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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A Escolha do Jorge: o Salão Vermelho



O início do ano trouxe um dos vultos da literatura sueca que se impôs como um dos grandes escritores das letras a nível mundial tanto no que respeita à dramaturgia como à literatura em geral. Estou a referir-me a August Strindberg (1849-1912) cujas obras são sobejamente conhecidas do público português pelas duas vertentes em que assentou o seu legado.
“O Salão Vermelho” (1879) de August Strindberg é uma das primeiras propostas da E-Primatur, um novo e inovador projeto editorial que se articula com o envolvimento dos leitores no que respeita às potenciais obras a serem publicadas a curto e a médio prazo.
“O Salão Vermelho” foi publicado quando o autor tinha apenas trinta anos de idade confirmando a consciência do autor no que respeita à compreensão da sociedade da segunda metade do século XIX. Iniciando a leitura desta obra, o leitor rapidamente percebe o ritmo (quase) alucinante em que decorre a narrativa, sempre pejada de uma energia alimentada com humor e ironia que tantas vezes questionamos como é possível manter essa intensidade ao longo de mais de trezentas páginas. Não poucas vezes sentimos necessidade de reler algumas passagens atendendo às frequentes pedras no charco que August Strindberg atira sem dó nem piedade, tratando-se, pois, de uma crítica feroz e acérrima à sociedade. São tantos os exemplos dos ataques sociais presentes em “O Salão Vermelho” que o leitor bem cedo toma consciência que passado quase um século e meio da publicação da obra, a sociedade pouco tem evoluído sobretudo no que respeita à relação das pessoas umas com as outras. Inúmeras são as passagens com contextos e situações tão atuais que por vezes ficamos na dúvida se August Strindberg não estará de facto a referir-se ao século XXI.
Os sindicatos não são poupados, a vida cosmopolita também não. A gradual emancipação da mulher é igualmente criticada. A depravação dos costumes também não fica de fora. O rei é trazido também para o palco dos ataques. O capitalismo e todo o mercado de títulos e de ações é encarado como uma nova forma de ganhar dinheiro de forma algo ilícita, como um jogo, que gera simultaneamente a pobreza e a falência das empresas. Os escroques da sociedade que pretendem ganhar dinheiro empregando formas desonestas capazes de manipular terceiros com vista a alcançar os seus objetivos acompanham toda a obra. A cultura na sua essência também não escapa ao crivo de Strindberg. A maledicência, a intriga, o egoísmo, a hipocrisia são outros dos pontos transversais a toda a obra a que o leitor não ficará indiferente.
Nada nem ninguém ficou de fora de “”O Salão Vermelho”! Não deixa de ser curioso que o próprio Strindberg alude a esta ideia nas últimas linhas da obra ao dizer o seguinte: “Agora, penso ter terminado a minha revista sem me esquecer de ninguém. Por isso, adeus por agora. Terás novas notícias minhas em breve.”
Outras obras de autores nórdicos que tive a oportunidade de ler cujas temáticas e energia seguem em linha com “O Salão Vermelho” e que frequentemente me vieram à recordação são “O Doutor Glas” (1905) e “O Jogo Sério” (1915) do sueco Hjalmar Söderberg (1869-1941). Em ambas as obras o leitor viaja por uma Estocolmo cosmopolita, moderna e que acompanha a evolução dos tempos, apresentando temas como o aborto e a eutanásia, que chocaram a sociedade sueca no início do século passado.
“O Salão Vermelho” fez-me igualmente recordar “O Anão” (1944) do sueco Pär Lagerkvist (1891-1974) e Prémio Nobel de Literatura em 1951, cuja obra assenta também na crítica à sociedade e na apologia da maldade.
“O Salão Vermelho”, publicado recentemente pela primeira vez em língua portuguesa, assume-se como uma das obras a impor-se em 2016 constituindo, assim, a primeira sugestão de leitura deste novo ano, nesta rubrica.

Excertos:
“Levi era um jovem, nascido e criado como homem de negócios, que estava prestes a estabelecer-se com a ajuda de m pai rico quando o dito progenitor morreu e não deixou nada além de uma família de que cuidar. Isto foi uma grande desilusão para o jovem, pois acabara de atingir a idade em que pensava ser altura de parar de se esforçar e deixar que os outros trabalhassem por si. Tinha vinte e cinco anos e boa aparência. Uns ombros largos e uma total ausência de ancas tornavam a sua figura particularmente adequada ao uso de sobrecasaca, no estilo que tantas vezes admirara em certos diplomatas estrangeiros. A natureza dotara o seu peito da elegante curvatura que consegue encher uma camisa bem larga, mesmo quando o indivíduo em questão está aninhado numa poltrona na ponta de uma longa mesa de reuniões rodeada pela direcção. Uma barba cuidadosamente dividida e forqueada dava ao seu rosto jovem um aspecto que era simultaneamente atraente e inspirador de confiança. Os seus pés eram pequenos e feitos para caminhar nos tapetes de Bruxelas de um gabinete de director, e as suas mãos com unhas bem tratadas eram especialmente adequadas a um trabalho mais leve, como adicionar a sua assinatura a formulários, de preferência já impressos. Naquela época, agora referida como os Bons Velhos Tempos, embora tivessem sido, na verdade, muito maus para muitas pessoas, a grande – de facto, a maior – descoberta do século acabara de ser feita: mais concretamente, o facto de ser mais barato e agradável viver do dinheiro dos outros do que do próprio trabalho. Muitas, mas mesmo muitas pessoas tinham-se já aproveitado da descoberta e, como a ideia não estava protegida por nenhuma patente, dificilmente se pode achar surpreendente que Levi se tenha apressado a fazer o mesmo, especialmente se se tiver em conta que não tinha dinheiro e nenhuma propensão para trabalhar por uma família que não era a sua.” (pp. 155-156)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A Escolha do Jorge: "Menina Julia"

