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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

"O Projeto Rosie" de Graeme Simsion

Emprestado por um amigo, este livro esperou demasiado tempo na minha estante e não fora a vergonha de o ter "à espera" ainda agora se encontraria lá... E que perda, se assim fosse!

A capa não desvenda nem um pouco o seu conteúdo. Não a acho feia, só um pouco sem sabor, se bem que integrada no conteúdo do livro. O interior, no entanto, é delicioso. Sim, "delicioso" é a palavra correta. O narrador, o personagem principal, conta-nos uma história. A sua. E poderia ser algo pacífico, quase amorfo, não fosse ele uma pessoa deveras especial. O nosso sorriso está presente em toda a leitura deste livro.

Vamo-nos apercebendo que as suas capacidades sociais são muito diminutas se o compararmos com uma pessoa dita "normal", enquanto que, por outro lado, as suas capacidades intelectuais, a sua memória são surpreendentes. Ao contar-nos como decide arranjar uma esposa, como programa o seu dia-a-dia até à exaustão, como "vê" os outros, como lhe é dificil compreender tudo sem ser pela lógica e pela razão, como encara a vida, não podemos deixar de criar uma forte empatia com quem nos deixa de sorriso nos lábios.

Associei, de imediato, o seu "problema" a uma forma de autismo, o Sintoma de Asperger. Creio que foi uma brilhante maneira de me fazer sentir por dentro de alguém a quem é mais fácil olhar o mundo através da lógica e onde as emoções nao fazem sentido. Até certo dia... porque na vida nem tudo é o que parece.

Adorei a ironia subjacente a todos os acontecimentos que surgem na vida deste professor de genética que tenta desesperadamente enquadrar-se no mundo em que vive, moldando e alterando a sua forma de agir quando descobre que nem tudo é racional nem lógico e que começa a aprender a reagir às situações através do instinto, através do coração.

Deveras deliciosa a forma como o autor conta uma história simples, que se podia resumir em poucas frases, não fosse a sua escrita e a sua forte imaginação. Recomendado. Muito.

Terminado em 14 de Fevereiro de 2015

Estrelas: 5*

Sinopse

Don Tillman está noivo. Mas ainda não sabe de quem.
Professor de Genética e pouco sociável, decide que chegou o momento de arranjar uma companheira, e elabora um questionário que irá ajudá-lo a encontrar a mulher perfeita.
Quando Rosie Jarman aparece no seu gabinete, Don assume que ela pretende concorrer ao "Projeto Esposa" e penaliza-a por fumar, beber, não comer carne e ser pouco pontual.
Mas Rosie não ambiciona tornar-se a Sra. Tillman. O seu objectivo é recorrer ao profissionalismo de Don, para que ele a ajude a encontrar o seu pai verdadeiro.
Às vezes, não somos nós que encontramos o amor; é o amor que nos encontra…
O Projeto Rosiede Graeme Simsion
Críticas de imprensa
«Um livro maravilhoso. Don Tillman é tão confuso e inconveniente quanto adorável e encantador.»
John Boyne, autor de O Rapaz do Pijama às Riscas

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Um Livro Numa Frase



"Eu também sou assim, a biblioteca é a primeira coisa que vasculho quando entro numa casa, a primeira impressão é muito importante, é a que conta, os livros são o melhor espelho do nosso anfitrião."
In o Cemitério dos Amores Vivos de António Araújo, pág. 58

Um Livro Numa Frase




"As palavras que ainda não lera já me roubavam a paz de espírito."

In O Cemitério dos Amores Vivos, pág 15

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Na minha caixa de correio

  

  



Da Esfera dos Livros veio O monstro de Monsanto. Que capa linda!
Do Clube do Autor, O Cemitério dos Amores Vivos. Curiosa com este livro...
Da Porto Editora um livro que desejo muito ler: o último da trilogia Cavalo de Fogo.
Oferta de uma afilhada, A Chave de Salomão.
De uma loja Cash Converters vieram: Reencontros no Deserto, O Menino Alemão e Sem Ti Eu Não Existo.

Passatempo Especial Dia dos Namorados com a Quinta Essência


Para comemorar este dia especial que celebra o Amor nada melhor que a companhia de um livro romântico! Assim, a Editora Quinta Essência associou-se, muito gentilmente, ao Tempo Entre os Meus Livros e tem para oferecer, aos seguidores do blogue, um exemplar do livro Todos Os Teus Beijos de Laura Lee Guhrke.
Para isso basta responder corretamente às questões colocadas e ter um pouquinho de sorte! O vencedor será sorteado aleatoriamente através do Random.Org.
Para além deste passatempo, os concorrentes ficam habilitados automaticamente a ganharem outro livro desta editora que tenho cá em casa em duplicado (estado: novo). A autora da frase mais original (terceira pergunta) irá ganhar o livro de Barbara Cartland, À Beira do Lago Encantado.
O passatempo decorre até dia 27 de Fevereiro.
Boa sorte!



Novidade Porto Editora

Hereges
de Leonardo Padura
Em 1939, o S.S. Saint Louis, onde viajavam novecentos judeus fugidos da Alemanha, passou vários dias ancorado no porto de Havana à espera de autorização para desembarcar. Um rapaz, Daniel Kaminsky, e o tio aguardam no cais a saída dos familiares, confiantes de que estes tentariam os oficiais havaneses com o tesouro que traziam escondido: uma pequena tela de Rembrandt, na posse dos Kaminsky desde o século XVII. Mas o plano fracassou e o transatlântico regressou à Europa, levando consigo qualquer esperança de reencontro e condenando muitos dos seus passageiros.
Volvidos largos anos, em 2007, quando essa tela vai a leilão em Londres, o filho de Daniel, Elías, viaja dos Estados Unidos a Havana para descobrir o que aconteceu com o quadro e com a sua família. Só um homem como o investigador Mario Conde o poderá ajudar. Elías descobre então que o pai vivia atormentado por um crime, e que esse quadro, uma imagem de Cristo, teve como modelo outro judeu, que quis trabalhar no atelier de Rembrandt e aprender a pintar com o mestre.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Novidade Esfera dos Livros

O Monstro de Monsanto
de Pedro Jardim
Uma rapariga encontrada morta na floresta de Monsanto. Um delicado vestido azul a cobrir o corpo. O cabelo cuidadosamente penteado. Uma máscara de papel branco com um poema de Florbela Espanca sobre o rosto. É este o cenário que Isabel Lage, inspetora da Brigada de Homicídios da Polícia Judiciária, encontra no local do crime. A primeira vítima de um serial killer que não deixa pistas, que habilmente se move pela floresta e que parece conhecer todos os passos da polícia. Isabel está apostada em resolver este mistério e fazer justiça em nome das mulheres que morrem às mãos de um assassino frio e calculista. Mas todas as pistas levam a João, o seu antigo companheiro de patrulha, e com quem partilhou mais do que aventuras profissionais.

