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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Passatempo Pergaminho: "A Espia" de Paulo Coelho

Olá, olá! Novidades fresquinhas para os seguidores do blogue! Com a colaboração da Pergaminho temos para oferecer um exemplar do último livro de Paulo Coelho, A Espia! 

Para concorrer basta enviar um e-mail para otempoentreosmeuslivros@gmail.com com o nome, morada e completar a frase seguinte:

.............. foi a mulher mais desejada da sua época, famosa ................... que usava exóticas .................. orientais para chocar e encantar as plateias de toda a ............... .

Nada mais fácil, não?

Junto com o livro umas pequenas ofertas: alguns blocos com a capa do livro.

O passatempo decorre até ao dia 7 de Outubro.

Boa sorte! E não se esqueçam das regras habituais (apenas é permitido uma participação por pessoa/residência). O blogue e a editora não se responsabilizam por qualquer extravio aquando do envio do livro via CTT.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

"A Espia" de Paulo Coelho

Li Paulo Coelho quando adolescente. Não me lembro se gostei ou não mas, até surgir esta proposta da Bertrand, não tinha este autor na minha lista de espera... Ao ler a sinopse e ao perceber que se tratava de Mata Hari fiquei curiosa. Dela não sabia grande coisa, praticamente nada. Fui "googlar" um pouco e mais curiosa fiquei.

Aqui, neste livro, a personagem fala-nos na primeira pessoa e, com a escrita de um autor que está habituado a falar com os fãs através das letras que junta em palavras simples mas que tocam o coração, cria-se um ambiente que leva o leitor a acreditar que Mata Hari foi injustamente acusada de espionagem aquando da Primeira Guerra Mundial. Defesa bem elaborada pelo autor, através de situações ficcionadas que tive muito gosto em ler. É difícil saber ao certo se a acusação teria algo de veridíco mas, gostei de acreditar que não. Mata Hari foi acusada de traição quando deveria ter sido acusada, sim, de ser um espírito livre e de alguém que não desejava ter amarras de qualquer espécie. Uma mulher numa época errada. Mesmo hoje, certamente, haveria quem lhe apontasse o dedo...

Famosa por ter no seu leito alemães e franceses, Mata Hari acabou por ser fuzilada, acusada de traição. Creio que Paulo Coelho conseguiu dar voz a uma mulher que sentiu de perto o sucesso através das suas danças exóticas mas, soube também, descrever com precisão as suas (possíveis) angústias e seus últimos pensamentos ao ver-se confinada a uma cela suja e sem higiene.

Com uma escrita muito visual e simples, Paulo Coelho chega rapidamente ao leitor fazendo-o desejar ler todas as páginas até ao final. Final que mesmo adivinhado, não torna a leitura menos aprazível...

Gostei e recomendo!

Terminado em 15 de Setembro de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

«Tudo o que sei é que o meu coração é hoje uma cidade-fantasma, povoado por paixões, entusiasmo, solidão, vergonha, orgulho, traição, tristeza. E não consigo desenvencilhar-me de nada disso, mesmo quando sinto pena de mim própria e choro em silêncio. Sou uma mulher que nasceu na época errada e nada poderá corrigir isso. Não sei se o futuro se lembrará de mim, mas, caso isso ocorra, que nunca me vejam como uma vítima, e sim como alguém que deu passos com coragem e pagou sem medo o preço que precisava de pagar.»
Mata Hari foi a mulher mais desejada da sua época: a famosa bailarina que usava exóticas danças orientais para chocar e encantar as plateias de toda a Europa; a confidente e amante dos homens mais ricos e poderosos do seu tempo; a mulher com um passado enigmático que despertava o ciúme e a inveja das senhoras da mais alta aristocracia parisiense. Uma mulher que ousou libertar-se do moralismo e dos costumes provincianos das primeiras décadas do século XX - e pagou caro por isso. Em A Espia, Paulo Coelho evoca de forma magistral a vida desta magnífica mulher, que nasceu à frente do seu tempo, apresentando-a ao leitor contemporâneo como uma poderosa lição de força e de liberdade.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

"Verão Sem Homens" de Siri Hustvedt

Ouvi há pouco tempo uma entrevista com a autora e seu marido, Paul Auster, na TV. Eu, que raramente vejo algo dessa caixa (mágica ?) porque prefiro ver a magia que se encontra nas páginas de um livro, fui a correr à estante buscar este. Escolhi-o por ser ter um reduzido número de páginas do que outro que cá tenho dela, mas como a experiência revelou-se positiva, vou puxar o Verão Ardente para mais próximo de mim. Os livros cá em casa mudam de lugar com frequência... Os mais longe, na sala, vêm muitas vezes passar uns dias comigo, aqui ao quarto, lugar onde me estendo para sonhar um pouco.

Resultado desta leitura? - perguntam vocês. Gostei da escrita de Siri Hustvedt. É descomplicada, fluída mas faz uma coisa, pelo menos neste livro, que não aprecio muito. Interpela o leitor, chama por ele, interroga-o, obrigando-o a participar, levando-o a opinar. Sinceramente não aprecio isso. Faz-me sair do meu sonho de dentro da história. Faz-me sentir "eu". E aqui, na leitura, gosto de me sentir personagem. Escolho com frequência uma com a qual me identifico e, pumba! Mergulho nela. Ora, se me obrigam a opinar sobre algo, sou forçada a sair de dentro dela e voltar para mim... Mas isso foi um aparte, porque não foi tantas vezes quanto isso que tal coisa aconteceu.

