de uma história verídica e que o livro terá certamente pormenores que o filme não poderia conter deixa-me em pulgas para esta leitura. Sobre o segundo livro, aguardem, que muito em breve haverá surpresas no blogue... Passatempo de Natal/Fim de Ano.
Confissões de uma Médica, foi dica do meu filho mais velho. Acabadinho de sair da Fac. de Medicina mostrou curiosidade em lê-lo. Depois compararemos opiniões...
 A História Secreta de Twin Peaks chegou de mansinho, surpresa da Suma de Letras!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Novidade Presença

A LONGA ESTRADA PARA CASA
de Saroo Brierley
Quando Saroo Brierley se serviu do Google Earth para descobrir a aldeia onde nasceu, a milhares de quilómetros de onde vive e da qual quase não se lembra, rapidamente se tornou notícia em todo o mundo.
Saroo, de cinco anos, está numa estação de caminho de ferro, sozinho. Perdeu-se de Guddu, o irmão mais velho, que o acompanhava. Sem saber como regressar a casa, enfia-se num comboio acreditando que Guddu há de encontrá-lo. Ali adormece e no dia seguinte vê-se nas perigosas ruas de Calcutá, por onde deambula durante semanas, só e sem qualquer documento, perante a indiferença da multidão. Acaba por ser acolhido num orfanato e, mais tarde, é adotado por um casal australiano. Embora feliz na Austrália, com a sua nova família, que em vão tenta conhecer as suas origens, Saroo nunca deixa de pensar na mãe e nos irmãos que ficaram a quase meio mundo de distância. Anos depois, passa horas a perscrutar imagens do Google Earth na esperança de localizar e identificar referências da sua aldeia que lhe permitam reencontrar a mãe biológica.
Um testemunho verídico na primeira pessoa, comovente e intenso, que já inspirou milhões de pessoas em todo o mundo. Um hino à esperança, ao poder dos sonhos e à coragem de nunca desistir, que agora vê nova luz numa adaptação ao cinema pelo realizador Garth Davis com Nicole Kidman, Rooney Mara e Dev Patel.

Para mais informações sobre este livro consulte o site da Editorial Presença aqui.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"O Rapaz dos Blocos" de Keith Stuart

Ao ler a sinopse senti que a leitura deste livro poderia ser algo de muito especial. Foi realmente. 

Baseado na sua própria história como pai de um menino diagnosticado com uma desordem do espetro autista, Keith Stuart revela-nos, com esta trama, como a educação de um filho tem de passar por reinventar e aprender novas formas de estar na vida. O personagem principal e também o narrador, Alex, nunca conseguiu interagir com seu filho Sam. O choro, as birras constantes por parte desse ser pequenino que se refugia em si mesmo, o trabalho intenso, o casamento à beira do colapso, tudo contribuiu para que Alex tivesse a vida virada do avesso. 

O acaso quis que Sam se interessasse por um jogo, o Minecraft, e que através dele começasse a exprimir-se melhor, aprendendo novo vocabulário e até respondesse a algumas questões pessoais. O acaso quis também que seu pai Alex começasse através do jogo a interagir com Sam. E a vida ganhou um novo sentido, não sem antes passar por uma revolução de pensamentos e atitudes.

Terno, comovente mas, de igual modo, real e intenso este livro chega muito facilmente ao leitor, interpelando-o, cativando-o e deixando-o perto das lágrimas. Eu gostei muito e por isso o recomendo!

Terminado em 4 de Dezembro de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse
Uma história divertida, comovente e original que irá fazer rir, pensar e chorar. Alex, o pai, de trinta e poucos anos: Embora ame a sua mulher, já não sabe como o demonstrar. Quer estar perto do filho, mas não consegue compreendê-lo. Algo tem de mudar. Mas a mudança terá de começar em si próprio. Sam, o filho, de oito anos: Cativante, surpreendente, autista. Para ele, o mundo é um enorme quebra-cabeças que não consegue resolver sozinho. Porém, quando Sam começa a jogar Minecraft, abre-se a porta para as descobertas que tanto o filho como o pai irão fazer acerca de si mesmos e da sua difícil relação.Pode uma família fragmentada voltar a ser construída, peça a peça, até se reunir outra vez? Inspirada pelas experiências do autor com o seu filho, "O Rapaz dos Blocos" é uma singular história de amor e resiliência, uma moderna epopeia familiar que já foi traduzida e publicada em mais de 20 países.

