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segunda-feira, 11 de julho de 2016

"Uma Senhora Nunca" de Patrícia Müller

Quem leu Madre Paula percebe a razão que me levou a ler esta obra. A escrita de Patrícia Müller é de tal forma arrebatadora e a trama desse romance histórico tão intensa que leva o leitor a sentir-se parte integrante dela. Adorei Madre Paula, como podem ver aqui.

Sabendo, deste modo, que a escrita da autora era apaixonante e que merecia um acolhimento especial da minha parte, tenho de vos falar, também, de dois factores que influenciaram positivamente a minha vontade de ler esta obra: o título e a capa. Com este título, que parece inacabado, Patrícia Müller deixa-nos imaginar a sua continuação. Uma Senhora Nunca... Com uma crítica social fortíssima a uma época que vai desde 1910 e se estende até 1982, o título consegue acompanhar constantemente os acontecimentos narrados e o leitor nunca se esquece dele. Escolha perfeita!

A capa, por sua vez, para além de esteticamente muito bela, traduz na perfeição aquilo que uma senhora deveria ser segundo os padrões da época. Recatada, serena mas, imaginamos nós, um poço de mistério. Enigmática! Até que ponto esse padrão não seria somente uma fachada? Que pensamentos e acções esconderiam essas senhoras?

Com uma obra de ficção inspirada na sua bisavó, Patricia Müller vai aos poucos contando-nos a história de Maria Laura, dos seus ancendentes e descendentes. Escrita pautada por um humor subtil que cativa o leitor, este romance de época possui, como já referi, uma forte crítica social e lança-nos num turbilhão de emoções ao acompanharmos os segredos e mistérios, os amores e desamores dos personagens. Reconheço que no início não foi fácil entrar na escrita tão peculiar de Patrícia Müller mas ao fim das primeiras cinquenta páginas comecei a sentir-me em casa e a tratar por tu Maria Laura, Policarpo e Maria da Glória, seus pais que tanto a marcaram pela ausência como pela presença constante, Lucinda, sua filha. A eles juntaram-se os amantes, as histórias de amores impossíveis, os segredos bem escondidos, os futuros incertos, a determinação de mulheres que desejavam viver a sua vida sem imposições e até a loucura e a morte, aquela parte do futuro que não conseguimos alterar.

Um romance que recomendo sem dúvida alguma!

Se quiserem espreitar vejam aqui a participação da autora na rúbrica Ao domingo com... em que fala um pouco sobre este seu livro.

Terminado em 9 de Julho de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

A resistência aos turbilhões sentimentais, a vitória da vida sobre o tempo que nos devora. Maria Laura é senhora desde que nasceu. Oriunda de uma família antiga e latifundiária, nunca trabalhou um dia na vida. Casa-se, tem filhos, gere um país próprio - o apartamento onde mora numa zona rica de Lisboa. Cuida de vivos e mortos com uma devoção cristã. Depois, enlouquece de medo e de rancor perante todas as mudanças que vêm com a Revolução de Abril de 1974. Esta é a vida de Maria Laura, da sua insignificância e das suas memórias familiares, mas também é a história de um amor proibido, filho do marido, a da obsessão em cumprir regras que nunca discutiu, a da demência que é a antecâmara da morte - e a resistência aos turbilhões sentimentais, a vitória da vida sobre o tempo que nos devora. Esta é também uma história romântica, violenta e voluptuosa da vida dos seus pais e filhos, extensões naturais dos braços tentaculares da Senhora. E uma narrativa natural, intimista e sexual do século xx: uma família que vive com o poder e a glória - e que tudo perde com o 25 de Abril.

domingo, 10 de julho de 2016

Ao Domingo com... João Leal

Escrevo porque gosto de criar histórias que ainda ninguém imaginou e do
processo de as tentar escrever do modo mais eficaz possível. Acho que entreter alguém é uma tarefa nobre. Gosto do contrato invisível que se estabelece entre o escritor de ficção e o leitor, em que o primeiro propõe um pequeno mundo que o segundo decide aceitar mesmo sabendo que não é a realidade.