O que gostei, sobretudo, foi a forma inteligente que a autora arranjou para falar de vários temas, actuais e muito pertinentes hoje em dia. O que se passa num casamento quando um dos conjuges trai o outro, as diferentes formas de malvadez que podem grassar na adolescência, transformando-se muito facilmente em bulling, e a velhice, esse mundo de perda permenente, onde a morte está próxima e a amargura e a desesperança pode dominar o carácter de alguém que presente esse fim próximo.

Uma pausa num casamento de muitos anos. Um bom motivo para olhar em redor e aproveitar a vida.

Capa bela, porém, sóbria. Como gosto. Recomendo. Fiquei curiosa, como referi, com outro livro da autora que cá tenho. Registo igual? Vamos ver. Este está aprovado!

Terminado em 12 de Setembro de 2016

Estrelas: 4*+

Sinopse

«Há tragédias e há comédias, não é verdade? E são frequentemente semelhantes, um pouco como os homens e as mulheres. Uma comédia depende de parar a história exactamente no momento certo.»
Esta é a voz de Mia Fredrickson, a viperina e trágico-cómica narradora de Verão Sem Homens.
Mia é obrigada a examinar a sua vida no dia em que, sem pré-aviso e depois de trinta anos de casamento, o seu marido lhe pede "um tempo". Após um período de internamento num hospital psiquiátrico, ela decide passar o Verão na sua cidade natal, onde a mãe vive num lar de idosos. Sozinha em casa, Mia entrega-se à fúria e à autocomiseração. Mas, lenta e ardilosamente, a pequena comunidade rural insinua-se na sua esfera pessoal. Os "Cinco Cisnes" - um surpreendente grupo constituído pela sua mãe e as amigas -, a jovem vizinha, as adolescentes que frequentam o seu workshop de poesia… uma multiplicidade de vozes, vulnerabilidades, pequenas tiranias e desafios que resultarão na mais improvável das relações.

domingo, 18 de setembro de 2016

Ao Domingo com... Rui Miguel Almeida

O que eu mais queria, quando miúdo, era mudar o mundo. Cedo me apercebi das suas injustiças e, se quiser ser totalmente sincero, houve uma altura em que consegui acreditar que tinha nascido para as endireitar. Já adolescente, esforcei-me por aprender a tocar guitarra. Os acordes certos e uma letra acutilante podem mudar muita coisa. Continuo a acreditar nisso. Tempos depois, pousei a guitarra e peguei na caneta. Continuava um miúdo cheio de ilusões, mas tocar bem guitarra deixou de ser uma delas. Dediquei-me a cimentar palavras umas nas outras. Tinha coisas para dizer ao mundo, eu sentia-as a latejar dentro do peito.
Pelos dedos, foram-me escorrendo linhas e anos de vida. As linhas foram-se tornando textos, que se foram avolumando numa gaveta. Não por timidez.

Sempre li muito, comparava-me com os mestres e era como ir jogar à bola, depois de ver um jogo do Ronaldo ou do Messi. Os anos, esses seres implacáveis, além de quilos e cabelos brancos, deram-me a melhor das princesas e dois filhos que me devolvem sorrisos e um mágico brilho nos olhos a cada instante. Também por eles, escrevo ainda. Continuarei sempre a escrever.

Os textos, esses, vão saindo aos poucos da gaveta. Alguns talvez se transformem em livros que deixarão tudo na mesma. Se há esperança que acalento ainda, é a de que os meus filhos se transformem em fantásticos seres humanos. Se há coisa de que o mundo precisa para poder mudar, é tão só isso.

E eu quero muito dar o meu pequeno contributo.

Rui Miguel Almeida

sábado, 17 de setembro de 2016

Na minha caixa de correio

  

Três livros muito esperados:
Viver sem ti, oferta da Porto Editora (vou ler Viver Depois de Ti para ler logo de seguida este) passou para a frente da pilha!
Da Marcador chegou-me A Terapeuta e Milagre no Rio Hudson.
O meu obrigada às editoras parceiras do blogue!

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Novidade do escritor Miguel Quintas Martins

A Alma do pecado
de Miguel Quintas Martins

A palavra “pecado” esteve durante muitos séculos, inerente a um contexto religioso, para descrever as desobediências à vontade de Deus. Hoje em dia é um termo utilizado até pelo mais fervoroso ateu para retratar atos que vão contra os valores éticos e morais da humanidade.

O livro de contos “A Alma do Pecado” são pequenos relatos de realidades inimagináveis para muitos, mas reais para os que acreditam que o mundo está repleto de malignidade.

Sete contos, sete pecados, sete vidas...Desafio então o leitor a descobrir quais os pecados implícitos em cada uma das histórias e a pensar se são meras contradições ao desenvolvimento da sociedade humana ou algo que vive em cada um de nós…

Novidade Elsinore

O luto é a coisa com penas

de Max Porter

«Como lembrança, como aviso, como pincelada de noite ao alvorar. Como uma pequena fresta no pensar. Dar-te-ei qualquer coisa em que pensar, segredei eu. Ele acordou e não me encontrou no meu da escuridão do seu trauma.»

Aqui está ele: marido e pai, romântico desarranjado e académico apaixonado por Ted Hughes, um homem perdido depois da morte súbita da sua mulher. E ali estão os seus dois filhos, a enfrentarem, como ele, a tristeza insuportável que os engoliu no seu apartamento londrino perante um vaivém de amigos bem-intencionados e um futuro de absoluto vazio.
Neste momento de desespero, são visitados pelo Corvo - antagonista, trapaceiro, curandeiro, babysitter. Este pássaro «sentimental» é atraído pelo luto da família e ameaça permanecer com eles até que não mais precisem da sua ajuda.
À medida que o tempo passa, as semanas se tornam meses e a dor se transforma em memória, esta pequena unidade de três pessoas começa a curar-se.