Cris

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A escolha do Jorge: A Gorda

“A Gorda” é o primeiro romance de Isabela Figueiredo, a autora de “Conto É Como Quem Diz” (1988) e “Caderno de Memórias Coloniais” (2009).
Mais do que uma história sobre uma rapariga que se fez mulher, que com o passar dos anos viu o seu corpo a aumentar, ganhando muito peso e adquirindo formas e um tamanho que se torna incontrolável, “A Gorda” é também a história sobre a angústia e a dor de se olhar ao espelho e não se reconhecer, os olhares e críticas preconceituosos face ao seu corpo desmesurado, a dificuldade em encontrar roupa para vestir que, de estação para estação, deixa de servir.
Mas importa dar nome a esta mulher. Chama-se Maria Luísa e no decurso da leitura não há quem não simpatize com esta gorda simpática e bem-disposta e não deixamos de sentir carinho, apreço e ternura pela pessoa que ela é. Maria Luísa vinda do mundo da ficção é a encarnação de tantas outras Marias Luísas que padecem dos mesmos problemas ao longo da vida – o aumento de peso e a discriminação social – afagando a dor e a tristeza na solidão. "A vitória dos solitários não tem testemunhas e torna a solidão mais só. Ninguém nos olha com orgulho. Ninguém nos dirige uma palavra de apreço. Estamos sempre iguais na solidão, sempre os mesmos (…)”
Entre médicos, nutricionistas e psicólogos, Maria Luísa não consegue ver resultados a não ser o aumento de peso assim como a intensidade das críticas da sua mãe. A decisão de Maria Luísa em realizar uma gastrectomia foi radical numa tentativa de cortar também com o passado e toda uma história de dor, desamores, mas também da consciência de que a sua mobilidade estava cada vez mais condicionada até nas tarefas mais simples. Era preciso cortar o mal pela raiz ainda que a decisão numa operação tão delicada lhe traria um pós-operatório deveras doloroso, além de que a sua alimentação e a sua vida não voltariam a ser as mesmas doravante.
A decisão de Maria Luísa em realizar a gastrectomia coincide com um dos melhores excertos da obra. A ironia, as metáforas, o realismo, a tomada de consciência de Maria Luísa face à sua vontade de comer com prazer leva o leitor quase a sentir o cheiro do pão quente acabado de fazer de acordo com as descrições. “Todos me mandam fechar a boca. Todos me dizem que é fácil. Não é. Não consigo. Tenho fome de pão. Preciso de atestar o estômago para sossegar, dormir e trabalhar sem cessar. Preciso de saborear os meus pãezinhos com manteiga, de os sentir na língua, contra o céu-da-boca, degluti-los, fazê-los transpor a garganta, senti-los chegar ao estômago, sossegando o bicho escuro da fome que aí mora. O odor dos pãezinhos do dia, o miolo mole, a côdea seca, a forma como racham, quando os abro com a mão, que delícia, doutor! Pão é carne e arte. Farinha, fermento, sal, água e cozimento. Sem pão, o meu bicho negro morde-me, doutor, e dói-me o espaço vazio. Como não consigo eliminar o pão, pensei que o doutor poderia ajudar-me a amputar o bicho.”
Mas “A Gorda” não é apenas a história de Maria Luísa que ganhou peso e que decidiu realizar a gastrectomia sendo que estes aspectos vão ganhando expressão ao longo da narrativa. “A Gorda” é também a história de uma família que regressa de Moçambique no decurso da descolonização nos anos 70 com a particularidade de Maria Luísa ter vindo para Portugal dez anos antes dos seus pais.
A década que separou Maria Luísa dos seus pais tornou-a numa mulher independente, senhora de si. O não ter quem olhe por si tornou Maria Luísa uma mulher determinada. As descrições relativas à sua sexualidade são o mais claro e objectivo que podemos ler. A autora não poupa nas palavras nem nos sentimentos. O pensamento transforma-se em escrita sem pudor transpondo a barreira e em certa medida o tabu de que são somente os homens que pensam em sexo e que o concretizam. Maria Luísa diz exactamente o que pensa, o que quer e o que gosta de fazer com David, o amor da sua vida, na intimidade, seja em casa ou ao ar livre. Maria Luísa assume quase sempre um registo confessional sobre a sua vida e mesmo no que concerne às questões de natureza mais íntima.
O amor que uniu David e Maria Luísa marcou a ambos para sempre. Ainda que tenham seguido rumos diferentes, esse amor nunca se apagou. E quando menos se espera, e quando se julga que o passado é passado, eis que as chamas do amor voltam novamente a incendiar os corações e a reavivar um amor que afinal nunca deixou de ser presente.
Para além dos amores e desamores de Maria Luísa, o aumento de peso e a operação, “A Gorda” retrata também com seriedade a complexa relação familiar existente entre Maria Luísa e os pais. A casa da família assume um papel de extrema importância, as suas descrições constituem a abertura de cada capítulo. As personalidades dos pais estão bem vincadas ao longo da obra. A difícil relação com a sua mãe, o seu criticismo latente e tantas vezes visceral marca a vida de Maria Luísa, mas ainda assim, é à mãe a quem recorre tantas vezes em oração depois desta ter falecido. Afinal mãe é mãe e só temos uma.
“A Gorda” é também um romance contemporâneo na medida em que os últimos anos da narrativa abrangem o período da troika. Os cortes nos salários, as dificuldades em sobreviver contando o pouco que sobra, a angústia de ter de pedir ajuda reflectem a ilusão de uma classe média que vive do trabalho e para o trabalho e, contudo, afogada em despesas que a impedem de respirar.
Isabel Figueiredo apresenta-nos um romance notável, sério, com personagens que poderíamos ser nós próprios ou qualquer outra pessoa que conhecemos de perto. Tudo é real em “A Gorda”. As descrições dos lugares, as questões ligadas à descolonização, mas também as dificuldades com que lidam as pessoas de carne e osso como as descritas sobre Maria Luísa, os desafios que a vida nos impõe, e também a alegria e o amor pela vida que Maria Luísa sente, porque afinal é esta a vida que temos e é esta vida que se impõe ser vivida.