O Terra Fresca nasceu numa tarde anónima de fim de semana em que assisti na Internet a uma troca de argumentos acerca de uma questão que divide teólogos há 500 anos. No final dessa acalorada discussão acerca da Predestinação, surgiram-me duas questões. « E se existisse alguém com possibilidade de criar outras pessoas a partir do nada? E se esse criador pudesse definir os pensamentos das suas criaturas, pensando estas que mantinham o livre-arbítrio?»

Pensei então em alguém que, sem o saber, tivesse nascido com essa capacidade e surgiu-me a imagem de uma rapariga a escrever, desesperada, no jardim de um chalet em plena Serra de Sintra.

Vivi com os personagens do Terra Fresca durante quatro anos. Pensei neles várias vezes ao dia e à noite tentava escrever. Entretanto, cá fora, na minha vida, as coisas iam mudando. Nasceu a minha terceira filha, desapareceram-me pessoas importantes, aconteceu-me algo inesperado que desfez o modo como encarava a vida e mudei de cidade. E, enquanto tudo isso ia acontecendo, os personagens lá estavam à minha espera, sempre prontos a avançarem quando eu os ia buscar a esse lugar que a ficção habita dentro de mim, sempre prontos a serem passados para o ecrã do computador ou para a superfície da folha de papel.

Para grande surpresa minha, surgiu, num desses momentos de casting, um dos personagens principais. O meu irmão Daniel não sobreviveu ao nascimento prematuro com 7 meses de gestação. Era três anos mais novo do que eu e sempre me questionei sobre como teria sido a minha vida se ele tivesse nascido e crescido connosco. Mudei-lhe o nome para David, convidei-o para a história, fi-lo conhecer a família Alonso e acabou por ser fundamental para o enredo do Terra Fresca.

Porque escrevo? Porque preciso de exercitar a imaginação. Percebo que poderá não ser tão nobre ou fundamental como outras razões que escritores apresentam. Escrevo para o leitor que sou, não para o escritor que sou.

João Leal

sábado, 9 de julho de 2016

Na minha caixa de correio

 



Ofertas:
Da Elsinore, Preparação Para a Próxima Vida.
Da Marcador, Naquela Ilha.
Da Quetzal, A Partir de Uma História Verdadeira.
Da Arena, Retox.
Do Clube do Autor, Ouro Preto.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Novidade Planeta

O Segredo de João das Regras
de Frederico Duarte Carvalho
Joaquim Barata, o jornalista que sofre de curiosidade insaciável, está remetido a uma vida pacata e a trabalhos de subsistência.
Mas o SIAC vem pôr termo a essa paz doméstica, na pessoa de Orlando Neves e de um pedido aparentemente inocente: ir a um consultório médico perguntar a um reputado psiquiatra da capital o que sabe ele do chamado segredo de João das Regras...
A partir daqui, Joaquim Barata vê-se envolvido numa trama que lhe prova uma vez mais que se «a curiosidade matou o gato» o pode também matar a ele.
Mas estão em jogo muitas mais vidas: as de todos aqueles que calhem a passar numa das mais populosas praças da cidade à hora em que lhe é marcado um encontro propositadamente fatal.
Avisar as vítimas é impossível – resta-lhe confiar nos recursos dos homens da secreta para neutralizarem o assassino e perceber porque é tão letal O Segredo de João das Regras...

Novidade Clube do Autor

Ouro Preto
de Sérgio Luís de Carvalho
Sérgio Luís de Carvalho é autor de uma vasta obra composta essencialmente por romances inspirados em factos reais e livros de divulgação de histórica. Ouro Preto é o título do seu novo romance, um livro que remete o leitor para uma Lisboa deslumbrada pelo brilho do ouro do Brasil e amesquinhada pela pobreza.
Entre a comédia e a tragédia, este romance baseado em factos reais transporta-nos para o cenário ostensivo e bizarro do Portugal setecentista.
Estamos em pleno século XVIII, vivem-se perigosas manobras políticas, segredos de alcova, amores, desamores e traições insinuam-se por detrás das procissões, dos autos de fé e das festas cortesãs. Sejam bem-vindos ao reinado de D. João V, o rei que nos fez sonhar com o ouro preto.