Iniciativa Leya/FNAC - Livros sem capa procuram leitores apaixonados para relacionamento sério

Sabia que a capa de um livro pesa, pelo menos, 60% no seu processo de decisão para o escolher? E quanto pesa a aparência física na escolha de um grande amor? Não sabemos, mas afiançamos que, tal como as ilustrações das capas, esteja claramente sobrestimada.

E se as capas não existissem? Como escolheríamos os livros e as histórias pelas quais nos apaixonamos? É este o mote da ação do Dia dos Namorados nos centro comerciais Alegro Alfragide e Alegro Setúbal promovidos com o apoio da LeYa e da Fnac, em plena época de São Valentim, de 7 a 15 de fevereiro. Durante este período, os dois centros comerciais Alegro vão desafiar os seus visitantes a terem um envolvente blind date, mas com livros. O objetivo é que os visitantes peguem num qualquer livro com a capa escondida (todas estarão escondidas) e leiam as primeiras 10 páginas do mesmo, sem julgar a história pela sua capa. A experiência pode ser arrebatadora: histórias nas 
quais nunca “viajaria” podem, de repente – e livremente - surpreender. Esta experiência pode ser vivida por solteiros, por casais apaixonados, e até na companhia dos elementos mais pequenos da família, que terão à sua disposição um cantinho de leitura infantil e atividades aos fins-de-semana.

A ação envolve mais de 1.000 livros, impacientemente anónimos e a postos para saltarem das prateleiras para as mãos dos leitores. Haverá, ainda, mensagens perdidas no interior dos livros, oferta de marcadores personalizados com fotografias tiradas no momento (exclusivo dias 14 e 15), cartões oferta Alegro no valor de 10 euros e, claro, promoções imperdíveis nos livros escolhidos para um relacionamento sério.

P.S. os amores literários que já não tenham lugar no coração e na casa do leitor, poderão ser doados no próprio espaço para serem entregues a duas instituições locais.

Locais: junto às lojas FNAC dos centros comerciais Alegro Alfragide e Alegro Setúbal

Datas: de 7 a 15 de fevereiro 2015

Horários: sábados e domingos, das 10h às 21h; de segunda a quinta-feira, das 16h às 20h; sexta-feira das 16h às 21h

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A Escolha do Jorge: Golpes

O francês Jean Meckert (1910-1995) foi-nos dado a conhecer através da Antígona no final de 2013 com a publicação de "Abismo e outros contos" que para aqueles que tiveram oportunidade de ler os três contos, manifestamente ficou agarrado às histórias cruas e densas do autor e que de certeza sentiu vontade de ler mais obras do autor.

No final de janeiro, a mesma editora publicou "Golpes", o primeiro romance de Jean Meckert publicado inicialmente em 1941 tendo rapidamente ficado na mira daqueles que apreciam a rebeldia das letras que traduz em certa medida a rebeldia no viver.

Tendo passado muitas dificuldades durante certos períodos da sua vida, Jean Meckert conheceu de perto o que é a fome e o desespero agarrando inúmeros trabalhos precários para poder comer e sobreviver, daí que estes temas desempenhem um papel fulcral nas suas obras. À medida que vamos conhecendo alguns pormenores da vida do escritor, rapidamente concluímos que a sua escrita reflete de forma significativa situações muito concretas da sua vida, nomeadamente aquelas que se prendem com a precariedade.

É precisamente o repúdio que sente em relação à burguesia vigente na época que Jean Meckert critica ou até mesmo a classe média que procura a todo o custo afirmar-se e copiar os padrões dessa burguesia que dita as regras sociais no que respeita ao poder de compra acabando por arrasar os mais necessitados e desprotegidos.

Esta é uma das tónicas que é transversal ao longo de "Golpes" na medida em que o personagem Félix que começa a trabalhar numa oficina sem ser propriamente um trabalhador qualificado apaixona-se por Paulette, uma das colegas, com quem acaba por contrair matrimónio. À medida que vai conhecendo a família da esposa, Félix rapidamente compreende que aquele não é o seu meio, além de ser constantemente humilhado face à sua condição social. Por outro lado, Félix reconhece nesta família a quão vazia e despropositada é face aos seus anseios de aspiração social, caindo tantas vezes no ridículo.

Clivagens sociais à parte, Jean Meckert apresenta em "Golpes" o protótipo de uma relação entre duas pessoas que passa da fase de encantamento e de enamoramento, paixão até, e que com o desenrolar da narrativa e das vivências dos personagens, acabam mesmo por se tornar estranhos entre si. A ideia de um projeto comum, idealizado a partir de dificuldades que os uniram com força e determinação numa fase inicial, viram-se completamente vazias e sem sentido nas vésperas do casamento de Félix e Paulette.

O matrimónio é então contraído quando na verdade já pouco havia entre Félix e Paulette. É certo que ambos nutriam amor um pelo outro, porém o que os ligava já era muito pouco e ainda assim tomaram a decisão de cometerem a imprudência que em pouco tempo arrastaria o casal para um contexto de violência doméstica que começou no dia do próprio casamento.