Excertos:
"Continuo a gostar de lavar à mão, em tempo bom, com sabão marselha ou azul e branco. A roupa lavada à mão cheira aos dias da infância, a que não me quero poupar. Lavo, envolvida nos meus pensamentos. A água fria molha-me os braços, as mamas e a barriga. É um prazer e uma liberdade! A dose mínima que nos é facultada, como uma mercê da qual pagamos tributo, mas potencialmente absoluta a cada momento. A liberdade condicionada que nos é consentida, regime sob o qual nos habituamos a viver e a que chamamos "liberdade". Molhar-me é a liberdade admitida."

“Não se podia negar que eu tinha nascido em Moçambique, que estava impregnada desses coloridos ares do sul, mas todos os meus amigos eram portugueses, e entre nós não se falava de África, que tinha ficado para trás. Odiava os papás acabados de chegar de Moçambique. Desejava que morressem num acidente de automóvel espalhafatoso, com o Renault 9 cor de café com leite clarinho, a caminho de qualquer localidade onde fossem visitar os outros retornados, com os quais auguravam o pior dos futuros para a África negra. Parecia-me tudo gente congelada no tempo e na ideologia, incapaz de se adaptar, esquecer, permanecer e avançar. Não via futuro para mim. Ser órfã tardia constituía a única salvação ao meu alcance. Se os papás desaparecessem, o meu caminho ficaria livre, como já estava mais ou menos, desde que tinha chegado em 1975. Livre para beber e chegar tarde, para fogosas tardes e noites de restolho clandestino, com quem me apetecesse, e apetecia, embora as condições físicas se apresentassem desfavoráveis.”

"Quando os papás vieram de África deu-me jeito pensar que já não faziam aquilo que os pais nunca fazem, embora eu tivesse começado pouco tempo antes.
O sexo era uma brincadeira, mas a sério, sumarenta e líquida como descascar uma laranja e comê-la, sem palavras próprias nem regras. Era uma brincadeira de animais saciados-esfomeados, sem se perceber a diferença. Não podia ser possível nem verdade que os nossos pais se entregassem a um gosto tão bom depois de nos ensinarem a encará-lo como vergonha.
Não somos capazes de ver os pais como pessoas iguais a nós, como penso que eles não são capazes de nos ver como pessoas que também já foram, antes de se terem tornado aqueles que conhecemos. Somos continuações e prolongamentos uns dos outros, que se escondem e se temem."

“Morrer talvez não seja muito difícil, se não tivermos pena de nós e do que deixamos, mas sobreviver à morte, que testemunhamos continuando vivos, carregando-a sobre os ombros, exige sangue-frio e coragem.”

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

"O Rapaz e o Pombo" de Cristina Norton

Nunca me canso de ler livros sobre a II Guerra. O meu interesse não se fica por esse momento da História em especial porque gosto de ler sobre períodos em que os homens não se comportaram com letra grande, pelo menos os dirigentes e quem os apoia. Na guerra, o mau e o bom lutam entre si para vir respirar ao de cima, como se estivessem em águas muito profundas e algo os empurrasse para baixo. Quando um livro ficciona uma história passada nessas épocas conturbadas e é baseado em factos verídicos, então, é certo que o tentarei ler.

Neste caso, nesta história contada por Cristina Norton, não existiu realmente o rapaz do pombo. Ou, melhor, existiu sim em milhares de crianças que não tiveram a oportunidade de seguir com os seus sonhos para a frente. Milhares que tiveram de crescer depressa demais, perdendo a sua inocência muito rapidamente. Mas, a história verídica de alguns sobreviventes do Holocausto foi, inteligentemente, introduzida nesta trama, acrescentando uma enorme mais-valia a este romance, que, de facto, adorei!

Embora haja algumas mudanças de narrador, "O Rapaz e o Pombo" é o narrador mais frequente. De quando em vez, uma alteração na grafia do texto, alerta-nos para um novo narrador e muitas vezes o leitor não se apercebe logo de quem se trata, aguçando com este facto a sua curiosidade. 

Inteligente, bem escrito, conseguindo colocar-se tanto na pele de uma criança inocente como na de um adulto sofredor, Cristina Norton deve orgulhar-se desta sua obra. Tanto mais que o sofrimento, a incerteza e o desespero que transparecem nos personagens estão magnificamente retratados! Por outro lado, e isso foi um facto que gostei bastante, pelo percurso de fuga dos personagens conseguimos ter uma visão geral de como se viveram esses tempos (antes e pós guerra) em vários países europeus e outros: a aridez, a desconfiança, o horror mas também a solidariedade escondida que levava à esperança. 

