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quarta-feira, 21 de junho de 2017

"E Ficou a Terra" de Carla Ramalho

Que surpresa boa tive ao ler este livro! Não li o livro anterior desta autora (Pelas Ruas de uma Cidade sem Nome) nem tão pouco tinha ouvido falar no seu nome. Foi, pois, com satisfação que me embrenhei nestas páginas.

Não é uma leitura que se possa fazer rapidamente, escorreita, pois em cada página há algum acontecimento que fica subentendido, que nos deixa curiosos, que tomamos conhecimento só linhas depois. Agradou-me deveras isso. 

Gostei também muito da escrita da autora. Sóbria, inteligente, agradável de se ler. A história é-nos contada pelos dois personagens principais. Um capítulo ele, um capítulo ela. Viajamos para o Alentejo, e conhecemos personagens com alcunhas típicas, características duma vila do interior, bastante engraçadas por sinal. Bem pensadas. Originais. 

E assim, viajamos para um passado algo distante dos nossos dias, que muitos jovens já só conheceram através dos livros. A Revolução de Abril, vista e vivida pela população de uma pequena vila. A reforma agrária, as reuniões clandestinas, "ao povo o que é do povo".

Recomendo esta leitura. Não é para ser lida num ápice, repito, mas que dá muito gozo ler, dá. Foi isso que senti, é essa mensagem que vos deixo. 

Terminado em 17 de Junho de 2017

Estrelas: 5*

Sinopse
Alentejo. 1975. A luta pela terra alimentava ódios antigos, privilégios seculares, deixando um rasto de conflitos e de feridas abertas.

Verónica é a filha de um latifundiário que se apaixona por um desconhecido que conhece num bar. Mantém uma relação secreta com ele até que um flagrante do seu próprio pai os "obriga" a casar. A partir daí, e através das vozes destes dois protagonistas, vamos descobrindo que intentos os movem, quais os seus verdadeiros objetivos e qual o valor da verdadeira liberdade.

Passado no pós-25 de Abril, o romance dá-nos a conhecer as dinâmicas de uma pequena vila no Alentejo, os poderes perdidos, aqueles que começam a ascender, assim como a luta perante aquilo que surgia como o bem maior: a posse da terra.

Cris

domingo, 28 de maio de 2017

Ao Domingo com... Carla Ramalho

O revisitar a nossa história seria, por si só, um bom motivo para escrever um livro. Romancear uma época que está pouco explorada, como é a do pós 25 de Abril, seria outra razão para levar a cabo este projecto. Se a estes ingredientes se pudessem juntar personagens fortes, fiéis a si mesmas, para quem a liberdade era já um dado adquirido, mesmo antes da revolução, então teríamos o contexto perfeito para uma boa narrativa.

Foi este o meu ponto de partida para escrever “E Ficou a Terra”. Se por um lado existia a vontade de colocar no papel algumas histórias que fazem parte do meu imaginário infantil, fruto dos relatos e dos desabafos dos meus avós, alentejanos dos quatro costados que toda uma vida viveram da terra e para a terra, por outro havia o interessar em mostrar o Alentejo dos anos 70, revolucionário, em ebulição, através do olhar de duas personagens que até poderiam estar em lados opostos da
barricada, mas que tinham em comum um sentimento muito forte: o desejo de liberdade.

Verónica é a filha de um latifundiário a quem as convulsões sociais e políticas passam ao lado. Ainda assim, o seu conceito de liberdade levou-a a procurar uma vida dupla, escondida de quase todos, e é neste contexto que conhece o seu futuro marido. Idealista e com um forte sentido de comunidade e justiça, este acaba por lhe apresentar a sociedade de uma outra forma, obrigando-a a uma tomada de posição que poderá colocar em causa os alicerces da sua estável e facilitada vida.

Se me perguntarem direi que toda a construção da narrativa foi um desafio, da mesma forma que o tema em si me pareceu diferente e pertinente. Mas foi a construção de Verónica que mais satisfação me deu. Acho que é importante começar a criar personagens femininas que desconstruam um pouco os estereótipos de género existentes. E uma mulher que não tem qualquer pudor em assumir a sua sexualidade, ou que não tem qualquer embaraço em fazer o mesmo que os homens, é sempre uma personagem que pode acrescentar algo de novo.

Mesmo sabendo que sou suspeita, lanço o desafio de passarem um domingo com Verónica, com o seu marido, assim como com as outras personagens deste livro que dão a conhecer a vida no Alentejo rural dos anos setenta. Acredito que não será um domingo mal passado.


Carla Ramalho