"Terra Fria" é a mais recente reedição das obras de Ferreira de Castro (1898-1974) que desde 2013 a Cavalo de Ferro tem trazido novamente ao público depois de "Emigrantes", "A Missão", "A Experiência" e "A Selva".
Publicada inicialmente em 1934, "Terra Fria" constitui uma das obras mais emblemáticas de Ferreira de Castro apresentando, no entanto, algumas características que diferem um pouco da maioria das suas obras canónicas.
A narrativa desenrola-se maioritariamente na aldeia de Padornelos, concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, Trás-os-Montes profundo, já muito próximo da fronteira espanhola. Não esquecendo as duras condições de vida dos trabalhadores da região que se dedicavam de um modo geral à agricultura e à pastorícia, Ferreira de Castro transpõe com rigor a cadência dessas atividades ao longo das estações do ano permitindo ao leitor compreender não só a forma de subsistência de uma das regiões mais isoladas do país, como também o funcionamento de uma das comunidades mais ancestrais com as suas tradições que lhe são próprias com vista à sobrevivência do grupo face às inúmeras dificuldades por que passavam os seus habitantes, obrigando, em certas situações, à partilha e entreajuda não só entre elementos da mesma aldeia e/ou das aldeias circundantes.
A proximidade com o país vizinho torna o contrabando uma prática recorrente dos indivíduos mais afoitos como forma de ganhar mais algum que sirva de complemento ao magro salário que mal dá para a alimentação e manter o pequeno casinhoto com más condições de habitabilidade. Embora os riscos que os contrabandistas corram com a atividade ilícita, o leitor é levado a compreender que as muitas dificuldades económicas por que passava o país e a região em particular levava as pessoas a sobreviverem de todas as formas não olhando aos perigos que envolviam o transporte de mercadorias de um país para o outro de forma ilegal.
É neste cenário de terras transmontanas com o inverno excessivamente frio e o verão muito quente que "Terra Fria" se desenvolve, culminando em tragédia. Não tanto uma tragédia de acordo com o modelo grego em que há o cumprimento de algo trágico previamente estabelecido pelo destino ("moira funesta") que nem os deuses podem alterar o curso da ação dos homens que estão presos ao seu próprio destino. Na "Terra Fria", a narrativa vai evoluindo entre o trio amoroso (Leonardo-Ermelinda-Santiago) que de certa forma se antevê no início da obra, prevendo-se um triste desfecho, trágico no mínimo. E assim acontecerá.
A estrutura da narrativa é análoga a tantas outras histórias em que Leonardo casa com Ermelinda. Leonardo trabalha no curtume de peles e Ermelinda vai trabalhar na casa de Santiago, «o americano», que regressou da América e que decidiu investir na sua aldeia natal. Se por um lado, Santiago é visto como novidade pelo facto de ter regressado à terra, o mais apetecível para a comunidade é mesmo o dinheiro que acumulou no estrangeiro durante anos de exílio, podendo de alguma forma beneficiar dos dólares ganhos por terras estrangeiras.
Se Ermelinda beneficia de um trabalho pago acima da média, há também o retorno que se traduz nos jogos de alcova entre Santiago e Ermelinda que rapidamente é seduzida não só pela graciosidade da maneira de estar diferente do seu patrão-amante em comparação com Leonardo, o seu marido que é um homem rude, mas trabalhador.
Ermelinda rapidamente se envolve emocionalmente com o patrão que também tudo faz para a seduzir à semelhança do que fazia com outras jovens das aldeias limítrofes sendo, pois, essa a sua fama que corria em Padornelos.
As estações do ano vão passando e Ermelinda continua a ir de manhã para casa de Santiago, regressando ao final do dia para o seu marido Leonardo até que algo na história toma lugar alterando o curso da narrativa e, consequentemente, a vida de cada um dos personagens, culminando então em tragédia.
A tragédia no romance "Terra Fria" não é atribuída aos caprichos do destino na medida em que o leitor sabendo que poderá acontecer algo funesto, vai acompanhando o desenrolar da história na sequência de um conjunto de decisões tomadas pelos principais personagens. Aqui a morte é o resultado de um ressentimento que se acumula transformando-se em ódio. O ressentimento nietzschiano transforma-se em loucura incapaz de encarar a realidade com sentido e lucidez, acabando num ato atroz, ignominioso.