Às vezes, com a minha sofreguidão para devorar as palavras, deixo escapar pormenores. Não vos posso contar o que me aconteceu nesta leitura sem revelar a trama que ela encerra, mas digo-vos apenas que cheguei ao final sem dar conta do que tinha acontecido ao pequeno rapaz que chegou a preferir não crescer para não perceber o que se passava à sua volta... Tive de voltar a trás, reler uma parte e entender finalmente o que não quis perceber de imediato, talvez pela subtileza com que esse acontecimento foi narrado. Isso encantou-me, sem dúvida alguma.

Este livro, um convite à reflexão, é para ler!

Terminado em 27 de Novembro de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse
A história, passada entre os anos 1930 e 1958, gira à volta de três personagens. A principal é um rapaz judeu, que descobre o ódio, o desalento, a ternura e o amor à vida. As personagens à volta dele representam todas as pessoas que passaram por uma das maiores injustiças de todos os tempos. Cristina Norton sentiu também que tinha o dever de escrever e denunciar o que por vergonha as mulheres que haviam sido obrigadas a prostituir-se nos campos de concentração não ousavam contar.

sábado, 26 de novembro de 2016

Na minha caixa de correio

   

 




Ofertas:
- O último livro de Afonso Cruz, autor que admiro muito, Nem Todas as Baleias Voam.
- O primeiro livro do Casal Mistério (primeiro de muitos, espero!) com receitas e dicas. Sou seguidora do seu blogue. Espreitem também!
- O último livro da Joana Roque, Presentes com Sabor Especial. Os cabazes que vou oferecer no Natal, feitos por mim, vão repletos de ideias e receitas da Joana. O livro está fantástico. Já escolhi algumas receitas, que considero mais saudáveis, e vou pôr mãos à obra...

Compras na Feira da Ladra:
- Cozinha Saudável de Mafalda Pinto Leite
- Assim Nasceu Portugal, vol I, de Domingos Amaral

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A escolha do Jorge: "Adoração" de Cristina Drios

“Adoração” é o mais recente romance de Cristina Drios publicado pela Teorema e o sucessor de “Os Olhos de Tirésias” (2013).
“Uma rapariga, um polícia, a máfia e Caravaggio” serve de mote para entrarmos numa obra que tem tanto de intimista como de thriller. Uma obra que mistura a ficção histórica com inúmeras referências a obras literárias, recuperando ainda alguns personagens marcantes relativos a obras que fazem parte da nossa cultura como pontos de referência. 
Viajamos no tempo através da “Adoração” que constitui simultaneamente uma das obras de Caravaggio que desapareceu do Oratório de S. Lourenço, em Palermo, em 1969, mas também o título de um manuscrito de Salvatore Amato, contemporâneo do pintor italiano, que relata a história da procura desesperada do artista.
A obsessão de Salvatore Amato por Caravaggio confunde-se com a adoração daquele pelas obras do artista, do mesmo modo que podemos colocar em confronto as ideias de paixão sentimental e paixão estética que a dado momento se poderão confundir.
O manuscrito que ocupa uma boa parte da “Adoração” corresponde a uma busca incessante de Caravaggio que, com o passar dos anos, se transforma em obsessão. A narrativa evolui como um jogo do gato e do rato que em certa medida reflecte as obras do próprio Caravaggio em que o “chiaroscuro” ganha uma dimensão sem precedentes, evidenciando o carácter de secretismo nas obras do artista italiano. A verdade ganha forma através das sombras que, aos poucos, permitem a sua desocultação.

A ideia da verdade que se mostra para depois se voltar a ocultar é o jogo de espelhos em relação à própria vida de Caravaggio que passou anos escondido, de cidade em cidade, na sequência de um assassinato do qual aguardava um indulto papal.
O desespero de Caravaggio na obtenção do indulto papal e, consequentemente, na sua redenção, reflecte-te também nas suas obras em que os rostos do povo são transpostos para personagens religiosos na tentativa de redimir o povo dos seus pecados e da sua pobreza através da adoração e contemplação das obras do pintor através dos tempos.
Este jogo de espelhos que tanto deseja trazer à luz a verdade como rapidamente se esconde por entre as sombras é o registo permanente utilizado em “Adoração” à medida que doseia dados concretos da realidade com a ficção.