Menina Júlia é uma peça de teatro do sueco August Strindberg (1849-1912) publicada em 1888 e à semelhança de outras obras do autor, a mulher desempenha um papel crucial, nomeadamente no que respeita à sua emancipação sendo colocada numa posição de destaque social que a permite, de alguma forma, levar avante o poder de decisão. Aqui, a Menina Júlia é a filha de um conde e que na noite de S. João, seduz João, um dos empregados de seu pai que é noivo de Cristina, a cozinheira da família. João é levado pelo jogo não inocente da Menina Júlia que, em ambos os casos, não medem as consequências dos seus atos perante a sociedade na medida em que há nítida e claramente uma oposição no que respeita ao grupo social a que cada um pertence.
A história que se desenrola ao longo daquela noite de solstício terá um final trágico muito semelhante ao das tragédias gregas tendo em conta o cunho moral que a envolve.
August Strindberg ainda que defensor da igualdade das mulheres perante os homens, mostra-nos que nem sempre as escolhas das mulheres são as mais acertadas correndo o sério risco de ficar com a cabeça a prémio na medida em que, neste caso concreto, a Menina Júlia, teve de optar entre o julgamento por parte da sociedade e o suicídio. Moral da história: Um simples ato inconsequente poderá originar um conflito ético sem precedentes.
Excertos:
" JOÃO Pega de criados, p*** de lacaios, cala-me essa boca e põe-te a andar daqui! És tu quem me vem ensinar a não ser ordinário? Ninguém da minha condição alguma vez foi tão ordinário como tu foste esta noite. Julgas que alguma rapariga do pessoal seria capaz de se atirar a um homem dessa maneira? Viste alguma vez uma rapariga da minha classe atirar-se assim a um homem? Eu nunca vi. Assim, só os animais e as prostitutas.
JÚLIA (aniquilada) Continua. Bate-me, espezinha-me, que é o que eu mereço. Sou miserável. Mas acode-me! Se há um caminho para sair disto tudo, salva-me.
JOÃO (maior gentileza) Eu não nego a minha parte na honra de a ter seduzido, mas julga que alguém no meu lugar teria arranjado coragem para avançar para si sem sentir que estava a ser chamado? Eu ainda estou espantado…
JÚLIA E orgulhoso.
JOÃO Porque não? Embora deva admitir que uma vitória tão fácil não é razão para perder a cabeça.
JÚLIA Continue a bater-me.
JOÃO (levantando-se) Não. E perdoe-me por tudo o que lhe disse. Nunca bati em quem não se podia defender, sobretudo numa mulher. Não posso negar que estou feliz por ter descoberto que afinal o que nos deslumbrava cá em baixo era só um reflexo da lua e que o dorso do falcão é cinzento também, tão cinzento como o pó que o cobre dessa cor suave, e que as unhas polidas podem encher-se de negro, e que o lenço perfumado às vezes está sujo! O que me custa é ter de me aperceber de que aquilo que eu procurava atingir não é mais elevado, nem mais sólido. Custa-me vê-la caída mais baixo que a sua cozinheira, tal como me custa quando vejo as flores do outono desfeitas pela chuva, transformada em lama.
JÚLIA Está a falar comigo como se fosse já meu superior.
JOÃO E sou. Eu posso fazer de si uma condessa, mas você sabe que não me pode fazer conde.
JÚLIA Mas eu sou filha de um conde, coisa que você nunca poderá ser.
JOÃO Mas poderei ser pai de condes, se…
JÚLIA Você é um ladrão. Eu não sou.
JOÃO Há coisas piores que ser ladrão – muito abaixo disso. Ao serviço de uma casa, eu vejo-me a mim próprio como membro da família, como uma criança da casa, e ninguém vai falar de roubo se a criança colher um morango de um arbusto carregado de frutos. (A sua paixão ressurge) Menina Júlia, você é uma mulher extraordinária, demasiado generosa para um homem como eu. Foi atrás de uma loucura qualquer e agora para remediar o seu erro tenta convencer-se de que me ama. Mas não ama, sente-se atraída pelo meu corpo, o que apenas quer dizer que esse amor não é melhor do que o meu. Eu é que não me sentiria bem a ser visto como um animal e a nunca ganhar o seu amor.
JÚLIA Tem a certeza disso?"
In Menina Júlia de August Strindberg, pp. 50-52
Texto da autoria de Jorge Navarro