Gosta deste blog? Então siga-me...

Indique o seu email para receber actualizações

Também estamos no Facebook e Twitter

Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Campaniço. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Campaniço. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de maio de 2016

A Escolha do Jorge: As Viúvas de Dom Rufia

"As Viúvas de Dom Rufia" é o sucessor das obras aclamadas de Carlos Campaniço, "Os Demónios de Álvaro Cobra" (2013) e "Mal Nascer" (2014), cujo universo continua a decorrer no Alentejo profundo, embora, desta vez, a narrativa decorra nos primeiros anos após a implantação da República.
"As Viúvas de Dom Rufia" é-nos apresentado num estilo mais descontraído, brejeiro por vezes, seguindo em linha com o Firmino, o Dom Rufia, personagem principal, que está decidido a vencer na vida, deixando para trás a vida de trabalho árduo nos campos, de sol a sol, e de miséria, com muito pouco para sobreviver.
Abandonado pelo pai e órfão de mãe, Firmino é criado pelos tios, Maria Teresina e Homero que, desde tenra, revelou-se uma criança com muita energia e dotada de imaginação antevendo-se grandes sarilhos à conta das suas traquinices ao ponto de ser reconhecido como ser reconhecido como um potencial problema em Fernão de Baixo, aldeia onde vivia com a família.
Determinado em enriquecer, contrariando assim uma pobreza que se vivia na região e que estava longe de ser ultrapassada, além da dependência do poder dos senhores detentores das terras, Firmino (ou simplesmente Dom Rufia, a alcunha que lhe foi atribuída na sequência de uma das suas tropelias) parte de terra em terra, no Alentejo, à procura da sua sorte. Aproximando-se de mulheres solteiras, casadas ou viúvas, Firmino não olhava a meios para alcançar o seu grande objetivo. Com uma grande lábia e dois palmos de testa, não houve menina ou senhora madura que resistisse aos seus galanteios. Passou por Moura, Alvito, Almodôvar, Beja, Viana do Alentejo e outras tantas localidades em busca de riqueza, mas acabando por vingar como o perfeito pinga-amor. De terra em terra, semeou amores, colheu paixões e a todas amou este Dom Rufia!
Fez-se passar por ourives, médico, advogado e até diplomata! Tal era a conversa de Dom Rufia que o fez inventar um novo personagem a cada mulher que conhecia numa nova localidade! A todas mentia, a todas regressava! A todas amava e todas o amavam! Foi verdadeiro uma única vez. Foi com Mariana a quem contou toda a verdade porque o peso de todas as mentiras já era maior do que ele. Embeiçou-se de tal forma por Mariana ao ponto de se condoer com a sua pobreza ser ainda maior do que a dele, devolvendo-lhe, na medida do possível, uma vida mais condigna. "Confessou que vivia para enriquecer, que buscava viúva, solteira, encalhada, jovem com bens, qualquer uma que o salvasse da pobreza." (p. 225)
A par de Firmino, destaca-se igualmente um personagem peculiar, errante, oriundo do Chile, conhecido por Juan de los Fenómenos, que "levava a sua única vida a desembrulhar enigmas (p. 135), "um investigador do comportamento da Metafísica e da ordem da Criação" (p. 246) ou simplesmente era tido como "uma espécie de filósofo com fé" (p. 249). Juan de los Fenómenos interessava-se por todas as situações curiosas cuja explicação não existe na razão, como por exemplo a criança que muda a cor dos olhos consoante a estação do ano, o indivíduo com unhas cujas propriedades eram milagrosas curando todos os males ou a idosa que adivinha o que as pessoas tinham comido. A par destes casos que Juan de los Fenómenos ia conhecendo aqui e acolá pelo Alentejo profundo, deparou-se também com um dado indivíduo, multifacetado, com o dom da ubiquidade, vestindo uma identidade diferente em cada localidade por onde passava.
Os capítulos dedicados a Juan de los Fenómenos intercalados com a história de Dom Rufia correspondem, de certa forma, à herança mais remota, aos ecos de "Os Demónios de Álvaro Cobra" que não procuravam explicações para estranhos fenómenos e acontecimentos com o herói da história.
De terra em terra, de peripécia em peripécia, Dom Rufia vai divertindo o leitor com as suas muitas vidas, muitas histórias e mentiras incontáveis. Dom Rufia constrói um mar de ilusões a cada dia que passa, aproximando-se do inevitável precipício.
Fica a advertência de Homero, o tio de Dom Rufia: "Há mentiras que se tornam tão caras que nem a verdade do dinheiro por vezes as salva." (p. 244)