Convite Quetzal


Novidade Casa das Letras

Nem Acredito Que É Saudável
de Sara Oliveira
É possível comer algo saboroso, apetecível e nutricionalmente equilibrado sem abdicar do que é doce!
Ter uma alimentação mais cuidada pode ser fácil, mais constante e sem retorno, neste livro, a autora do blogue Nem acredito que é saudável partilha connosco mais de 50 receitas de saborosos doces saudáveis. Das granolas e barras de cereais para pequenos-almoços nutritivos; biscoitos, bolachas e trufas perfeitos para as pequenas pausas; bolos e muffins que vão fazer as delícias em qualquer lanche; mousses, pudins, gelados e sorvetes que enriquecerão todo o tipo de refeição; aos doces e cremes para barrar que serão um mimo para qualquer ocasião que irá querer partilhar.
O cuidado com os ingredientes e com o tornar algo nutricionalmente mais equilibrado é o caminho daqueles que procuram uma alimentação mais saudável. 
Acredite que é possível, experimente cozinhar, prove, ofereça e partilhe. É tudo uma questão de escolhas!

Novidade Nascente

O Monge Urbano
de Pedram Shojai
Já alguma vez se sentiu culpado por faltar ao ginásio? Já alguma vez se sentiu culpado por faltar a uma aula de ioga? Aprendeu a meditar mas acabou por desistir? Arrepende‑se de não passar tempo suficiente com os seus filhos, com o seu marido ou a sua mulher, com os amigos ou com os seus pais, que estão a envelhecer? Tem uma pilha de livros na mesinha de cabeceira para a qual olha todas as noites, perguntando‑se quando lhes pegará? Já lhe aconteceu regressar de umas férias a sentir‑se esgotado e menos preparado para enfrentar a vida do que antes de partir? Sente‑se stressado, cansado ou simplesmente aborrecido com a rotina em que vive? Bem‑vindo ao mundo moderno.

Novidade TopSeller


quarta-feira, 6 de julho de 2016

"Uma Boa Mulher" de Jill Alexander Essbaum

Como é que um livro, nas suas últimas duas frases, pode ser tão brutal? Não é minha intenção contar-vos nada que transpareça e vos faça perceber o fim desta obra mas gostava de deixar claro o quanto a escrita desta autora nos leva e encaminha para tal final. Mas, no entanto não estamos preparados para esse desfecho, nem tão pouco o desejamos.

Mas comecemos pelo princípio de tudo... Anna, a personagem central, é uma mulher que, decidida a acompanhar o marido para o seu país natal, a Suíça, se vê a braços com sentimentos de insegurança misturados com um enorme tédio. A língua diferente, os costumes desconhecidos e os poucos amigos que conseguiu arranjar são a desculpa (perfeita?) para uma série de adultérios a que não tenta pôr fim. Muito pelo contrário, o sexo voraz comanda a sua vida e vê-se metida em situaçôes que a confundem e a trazem cada vez mais insatisfeita.

A escrita da autora é de uma cadência rápida, intercalando momentos passados com os seus amantes e com questôes colocadas pela psicanalista que frequenta, e momentos presentes, onde se percebe o quanto Anna está cada vez mais enredada nas mentiras que prega ao marido e aos que vivem perto dela.

E se durante todo o livro nos conseguimos distanciar das atitudes de Anna, chegando a criticá-la pelo tamanho das mentiras em que se envolve, já nas últimas páginas isso não é conseguido. A personagem embrenha-se no leitor e nós sentimo-la dentro de nós. E aí a crítica já não sai fácil... Embora não querendo a nossa percepção face à personagem, altera-se.

Escrita profunda, bem conseguida, intensa. Por vezes, explícita sem ser grosseira, porque esporádica. Personagem bem caracterizada, de sentimentos contraditórios reflexo da vida agitada que possui que são descritos de uma forma especial, clara e transparente, criando no leitor um misto de empatia e repulsa.

Ide ler que vale bem a pena! Anna é uma boa mulher. A maior parte das vezes, pelo menos.