Excertos:
 “A irascibilidade perdoa-se aos génios. Dificilmente se perdoa ao comum dos mortais. Caravaggio, o génio da pintura dos corpos e das sombras, foi perdoado. Continuará a sê-lo de cada vez que alguém, soltando uma exclamação, admirar e, em retorno, exultar com a Beleza de cada um dos seus quadros. Ao contrário do que acontece com outras obras, não somos nós que olhamos, são as personagens que nos olham. Admirai uma dessas telas e vereis que sois observado, de outra dimensão, ao mesmo tempo íntima e intangível, porque, na verdade, descobrireis que é aí, no território da genialidade e do fracasso, que Deus espreita.
(…)
No decurso dos anos, tornou-se apenas cada vez mais exigente consigo mesmo, deixando de entregar trabalhos que não julgasse à altura do próprio talento e sobretudo da Verdade. Outras vezes, ao contrário, não pintava durante longos períodos. Era como se existisse um tempo dentro do tempo, um tempo finito dentro do tempo infinito da criação. Na verdade, enquanto pintava, o Caravaggio suspendia-o, não envelhecia à mesma velocidade que envelhecemos nós e, no acto de gerar beleza, era Deus, o criador supremo, que abria a boca de espanto perante a sua criação. Sim, talvez Deus se espante com as suas obras mais perfeitas. E aqueles que, como ele, atingiram a perfeição alcançam a imortalidade.”

"Sei agora que tinha razão, pois nos seus quadros, os santos, virgens e cristos, são esta gente do Trastevere; as suas dores são as dores deste povo, sujo e malcheiroso, que enche as igrejas de Roma e o aplaude. São o exército de Deus - oh, o vosso nome é Legião! - e vêem-se, pela primeira vez, nos altares, dando-lhes rosto. Aqui, na imundície das ruelas do bairro mais pobre da cidade, são apenas larápios, salafrários, prostitutas e agiotas, malfeitores e arruaceiros, gente sem eira nem beira que todos os dias chega de longe à procura de um futuro e ali se deixa cair, exausta, esperando uma vida melhor. O Trastevere não é, nem sequer à luz do dia, um lugar recomendável, e Roma, a grande Roma, um pardieiro onde tudo desagua, o melhor e o pior da humanidade."

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Resultado do Passatempo Bertrand: "A outra metade de mim"

Agradecemos a simpática colaboração da Editorial Bertrand que, gentilmente, ofereceu um exemplar de "A outra metade de mim" aos seguidores d'O Tempo Entre os Meus Livros.

O feliz vencedor foi seleccionado entre 328 participantes e foi escolhido o nº 194 que, por ordem de entrada, coube a sorte a:

António Rodrigues de Braga.

Parabéns! O livro será enviado via CTT. Espero que seja uma leitura tanto ou mais agradável do que foi a minha. Adorei este livro!

Cris

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A convidada escolhe: O meu nome é Lucy Barton

Lucy Barton é uma protagonista que marca. O que revela é intenso e emocionalmente verdadeiro.  Relatos pungentes e lúgubres de incursões ocasionais no passado. Um passado de solidão, miséria e exclusão. Temas fortes, intemporais e transcendentes a muitas sociedades, inclusive nas ditas civilizadas.  

Lucy é uma escritora que recorda nove semanas que passou hospitalizada após uma intervenção cirúrgica simples em que ao acordar deparou com a mãe com quem quase não tinha comunicação.  Um amor imperfeito que não se expressa por palavras. Um amor imperfeito aprendido e que se replicou nos casamentos áridos e na relação com pais e irmãos.

Um estilo franco em que despeja coisas sobre as quais as pessoas nem sequer querem pensar mas que fazem parte da condição humana. Despojado e sentido parece ter muito de autobiográfico. Um percurso de redenção. 

Muito bom mas não tão fácil de ler como se poderia julgar com apenas 176 páginas. 

Vera Sopa

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

"As Raparigas" de Emma Cline

Uma leitura no mínimo estranha, num ambiente que, para mim, roçou o sinistro porque bem diferente daquele em que me insiro, das leituras habituais, de tudo o que já li até aqui. E que me agarrou completamente. Estamos em 1969, na Califórnia. Uma adolescente, perdida dentro de si própria com vontade de ser mais velha, adulta, mas que apenas viveu 14 primaveras. A droga. A bebida em excesso. Um ambiente muito visual, com descrições pormenorizadas que me fizeram acreditar que os acontecimentos relatados tiveram realmente lugar num passado não tão longínquo assim...

Uma seita. Um lider que é amado por todos os elementos, maioritariamente raparigas. A fome, o lixo, a sujidade interna e externa. Brilhantemente relatado pela autora, uma trama contada em dois espaços temporais diferentes. Evie relata-nos, o seu passado rebelde e também o seu presente que se traduz um pouco numa grande apatia, num "nada fazer", sem perspectivas. 

E durante todo o livro, a expectativa de um acontecimento macabro, que se visualiza nas últimas páginas. 

Muito real, cinematográfico quase. Gostava que o final se tivesse traduzido, para Evie, numa esperança renovada no futuro. No seu futuro. 

Recomendo. Um livro duro, que relata uma época com mestria.

Terminado em 17 de Novembro de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse
Califórnia. Verão de 1969.
Evie, uma adolescente insegura e solitária, avista um grupo de raparigas no parque e fica fascinada com a aura de abandono que as envolve: vestem-se de forma descuidada, andam descalças e parecem levar uma existência feliz à margem das convenções. Dias depois, Suzanne, uma das raparigas, convida Evie a acompanhá-la até às montanhas, ao rancho isolado onde vive numa comunidade organizada em torno de Russell, músico frustrado e líder carismático.