Novidade Pergaminho

A Espia
de Paulo Coelho

Inspirando-se na troca de correspondência entre a dançarina holandesa Mata Hari e o seu advogado, o escritor Paulo Coelho evoca de forma magistral a vida desta magnífica mulher no seu novo livro A Espia. As cartas foram escritas nas vésperas da sua execução, em França, e divulgadas publicamente há 20 anos.
Baseando-se em documentação que tem sido divulgada pelas autoridades militares alemãs e holandesas, assim como pelo MI5, Paulo Coelho recria a vida de Mata Hari através da última carta que escreveu. Toda a narrativa do livro está na primeira pessoa, dando voz à própria Mata Hari.
«Mata Hari foi uma das nossas primeiras feministas», diz Paulo Coelho. «Desafiou as expetativas masculinas do seu tempo e escolheu viver uma vida independente e nada convencional. Ainda hoje, podemos aprender muito com a sua vida, pois as acusações levadas a cabo pelos mais poderosos continuam a custar a vida a muitas pessoas inocentes.»

Novidade TopSeller

Sissi: Coragem até ao Fim
de Allison Pataki

Em meados do século XIX, a imperatriz Isabel da Áustria-Hungria — carinhosamente conhecida pelo povo como Sissi — já não é a menina ingénua e inocente de 15 anos que casou com o imperador Francisco José, mas a mãe do príncipe herdeiro e a mulher do líder de um poderoso império.
Sissi vive, no entanto, sufocada pelas regras do protocolo real e por um casamento turbulento, e por isso viaja com frequência para a sua propriedade na Hungria, o refúgio onde vive segundo as suas próprias regras e onde pode receber as visitas do conde Andrássy, por quem se apaixonou.
Contudo, trágicas notícias que chegam de Viena vão obrigá-la a regressar e a enfrentar a realidade que tanto a afugenta. Conseguirá Sissi vencer as inúmeras adversidades, as provações do amor e o sentimento de perda e continuar a ser uma imperatriz dedicada?
Estará ela à altura do desafio de manter a sua família unida e o seu direito ao trono?

Novidade Porto Editora

Viver Sem Ti
de Jojo Moyes

Louisa Clark já não é uma jovem banal a viver uma vida banal. O tempo que passou com Will Traynor transformou-a, sendo agora uma pessoa diferente que tem de enfrentar a vida sem ele. Quando um insólito acidente obriga Lou a regressar a casa dos pais, é impossível não sentir que está de volta ao ponto de partida.
Lou sabe que precisa de um empurrão que a traga de novo à vida. E é assim que acaba por ir parar ao grupo de apoio Seguir em Frente, cujos membros partilham sentimentos, alegrias, frustrações e bolos intragáveis. Serão também eles que a levarão até Sam Fielding - um paramédico que trabalha entre a vida e a morte, e o único homem que talvez seja capaz de a compreender. Mas eis que uma personagem do passado de Will surge de repente e lhe altera todos os planos, lançando-a num futuro muito diferente….
Para Lou Clark, a vida depois de Will Traynor significa reaprender a apaixonar-se, com todos os riscos que isso implica.
Em Viver Sem Ti, Jojo Moyes traz-nos duas famílias, tão reais como a nossa,
cujas alegrias e tristezas nos tocarão profundamente ao longo de uma história
feita de surpresas.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Um Livro Numa Frase




"Achei que estava a afundar-me num poço negro, aceitando finalmente que não era nada do que pensava ser, contudo de repente percebi que, à medida que encarava as minhas feridas e cicatrizes, sentia-me mais forte."

In Paulo Coelho, A Espia, pág. 84

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A Escolha do Jorge: A Vegetariana