Terminado em 4 de Julho de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

Complexo e íntimo, Uma Boa Mulher é a história de uma mulher que enfrenta o vazio no seu casamento e procura dar um novo sentido à sua vida. Este é um romance que explora a sensualidade e o desejo em toda a sua força libertadora e subversiva.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

"Entre Céu e Terra" de Paula McLain

Os livros escondem verdadeiras surpresas. O melhor dos livros é que cada pode conter algo de especial para um leitor e, para outro, não constituir nenhuma surpresa! Esta diversidade é que faz da leitura e dos livros o seu verdadeiro tesouro.

Este livro em especial constituiu um verdadeiro prazer, saboreado devagar. Muito bom mesmo! Não sei se é por ter África no coração e na pele por mais de dez anos mas os meus olhos inundaram-se de aromas quentes, de paladares exóticos e de paisagens com as cores daquele continente.

E esta viagem levou-me para o Quénia colonial do início dos anos 20. Beryl Markham, que julguei erradamente ser fruto da imaginação da autora, cresceu no Quénia. Desde muito cedo aprendeu a amar a terra, as gentes e, sobretudo, os cavalos, já que seu pai possuia vários com os quais concorria em corridas. Aprendeu, principalmente, a transpor ela própria os obstáculos que lhe surgiram na vida. O primeiro foi o abandono de sua mãe quando tinha ainda poucos anos.

Destemida, logo deitou por terra convenções e costumes, sempre na tentativa de se encontrar, de encontrar um caminho que a fizesse sentir bem consigo mesma. Creio que a autora conseguiu ficcionar muito bem a vida de uma das primeiras mulheres naquele tempo a optar por profissões ditas masculinas: treinadora de cavalos de corrida e, mais tarde, pioneira da aviação inglesa.

Uma vida cheia de encontros, por vezes falhados, e abandonos mas também plena de vivências intensas e vividas com muita garra e amor. Adorei conhecer Beryl e fui googlar logo após ter terminado a última página para confrontar dados.

Um livro cheio de cor que é um retrato vivo de uma África quente, misteriosa e em constante mudança. Recomendo vivamente a sua leitura!

Terminado em 30 de Junho de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

Paula McLain, autora do bestseller Madame Hemingway, regressa com o seu muito aguardado novo romance, levando os leitores para o Quénia colonial dos anos 20.
Ainda adolescente, Beryl Markham acompanhou os pais quando se mudaram de Inglaterra para o Quénia em busca de uma vida melhor. Para a mãe, este sonho depressa se tornou amargo, e preferiu regressar a casa. Beryl foi educada pelo pai, entre a indulgência e o autoritarismo. Com dezasseis anos, já tinha sido forçada a um casamento desastroso, mas foi justamente a fuga a essa realidade que a fez tomar as rédeas da sua própria vida.
Escandalizando a sociedade com o seu comportamento errático, deixou o marido e tornou-se a primeira mulher a ter a licença de treinadora de cavalos de corrida. Sucumbindo ao hedonismo do grupo de Happy Valley, Beryl viu-se rapidamente envolvida num complexo triângulo amoroso com a escritora Karen Blixen e o famoso caçador Denys Finch Hatton (imortalizados no livro de memórias África Minha). Foi este romance infeliz que desencadeou a tragédia, despertando simultaneamente Beryl para o seu verdadeiro destino: voar.

domingo, 3 de julho de 2016

Ao Domingo com... Patrícia Muller

As letras estão em mim desde que entrei na Universidade Nova, em Lisboa, para estudar Comunicação Social. Foi na Elle que iniciei o meu percurso como jornalista tendo, depois disso, colaborado com outros periódicos e, mais tarde, em 2000, estreado a minha presença em televisão. Mergulhei na criação de argumentos em 2002 e, desde aí, tenho tido a oportunidade de escrever filmes, novelas, séries, entre muitos outros. Escrevi o meu primeiro romance – um romance histórico, em 2014. Madre Paula foi, de facto, a minha entrada na literatura. E foi com Uma Senhora Nunca que me iniciei na ficção de forma completa, embora este livro seja uma história com uma forte componente familiar. Este é o meu mais recente livro, lançado em abril.
Foi na minha bisavó que me inspirei para criar esta história. Conheci-a, mas nunca a conheci verdadeiramente, porque a idade avançada trouxe-lhe falta de lucidez. Lembro-me de a ver, sempre vestida de negro, muito séria, mas quase não falei com ela. Até que, um dia, numa conversa com a minha avó, soube que a minha bisavó tinha sido raptada. E foi assim que comecei a fazer perguntas atrás de perguntas, até conhecer muito melhor esta história familiar que remonta São século XIX.
Neste âmbito, aproveito para partilhar um texto inédito que complementa Uma Senhora Nunca:

O que uma senhora ainda não pode.

É difícil ser senhora. Maria Laura sabe-o bem. Todos os meses, quando recebe em casa o boletim da Mocidade Portuguesa, dedica longas horas a demolir-lhe os conteúdos, as indicações, as fotografias. A tentativa de formar uma nova elite feminina não é adequada a Maria Laura que concentra em si todo o universo feminino, elite e sem ser elite. É uma construção infinitamente mais complexa e perversa que a revisteca parola que lhe chega a casa pelas mãos da criada que a rouba ao Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, perto de casa de Maria Laura, onde anos mais tarde Lucinda, a filha da elite e sem ser elite, será uma estudante aplicada. 
Maria Laura despreza a Mocidade Portuguesa. Acredita que nenhuma associação, nenhum estado, nenhum homem, sequer, lhe pode dizer o que ela sabe desde nascença: como educar os filhos, como assistir os desvalidos, como governar uma casa. Uma senhora não pode depender de outros para lhe fazerem o trabalhinho. Muito antes de se falar em ajudar os pobrezinhos, já Maria Laura alimentava e vestia cinco criadas em casa. E, obviamente, criadas que não eram ricas. Foram salvas da pobreza por Maria Laura que as trata bem, quando não trata mal. Retirar uma pessoa da pobreza dá direitos sobre ela. Direitos cristãos, é certo, bondade e ternura e paciência e a possibilidade de uma palavra mais ríspida, se for o caso, amuo por dias, olhares fixos recheados de ódio, ordens enigmáticas quase inaudíveis, tarefas difíceis e demoradas. Ninguém disse que Deus tinha bom feitio. 
Das instruções que o boletim preconiza: “ser uma boa dona de casa sem maçar os outros com acontecimentos caseiros, compreensiva dos gostos e necessidades alheias, afectuosa para a família do marido, pontual, discreta com os seus amigos, económica, sincera e leal, com bom génio, dócil, séria, confiante, pouco tagarela e sem usar baton”, Maria Laura só concorda com a parte do pouco tagarela, mas mais por questão de feitio do que educação. Ela fala pouco porque uma senhora pode falar como raio quiser, desde que baixo e educadamente e só às vezes, ela não gosta de grandes grasnidos. Tudo o resto é uma perfeita idiotice, como explica ao pai, que concorda com tudo o que a filha diz, porque ela é perfeita. O que uma senhora ainda não pode é ter falta de amor paternal. 
Mas Maria Laura não se senta na obrigação de cumprir com outras regras que não as que ela conhece desde pequena, desde que se reinventou e chamou a si o epíteto senhorial, à custa de puxar as veias certas do coração e desligar as que pertencem a classes mais simplórias e populares. A senhora não é pontual, a senhora faz as horas do dia. Não é económica, é rica. Não é sincera e leal, usa de todos os recursos que possui para conseguir o que quer, incluindo mentir, exagerar e até verter lágrimas de crocodilo. A senhora é um crocodilo mal humorado. Tem confiança de que a educação – fornecida através da perceptora que a acompanha em casa; do pai que tudo sabe sobre o mundo e da avó, detestável avó que a ensinou a comer como se pudesse ir amanhã jantar com um membro da realeza europeia – é a chave para uma boa vida. Uma senhora ainda não pode prescindir de regras, sob pena de se engolir no seu próprio vómito. É um balanço complicado, uma linha de água muito escorregadia: um desequilíbrio e afunda. Maria Laura não afunda, porque a mão de Deus está sempre debaixo dela. E uma senhora ainda não pode permitir-se ficar sozinha neste mundo, sem a companhia do pai e de Deus. Por isso, Maria Laura, a senhora de todas as senhoras, reza todas as noites pelas semelhantes a ela e pede, com fervor, que nunca esmoreçam na tarefa de construir o mundo. Sem as senhoras, era tudo uma cambada de ordinaríssimos. E valha-nos Deus que isso venha alguma vez a acontecer.