Desesperada por ser aceite, Evie mergulha numa espiral de drogas e amor livre. Porém, à medida que se vai afastando da mãe e das rotinas da vida, e à medida que a sua obsessão por Suzanne se intensifica, Evie não se apercebe de que está a um passo de uma violência inimaginável, a caminho daquele momento na vida de uma rapariga em que uma simples escolha pode determinar o futuro. Um retrato excecional da fragilidade adolescente, uma reflexão sobre as decisões que nos marcarão toda a vida e uma evocação daqueles anos de paz e amor em que germinava um lado obscuro…

domingo, 20 de novembro de 2016

Ao Domingo com… Marta Cruz Machado

Escrever é uma paixão. Escrever é dar a conhecer o que nos vai na alma, realidade ou ficção. A escrita é um canal privilegiado para fazer chegar aos outros o que pensamos ou sentimos. Não obstante podermos socorrer-nos da oralidade, é incontornável citar o provérbio latino: verba volant, scripta manent, i.e., as palavras voam, a escrita permanece.

Foi assim que nasceu a obra Terceira Solidão. Registos de uma experiência e das reflexões que daí resultaram. É um olhar sobre a solidão na terceira idade, um olhar atento perante as vidas solitárias, tantas vezes isoladas pela condição física… rostos e corpos tantas vezes esquecidos, tantas vezes abandonados.

Citando a obra Terceira Solidão:

(…) não devemos esquecer o nosso papel neste “aprender desaprendendo” porque um dia seremos nós os “desaprendizes desajeitados” à espera que alguém nos aceite e nos compreenda, nos respeite e nos ame… mesmo quando parecer que já não temos nada para dar, mesmo quando sentirmos que já não temos forças para cativar ou para retribuir.
(…)
Fica a reflexão... Fica o repto... Olhemos para os idosos noutra perspetiva, para nos revermos nesse mesmo papel do “desaprendiz desajeitado” que outrora nos deu colo e nos levou pelas mãos, que um dia nos ensinou a caminhar, a crescer e a viver! 

Este é o caminho que, pela ordem natural do Universo, haveremos de percorrer… 

O protagonista deste livro é um idoso residente na baixa de Lisboa, cidade onde nasci e onde trabalho. Foi também em Lisboa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que completei a minha licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas. Atualmente, com 38 anos, trabalho na Direção Jurídica da Portugal Telecom. O ensino foi uma página virada no livro da minha vida por imposição do sistema vigente e consequente dificuldade de colocação. A nível pessoal participei em alguns projetos de voluntariado que foram muito gratificantes, porém, o projeto pessoal mais sublime e recompensador é o da minha família. Aos 23 anos casei e hoje sou mãe de dois meninos que são o meu orgulho. Espero envelhecer rodeada pela família, não quero viver a solidão da terceira idade!

Marta Cruz Machado

sábado, 19 de novembro de 2016

Na minha caixa de correio

  


Oferta da Porto Editora, O Último Paraíso e Novo Exército. Quando soube que tinha saído mais um livro de António Garrido fiquei em pulgas para o ler. Adorei O Leitor de Cadáveres, o seu livro anterior. As expectativas são altas, portanto. O último livro de Robert Muchamore é para omeu filho mais novo. Já aqui falei desta colecção. O D. tem vindo a devorar todos os anteriores da Cherub e creio qeu este não vai ser excepção. Estes livros têm vindo a acompanhar o seu crescimento. Já os lê desde, talvez, os doze anos. É também uma boa aposta para quem quer oferecer um livro a alguém que não gosta particularmente de ler (isso aconteceu com o M., o meu filho do meio)!
Assim Nasceu Portugal, vol II e As Primeiras Quinze Vidas de Harry August foram ganhos nos passatempos do Clube dos Passatempos.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A escolha do Jorge: O Palácio do Riso

“O Palácio do Riso” é uma das obras mais representativas do chileno Germán Marín (n. 1934) e que agora conheceu a edição portuguesa através da Antígona constituindo uma das apostas editoriais neste final de ano.
Publicado inicialmente em 1995, “O Palácio do Riso” é um romance que tem como pano de fundo a ditadura militar de Pinochet, especificamente, a Villa Grimaldi, que foi uma das casas de tortura mais conhecidas durante o período compreendido entre 1973 e 1990 tendo recebido o epíteto de “o palácio do riso”.
A memória exerce o papel fundamental nesta obra complexa de Germán Marín que procura reconstituir as peças do puzzle da vida do narrador que ao descrever aspectos marcantes da sua vida vai construindo assim um passado histórico comum a milhões de cidadãos chilenos.
Aparentemente simples, a narrativa conta-nos o regresso de um exilado político que, ao passar junto à antiga Villa Grimaldi, recorda com certa nostalgia os tempos áureos da mansão que antes de 1973 pertencera a um antigo colega seu de escola, Antonio, com quem privou durante os primeiros anos da sua adolescência. Conheceu o fausto da mansão, as mobílias, os jardins, a piscina e a família de Antonio, recordando assim momentos ternos e doces associados a uma adolescência feliz que se guarda com saudade.