Enquanto que nas tragédias gregas o espetador sabe de antemão o desenlace da história, mas ainda assim fica estarrecido com a representação dos personagens e com o cenário envolvente, em "Terra Fria" o leitor tem sempre a perceção dos factos, sabe sempre onde está a verdade à medida que os acontecimentos vão tendo lugar, ficando, pois, a faltar o desenlace final que é poder provocar (ou não) o efeito surpresa.
Em "Terra Fria", cada vizinho julga ser o detentor da verdade, andando de boca em boca correspondendo em primeira instância ao zum-zum transmitido entredentes, ao diz-que-diz que rapidamente se transforma no mexerico que alimenta toda a aldeia. A pequena comunidade julga saber a verdade e é em nome dessa mesma verdade que se pretende que se cumpra a justiça.
Para estas pequenas comunidades, o cumprimento da justiça é tantas vezes associado ao "cá se faz, cá se paga", pois para pessoas com menos estudos e cultura, por vezes a necessidade de justiça urge, daí que tantas vezes se oiça em justiça pelas próprias mãos.
De forma a evitar situações que tragam desconforto e até a própria injustiça, "Terra Fria" apresenta também o antídoto face ao acima exposto, de que toda a comunidade é em parte co-responsável por certos acontecimentos, pois na medida em que os vizinhos se julgam dotados de verdade e justiça, apenas a consciência de um dos personagens é capaz de conduzir ao volte-face final da história. Assim, graças à consciência para encarar a dura verdade e as suas consequências, a justiça é cumprida e os ânimos acalmam. Também o leitor fica tranquilo porque tudo acaba em bem.
Excertos:
"- E o que vais fazer? – perguntou, com palavras macias, húmidas de uma ternura que ele próprio ignorava.
- Ainda não sei bem. Parece que é para tratar da casa, das roupas e do gado. Não sei! Mas seja lá o que for, o que é preciso é ir para a frente...
Ele não pôde dominar-se mais. Largou o sacho e, avançando para a mulher, abraçou-a, comovido como nunca se sentira depois que tinha casado.
- Ainda havemos de ser muito felizes! Ainda havemos de ser muito felizes, vais ver!... "
"Gentes que viviam ainda sob remotas tradições, muitos habitantes de Barroso acreditavam no poder incontestável da ponte de Misarela sobre os ventres infecundos ou que não sustinham o fruto, desde que as mulheres implorantes se submetessem às práticas que os antigos aconselhavam. Essa crença estendera-se a muitas léguas de distância e até de Cabeceiras de Basto e de Braga acorriam ali candidatas a mães, na esperança de que a semente do homem germinasse. Se, apesar de tudo, útero estéril continuava, à ponte não se atribuía a culpa e sim a quem ela viera e não soubera manter as usanças necessárias para que a fecundação prosperasse. Teria sido por isso, teria sido por aquilo, os logrados e si próprios responsabilizavam pela derrota do seu intento."
"Linguareira, a «tia» Augusta semeara a novidade e logo, sob a sensação imprevista, que a todos perturbou, as gentes vieram postar-se à margem do caminho que a pecadora devia fazer. Estavam as velhas e os velhos de cara de pau, lábios repuxados para dentro, como se boca desdentada os quisesse devorar; estavam os de meia idade: elas, esguedelhadas, ludras, mas tão fiéis aos maridos que nem a miséria quotidiana lhes era tão fiel; eles, enjorcados, remendos por toda a parte, faces negras de barba e um cigarrito chupado em silêncio. E estava também a canalha miúda, atraída pela pasmaceira dos adultos e teimosa em deixar-se ficar, por muito que os pais, não querendo ruído, ordenassem a sua retirada."
Texto da autoria de Jorge Navarro
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quinta-feira, 29 de outubro de 2015
quinta-feira, 20 de março de 2014
A Escolha do Jorge: "A Experiência"
A Cavalo de Ferro Editores desde meados de 2013 começou a reeditar a obra completa de Ferreira de Castro (1898-1974), um dos escritores portugueses mais traduzidos em todo o mundo e nem por isso menos esquecido nas últimas décadas em Portugal. Os títulos já publicados são “Emigrantes”, “A Missão” e agora foi a vez de “A Experiência” chegar às livrarias. Integrado no contexto do neorrealismo, Ferreira de Castro é um acérrimo defensor dos direitos dos trabalhadores através da denúncia das más condições de vida e de trabalho, a dificuldade que tantas pessoas têm em satisfazer as necessidades básicas como a alimentação, o olhar para o futuro através da emigração que também o autor tão bem conheceu.