"Tive um sonho" é o mote para o desenvolvimento da narrativa de "A Vegetariana" da sul coreana Han Kang (n. 1970) que nos apresenta uma obra intensa, cruel, dolorosa e simultaneamente terna no que concerne às relações humanas.
Yeong-hye é a personagem em torno da qual se desenrola toda a obra cujos contornos e pormenores ficamos a conhecer através do seu marido, do seu cunhado e da sua irmã através de três capítulos distintos dedicados a cada um deles.
Yeong-hye é uma mulher como tantas outras, casada e sem filhos, trabalha a partir de casa, é uma exímia cozinheira e tem um casamento igual a tantos outros casamentos e sem grandes percalços ou conflitos. Em suma, Yeong-hye leva uma vida perfeitamente comum, mas certa noite teve um sonho. Um sonho diferente.
Um sonho que marcará Yeong-hye para o resto da sua vida não deixando incólume as vidas dos seus familiares mais próximos que se moverão entre a culpa, a loucura e, em certa medida, o sobreviver a um caos que se instalou de modo inigualável e não menos doloroso.
Yeong-hye sonhou que doravante não voltaria a comer carne, revelação que surpreendeu o seu marido não apenas porque Yeong-hye era uma apreciadora de carne, mas também conhecia a arte de cozinhar a carne segundo as tradições rurais herdadas através da sua famíla.
Aquilo que o seu marido e a restante família consideravam como uma fase passageira, acabou por se revelar um drama vivido em simultâneo por todos, sobretudo no episódio de um almoço que reuniu toda a família e que, de forma totalmente inesperada, acabou por se transformar num desastre, culminando numa quase tragédia. Yeong-hye (in)voluntariamente toma uma decisão, mais por impulso, como forma de libertação, embora no caso dos demais familiares, cada um à sua maneira, se ficaram surpreendidos com o episódio, só mais tarde reflectirão sobre a sua inacção e até permissividade face à sequência de actos violentos sobre a pessoa de Yeong-hye, julgando que estavam a agir de boa fé.
Culpas sentidas, assumidas pelo menos individualmente, mas apenas a título de diálogo interior como é perceptível através de cada capítulo que envolve três dos personagens principais, o marido, o cunhado e a irmã, levou a que nunca tivesse havido a capacidade de os vários intervenientes no episódio do almoço dialogarem sobre o assunto, bem pelo contrário. A culpa confunde-se com fuga e a fuga com vergonha.
O sonho de Yeong-hye saiu-lhe caro ou terá sido a forma de se libertar totalmente entregando-se e fundindo-se com a natureza? É difícil responder na medida em que o viver em sociedade dificilmente aceita ou compreende comportamentos díspares ou decisões abruptas que vão contra certas normas ou modos de vida instituídos socialmente.
Neste caso em concreto, a escritora Han Kang apresenta-nos uma obra que retrata em certa medida a forma de vida em Seul, a capital da Coreia do Sul, uma das maiores metrópoles asiáticas e, ao contrário, daquilo que nós europeus pensamos, o quotidiano de muitas cidades daquele continente ocidentalizou-se depois da 2ª Guerra Mundial passando as pessoas a sofrer dos mesmos problemas que as sociedades ocidentais padecem, como o stress, a vida agitada do dia-a-dia, as exigências no trabalho, o exagerado número de horas por dia no trabalho, maus hábitos alimentares, intolerância, entre tantos outros aspectos. E ser vegetariano em Seul é uma decisão cada vez mais comum e isso não constitui propriamente um problema.
O problema nesta obra ou o cerne da questão é precisamente compreender se o sonho de Yeong-hye está ou não na origem de uma doença mental dado que o episódio do almoço familiar apenas potenciou o internamento de Yeong-hye num hospital psiquiátrico, daí que as culpas ficam por atribuir e assumir.
Mesmo quando a irmã de Yeong-hye decide assumir a despesa do hospital psiquiátrico, apenas o faz porque toda a família se demitiu de tal responsabilidade, e mesmo no caso das visitas tornaram-se parcas no decurso do internamento então prolongado. Mas a irmã de Yeong-hye acabará por surpreender o leitor através do amor fraterno que se vai sobrepor à culpa e à responsabilidade familiar.
Han Kang apresenta-nos uma obra marcante, singular, dura e crua que reflecte as vivências das sociedades contemporâneas não importando o continente em que as pessoas vivem e isto porque em qualquer ponto da esfera terrestre não deixamos de ser homens e mulheres em pleno uso da razão e que, perante situações de tensão, podemos perder essa mesma faculdade num ápice tornando-nos pessoas cruéis, violentas, injustas, entre tantos outros adjectivos que mancham o ser humano e a humanidade em si mesmos, embora contribuam para compreender até onde pode ir o homem em circunstâncias imprevisíveis.
Numa escrita simples e apelativa, Han Kang apresenta-nos uma narrativa que evolui para vários epicentros tempestuosos arrastando também o leitor que não sai incólume quando tudo termina. E será que termina?
"A Vegetariana" valeu à sul coreana Han Kang a atribuição do Man Booker International Prize em 2016 prometendo arrastar muitos admiradores um pouco por todo o mundo.

Excertos:
"A minha mulher tinha posto na mesa, para o jantar, alface e massa de soja, sopa de algas sem a habitual carne ou amêijoas, e kimchi.
- Mas que raio…? Quer dizer que, por causa de um sonho ridículo qualquer, decides deitar fora a carne toda fora? Já pensaste no quanto essa carne custou?
Levantei-me da cadeira e abri o frigorífico. Estava praticamente vazio – as únicas coisas que restavam eram farinha de miso, pó de chili, chili congelado e um pacote de alho picado.
- Faz-me uns ovos estrelados. Hoje estou mesmo esganado. Nem sequer almocei decentemente.
- Também deitei fora os ovos.
- O quê?
- E deixei de beber leite.
- Isto é inacreditável. Estás a dizer-me para não comer carne?
- Não podia deixar aquelas coisas continuarem no frigorífico. Não seria correto.
Como era possível que fosse tão egoísta? Fixei os seus olhos baixos, a sua expressão calma de autodomínio. Só a ideia de que ela podia ter este lado egoísta, de alguém que fazia o que lhe apetecia, era já inconcebível. Quem diria que ela podia ser tão insensata?"

"Como explicar os quatro meses que se seguiram a esse dia? Continuou a perder sangue durante mais umas duas semanas e, depois, o corte sarou e a hemorragia cessou. Mas tinha a sensação de que ficara com uma ferida aberta dentro do corpo. Aliás, parecia até que essa ferida se tornara maior do que ela, que todo o seu corpo estava a ser sugado para o negrume das suas entranhas."

"Pela calma com que aceitava tudo, ele via-a como qualquer coisa de sagrado. Fosse humano, animal ou planta, ela não poderia decerto ser considerada "uma pessoa", mas também não era exatamente uma criatura selvagem - talvez mais um ser misterioso com características de ambas."
"Como explicar os quatro meses que se seguiram a esse dia? Continuou a perder sangue durante mais umas duas semanas e, depois, o corte sarou e a hemorragia cessou. Mas tinha a sensação de que ficara com uma ferida aberta dentro do corpo. Aliás, parecia até que essa ferida se tornara maior do que ela, que todo o seu corpo estava a ser sugado para o negrume das suas entranhas."