A narrativa avança e o leitor é tolhido pela doçura da escrita de Germán Marín na medida em que a nostalgia de outros tempos também é despertada, porém, aqui e acolá, o narrador dá-nos conta das mudanças da Villa Grimaldi e a sua transformação num dos mais de mil centros de detenção e de tortura no período da ditadura militar no Chile. O leitor que até dado momento se encontrava em estado de graça, rapidamente é confrontado com descrições atrozes e repugnantes face a situações específicas de tortura posta em prática pelos agentes da DINA, a polícia política do país, em relação àqueles que considerava subversivos e, por isso, perigosos para o sistema e para o país.
“A casa que eu deificava no início da adolescência, quando Antonio me convidava, tinha caído numa degradação absoluta, transformada agora num antro de dor onde rivalizavam os agentes desta prisão secreta, montados nos costados das vítimas.” (p. 112)
Entre detenções, torturas e assassinatos, foram milhares as pessoas que desapareceram durante a ditadura militar em detrimento de um país que se pretendia limpo de inimigos e de pessoas consideradas perigosas. E para cumprir esse objectivo, a melhor forma seria cortar o mal pela raiz sem hesitações. “Limpar o país era doloroso, mas, como a História demonstrava, não havia anestesia para isso. Só se podia amputar a quente.” (p. 109)
Num país que mergulhou no medo da repressão, em que cada um é polícia dos seus vizinhos e familiares, não é difícil que acabe por vir a cair nas malhas da polícia política passando ou não pelo processo completo de detenção, correcção (tortura) e, quiçá, morte com desaparecimento do corpo.
“O medo causava naquela época um enorme desassossego entre as pessoas, o que fazia aumentar as apreensões que se viviam diariamente, ainda que a delação, encorajada a partir de cima, fosse moeda corrente.” (p. 85)
A dado momento, a narrativa adquire um tom agressivo à medida que o narrador procura incessantemente Monica, uma antiga namorada do final da sua adolescência, e que para sempre marcou a sua vida associando-a à ideia de amor da sua vida. Porém, desconhece se Monica terá caído nas malhas da polícia política ou se se terá associado a ela devido a certos desvios no agir e a histórias mal contadas, permanecendo, dessa forma, a dúvida até ao final da narrativa. 
Mas esse tom agressivo, lacónico, e que não poupa nas palavras ao leitor, sendo certeiro nas resoluções tomadas para com os detidos, ficamos a saber mais alguns dos métodos de tortura levados a cabo no “palácio do riso” através de María del Carmen, uma antiga funcionária da Villa Grimaldi durante a ditadura militar, confessando-se então arrependida dos seus actos proclamando com frequência que “Deus é injusto” e vestindo-se como um anjo sempre que saía à rua. Segundo María del Carmen referia-se aos detidos como “os desgraçados não mereciam viver no erro das suas ideias” (p.119) e assim, se por um lado mostrava arrependimento dos seus actos, de outra forma confirmava que não havia outra forma de sair da Villa Grimaldi a não ser pela via da verdade e, deste modo, como forma de alertar a consciência das mulheres detidas “tinha por hábito, a fim de as desanimar, obrigar as novas prisioneiras a ver-se ao espelho, depois de lhes tirar a venda; vê-te pela última vez, porque nunca mais te verás assim, dizia-lhes.” (p. 106)
A consolidação das detenções pela via das sucessivas torturas na Villa Grimaldi é comparada a um processo de animalização dos detidos tornando os prisioneiros em animais inofensivos, sendo a forma como se expressava a vitória do sistema político e militar face aos indivíduos subversivos, inimigos do Estado, traduzindo-se assim no seu aniquilamento.
“(…) Muitos dos detidos sofriam um processo de animalização. Os rostos cada vez mais pálidos e mortiços começavam a adoptar os traços fisionómicos de diversos exemplares zoológicos – lagartos, cães, carneiros.” (p. 121) “(…) A vitória não consistia necessariamente em provocar a morte do outro, mas em obter a satisfação do seu aniquilamento, transformando-o num animal inofensivo e, sobretudo, dócil e mudo.” (p. 123)
“O Palácio do Riso” apresenta-se assim como a ponte entre a literatura e a História recente do Chile na medida em que havendo ainda tanto por se fazer em matéria da História, numa época em que o passado recente dos chilenos continua a ser um trauma para tantas famílias vítimas da ditadura militar, a literatura ocupa esse espaço vazio desocultando (ou revelando) factos históricos ignominiosos transversais a todo um país e a uma sociedade.

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 15 de novembro de 2016

"A Magia do Acaso" de Tiago Rebelo

Já li alguns livros de Tiago Rebelo. Não posso dizer que fiquei surpreendida com A Magia do Acaso porque reconheci a sua escrita fluída, cheia de momentos do dia a dia, de personagens que poderia reconhecer em algumas pessoas que vivem ao meu redor ou de quem já ouvi falar. 