Numa época conturbada como a que atualmente se vive em Portugal, (re)ler as obras de Ferreira de Castro conduzem o leitor a questionar o sentido que o país tem tomado ao longo das últimas décadas deixando-nos numa verdadeira encruzilhada.
A dias de “comemorar” os 40 anos do derrube da ditadura, têm sido sempre receosos os discursos e comentários alusivos à efeméride na medida em que se denota alguma (ou mesmo muita) contenção nas palavras de quem quer que dê a cara. Se por um lado 40 anos é um período já considerado digno de comemoração, por outro lado serão certamente poucos os portugueses que sentirão verdadeiramente a alegria intensa quando o país é revisitado por sérias dificuldades económicas que atingem uma parte significativa da população, não esquecendo os ataques sucessivos a direitos dos cidadãos que tão dificilmente as gerações anteriores conseguiram almejar e que atualmente assistimos a uma destruição progressiva e compulsiva de direitos concretos que serviam de base para uma sociedade sólida e com esperança no futuro e no progresso.
Escrito em 1952-1953, “A Experiência” é um dos mais complexos livros de Ferreira de Castro e não menos subversivos atendendo ao facto de que a abordagem de temas como prostituição e aborto numa época em que predominava o lema “Deus, Pátria, Família” é sem dúvida um salto qualitativo no que diz respeito ao mercado editorial de então. Não deixa de ser interessante que só nas últimas páginas do romance há uma alusão objetiva e direta à prostituição quando um dos interlocutores diz: “- Mas há de vir um dia em que ninguém terá necessidade de roubar ou de prostituir”, caminhos trilhados por Januário e Clarinda, os personagens principais do romance.
Para além dos temas acima indicados, Ferreira de Castro estabelece o ponto nevrálgico da obra sendo, pois a questão central, a base de uma sociedade mais justa e consciente que é a aposta na educação dos jovens de modo a poderem tornar-se verdadeiros exemplos de cidadania ativa orientados para a construção de um mundo mais justo e, consequentemente, menos cruel. Esta “experiência” (utopia) é,
pois, o desejo que Henrique Sampaio Mendo deixou em testamento para que fosse criado um asilo para crianças desprotegidas de Mangudas, no interior do país, cujas interpretações rapidamente foram subvertidas na medida em que os elementos mais proeminentes da localidade consideravam que a educação dos jovens estava a seguir um caminho perigoso que os afastaria daquele que era considerado o normal funcionamento da sociedade.
Profundamente atual e não menos acutilante, Ferreira de Castro apresenta-nos um romance que nos dias que correm nos levam a refletir sobre que caminho deverá trilhar a sociedade com vista à concretização de objetivos tão nobres. Mas até que ponto estará a sociedade disposta a dar esse passo?
Quantos Januários e Clarindas conseguirá a sociedade resgatar se não apostar numa educação responsável e assente em valores que a todos dignifica?
Excertos
“Mas, um dia, tornei a pensar: «Pois se estás quase um homem e te vês sem futuro, pois se aqui não podes arranjar nada, por que não arriscas e não vaispor aí fora? Outros mais novos do que tu têm ido para Lisboa, para o Brasil e mais longe ainda». Comecei a empreender naquilo e cada vez sentia mais vontade de partir. Tinha medo, mas parecia-me que tudo seria melhor do que estar em casa do doutor Carrazedas…”
“Que se estimule igualmente na alma das crianças o sentimento de justiça, que, sendo também inato, se encontra atrofiado, às vezes mesmo suprimido por velhas ideias feitas, por princípios remotos que emprestam às maiores iniquidades a legitimidade de atos normais e, pela lei de precedência e força do hábito, tranquilizam as consciências se, apesar de tudo, em alguma delas se produz um rebate.
Mais determino que esta obra de compreensão seja orientada num sentido ativo e não passivo: compreender e amar os homens para melhor aclarar e melhor combater as razões das injustiças, da miséria e da servidão que anulam tantas vidas e que levam muitas outras ao desespero e até ao crime, transformando em noite negra a alvorada que cada qual traz consigo quando nasce.”
Texto do autoria de Jorge Navarro
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