Excerto:
"Mas a verdade, senhores e senhoras, é que ele nasceu e cresceu nesta família humilde, que não teve hipóteses de lhe dar outra vida. Nunca aceitou tal condição. Jurou não se deixar escravizar pelos donos destes campos, que obrigam um homem a trabalhar de sol a sol para ganhar o que mal dá para pagar um pão. Ideias que ninguém lhe meteu na razão. Ele as descobriu, ele as defendia. Ajudou-o a natureza, que lhe pôs muita imaginação na cabeça. O resultado disso foi querer tornar-se um homem rico. Era esse o lugar que havia escolhido para si, sem deixar que fosse o destino a escolhê-lo." (pp. 256-257)

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 29 de julho de 2014

A Convidada Escolhe: Molinos

Depois de várias opiniões favoráveis sobre "Os demónios de Álvaro Cobra" e "Mal Nascer" entre os amigos da Roda dos Livros e na sequência da conversa com o autor num dos encontros do grupo decidi, também eu, iniciar a minha leitura da sua obra.
Estruturo as minhas leituras, habitualmente, quando se trata de um autor que quero acompanhar, pela sua ordem cronológica. Gosto de acompanhar o crescimento da escrita, a sua evolução e apreciar a sua diversidade.
Não sem dificuldade consegui comprar o primeiro romance de Carlos Campaniço.
"Molinos" é um livro muito real, com passagens que nos transportam para as histórias da oralidade rural. Mais do que escrito, imagino-o como uma tela, de fios entretecidos. No coração do Alentejo profundo dos anos 40 desfilam personagens reais e histórias diversas que nos retratam com verosimilhança a sociedade da época.
O relato crú, e por vezes revoltante, é, contudo, como que "adoçado" pelas palavras com que é transmitido, numa riqueza de escrita que por vezes se torna poética.
Com pinceladas de realismo mágico e um toque de neo-realismo, este não é um romance "cor-de-rosa", nem quando aborda os amores de Alfredo Mendonça de Oliveira. É um romance duro sobre a dura realidade da aldeia fronteiriça de Molinos, vizinha de ficção da real Safara, de onde o autor é natural. Um livro sem fim doce, mas real, muito real pois na vida há casos nunca resolvidos, injustiça e mal entendidos que permanencem.
História de contrastes entre rico e pobre, bem e mal, viajei no tempo durante a sua leitura. De tal forma me senti parte da história que nem me incomodou uma característica que habitualmente me desagrada. Carlos Campaniço teçe com mestria vidas, tempos e espaços num mesmo capítulo, com transições que se fazem de parágrafo para parágrafo sem aviso prévio e leva-nos a acompanhá-lo sem questionar.
Um primeiro romance de eleição, para mim, que faz juz aos rasgados elogios que têm recebido da parte dos amigos da Roda dos Livros as obras mais recentes deste autor, e minhas próximas leituras.
Um romance que merece, certamente, ser reeditado.

Excertos
"Demorou muito tempo até se deixar vencer pelos seus apelos rurais e tentou levar a vida pacífica dos seus primeiros anos de sacerdócio, mas os anos julgaram-no e cada dia passado flagelava-se-lhe a alma, vencia-o uma voz atormentadora que só ele escutava e o acusava de trocar a defesa dos miseráveis pelo seu comodismo estatutário. Quando entrou na casa dos sessenta anos era um clérigo gasto pelas emoções, calvo como nunca se imaginou e devastado pelo seu conflito interno. Durante anos tentou harmonizar gentes, amparar os frágeis de espírito e de boca, reuniu com uma dezena de bispos que governaram a Igreja durante todos aqueles anos , mas não reconheceu uma só melhoria ou progresso na qualidade de vida das gentes, desde os seus passos de menino até ao átrio da sua velhice. Assistiu à exploração dos homens, vendo-os receber por uma jorna diária o equivalente ao preço de um pão e um quarto de litro de azeite, à elevação dos latifundiários a caudilhos feudalistas que dispunham das autoridades locais para satisfazer as suas quimeras de justiça. Viu as crianças, que havia baptizado, usadas no cativeiro dos campos, quando ainda lhes tremia a mão para assinarem o nome. E tomou uma consciência dorida da sua inutilidade, porquanto nem as suas rezas haviam mudado o mundo nem as suas palavras retraídas, errantes de pacificação, acrescentaram harmonia social à aldeia." (p. 16)
"(...)
Quando o velho Diogo Mendonça de Oliveira foi encontrado morto, sentado numa cadeira, junta à
mesa de dominó, ainda lhe corriam as lágrimas pelo rosto. Foi um assombro sem precedentes, porque passadas vinte e quatro horas, após a sua morte, ainda as lágrimas lhe corriam pelo rosto abaixo e foi
necessário que uma empregada estivesse junto dele para lhe limpar, amiúde, o rosto molhado. O padre Lourenço mandou um telegrama ao bispo, para lhe pedir indicações sobre os procedimentos a tomar neste caso, pois havia quem julgasse tratar-se de um milagre (...) Havia mais que atribuiam o fluxo das lágrimas a uma outra vertente divina, que estava relavionada com o alcance de Deus em pôr em evidência aqueles que não morrem em arrependimento pela crueldade dos seus actos em vida. Estava pagando pela ruindade com que tratara os empregados e os desfavorecidos. (...)" (p. 111)