Escrito de uma forma penetrante e objetiva, Jean Meckert arrasta-nos por completo para o âmago desta complexa relação que tantas vezes nos esmaga sem recorrer a subterfúgios linguísticos. Tudo é tratado com todas as letras e palavras, tornando "Golpes" numa obra extremamente atual ao ponto de esquecermos que já foi publicada há mais de 70 anos. Até mesmo nos aspetos que remetem para a mentalidade, não existe um desfasamento assim tão grande com a atualidade sobretudo no que respeita ao nosso país que ainda se mantém provinciano e antiquado ainda que envolto de capa de aparente modernidade.

Totalmente preso a uma cadeia de dissabores, Félix vê-se como um indivíduo que questiona constantemente a sua insatisfação face ao mundo em que vive e que aquilo a que habitualmente se designa por felicidade nada mais é do que fruto de breves momentos egoístas que cada um sente. Em suma, a realidade, a vida, é tudo uma farsa que impede o homem de alcançar ou de experienciar a felicidade em pleno.

O amargo de boca que fica no final de "Golpes" segue em linha com o já não saber o que pensar e fazer, além de que em tantas situações o homem preferir a ficção à realidade e que até mesmo nessa situação também não lhe traz a alegria suprema.

Excertos:
"Sem sofrimento, não existe história, arte, civilização, nada. Já sabemos.
Se virmos bem, a felicidade é sempre qualquer coisa de obsceno.
Um contentamento perfeito, tanto à superfície como em profundidade, comer bem, gozar a vida, em espasmos ou em preces, eis a base de tudo. O resto não passa de uma grande farsa e de um biombo. A felicidade é começar por nos fecharmos num grande egoísmo. Não é que seja bonito, mas é repousante." (p. 99)

"Talvez esteja errado, mas não gosto dos conversadores. Da mesma maneira que a moda é feita para as pessoas sem gosto, a cavaqueira é o disfarce daqueles que não têm nada na cabeça, é a grande busca do impasse a que chamamos infinito, é a grande fraude civilizada, aquilo que vemos de fora, o grelado, o falhado." (p. 127)

"Nós pensamos no Pão, e não tanto na igualdade. O Pão para todos, o mínimo, o trabalho garantido, a coragem de viver. Isso não é um mal!
Pensamos também na Paz, e não tanto no antimilitarismo e na objeção de consciência. A paz sólida, duradoura. Queremos criar uma potência que se chamaria: Paz! Não há razão para tapar a cara." (p. 133)

"De repente lembrei-me de um famoso casal discretamente conflituoso e amargurado, os dois extenuados de uma noite de cinema, que havíamos julgado de alto, no tempo da nossa perfeição.
Era nesse estado que estávamos agora! Não dava para acreditar!
Os dois teimosos, mas atormentados, cheios de uma raiva surda, à beira de explodir, não havia que enganar.
Sentia espasmos dolorosos do estômago. Por um nada, ter-me-ia posto a chorar.
Buscava na cabeça alguma coisa para lhe dizer, problemas, porquês, comos. Queria estar calmo para lhe falar com ponderação e perguntar-lhe o que tinha ela contra mim que explodia em sacanice gratuita." (p. 220)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

"A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te" de Rosa Montero

Adorei este título! Sugestivo e imaginativivo q.b. Mas também revelador da temática do livro. A perda, a ausência permanente, a morte, essa palavra difícil de pronunciar quando se trata de um ente querido.

No entanto, ela não é tratada de uma forma penosa e chocante mas sim como um tributo à vida. Porque se viveu bem, porque se viveu completamente, porque todos temos de partir.

Sabemos que a autora estava a passar por uma perda, dois anos passados sobre a morte do seu marido, e a escrita desta obra foi como que um catalisador do seu estado de espírito. Uma catarse. Ler o diário de Marie Curie, duas vezes prémio Nobel, redigido no ano seguinte à perda do marido, Pierre Curie, ajudou-a. Reviu-se nela, compreendeu-a.

E este livro não é só sobre Marie Curie, a sua vida, os momentos passados e a sua luta pelos seus sonhos e projectos numa época que as mulheres tinham o dever de estar enfiadas na cozinha e quase nada mais... Este livro é sobre a vida, sobre a luta. Sobre VIVER. Sobreviver.

Num estilo coloquial, onde muitas vezes somos questionados e tratados por "tu", Rosa Montero deixa marcas no leitor. Não é uma leitura leve, mas aconselho-vos a terem um papel e um lápis à mão. Tantas pequenas frases para anotar, tantos pensamentos...

Terminado em 7 de Fevereiro de 2015

Estrelas: 4*+

Sinopse

Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso.
São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.
Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A Convidada Escolhe: A Rainha dos Sipaios

A Rainha dos Sipaios, de Catherine Clément, é um romance em que as personagens, com exceção de duas, e os factos históricos são reais. A rainha indiana Lakshmi Bai é a principal inspiradora deste livro pois foi uma das principais personagens na Revolta dos Sipaios, grande movimento indiano, no século XIX, de libertação face ao império Britânico.
A Inglaterra colonizadora da Índia havia dois séculos, começou a pretender novos domínios e cada vez mais impunha novas exigências junto dos reis e rajás de reinos livres e seus povos. Quando começou a ser aplicada uma doutrina no sentido de acabar com o direito dos descendentes dos marajás a herdarem os seus reinos para poderem ser anexados, o descontentamento tomou forma de luta. Os sipaios, indígenas recrutados, formados pelo exército britânico até aí disciplinados e obedientes, iniciaram a sua revolta. A Inglaterra reagiu e a chacina foi enorme. Os reinos iam caindo um a um para as mãos dos ingleses que já nem respeitavam os seus aliados. Foi assim que a rainha Lakshmi Bay, viúva, jovem arrapazada, que era em princípio aliada dos ingleses, por força das circunstâncias se viu obrigada a juntar-se aos sipaios revoltosos e com uma coragem inexcedível lutou à frente dos soldados numa guerra sem tréguas. As vinganças e as chacinas foram monstruosas de parte a parte. Os avanços e os recuos eram uma constante. Esta rainha guerreira, líder de um exército de autênticas amazonas, vestida de homem, sucumbiu gloriosamente em combate. A partir daí os ingleses dominaram de novo. Esta Revolta dos Sipaios é considerada a primeira luta pela independência da Índia.
É uma obra apaixonante, que nos recorda o que foi o império Britânico na Índia e o poderio da Companhia das Índias Orientais e que se lê com muito interesse e agrado.