Patrícia Muller






sábado, 2 de julho de 2016

Na minha caixa de correio

  

  



Oferta das editoras:
- Uma Senhora Nunca da Quetzal
- Águas Detox e Gelados Caseiros da Presença

Ganhos nos passatempos do JN:
- Para lá de Bagdad, Pare, Escute e Mude, Antes de Eu Partir e A Guitarra Azul

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Convidada Escolhe: Dora Bruder

"Dora Bruder", Patrick Modiano, 1997
Patrick Modiano é um autor francês que recebeu o prémio Nobel da Literatura em 2014. Neste livro o narrador e o autor aparentemente confundem-se e isso vai-se confirmando pela minúcia na descrição de alguns bairros da cidade de Paris onde decorre a acção e onde o autor nasceu, na data do nascimento de ambos – 1945 – e no facto de o primeiro livro escrito pelo narrador ter o mesmo título do primeiro livro escrito por Patrick Modiano – "La Place de l’Étoile".
É um livro relativamente pequeno, constituído por capítulos muito curtos. Tudo começa a partir de uma pequena notícia num Paris-Soir de Dezembro de 1941 que o narrador descobriu: uma rapariga de 15 anos, Dora Bruder havia desaparecido. O facto de o local onde ela vivia com os pais ser uma zona da cidade de Paris que o narrador conhecia bem e de que tinha recordações da infância aguçaram nele o desejo de tentar indagar o que teria acontecido a Dora Bruder. Tal como ele diz "é preciso tempo e paciência para fazer ressurgir à luz aquilo que foi apagado". Desde logo se percebe que as dificuldades, a burocracia são imensas, mas, sobretudo, que houve/há uma preocupação de quem é poder de apagar aquilo que é incómodo ou que nos envergonha como Humanidade.
O narrador/escritor é um "detective", um "arqueólogo" escavando, pesquisando para tentar responder às muitas perguntas que vai fazendo sobre Dora Bruder, sobre o seu desaparecimento e o seu paradeiro. São muitas as perguntas; são muitas as encruzilhadas; são muitas as dúvidas, mas também as coincidências. São recorrentes as expressões: Será que…? Talvez fosse… Como sabê-lo? Suponho que… Ignoro se… Nunca se virá a saber… Desconheço…
A partir de certa altura em que as pesquisas do narrador e os contactos vão sendo mais concretos, para além das características físicas e dos dados conhecidos através da pequena notícia do jornal, passamos a saber que Dora era uma rapariga judia independente, rebelde e amiga de sair e que em determinado período da sua adolescência os pais a haviam inscrito num colégio interno de onde fugiu em Dezembro de 1941. O/A leitor/a é convidado/a a acompanhar o narrador através de um roteiro que vai fazendo com as descobertas que vão desvendadndo o percurso de Dora e de outros judeus e judias que viveram o período da ocupação de Paris pelos nazis. As detenções arbitrárias porque não exibiam a estrela amarela, as condições aviltantes de encarceramento e de transferência de campo para campo até à viagem final a caminho de Auschwitz. Numa carta que uma das presas de vinte e nove anos escreveu à família, carta essa que foi atirada pela janela do comboio e que um ferroviário apanhou e pôs no correio lia-se : "Vou a caminho de um destino desconhecido, mas o comboio donde vos escrevo dirige-se para Leste: talvez a viagem seja longa…" E depois há outras cartas pungentes dirigidas aos Prefeitos, aos Directores e Chefes de Serviços dos Judeus em que se pedem informações e se pergunta pelo paradeiro de familiares há muito desaparecidos. Mas entretanto, sem mesmo se esperar e de forma inusitada pode-se ser confrontado com uma carta que nunca chegou ao destino, à venda numa das famosas livrarias dos cais do Sena!
Para além dos registos escritos que ainda subsistem e que são fundamentais para que a memória não se apague, há as fotografias das pessoas e dos locais, embora os locais não retenham as memórias de quem lá viveu ou tenham sido destruídos como aconteceu com os bairros que foram arrasados depois da guerra, como que por uma necessidade de impor a amnésia sobre o que ali se passou. "Aniquilara-se tudo para edificar uma espécie de aldeia suíça cuja neutralidade já não era possível pôr em dúvida." Afinal era preciso tornar tudo tão neutro, cinzento e asséptico quanto possível. E é clara a posição do autor de através da paciência e muita persistência trazer à luz e à actualidade aquilo que não pode ser esquecido.
Ao mesmo tempo que se segue uma pista em busca da jovem Dora Bruder que fugiu do internato mas que foi apanhada nas malhas dos ocupantes fascistas, o narrador revela-nos outros nomes de outras raparigas, de outras mulheres, de outros presos. E é exaustivo na sua identificação, como que lendo-nos o seu cartão de identidade: os nomes, as idades, os locais e datas de nascimento, a residência, a situação familiar, a origem. No entanto, mesmo conseguindo fazer-nos viver as aflições vividas por aquelas pessoas em resultado daquilo que foi capaz de investigar e descobrir, o narrador reconhece que foi incapaz de responder a muitas perguntas que formulou sobre Dora e sobre o período em que ela escolheu viver em liberdade desde que fugiu do internato até à altura da detenção pela Gestapo. Esse é o segredo de Dora Bruder, a reserva de intimidade que ninguém conseguiu violar: nem os ocupantes, nem o narrador, nem os/as leitores/as.
Um livro admirável, subtil e muito forte.