Não posso dizer que fiquei apaixonada por todos esses personagens. Cumpriram bem o seu papel, ao caminharem por estas páginas e alguns tiveram o condão de me irritar sobremaneira pelas suas indecisões, pelos seus erros, pelas confusões criadas. Tal qual algumas pessoas que deambulam por esta vida e que se cruzam connosco e que, confesso, me esgotam a paciência. Apeteceu-me gritar-lhes, "cresçam!", como me apetece dizer isto de viva voz a certas pessoas que conheço... Creio que o autor soube retratar com mestria alguns comportamentos que grassam por aí. E também como o acaso pode acontecer, as coincidências, fazendo com que a magia se torne realidade.
Gostei, entretive-me e irritei-me ao mesmo tempo com a trama destas páginas... Nada, acredito, que Tiago Rebelo não esperasse! Para as meninas que gostam de um romance com laivos de cor-de-rosa, com muita traição, intriga, encontros e desencontros amorosos. Um romance leve, apesar dos temas tratados poderem ser mais complicados do que parecem. Com um final feliz. Para alguns personagens, pelo menos.
Como o imprevisto pode mudar algumas vidas!
Terminado em 12 de Novembro de 2016
Estrelas: 4*
Sinopse
Sofia, secretária num escritório de um famoso advogado, casada com André, um bem-sucedido administrador de uma empresa do ramo imobiliário, e eterna sonhadora, sente-se insatisfeita com a confortável vida que leva. Num encontro improvável conhece Bernardo, um fascinante homem de negócios. Apesar do charme inebriante deste e da inesperada atracção que sente não se decide a pôr em causa o seu casamento. Mas um acontecimento inesperado encarregar-se-á de fazer tremer os pilares da vida monótona que hesita em deixar. Após inúmeros encontros e desencontros, peripécias e reviravoltas, Sofia consegue finalmente fazer uma ruptura total com a vida que levou até aqui, virar a página e entregar-se por completo a Bernardo. Os sonhos e a magia do acaso vencem sempre.
Cris

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

"Sete Anos Bons" de Etgar Keret

Foi através de uma amiga que ouvi falar deste escritor israelita. Ela já leu outros livros do autor e é fã da sua escrita
repleta de humor. Quando soube que sairia um livro seu pela Sextante, fiquei curiosa e expectante. Daí à apresentação do livro com a presença do autor, no passado dia 4 no Corte Inglês, foi um pequeno passo. Gostei muito de o ouvir. Irrequieto, mordaz, com um humor negro que descomplica situações graves ou até trágicas. 
Fui para casa e, no dia seguinte, depois de ter terminado a leitura que tinha em mãos, peguei de imediato no livro. Pequenas crónicas do seu dia a dia que, não fora esse humor que referi, poder-se-iam tornar uma leitura pesada. Alternando de situações cómicas a outras mais graves, onde a guerra e os conflitos que grassam no seu país, servem de pano de fundo para muitas histórias, o autor tem um modo peculiar tanto de as narrar como de se sair dessas situações caricatas.
Esta narrativa, que traduz um pouco da sua vida e de seus familiares em Tel Aviv, é um retrato original e peculiar dos sete anos que vão desde o nascimento de seu filho até à morte de seu pai. Pequenos contos ou crónicas interligadas, como lhes queiramos chamar, que se lêem com um sorriso na cara mas que traduzem, também, como se vive em Israel em tempo de guerra e conflitos.
Uma leitura simultaneamente bela e triste; alegre, divertida e para refletir. Recomendo! Só é pena ter acabado tão depressa.
Terminado em Novembro de 2016
Estrelas: 5*
Sinopse
Se um rocket pode cair sobre nós a qualquer momento, que importância tem despejar o lixo? E os pássaros do jogo «Angry Birds», lançados raivosamente contra pobres porquinhos, não lembram terroristas? 
Com particular ironia, Etgar Keret relata neste livro histórias de sete anos da sua vida: o nascimento do filho, a terrível história da sua irmã ultraortodoxa e dos seus onze filhos, a trajetória dos seus pais sobreviventes do Holocausto, encontros com taxistas stressados, viagens de avião, noitadas literárias agitadas, ameaças de bombas, a morte do pai. 
Um livro extraordinário sobre a vida de hoje em Israel e no mundo, onde o humor e a emoção se combinam com uma boa dose de absurdo.
Cris

sábado, 12 de novembro de 2016

Na minha caixa de correio

  

  


Vitória, ofertado pela Manuscrito, chegou-me já há algumas semanas mas ainda não o tonha colocado nesta rúbrica. Vejam a minha opinião.
Delícias Sem Lactose foi oferta da Arte-Plural/ Bertrand. Estou a escolher uma receita deliciosa para vos mostrar...
Pela mão da Porto Editora chegou-me As Raparigas.
O Rapaz dos Blocos foi oferta da Marcador.
Numa loja Cash Converters comprei O Elefante e o Maruti e Amanhecer com Monstro Marinho.