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 13 de setembro de 2016

A Convidada Escolhe: Assim Começa o Mal

Demorei consideravelmente mais tempo a ler este romance do que o habitual. A qualidade da escrita de Javier Marías impôs um ritmo lento em que frequentemente relia passagens de uma beleza ímpar e tão lúcidas e assertivas como poucas vezes tive oportunidade de ler.Um analista da natureza humana, quer em termos colectivos ou individuais.
Para mim tratou-se de uma estreia auspiciosa de um autor deveras apreciado como o grande romancista espanhol da actualidade.
"Assim começa o mal e o pior fica para trás" é o que diz a citação de Shakespeare que parafraseara para se referir ao benefício ou conveniência, prejuízo comparativamente menor de renunciar a saber aquilo que não se pode saber. Segredos perpassam toda a trama num suspense que desassossega quem procura desvendar o mistério que influencia no tempo a vida do casal de protagonistas: Eduardo Muriel e Beatriz Noguera. A açao passa-se em Madrid na década de 80 à medida que o narrador Juan de Vere contextualiza o que se passou. O médico Van Vehten, personagem secundária está ligada a um segredo que Juan é incumbido de saber.
A desdita de um casamento que durante anos assentou numa mentira que quando revelada nada pode suster. O segredo que procurei descortinar sem atinar.
Lentamente é explorada a curiosidade e encaminhado o leitor numa reflexão profunda sobre o mal de uma sociedade após uma ditadura e a memória de abusos e vilanias que ao encolhermos os ombros deixamos o pior para trás porque é passado mas aquiescemos ao mau que é aquilo que está por vir.  
Romance marcante para a altura certa. Altamente recomendado mas com parcimónia.
  

Vera Sopa

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A convidada Escolhe: História do Novo Nome - Juventude

"História do Novo Nome - Juventude " - Elena Ferrante, 2012.

Tal como acontecera com o primeiro volume desta tetralogia, "História do Novo Nome", o volume dedicado à Juventude das duas amigas, tem uma estrutura e uma técnica narrativa que prendem o/a leitor/a de forma poderosa ao longo de quase quatrocentas páginas.
A partir de um encontro entre as duas, na Primavera de 1966, altura em que Lila confia a Lena uma caixa de metal com oito cadernos para que os guarde com a promessa de não os ler, Lena – a narradora – desvenda o que foram aqueles anos desde o casamento de Lila e a altura em que Lena já não vivia em Nápoles.
É um período muito tumultuoso, cheio de peripécias e de cenas, talvez em demasia! O final do primeiro volume de "A Amiga Genial" prenunciava que o casamento de Lila iria ser marcado desde o início por um desencontro total, não só pela personalidade indomável de Lila, mas pela própria cultura de poder patriarcal de Stefano. "As coisas tortas endireitam-se" ou "Tu já não és Cerullo. És a senhoar Carracci e deves fazer aquilo que eu te digo" são palavras de aviso de Stefano na viagem de núpcias. Também a irmã de Stefano, quando Lena lhe pergunta por Lila, lhe responde com um sorriso pérfido "vai aprendendo…" Há um pacto de silêncio entre as mulheres relativamente à violência doméstica, porque todas são vítimas e todas se comprazem sempre que mais uma de entre elas é vítima. "Além disso, não havia ninguém no bairro, principalmente entre o sexo feminino, que não achasse que ela precisava há muito tempo de uma boa zurzidela. Por isso as pancadas não haviam causado escândalo e em relação a Stefano até fizeram crescer a simpatia e o respeito, ali estava um que sabia ser homem." Repete-se o padrão machista; é a história de " A Fera Amansada" de Shakespeare!
Depois de um casamento e de todo o investimento que tal acarretou não há lugar a rejeições, nem a recusas, nem a divórcios. "Víramos os nossos pais baterem nas nossas mães desde a infância". O casamento era para a vida e implicava descendência, mas Lila é uma jovem de dezassete anos e não suporta os corpos das mulheres que habitam o bairro, que se transformam com o trabalho doméstico, com as gravidezes, com as pauladas; para Lila, a gravidez era "um vazio dentro de mim, uma doença".
Enquanto Lila sobrevive na sua gaiola "dourada" de mulher casada, Lena vive dividida e cheia de dúvidas sobre o interesse em continuar a estudar, ou antes, submeter-se ao destino de todas as raparigas do bairro; casar, ter uma vida "normal", ter um trabalho normal. Tal como sucedera quando eram crianças e andavam na escola, há um mimetismo entre as duas, como se fossem gémeas, siamesas, uma relação de dependência, uma tensão constante, uma competição, uma relação de amor-ódio que as leva a aproximarem-se, mas também a afastarem-se durante longos períodos. As dúvidas de Lena que constantemente a assaltam e a levam a pensar que não consegue lutar contra o destino da sua origem de rapariga do bairro pobre, que a fazem duvidar das suas capacidades e valor quando é confrontada com pessoas de outros meios que falam de realidades que não vêm nos livros da escola vão persistir. Quando parte para Pisa para estudar na Universidade e mais tarde quando decide escrever um manuscrito na terceira pessoa sobre as suas experiências, Lena oscila constantemente entre a segurança e a insegurança. O uso do dialecto como forma identitária na sua relação com as pessoas do bairro ou o uso de um italiano perfeito e burilado na escola, na universidade, nas conversas com pessoas cultas ou influentes é outro aspecto que põe Elena Greco (Lena/Lenú) em constante confronto e conflito consigo própria.
Mas, um tanto ou quanto inesperadamente, o sonho infantil de riqueza que Lena e Lila tinham acalentado de um dia virem a escrever um romance – em crianças tinham tido a experiência da escrita de "A Fada Azul" – vai materializar-se na publicação do manuscrito de Lena, transformado num romance e na sua presença em sessões de divulgação e de apresentação do livro.
Lila permanece em Nápoles. Lena ganha asas e os seus horizontes vão até Pisa e Milão, mas a política e o mundo fora das fronteiras de Itália vão abrir-se para ela.