Almerinda Bento

terça-feira, 28 de junho de 2016

Passatempo 6º Aniversário / Suma de Letras

 

Para mais informações sobre o passatempo, clique aqui.

Passatempo 6º Aniversário / Marcador


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Passatempo 6º Aniversário / Bertrand


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Passatempo 6º Aniversário / Saída de Emergência


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Passatempo 6º Aniversário / Clube do Autor

 

 

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Passatempo 6º Aniversário / Guerra e Paz


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Passatempo 6º Aniversário / Porto Editora


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Passatempo 6º Aniversário / TopSeller


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Passatempo 6º Aniversário / Presença


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Passatempo 6º Aniversário / Manuscrito


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Passatempo 6º Aniversário / Planeta

 

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Passatempo - 6º Aniversário "O Tempo Entre os Meus Livros"


E já lá vão seis anos! Como passaram depressa! Dia 28 o blogue é pequenino...

Como não podia deixar de ser, O Tempo Entre os Meus Livros tem alguns livrinhos para vos oferecer. Um obrigado muito especial às editoras que se juntaram ao blogue e que muito gentilmente colaboraram ofertando alguns livros. São elas: Planeta, Manuscrito, Presença, TopSeller, Porto Editora, Guerra e Paz, Clube do Autor, Saída de Emergência, Bertrand e Marcador.

É fácil participar.
Só têm de enviar email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com mencionando nome completo, morada e nick do seguidor do blogue. Só o podem fazer uma única vez.
Os diversos passatempos sairão ao longo do dia. O blogue e as editoras não se responsabilizam por qualquer extravio dos CTT aquando do envio dos livros. Só é permitida uma participação por pessoa/morada. Os vencedores serão contactados via e-mail.

Basta enviar um só mail para ficar habilitado a todos os passatempos!

O passatempo começa a 28 Junho e termina a 12 de Julho.

Embora não seja obrigatório, o blogue agradece a partilha no Facebook!