Maria Fernanda Pinto

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

"O-Bicho-da-Seda" de Robert Galbraith

Demasiado "gordo" para andar com uma pessoa de metro e meio (eu!), tive de intercalar esta leitura com outro livro mais leve, que me permitisse transportá-lo. E, se no princípio isso não constituiu um problema, já para o meio das 520 páginas, tal facto irritou-me profundamente. Explico porquê...

A narrativa instiga-nos, num constante crescendo, a tentar descobrir quem praticou o terrível assassinato que o livro descreve e ter de parar a leitura e intercalá-la com outra foi, na verdade, um suplício!

Este livro suplanta em muito o anterior "Quando o Cuco Chama", quer em termos gráficos visto que o assassinio é descrito de uma forma explícita (bastante horrível, aliás!), quer na descrição física das personagens (muito visual!) como também na sua profunda descrição psicológica (não seria de esperar outra coisa de J.K.Rolling!).

Agradou-me muito mergulhar no ambiente (será tembém aqui um pouco assim?) algo conturbado dos escritores e editoras, com ódios e rancores guardados e projectados; na relação pessoal e amorosa de Robin, ajudante do detective Strike, com o noivo (num próximo livro aposto que tem os dias contados!) e nos problemas de Cormoran Strike, quer físicos (foi-lhe amputada parte de uma perna aquando de uma explosão na guerra do Afeganistão) quer do foro psicológico. Gostei, sobretudo, de seguir as suas deduções que o ajudaram a descobrir o assassíno e a sua busca de pistas e provas na tentativa de comprovar a sua teoria!

Com uma escrita detalhada e envolvente, a autora de Harry Potter, soube cativar com pequenos pormenores, com o mistério crescente e com cenas mais audases.
Se gostei no primeiro livro, o que dizer deste? Muito melhor! E é assim mesmo que deve ser! Venha o próximo desta série...

Terminado em 2 de Fevereiro de 2015

Estrelas: 5*

Sinopse

Quando o escritor Owen Quine desaparece, a sua mulher contrata os serviços do detetive privado Cormoran Strike. De início pensa que o marido se ausentou por uns dias - como já acontecera anteriormente - e recorre a Strike para o encontrar e trazer de volta a casa.No decorrer da investigação, torna-se claro que o desaparecimento do escritor esconde algo mais.Quine tinha acabado de escrever um romance onde caracterizava de forma perversa quase todas as pessoas que conhecia. Se o livro fosse publicado iria certamente arruinar algumas vidas - pelo que haveria várias pessoas interessadas em silenciá-lo. E quando Quine é encontrado, brutalmente assassinado em circunstâncias estranhas, começa uma corrida contra o tempo para tentar perceber a motivação do cruel assassino, um assassino diferente de todos aqueles com quem Strike se tinha cruzado...Um policial de leitura compulsiva com um enredo que não dá tréguas ao leitor, O Bicho-da-Seda é o segundo livro desta aclamada série protagonizada por Cormoran Strike e pela sua jovem e determinada assistente Robin Ellacott.
Para mais informações sobre o livro veja aqui!

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Um Livro Numa Frase



"E onde encontrarei eu uma alma se a minha partiu contigo?"