Almerinda Bento

sábado, 10 de setembro de 2016

Na minha caixa de correio

  

  

  

 


Não terão o meu ódio, editora Objectiva, chegou e peguei logo nele! Um relato impressionante. A opinião está já no blogue.
Da Planeta, O Milagre de Teresa. Gosto muito de ler biografias de quem respeito e admiro..
Da Saída de Emergência veio Quanto Tempo Falta Para o Abismo. Autor português, Mário Cordeiro.
Da editora Nascente, um livro de uma blogger Carina Barbosa. Espreitem o Veggitable e digam de sua justiça. Eu estou sempre lá, adoro!
Da Bertrand, chegou-me O Exército Perdido e Santuário. Aa sinopses agradaram-me.
Os restantes livros ganhei nos passatempo do JN.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Experiências na Cozinha: "Gelados Caseiros" de Linda Lomelino


A dificuldade foi mesmo escolher entre tantos gelados com um aspecto fantástico. O problema foi mesmo a balança, essa desgraçada que teima em avariar-se e a dar-me um peso que não corresponde à realidade dos meus sonhos...

Optei pelo gelado de morango. Tinha os ingredientes. Tinha a máquina de gelados comprada o ano passado e que foi bem baratinha. Ficam as fotos. O gelado, esse foi-se numa refeição. Comi em demasia, eu sei. Amanhã não saio do ginásio, lol!

O pior? Há tantos para experimentar!!!! Como resistir? As fotos possuem um aspecto ma-ra-vi-lho-so! Gelados, semi-frios, sorvetes... Os gulosos vão-se perder com este livro. E mais não digo.

Para mais informações sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.







Experiências na Cozinha: "Águas Detox" de Sónia Lucano


Só agora vos venho mostrar o que tenho andado a beber. Com os dias quentes que se têm feito sentir, creio que é, ainda, uma boa aposta para este verão que não dá mostras de se ir embora. Queixo-me do calor constantemente e nada melhor que hidratar o corpo saboreando bebidas que são saudáveis e muito gostosas. Fresquinhas, então...

As variantes são muitas e este livro dá-nos uma ideia de como se podem acompanhar as refeições com bebidas frescas, saborosas e, sobretudo, sem o açucar que os refrigerantes possuem.

Experimentem juntar à água gengibre, hortelã, canela, fruta variada (morangos e frutos silvestres são os meus preferidos), limão ou lima, tomilho... Sei lá! É só colocarem a vossa imaginação a trabalhar. O livro está cheio de opções. Uma que experimentei também, foi substituir a água por chá verde, colocando depois as frutas e os cheiros. Gostei muito!

Uma boa forma de beber água sem dar por isso! Embora, confesso, adore água e nunca me farte dela... Nas fotos, uma água tem maçã e canela e a outra, maçã verde e lima. Faz uma mesa bonita e são deliciosas! Agora, mãos à obra!

Para mais informações sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"Não Terão o Meu Ódio" de Antoine Leiris

Vi-o pela primeira vez num supermercado na Lourinhã. Nunca o tinha visto antes, não sabia do que tratava. Não terão o meu ódio, conquistou-me de imediato pelo título. A confirmar, a sinopse. Uma vontade de saber como isso é possível quando se perdeu tanto, quando se perdeu tudo. Como se continua a caminhar, como se caminha na vida. Depois. Sem odiar.

Antoine viu Hélene afastada de si. Estava no lugar errado, no dia errado. Encontrava-se no Bataclan (Paris) em 13 de Novembro de 2015. Dia em que dispararam sobre quem lá se encontrava. Dia em que Hélene não voltou para casa.
O livro é pequeno. A mensagem, grande. Eu, leitora, tornei-me pequena. Ínfima, perante tamanha dor e mesmo assim, tamanho amor. Fiquei sem palavras. Lido o livro em poucas horas, ficou a dor expressa nas palavras que Antoine escreveu. Ficou também a certeza que os dias não mais serão os mesmos para Melvil e seu pai.

Um relato impressionante!

Terminado em 6 de Setembro de 2016

Estrelas: 6*

Sinopse

«Na sexta-feira à noite, vocês roubaram a vida de um ser excepcional, o amor da minha vida, a mãe do meu filho, mas não terão o meu ódio. Não sei quem vocês são e não quero saber, são almas mortas. Se esse Deus em nome do qual matam cegamente nos fez à Sua imagem, cada bala no corpo da minha mulher terá sido um ferimento no Seu coração.» Estas são as primeiras palavras de um texto que comoveu milhares de pessoas em todo o mundo nos dias que se seguiram aos ataques terroristas perpetrados em Paris, na noite de 13 de Novembro de 2015. Escreveu-o Antoine Leiris, que nessa noite perdeu a mulher da sua vida, a mãe do pequeno Melvil de apenas 17 meses. Destroçado com a violenta e inesperada perda de Hélène, Antoine toma a decisão mais difícil e, no entanto, a mais corajosa: não odiar. Recusa-se a criar o filho no sentimento estéril e vazio que provocou a morte da mulher e desafia os assassinos com a maior provocação de todas: professando o amor pela liberdade e acreditando no futuro. Devastado pela dor e pela inesperada solidão, agarra-se à missão de continuar a dar ao filho a vida normal de um menino de 17 meses.Não terão o meu ódio é um relato profundamente comovente da dolorosa tragédia que se abateu sobre a família de Antoine naquela noite fatídica e dos penosos dias que se lhe seguiram. É igualmente uma belíssima carta de amor e uma homenagem de grande beleza e rara sensibilidade à família, esse refúgio de amor que resiste e resistirá a tudo. « Somos dois, o meu filho e eu, mas somos mais fortes do que todos os exércitos domundo.»