Os livros a que ficam habilitados são:

Planeta
  • A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón
  • O Apelo do Anjo de Guillaume Musso
Manuscrito
  • Cruz credo bate na madeira de Andreia Vale - 3 exemplares
Presença
  • Os Frutos do Vento de Tracy Chevalier
TopSeller
  • O Primeiro Marido de Laura Dave
Porto Editora
  • Para lá de Bagdad de Alberto S. Santos
Guerra e Paz
  • Só no escuro podes ver as estrelas de Cristina Boavida
Clube do Autor
  • Ouro Preto de Sérgio Luís de Carvalho
  • No calor da noite de Richard Castle
  • Planisfério pessoal de Gonçalo Cadilhe
  • Quando voltares para mim de Margarida Rebelo Pinto
Saída de Emergência
  • Os filhos de Salazar de António Breda de Carvalho
Bertrand
  • Receitas de vida para Melissa de Teresa Driscoll
Marcador
  • O Senado de Luís Corredoura
Suma de Letras
  • A Vida é fácil, não te preocupes de Agnès Martin-Lugand
  • A Livraria dos finais felizes de Katarina Bivald

Boa sorte e muito obrigada pela vossa presença aqui no blogue!

Cris

"Os Frutos do Vento" de Tracy Chevalier

Que bom é saborear um livro e, ao mesmo tempo, aprender. Mesmo sabendo tratar-se de uma história ficcionada apercebemo-nos que todo o contexto social, histórico e geográfico foi objecto de uma apurada pesquisa por parte da autora, resultando uma trama que nos parece verídica e, consequentemente, nos envolve por completo.

Uma família instala-se numa zona inóspita do Ohio e dedica-se ao cultivo dum pomar de macieiras, entre outras coisas. O solo e o clima não ajudam nesse processo e sofrem com toda uma série de intempéries que lhes atinge e destroi com frequência as plantações e, mais que isso, a vontade de continuar e permanecer em tal lugar. Essa rudeza que é palpável na humidade sentida, na lama que tudo suja, nas doenças que atingem a matar, no intenso calor ou no frio que lhes gela os movimentos, transforma as relações entre os membros da família e notando-se uma frieza nos seus sentimentos e no trato entre eles que fere o leitor, gelando-o também por vezes.

Os filhos são muitos mas a morte está ali constante, sempre presente. De dez, restam apenas cinco. Há um diferente, destaca-se entre eles. E é a história desse menino, que foge dessa terra e da tragédia que aí teve lugar, que vamos seguindo ao longo de páginas e páginas, que lemos com muito prazer. Aprendendo ao mesmo tempo, como referi.

Creio que o final é de somenos importância. O que gostei mais, muito mais, foi todo o desenrolar da história, todo seu desenvolvimento e sua caracteirzação espaço-temporal. Senti-me na história e nesse mundo tão distante que foi o desbravar de um território que hoje conhecemos como EUA. Foi isso que retive desta história e que vai ficar por muito tempo na minha memória.

Recomendo!

Terminado em 23 de Junho de 2016

Estrelas: 5*


Sinopse

Em 1838, a família Goodenough instala-se em Black Swamp, uma zona inóspita e remota do Ohio, onde cultiva um vasto pomar de maçãs para ter direito à terra. A vida naquele local é extremamente dura. James e Sadie Goodenough encontram formas distintas de enfrentar as adversidades: James limita-se a esperar que as suas diletas macieiras cresçam e deem frutos, enquanto Sadie passa os dias embriagada.
Nisto, uma discussão entre o casal tem uma consequência terrível no destino dos filhos. Em 1853, Robert, o filho mais novo, encontra-se a vaguear pela Califórnia em plena Febre do Ouro, incerto de que rumo dar à vida. Deve continuar a fugir do passado ou constituir família? A vida dos colonos americanos retratada num romance intenso onde a família é causa de sofrimento e alegria.

Para consultar mais informações sobre este livro, consulte o site da Presença, aqui.

sábado, 25 de junho de 2016

Na minha caixa de correio

   

  

  

Ofertas:
Dieta, Um Modo De Vida da Arena.
Entre os Céu e a Terra da Jacarandá.
Da Topseller, Um rapaz Muito Especial.
 Da Planeta, A Viúva.

Comprados:
Loja Cahs Converters: Os Pilares da Terra, vol. 1 (um dos primeiros livros de Follett que li e que adorei!) Primavera Adiada, A Imperatriz da Rússia e A Dançarina do Templo
Continente: Nem Acredito Que é Saudável e Super Alimentos.