In A Ideia ridícula de Não Voltar a Ver-te de Rosa Montero, pág. 170

Ao Domingo com... João Nogueira

Este é o meu livro, “Pés bem assentes na Lua”.
    O livro surgiu como consequência de algumas dezenas crónicas e textos escritos desde 2010, publicados no blog, homónimo do livro, e no magazine Mais Opinião. 
Embora a escrita seja uma condição existencial inerente à produção de um escritor, para se ser escritor é preciso publicar, fazer a escrita nascer para os outros e eu gostava de ser escritor um dia. Um escritor de frases curtas. De palavras simples. Capaz de fazer da cara de quem me lê um teatro de fantoches. Ora a rir. Ora a chorar. Mas chorar lágrimas disparadas pelo peito. Não pelos olhos. Isso é fácil.  Mas isso leva tempo. São precisas geografias. Paisagens. Sítios. Pessoas. Filhos, talvez. Porque só podemos transformar os outros quando nos transformamos primeiro. 
    Ninguém é escritor por escrever bem. Por ter a rima que rima mais longe. Por ser espectacular a dividir sujeito e predicado. Por nunca se esquecer de colocar o acento no primeiro "a" de cágado". Um escritor traz a gramática nos olhos, primeiro. Só depois é que ela lhe foge para os dedos. 
    A capa deste livro já indica ao leitor o que se poderá encontrar. Não se trata de uma lua qualquer, nem de sapatilhas que se encontram à venda nas melhores lojas. São apenas símbolos de algo que nasce jovem. Que se pretende que seja arrojado e contemporâneo. E que tenta percorrer um percurso de sonho. Um livro com janelas para o olhar. Gavetas abertas para o quotidiano. Pretende ser uma viagem intensa pelos labirintos da alma e do tempo: família, amigos, saudade, sonho, infância. 
    Este livro fala de mim. Muito. Demais, se calhar. Numa primeira leitura pode parecer pretensioso. E numa segunda também. Mas não. Não é, de todo, essa a intenção. Escrevo aquilo que vivo. Escrevo aqueles que vivem em mim. Os viajantes da minha viagem. O bom de escrever é que desapareço. Engano o tempo. Regresso aos sítios de onde nunca saí. Às caras de onde nunca saí. Na máquina do tempo que tenho cá dentro vou lá atrás e invento futuros. E vejo-me outra vez como já fui. E como eram os meus
Escrever alivia. Guia-nos para um sítio bonito. Com sorte, leva-nos ao sítio mais alto de nós.
    Escrever afectos é difícil. Escrever sítios onde construímos o que somos é difícil. Escrever pessoas que são o nosso Deus é difícil. Escrever saudade é difícil. 
Para mim, é! Sai-me do peito. Que é onde tenho mil deuses aos berros. Escutar o deus certo dá que fazer. E eu sou um ouvinte. Que escuta os consílios que fazem as Bodas de Fígaro no meu peito.
    Às vezes escuto bem. Às vezes mal.
    Este é o meu livro. Duzentas e dezoito páginas de pessoas. E de sítios. E de Homens. E de Mulheres. E de saudade. E de tempo. E de todas as estações do ano que um Homem tem cá dentro.
    Do livro fazem parte 34 crónicas. Que, sendo pessoais, tenho a expectativa que consigam ser abrangentes, na medida em que, por mais diferentes que sejamos, temos uma idiossincrasia comum. Somos sempre mais iguais do que diferentes.
    O livro tem a pretensão de ser para todos. Porque todos temos sítios. Todos temos sonhos. Todo somos personagens da nossa própria vida. E personagens na vida dos que partilham a nossa viagem.
    Nestas linhas há muitas caras. Pessoas reais. Que amam, que desamam, que riem, que choram, que têm coragem e que têm medos. Como todos nós. Pessoas que se transformam em personagens para o leitor.
    São as minhas. As que me foram aparecendo. 
    O livro fala de distância. E de saudade. Muito de saudade.  E da relação entre ambas. Quando o amor é longe, um homem deixa de ter um ponto cardeal.  Não há remédio. Há que agradecer, porque há amor. Longe, mas amor. Passa a ser nómada. Anda de um lado para o outro. Às vezes nem sabe de que terra é. Está sempre no meio da ponte. A fazer a espargata. Um braço e uma perna para um lado. O outro braço e a outra perna para o outro. A pedir, a ambos, que o vão buscar. De um lado, família. Do outro, uma Mulher. O meu peito, que é o peito de um nómada, é um sítio com dois montes. Há andorinhas num e noutro. Também há relâmpagos num e noutro. No peito de um nómada nunca há paz. Há tribos seminuas que tocam tambor. Há música, sempre. Às vezes boa. Às vezes má. E um nómada precisa de descansar. E um nómada precisa de paz. Mas há um tesouro nos dois montes. E o nómada nunca há-de ter paz. 
    É um livro de partidas. E de chegadas. Do medo das partidas. Da euforia das chegadas. E da vida que há no meio disso. Porque a distância é aborrecida. A vida deve ser todos os dias. Não pode ser só quando calha. 
    Nestas páginas há malas. Que contam histórias. Que vão sempre levezinhas. Mas quando voltam trazem o mundo todo lá dentro. Há amigos. Mas daqueles que são animais selvagens a correrem-nos nas veias. Há amigos que a vida nos bifurcou. Que nos reduziu a lembranças. E a culpa é sempre nossa quando nos deixamos desperdiçar quando nos temos à mão de semear.
    No livro há Deus. Sem haver. Uma coisa mal resolvida. De quem acha inconcebível existir um ser perfeito. Que está em todo o lado. Que sabe tudo. Que está nas alturas. Mas que acha igualmente inconcebível que isto acabe de um momento para o outro. E que depois não haja mais Pai. Nem Mãe. Nem irmã. Nem Mulher. 
    No livro há família. A minha. Esses são o meu Deus. E neles tenho uma fé inabalável. E deles serei sempre apóstolo. Eles, que têm Deus. Mas estão enganados. Porque só devemos louvar quem é maior do que nós. E ninguém. Ninguém é maior do que Eles. 
Neste livro há Porto. Que é um sítio onde as pessoas têm pelo na venta. Fazem escarcéu. Puxam do pregão a torto e a direito. Mais a torto do que a direito. O Porto é uma maternidade de onde sai gente como a gente dos outros sítios. Quem o visita, diz que tem alma. Que é uma coisa que se vê sem ser com os olhos. Aliás, para se ver uma coisa com olhos de ver, os olhos só atrapalham. Só embaciam. Para os líricos, como eu, o Porto é Mãe.

João Nogueira

(João Nogueira, 34 anos, licenciado em Ensino Básico\1° Ciclo pela ESE de Paula Frassinetti, ex-aluno do curso de Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, colunista no magazine "Mais Opinião" e animador de sessões de Filosofia com crianças.) 
http://rjoaonogueira.wix.com/joaonogueira
https://www.facebook.com/pesbemassentesnalualivro



Um. Livro Numa Frase



"Antes de o inverno chegar, a cigarra gozou de uma vida fantástica, enquanto a existência da formiga foi sempre bastante monótona."

In A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te, pág. 150

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Na minha caixa de correio

        

  


A Cidadela Branca, Alguns Preferem Urtigas e o Barão Trepador foram comprados numa loja Cash Converters. Preços óptimos!
Uma Criança Chamado Amor foi oferta da Editora Topseller.
8 Semanas e O Último minuto vieram da Editora Quinta Essência/ Leya.
Os Super Alimentos foram ofertados pela Casa das Letras/ Leya.
A Educação de Felicity vieram da Asa/ Leya.
O meu obrigada às editoras que gentilmente me enviaram estes livros!
Grandes Receitas na Bimby, Vítimas de Salazar, Os Salteadores do Nilo, Arroz de Palma, A vida Quando era Nossa e Não se Encontra o que se Procura ganhei nos passatempos do JN.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Novidade Quinta Essência

8 Semanas Para Mudar os Seus Hábitos Alimentares



10 hábitos indispensáveis para que a sua família ganhe em saúde. A equipa de nutricionistas da be-Slim elaborou este livro com o objetivo de proporcionar a todos as ferramentas necessárias para terem uma alimentação saudável e estabilizarem o peso sem recorrerem a dietas sazonais nem comprimidos e chazinhos pouco recomendáveis.A larga experiência no mercado do emagrecimento permitiu verificar quais as dúvidas e questões mais frequentes que preocupam as pessoas duma forma geral.Não é um livro com mais um plano para perder peso, mas sim toda a informação necessária para que consiga alimentar-se sempre da melhor maneira. Saber escolher os alimentos, confecioná-los e como os distribuir ao longo do dia. Cumprindo esta alimentação de forma regular, não é necessário fazer «dietas» e toda a família ganha em saúde!Apresentamos ainda receitas de pratos tradicionais, que utilizamos no nosso dia a dia, mas com pequenas alterações que os tornam mais ricos nutricionalmente mas  sem perderem o maravilhoso sabor da nossa cozinha. 