terça-feira, 6 de setembro de 2016

A Convidada Escolhe: A Amiga Genial

É um livro tão bom, tão bem escrito, que nos agarra desde o princípio, percebendo-se logo no prólogo – Apagar o rasto – que só no final do último volume desta tetralogia saberemos o que aconteceu a Lila, ou talvez não, de tal forma ela é uma rapariga imprevisível, independente e diferente de todas as outras do bairro.
"A Amiga Genial" decorre nos anos 40 e 50 do século passado num bairro pobre dos subúrbios de Nápoles e tem como personagens principais Lila/Lina Cerullo e Lena/Lenù Greco duas meninas em que a infância e adolescência são marcadas por uma ligação muito forte que irá persistir em etapas posteriores das suas vidas. Lila é desassombrada, corajosa, determinada e exerce uma atracção especial sobre todos os miúdos e miúdas do bairro e colegas da escola. Para eles Lila era "terrível e brilhante", mas o facto de nascer na família dum sapateiro marcou o seu percurso escolar limitado à escola primária. "Porque é que a tua irmã que é rapariga há-de estudar?" diz o pai Cerullo para Nino, o irmão mais velho de Lila. No entanto, isso não a vai impedir de continuar como autodidacta a pedir emprestados livros na Biblioteca e a estudar e ajudar Lenù nos estudos, sempre que esta tem dúvidas ou dificuldades, quer seja no Latim, quer no Grego! Elena Greco a narradora sente uma atracção enorme pela colega, olhando-a como exemplo, pela excepcionalidade e pela diferença num ambiente tão pobre e deprimido como é aquele em que vivem e de que dificilmente é possível escapar. Logo no início ela enumera uma série de palavras e de desastres que associa à morte, ligados à sua meninice e que a têm acompanhado ao longo da vida em forma de medos: tétano, tifo, entulho, torno, bomba, tuberculose ou supuração. Recorda a sua infância marcada pela violência, pelas brincadeiras dos bandos de miúdos e, sobretudo, pela agressividade das mulheres, mais violentas que os homens, pelas vinganças e pelas desforras que envolviam as famílias. Embora dentro do bairro houvesse diferenciação social que se foi tornando mais visível com os anos e com a modernização do próprio bairro, havia coisas a que só uma ínfima minoria conseguia aceder como a admissão à escola média, ou à escola secundária e mesmo à universidade, realidades desconhecidas, tal como a experiência de ver o mar, o que não era usual para aquelas crianças que apenas conheciam os limites estreitos do bairro.
A infância de Lena e de Lila termina com o assassinato de dom Achille e com o acesso de Lena à escola média. As novas amizades que Lena vai fazer na nova escola que a levam a partilhar confidências com outras raparigas não a vão afastar de Lila, acontecendo que por vezes Lena tem reacções inusitadas que a surpreendem, pois são mais próprias da amiga do que dela própria. A puberdade e as transformações no corpo das raparigas se, por um lado acicatam o assédio generalizado dos rapazes, por outro, levam os irmãos a comportar-se como machos protectores das irmãs. Mas, se a generalidade das raparigas se acobardavam ou fingiam não ouvir ou ver as obscenidades ou galanteios dos rapazes, Lila assumia uma postura completamente diferente daquilo que era suposto para o seu sexo. Lena vive com desconforto as transformações no seu corpo – a menstruação, os seios a crescer, o acne – enquanto Lila só tardiamente começa a ver transformações no seu corpo.
Lila não só aprendera antes de todos a ler, a escrever, o italiano, o latim ou o grego, mas, atenta ao que se passa à sua volta, começa a interessar-se pelo "antes", ou seja, pela história que marca a vida das pessoas, mas que as pessoas ignoram, não querendo falar de coisas tão marcantes nas suas vidas como o fascismo ou a monarquia.
Se por um lado se verifica a ascensão social que o acesso ao conhecimento, à escola secundária – a escola dos ricos – vai trazer a Lena, por outro, ela vive ao longo dos anos sentimentos contraditórios e muito diversos na sua relação com Lila: ciúme pela independência de Lila, admiração pela sua capacidade de gerir os seus sentimentos e desejos, incompreensão pelo corte com as leituras e o estudo autónomo que Lila sempre fizera. Mas a grande alteração no comportamento de Lila ocorreu quando ela se tornou noiva de Stefano; como que se despersonaliza, se apaga, abandona os seus sonhos, deixa de ser a Lila, passa a ser "a Jacqueline Kennedy dos subúrbios". Terá Lila caído numa ratoeira com o casamento, ou antes pelo contrário, continua a ser ela a comandar o seu destino e a seguir um objectivo traçado: criar a sua própria linha de produção dos sapatos Cerullo? A menina insubmissa transforma-se na esposa/filha submissa? Por outro lado, Lena a menina boazinha que sempre fora, a aluna irrepreensível afronta o professor de Religião e assume com energia a defesa de uma posição crítica face aos dogmas da religião.
Elena/Lenú que sempre se achara inferior a Lila, menos inteligente, menos atraente é afinal para Lila a sua amiga genial! É comovente a cena entre as duas amigas na manhã do casamento, quando Lila convida a amiga para a ajudar a lavar-se e vestir-se para o casamento. É como que uma separação, o fim da adolescência, o fim de um período em que as duas sempre andaram/estiveram ligadas, mesmo quando os seus percursos de vida já tinham seguido caminhos diferentes. A cena do casamento onde as várias famílias do bairro estão presentes, convidadas pela noiva e pelo noivo não deixa de ser, como todos os acontecimentos do bairro, marcado pela diferença social, com os convidados da noiva a queixarem-se de que não só estão a ser servidos mais tarde, mas que até o vinho é de pior qualidade que aquele que é servido aos familiares do noivo!
Embora me centrando nesta apreciação nas duas amigas, as personagens centrais da história, as famílias que habitam o bairro estão sempre presentes e têm personalidades e comportamentos bem vincados, desempenhando papéis de poder, de confronto, de negociação. São sapateiros, charcuteiros, empregadas de limpeza, porteiros, carpinteiros, ferroviários, vendedores de fruta e legumes, pedreiros, mecânicos, proprietários de um bar-pastelaria, professores.
A saga das suas vidas segue nos próximos volumes.