Fernanda Palmeira

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Escolha do Jorge: Mal Nascer


“Mal Nascer” é o mais recente romance de Carlos Campaniço, o autor de “Os Demónios de Álvaro Cobra”, um dos livros bastante badalados e comentados no decorrer de 2013 aquando da sua edição. Na verdade, para quem se deliciou com o romance anterior, na medida em que foi transportado para uma realidade em que o autor misturou com grande mestria a realidade com a ficção, questiona-se certamente se o autor conseguirá superar-se a si próprio com “Mal Nascer”.

Ainda que o leitor levante estas questões à medida que avança na narrativa de “Mal Nascer”, a dada altura fica tão embrenhado na história que dificilmente consegue parar. Este novo livro apresenta uma dinâmica tal, que mesmo com um cenário de uma vila rural ficcionada, perdida no Alentejo profundo, nas vésperas da guerra civil (1832-1834) que opôs absolutistas e liberais, consegue captar a atenção do leitor como se de um filme se tratasse na medida em que toda a obra é deveras visual.

Carlos Campaniço em “Mal Nascer” deixa de lado aquilo que por muitos foi identificado como realismo mágico tão presente nos “Demónios”, aproximando-se do neorrealismo, a corrente literária que se afirma como uma forma de denunciar as duras condições de vida e de trabalho dos trabalhadores em oposição aos senhores ricos que, no caso concreto de “Mal Nascer”, são os senhores que possuem a terra como fonte de riqueza funcionando simultaneamente como uma forma de exercício de poder sobre os mais pobres, os mais desprotegidos da sociedade. Estas questões em “Mal Nascer” assumem uma importância esmagadora, secular até, na medida em que o tempo contribuiu para a cristalização destas ideias herdadas ainda de uma não tão longínqua Idade Média pelo menos no que respeita à organização da sociedade num pequeno cosmos cultural e mentalmente aceite por todos e hermético, portanto.

As assimetrias sociais que em tudo têm que ver com os dias de hoje no mesmo Portugal e daí, podermos concluir que em certos aspetos, o paíspouco evoluiu atendendo a uma mentalidade intrinsecamente conservadora e pouco estimulada do ponto de vista educacional e cultural.

Mas “Mal Nascer” não aborda somente as questões relacionadas com as contínuas desigualdades sociais e do atraso notório de uma região do interior do país em oposição à capital de onde vinham as novidades, assim como as ideias liberais que estavam a deixar o país em polvorosa à beira de uma guerra civil. Este novo livro de Carlos Campaniço conta-nos também uma história de vingança, a vingança de Santiago Barcelos que, agora homem já feito e formado em medicina, que regressa à sua vila de origem como forma de ajustar contas com o passado que vamos conhecendo em capítulos intercalados ao longo de toda a narrativa.

Este regresso se vai de alguma forma beber à “Odisseia” de Homero, por outro lado, este regresso do “herói” de “Mal Nascer” acaba por assumir contornos curiosos que vão de encontro a alguns dos pressupostos da religião grega, na medida em que, em poucos meses, Santiago Barcelos acaba por se envolver de tal modo numa trama novelística que dificilmente consegue sair dela deixando o leitor quase com a corda na garganta, dado que a narrativa tende gradualmente para o trágico. Neste sentido, mais do que o sentido de vingança do herói, toda a rede complexa em que está envolvido e à medida que a narrativa se aproxima do final leva-nos a crer que nada mais está a acontecer do que a gradual concretização do destino, da “moira funesta” à boa maneira grega, a qual nem os próprios deuses gregos poderiam alterar, lavando daí as suas mãos face ao desenrolar dos acontecimentos que comprometeriam a vida e o destino do herói.

Chegado ao fim de “Mal Nascer”, não creio que o leitor continue a questionar se esta obra é ou não melhor que o romance anterior atendendo ao facto de que essa questão desvaneceu-se por completo. Fica a certeza de estarmos perante um escritor com talento e que, como leitores, ficaremos certamente atentos às suas próximas publicações.