Novidade Porto Editora

Sombras sobre o Cairo
de Parker Bilal
No Sudão, ele foi inspetor-chefe até ter visto a sua família ser assassinada às mãos dos islamitas. Agora, exilado no Cairo, Makana procura sobreviver prestando serviços como detetive privado. Por 
sorte, o seu novo cliente tem dinheiro, muito dinheiro: dono de um clube de futebol, Saad Hanafi recorre aos préstimos de Makana justamente para que este encontre a estrela maior da sua equipa, Adil Romario, desaparecido em condições misteriosas. Empurrado para um mundo perigoso, a investigação de Makana conduzi-lo-á ao traiçoeiro submundo do seu país adotivo, cruzando-se com radicais islâmicos, gangsters russos, mulheres vingativas e uma mãe desesperada por encontrar a filha – trilhos que irão remexer com memórias pessoais dolorosas, acordando o passado e forçando a um encontro nada desejável...

Novidade Casa das Letras

OS SUPER ALIMENTOS QUE PODEM MUDAR A SUA VIDA

de Christine Bayley
Este livro apresenta-lhe uma solução simples e eficaz: aquilo que comemos pode afetar extraordinariamente a maneira como pensamos e como nos sentimos. Descubra como vencer a ansiedade, o stresse, as alterações de humor, a falta de energia, a depressão e os problemas de sono.
Com Os Super Alimentos Que Podem Mudar a Sua Vida descubra por que razão a instabilidade dos níveis de açúcar no sangue conduz a enormes alterações de humor; de que forma a carência de determinados nutrientes e gorduras pode reduzir a função cognitiva, causar dificuldades de concentração e até perda de memória; e como o consumo de alimentos que provocam dificuldades na digestão pode desencadear ansiedade e fadiga.
Nada neste livro exige alterações dramáticas no seu estilo de vida. Pelo contrário, mostra-lhe que através de uma melhor compreensão das ligações entre aquilo que comemos e o que sentimos, e através de simples mas eficazes modificações na nossa dieta, podemos seguir padrões alimentares que terão efeitos profundos e duradouros no nosso espírito e no nosso humor.

Novidades Planeta

A Herança Bolena
de Philippa Gregory
1539, a corte de Henrique VII teme cada vez mais as constantes mudanças de humor do rei envelhecido e doente. 
Apenas com um bebé, como herdeiro, o rei tem de encontrar outra esposa e o perigoso prémio da coroa de Inglaterra é ganho por Ana de Cléves.
Apesar de se mudar para um país onde os costumes e a língua são estranhos, Ana tem as suas razões para aceitar o casamento com um homem com idade para ser seu pai. 
Apesar de se sentir deslumbrada por tudo o que a rodeia, sente que uma armadilha está a ser entretecida à sua volta. 
A sua aia Catarina tem a certeza de que conseguirá seguir os passos da prima Ana Bolena até ao trono, mas Joana Bolena, cunhada de Ana, ensombrada pelo passado, sabe que o caminho de Ana Bolena a levou à Torre e à morte.


Colecção Booket
Pecados Escondidos
de Emma Wildes
Da premiadíssima autora, que conta com uma legião de fãs em Portugal, um romance de época, apimentado com muito sexo e paixões avassaladoras até à última página. 
Uma escrita envolvente que combina sensualidade e erotismo.

A Cidade de Vidro
de Cassandra Clare
O terceiro volume de uma série incontornável da literatura fantástica, que mergulha o leitor num universo que combina cenários cosmopolitas e modernos com as lutas ancestrais entre anjos e demónios.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Escolha do Jorge: Diário da Guerra aos Porcos

Adolfo Bioy Casares (1914-1999) é um dos vultos incontornáveis da literatura argentina do século XX estando as suas obras publicadas em mais de vinte línguas. Entre os inúmeros prémios recebidos ao longo da sua carreira, o escritor foi igualmente agraciado com o Prémio Cervantes, o máximo reconhecimento da literatura em língua espanhola, em 1990.
"Diário da Guerra aos Porcos" (1969) é uma das obras de maior relevo no percurso de Adolfo Bioy Casares na medida em que transporta para a literatura um tema de uma grande atualidade, o do envelhecimento da população e do seu impacto nas gerações mais jovens.
Se a obra em si provoca alguma (ou mesmo bastante controvérsia), não deixa de nos dias que correm gerar uma preocupação acrescida atendendo ao facto de a natalidade ter diminuído progressivamente em muitos dos países considerados desenvolvidos, havendo, neste sentido, dificuldade na renovação das gerações, tendo, consequentemente, um peso significativo dos orçamentos dos países para fazer face às reformas dos idosos.
Imaginemos um país, neste caso especificamente, a Argentina, em que na sua capital Buenos Aires, um grupo de jovens que aumenta de dia para dia decide perseguir, sequestrar e mesmo matar idosos, ao ponto de muitos indivíduos deste grupo etário começarem a circular nas ruas apenas à noite quando há menos movimento e daí, menos probabilidades de acontecer alguma fatalidade.
Mas esta perseguição cerrada aos idosos vai muito para lá das questões relacionadas com o peso das reformas que recai sobre os mais jovens. Esta perseguição é tão incompreensível quanto lícita sendo esta a questão nevrálgica e original da obra "Diário da Guerra aos Porcos" apresentada por Adolfo Bioy Casares. A anunciada perseguição corresponde à negação que o ser humano tem sobre a ideia geral de envelhecimento. Se por um lado perseguir e matar idosos, aqui apelidados tantas vezes de "porcos" significa aniquilar pessoas consideradas de alguma forma inúteis para a sociedade, por outro lado acabou por ser um movimento que pecou pela base tendo o seu reverso da medalha na medida em que matar um idoso corresponde de algum modo a cometer suicídio dado que ao matar aquele determinado indivíduo nada mais é do que matar, aniquilar aquele em que me vou tornar dentro de alguns anos.
Complexo e não menos inquietante, o leitor entra nesta guerra de idades quase como se tratasse de uma guerra civil entre jovens e idosos que no fundo poderá ser interpretada como uma guerra do homem que de algum modo se reflete na luta entre a vida e a morte.
Interessantes são igualmente as questões levantadas no que respeita à idade ou momento/s em que um indivíduo se torna idoso. Necessita ter alguns problemas de saúde? Dificuldades de mobilidade? Deixa de exercer interesse no sexo oposto? A pele tem de ficar enrugada? Será um idoso a conjugação dos aspetos referidos anteriormente e de outros tantos que poderemos enumerar? E em relação aos sonhos e projetos de um idoso? Será que um idoso tem projetos? E sonhos? Quais serão? Terá tempo útil para os concretizar em vida?
"Diário da Guerra aos Porcos" é, pois, uma obra que nos marca mais não seja pela ideia da inevitabilidade do tempo que passa por nós deixando o seu rasto ao longo dos anos. Ninguém gosta da ideia de envelhecer e tudo tentamos, não propriamente para contrariar o ciclo vital (embora o recurso à cirurgia estética e outras terapias seja hoje uma realidade cada vez mais frequente), mas para que a vida que sobra seja vivida com mais dignidade e determinação em manter a cabeça e um espírito jovem. Sim, porque velhos são os trapos…
"Diário da Guerra aos Porcos" é mais um dos grandes livros de Adolfo Bioy Casares que regressa novamente às livrarias juntando-se a outras obras do autor argentino com igual valor literário, nomeadamente "Plano de Evasão", "O Herói das Mulheres", "A Invenção de Morel" e "O Sonho dos Heróis".