Almerinda Bento

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"Nos Teus Olhos Vejo o Mundo" de Luísa Castel-Branco

Sabem quando começam um livro sem referências nenhumas sobre ele e algo vos diz, depois das primeiras páginas, que a leitura não vai correr bem? Foi o que senti - desculpe Luísa! - quando me apercebi que não era ficção o que tinha nas mãos...

Tratam-se de pequenas histórias da vida de Luísa Castel-Branco, pensamentos que (aparentemente) não possuem um fio condutor, consideracões várias sobre o seu passado, histórias vividas, umas dela, outras não. Hum... Sinceramente pensei que iria ser uma leitura complicada para mim porque não gosto de contos, textos pequenos, reais ou imaginados. Um dia vencerei essa batalha e começarei a ler o que de bom existe por aí que tenha poucas linhas. No entanto, hoje, essa luta não a farei - pensei, depois de algumas páginas!

Mas, li um capítulo, depois outro e outro... E sem querer vi as páginas passarem e eu sem vontade de largar o livro. Li-o de enfiada. Creio que em dois dias, intervalando-o com mil coisas que uma mãe "arranja" para fazer. E gostei. Uma parte tocou-me pessoalmente. Não sendo meu hábito, deivo-vos aqui algumas linhas:



"
E o fio condutor ? Que fio pode existir ao contar-se pequenas histórias senão o da própria Vida?
Afinal, este livro revelou-se uma companhia inesperada. Uma boa companhia. E creio não ser mais fácil este "falar de mim" que a Luísa nos proporcionou versus os seus romances/ ficções. Se bem que continue a preferir o seu primeiro romance, Alma e os Mistérios da Vida porque nesse fui apanhada de surpresa, nos outros, sabia o que esperar da sua escrita.

Experimentem!

Terminado em 4 de Setembro de 2016

Estrelas: 4*+

Sinopse

Neste novo livro, Luísa Castel-Branco expõe sem medo a sua verdade. Eis a vida como ela é, nem sempre colorida nem sempre a preto e branco.
«Falo da magia das pequenas grandes coisas. Estou sentada aqui e olho à minha volta e nada me rodeia de grande valor, luxo ou ostentação.
Falo desta conjugação perfeita que se pode sentir numa casa nova, porque se encontrou a coragem para deitar fora o passado e tudo ao nosso redor se tornou leve. Branco. Luminoso.
Falo dos momentos pequeninos em que um dos meus netos me faz rir ou se dobra a rir em gargalhadas.
(…)
E aqui deixo-vos a minha verdade.
Sou apenas isto e nada mais.
Que vos faça boa companhia.»

domingo, 4 de setembro de 2016

Ao Domingo com... Paula Timóteo

A frase perfeita existe.
Existem até muitas frases perfeitas, daquelas que nos causam um tumulto bom.
Existem histórias que nos tiram o sono e nos levam ao colo.
Existem poemas que são catedrais que esmagam a nossa pequenez.
E existem pessoas, como eu, que andam toda a vida em busca de uma frase perfeita, da história e do poema tumultuoso.
Era Outono e teria uns 8 anos quando esperava pelo autocarro na Avª Alexandre Herculano junto dos meus pais. Olhei para o chão e vi algumas folhas de tom outonal que gostava de ouvir estalar sob os meus pés como biscoitos crocantes. Naquele dia poupei-as e escrevi sobre elas o meu primeiro texto poético. Desde então nunca mais deixei as histórias. Surgem-me muitos enredos quando ando na rua ou me deito à noite e a maior parte das vezes não as consigo recuperar. Perdem-se na traição do esquecimento.
Não gosto de escrever à mão e o computador veio facilitar muito a tarefa. A mão não acompanha a velocidade do pensamento e a caligrafia que nunca foi aceitável tornar-se-ia indecifrável. Não gosto de horários. Escrevo normalmente quando concluo a parte chata do dia. Escrevo quando me apetece e algumas vezes quando não me apetece. Escrevo porque tenho a ideia tola de ser lida e que alguém tenha vontade de voltar a página e continuar a ler.
Para o livro “um dia o dia não se repete”, editado pela Modocromia em 2014, seleccionei 20 contos e convidei uma amiga a recontar algumas destas histórias através da ilustração e o resultado foi absolutamente extraordinário.
Nos meus contos a memória dos dias que estão em nós mas deles tendemos a não lembrar, os pormenores das rotinas que fatalmente nos escapam e que desejamos mais tarde resgatar, a presença dos animais não humanos, o desnudar o insólito e a incursão por caminhos do fantástico, eis as marcas de água que atravessam  as minhas histórias.
Como escreveu o João Lima no seu prefácio julgo que este é “um objecto de memórias. Como se fosse um baú. Uma caixa atada com cordel do tempo das mercearias e do papel canelado para levar para casa quase como sendo o mais precioso dos embrulhos. Uma arca de sussurros.”

Paula Timóteo

sábado, 3 de setembro de 2016

Na minha caixa de correio

  

 


O Que Ganhamos Quando Envelhecemos e Pequeno Buda foi oferta das editoras Objectiva e Arena.
Os restantes ganhei nos passatempos do Clube dos Passatempos.