Excertos:

“Eu, contudo, começo a pensar que corro grandes perigos aqui. Esta não é a terra sossegada de que eu preciso para me esconder dos miguelistas e, por comprovação, que me tem saído do coiro, é avessa à minha felicidade. Há aqui riscos nativos tão violentos quanto o pensamento dos absolutistas. Julgava que podia levar uma vida simples, cuidando apenas dos desditosos, e encontro um sem-fim de aflições que, nalguns casos, são superiores às de Lisboa: o padre e o vereador Lemos que me detestam; a desconfiança de dona Odélia sobre o meu passado; o pavor de me descobrirem liberal; o medo de ser reconhecido como Santiago Bento; o namoro forçado com Maria Luísa, que o querem logo em noivado; e esta paixão por Sebastiana, que não pode ser consumada aqui. Não poderei ser livre sem ser liberal, nem ser eu próprio sem ser Santiago Bento, nem ser feliz sem Sebastiana.”(p. 162)

Texto da autoria de Jorge Navarro


quarta-feira, 7 de maio de 2014

"Os Demónios de Álvaro Cobra" de Carlos Campaniço

Falar de um livro sobre o qual todos dizem maravilhas não é tarefa fácil. O amigo que mo emprestou, adorou! O pessoal da Roda dos livros que o leu, também.

Pois é! A mim não me conquistou à primeira. Não que a escrita do Carlos seja inferior aos livros bons que tenho lido. Antes pelo contrário! Quem me dera escrever assim: as palavras parecem possuir uma naturalidade e simplicidade que nos cativam, embora aplique termos que não são tão correntes assim... Trabalhar as palavras mas fazer com que elas soem aos outros como "naturais", não é para todos.

A sua imaginação não tem limites e o irreal torna-se visivel aos nossos olhos como se pudesse na verdade existir. Hão-de convir que alguém "que sofre de febres altas que até incendeia os lençóis" não é uma personagem que podemos encontrar no dia-a-dia! E com personagens tão peculiares, as peripécias surgem em catadupa.

Mas... Algo me manteve alheada nas primeiras 150 páginas desta obra. Não consegui mergulhar no livro e esquecer o que me rodeava tão depressa quanto esperava. Às vezes as expectativas muito altas pregam-nos rasteiras e foi isso que aconteceu. Só os comentários positivos de amigos me fizeram continuar...

Mas... Ainda bem que se deu um segundo "mas"! Finalmente consegui ler algumas páginas sem me aperceber da passagem das folhas. O milagre da leitura tinha acontecido!

E cheguei ao fim com uma sensação estranha. Da leitura desta história toda não posso concluir que seja um livro alegre e que nos alente a esperança de dias melhores, embora a imaginação e a magia que nele está contido nos façam sorrir a espaços curtos. Soube-me a pouco, porque depois de me ter esquecido do que me rodeava, queria mais páginas de magia e já não as tive por muito mais tempo!
Quero ler o novo livro do autor que acaba de sair. Será que "Mal Nascer" me vai conquistar logo de início?

Terminado em 3 de Maio de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse


A aldeia de Medinas seria um lugar bem mais aprazível não fosse contar-se entre os seus habitantes Álvaro Cobra, um lavrador que atrai fenómenos sobrenaturais e tão depressa é tido por bruxo como por santo: não chorou ao nascer, com um mês já tinha dois dentes, consegue ouvir a Terra girar sobre si própria, tem uma cadela que adivinha o tempo e, além disso, já morreu duas vezes - mas ressuscitou, e desde então um bando de grifos faz ninho no seu telhado. A sua estranheza impediu-o, porém, de arranjar mulher, mas o encontro com a filha de um nómada que vende torrão doce na Feira de Setembro promete mudar esse estado de coisas, ainda que a união traga surpresas (nem sempre agradáveis) quer ao próprio lavrador, quer às mulheres da sua família: a bisavó Lourença, que conta cento e cinquenta anos mas guarda invejável lucidez; a mãe, que consegue trabalhar a terra com uma mão e cozinhar com a outra; ou mesmo Branca Mariana, a irmã excessivamente febril que vive prostrada numa cama onde os lençóis chegam a pegar fogo. Do casamento atribulado, nascerá Vicente, o filho de quem se espera uma existência completamente distinta da do pai. Porém, tratando-se de um Cobra, nunca fiando…


Ao ficcionar uma aldeia alentejana em finais do século XIX - na qual judeus, árabes e cristãos andam às turras e os mitos ganham terreno à realidade -, Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.