Excertos:
"- O que me aborrece nesta guerra ao porco - irritou-se porque, sem querer, chamou isso à perseguição dos velhos. - é o endeusamento da juventude. Parece que estão loucos por serem jovens. Que estúpidos."
"- Nesta guerra, os miúdos matam por ódio contra o velho que vão ser. Um ódio bastante assustado..."
"- (...) Há um novo facto irrefutável: a identificação dos novos com os velhos. Através desta guerra, eles entenderam de uma maneira íntima, dolorosa, que todos os velhos são o futuro de um jovem. Deles próprios, talvez! Outro facto curioso: invariavelmente, o jovem elabora a seguinte fantasia; matar um velho equivale a suicidar-se."
"- A juventude é uma presa do desespero (…). Num futuro próximo, se o regime democrático se mantiver, o homem velho será o amo. Por uma questão de simples matemática, entenda-me. Maioria de votos. O que é que nos mostra a estatística, vamos lá ver? Que a morte hoje não chega aos cinquenta, mas sim aos oitenta e que, amanhã, chegará aos cem. Perfeitamente. (…) Acabou-se a ditadura do proletariado, para dar lugar à ditadura dos velhos."
Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A convidada Escolhe: Educação Europeia


“Educação Europeia”, Romain Gary, 1945

Que actual e importante é este romance. Acabado de ler na semana em que se comemoraram os 70 anos da libertação do campo de Auschwitz e se lembrou a necessidade imperiosa de não esquecer o que foi o extermínio e o horror perpetrados pelos nazis. Também na semana em que todos os olhos e vozes estiveram virados para a Grécia e para a enorme esperança que a vitória do Syrisa se reflicta na soberania e dignidade de um povo acossado por inimigos poderosos e implacáveis.
Este é, como outros livros sobre a guerra e a Resistência, uma obra que responde à necessidade de contar como foi, de trazer à memória, de fazer com que a humanidade não esqueça. Se a Europa não estivesse em guerra, se a Polónia não estivesse a ser ocupada pelo invasor nazi, certamente o jovem Janek Twardowski teria vivido uma adolescência normal, no seio da família, estudando numa escola em Vilnius como os jovens da sua idade. Mas a época era de perseguição, de arbitrariedade, de invasão e o jovem Janek rapidamente se confrontou com uma outra realidade com a qual sobreviveu enquanto durou a guerra. O seu pai construiu-lhe um esconderijo na floresta, deixou-lhe alguns sacos de batatas, deu-lhe alguns conselhos sábios que lhe permitissem sobreviver e deixou-lhe esta ideia “Nada do que é importante morre”, a qual frequentemente recordava ao longo do romance, sobretudo em momentos particularmente difíceis.
Mas a sua educação teve outro rumo. Sozinho na floresta, em breve o seu encontro com os partisans, o fez aprender a viver em condições extremamente adversas. O frio inclemente e a neve são os inimigos naturais que se juntam à fome e à guerra.
No meio do desespero, para além da lembrança terna dos pais desaparecidos, a música, a leitura e os incentivos dos feitos heróicos do camarada Nadejda são os esteios que trazem a força ao jovem Janek e aos outros companheiros da Resistência, quando parece que já não é possível aguentar mais, mesmo quando há rumores de que os alemães estão a sofrer uma pesada derrota em Estalinegrado, a grande esperança na libertação e no fim da guerra. Nadejda é a figura do herói resistente, invencível e invisível, que ninguém sabe quem é nem por onde anda, mas que é referido como aquele que, nas diversas frentes da resistência, vai infligindo derrotas ao inimigo alemão. Mais tarde Janek irá perceber que afinal há um camarada Nadejda em cada um deles e que esse é o “alimento” da Resistência nos momentos mais extremos.
De entre os vários companheiros da Resistência, Janek descobre o amor com a jovem Zozia e encontra em Dobranski um amigo, um irmão, um pai. Dobranski é quem, de entre os partisans, se dedica a levantar o moral dos companheiros, lendo os contos que vai construindo. São histórias onde a ironia alterna com relatos do horror, com as baixas infligidas pela resistência aos soldados alemães, geralmente tratados não como vencedores, mas como seres frágeis e vulneráveis. É um livro que ele vai escrevendo e partilhando com os companheiros da Resistência e que quer que seja divulgado depois que a guerra tiver acabado. Tadek Chmura um dos companheiros da Resistência sugerira “Educação Europeia” para título do livro. “Para ele, educação europeia são as bombas, os massacres, os reféns fuzilados, os homens obrigados a viver em buracos, como animais… Mas eu aceitei o desafio. Podem dizer à vontade que a liberdade, a dignidade, a honra de ser homem, enfim, tudo isso, não passam de um conto de fadas, pelo qual as pessoas morrem. A verdade é que há momentos na história, momentos como aquele que vivemos, em que tudo o que impede o homem de desesperar, tudo o que lhe permite acreditar e continuar a viver, precisa de um esconderijo, de um refúgio. Por vezes, esse refúgio é apenas uma canção, um poema, uma música, um livro. Eu queria que o meu livro fosse um desses refúgios; que, ao abri-lo, depois da guerra, quando tudo tiver acabado, os homens reencontrassem o seu bem intacto, que soubessem que puderam obrigar-nos a viver como animais, mas que não conseguiram obrigar-nos a desesperar. Não há arte desesperada, o desespero é apenas falta de talento.”
Este romance de Romain Gary, que nos recorda “Se isto é um Homem” de Primo Levi, é um livro da Resistência. Sendo datado, é, no entanto muito actual porque trata da história da humanidade, das traições, da imensa capacidade de sobrevivência, do heroísmo, da solidariedade, do amor e da amizade, da arte e da cultura como bens essenciais e em que as mulheres surgem como protagonistas tratadas ora como despojos de guerra pelos invasores, mas também capazes dos maiores sacrifícios.
Sendo embora ”Educação Europeia” e “Se isto é um Homem” gritos de resistência e registos da memória de dois homens que passaram pela guerra na luta contra o fascismo, quer-me parecer que o suicídio de ambos – Romain Gary em 1980 e Primo Levi em 1987 – é a marca de algo terrível que não se apagou nas suas vidas e que os atormentou irremediavelmente. Ficam, no entanto, eternos através da literatura e da arte que tão bem abraçaram.
Termino com uma das muitas citações que era possível aqui colocar, mas que de algum modo me tocou:
“Subitamente Janek teve a sensação de que o mundo dos homens não era mais do que um saco enorme, no qual se debatia uma massa informe de batatas cegas e sonhadoras: a humanidade.”

Almerinda Bento

Resultado do passatempo Bicho da Seda

Chegou ao fim o passatempo "Bicho da Seda" de Robert Galbraith que teve a gentil colaboração da Editorial Presença .

Desta vez concorreram 389 seguidores, tendo sido aleatoriamente seleccionado o número 195 que corresponde a:

- Alda Moreira de S. Domingos de Rana. 


À vencedora os nossos parabéns.

Para saber mais informações sobre este livro, clique aqui.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

"Ethel, Amanhã em Lisboa" de Cesário Borga

Com uma capa sugestiva, uma sinopse que deixava antever uma trama passada durante um periodo da história sobre o qual me apaixonei há muito tempo e que nunca me canso de ler (o Holocausto) este livro estava na minha wish list mal o vi. 
Aprender um pouco mais com a leitura de um livro dá-me um verdadeiro prazer. E os romances de época possuem quase sempre algo que desconhecemos ou pelo menos que já não nos lembrávamos e que é bom relembrar, sendo que em ambos os casos, a leitura é como que uma tomada de consciência dos valores e dos factos de então.

Se, em certas passagens, esta obra parece um romance leve, outras há que nos transportam para o tempo em que Lisboa era um "paraíso" para todos os que fugiam do regime hitleriano. Confesso que foi por esta razão que a trama me prendeu.

Ethel, judia holandesa e Edgar, jovem traficante de volfrâmio, apaixonam-se rapidamente. Quase "à primeira vista'! Gostei, sobretudo, quando o romance adquire uma maior consistência e se torna mais plausível, mais real. Jogando entre dois espaços temporários, o autor manipula com mestria dados históricos e um doce romance, facto que nos prende irremediavelmente.

Se gostarem de ler sobre esta época e vos apetecer ler algo que faz a ponte entre um apaixonado romance e um periodo muito doloroso da História, então este é o vosso livro!

Terminado em 17 de Janeiro de 2015

Estrelas: 4*

Sinopse

Uma história de amor entre uma jovem judia em fuga e um traficante de volfrâmio, passado durante a II Guerra Mundial entre a famosa estação de comboios de Canfranc e Lisboa. Tomar o comboio para Lisboa é visto por Ethel, 18 anos, holandesa, judia de ascendência portuguesa em fuga desde Paris, como um perigoso e arriscado passo para um amanhã cintilante de liberdade e para uma existência feliz ao lado da paixão de uma vida: Edgar. Mas em Lisboa, os alemães e os negociantes de volfrâmio adstritos às forças do regime fazem-nos regressar à condição de fugitivos. Uma história de ajuste de contas com o passado.
No tempo marcado por esta fuga e esta chegada, Ethel, Amanhã em Lisboa é uma história de amor entre uma judia e um traficante de volfrâmio que começa em Canfranc, a famosa estação ferroviária nos Pirenéus, posto de fronteira franco-espanhola, controlado pelos alemães durante a II Guerra Mundial, mas por onde refugiados judeus, espiões, intelectuais, artistas e escritores banidos tentam, apesar de tudo, a fuga para território livre.
Tomar o comboio para Lisboa é visto por Ethel, 18 anos, holandesa, judia de ascendência portuguesa em fuga desde Paris, como um perigoso e arriscado passo para um amanhã cintilante de liberdade e para uma existência feliz ao lado da paixão de uma vida: Edgar. Mas em Lisboa, os alemães e os negociantes de volfrâmio adstritos às forças do regime fazem-nos regressar à condição de fugitivos.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Um Livro Numa Frase

(Imagem retirada da Net)

"Como a maior parte dos escritores, tendo a descobrir o que sinto em relação a alguma coisa escrevendo sobre ela. É assim que interpretamos o mundo, que compreendemos o seu sentido."

In O Bicho da Seda de Robert Galbraith, pág. 379