O que me apraz dizer de um livro do qual tenho ouvido opiniōes muito boas? De que TODA a gente diz bem?
Primeiro comecei a lê-lo apreensiva. Quase prefiro ler um livro que tenha opiniōes mistas, sentindo-me livre de gostar ou nāo. Com todo este "peso" temi que a minha opiniāo fosse influenciada. Depois senti, pela primeira vez ao ler um livro e logo nas primerias páginas, que gostaria muito de ler este livro noutro formato: audiobook. Talvez o Pedro Lamares?
E sim! Gostei. Mas quero lê-lo de novo. Tenho a certeza que captarei pormenores que me escaparam. Relíquias, acho. Porque as várias entradas, isto é capítulos, possuem um narrador diferente, todos eles moradores de um prédio onde foi cometido um assassínio, e dizem respeito aos seus esclarecimentos face à polícia. Como referi anteriormente, quero lê-lo de novo. A leitura faz-se rápida, talvez pela escrita fluida, e temo ter deixado escapar pormenores que quero apreciar melhor.
Esta obra, escrita com muito humor, prima pela frescura das palavras da autora, que com pitadas de uma crítica (por vezes subtil, por vezes crua e mordaz) à nossa sociedade, retrata uma parte dela na perfeiçāo. O final é inesperado. Gostei dele por essa razāo. Experimentem!
Terminado a 14 de Abril de 2018
Estrelas: 5*
Sinopse
Um thriller surpreendente e de ir às lágrimas que é também um retrato irónico da sociedade portuguesa, seus tiques e manias.
Um livro cheio de inteligência e humor que explora os tiques e as vicissitudes de personagens que todos reconhecemos do prédio, do local de trabalho ou até mesmo das nossas amizades.
É raro a literatura portuguesa apresentar uma mistura tão fina de sensibilidade e ironia. Mais ainda quando garante uma grande dose de humor.
Cris
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segunda-feira, 23 de abril de 2018
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
A Escolha do Jorge: Todos os Dias São meus
A proposta de leitura desta semana recai sobre um pequeno livro que me chegou às mãos de forma totalmente inesperada. Tendo já ouvido diversos elogios a “Todos os Dias são Meus” de Ana Saragoça, por vezes é preciso que os livros cumpram o seu ciclo misterioso de circularem de mão em mão e não há dúvida que a melhor publicidade que se pode fazer é muitas vezes aquela que circula de boca em boca através das pessoas com quem lidamos ou através de opiniões daqueles que mais consideramos, incluindo aquelas que vamos lendo aqui e acolá na esfera digital.
Deste modo, ao iniciarmos a leitura deste pequeno livro publicado em 2012 pela Editorial Estampa e que tem passado de certa forma despercebido dos leitores (como, regra geral, acontece com a maioria dos livros publicados), rapidamente vislumbramos que se trata de um dos mais belos frescos da sociedade lisboeta contemporânea através de uma narrativa centrada num prédio de s
pequena dimensão onde habitam desde pessoas singulares a famílias com crianças, idosos, no fundo, os vários géneros de famílias dos nossos dias.
Escrito em estilo tendencialmente policial em que uma jovem moradora do prédio é encontrada morta no elevador, todos os moradores são entrevistados pela polícia, tantos as crianças, como os mais idosos, no intuito de perceber até que ponto não haja algum dos vizinhos implicado naquela misteriosa morte.
À medida que a narrativa vai desfiando, vamos percebendo aos poucos quem é quem naquele prédio lisboeta com todas as suas vicissitudes relacionadas com o quotidiano. Telhados de vidros todos têm e medos também é coisa que afinal é parte intrínseca ao ser humano, mais não seja o medo da solidão face ao envelhecimento que se agrava e intensifica na sociedade atual.
Com soberbos momentos de humor, “Todos os Dias são Meus” apresenta-nos um estilo de escrita acutilante retratando também com rigor todos os moradores do prédio em questão atendendo ao seu nível etário, não esquecendo o nível socioeconómico a que pertencem. É essa transposição do discurso oral dos personagens para a escrita que é um dos grandes pontos a favor desta narrativa, evidenciando com rigor todo um quadro mental da sociedade portuguesa adensando por um lado o aspecto de benevolência, mas por outro de uma profunda mesquinhez, intriga e diz-que-diz entre dentes.
À medida que todos os moradores são visitados, o leitor vai tomando consciência do modo como a solidão (ou o medo dela) exerce um peso determinante sobre o modo de ser e estar das pessoas criando mecanismos de autodefesa, por vezes algo incompreensíveis na fugaz tentativa de chegar ao outro.
Numa escrita limpa e reflectida, Ana Saragoça apresenta-nos em “Todos os Dias são Meus” um livro que nos inebria conquistando desde as primeiras páginas, levando-nos a compreender de forma por vezes dolorosa, como o ser humano pode ser levado à loucura e à morte em situações limite.
Excertos:
"Olhe, aí escusa de bater que não está ninguém. O velhote ontem chegou tarde e quando soube o que aconteceu, deu-lhe uma coisa e foi para o hospital. Também credo, não era caso para isso, a rapariga não lhe era nada. Morava por cima, e depois? Esse, desde que a mulher morreu, mais valia ter ido também. Os viúvos são a coisa mais desasada que há, não aguentam nada. E os filhos são uns desnaturados. Muito importantes, muito importantes, mas veja lá se levam o velho para casa deles. Os homens ainda vá, já se sabe como é que são, mas pensa que a filha é melhor? Eu bem a ouço na escada a despedir-se, adeus papá, tenha cuidado papá, ó papá não mexa no fogão, mas para casa dela é que ela não o leva, é o levas. Está bem, eles pagam à mulher que vem cá todos os dias tratar-lhe da casa e da comida, e ela até me disse que são muito certos a pagar. Quando me disse quanto é que recebia eu ia morrendo, só me faltou o vagar. Se soubesse que era tanto, tinha-me oferecido eu para tratar dele. E era de mais confiança, que a mim ninguém me tira que esta quando enche a despensa ao velho enche também a dela." (pp. 29-30)
"Quando a minha ex andou com os miúdos naqueles gurus new age, foi um fartar vilanagem: reiki, regressão, florais de Bach, os quartos redecorados por um especialista em feng shui, xaropes e cápsulas do Celeiro, e eles cada vez mais descompensados, mais traumatizados, e com os chakras mais desalinhados. Mil vezes a psicóloga, que aliás é uma mulher muito interessante, apesar de me culpar por todos os problemas dos miúdos, da hiperactividade à prisão de ventre, e de nunca ter aceitado jantar comigo." (p. 36)
"Na vida as pessoas são tudo menos coerentes e conseguiram surpreender-me sempre - pela negativa. Os livros existem porque alguém concebeu uma intriga com princípio, meio e fim, com peripécias e um desenlace. A vida real pode arrastar-se indefinidamente por intrigas mesquinhas, completamente desprovidas de interesse, e sem outro fim à vista que não a morte." (p. 60)
Texto da autoria de Jorge Navarro
Deste modo, ao iniciarmos a leitura deste pequeno livro publicado em 2012 pela Editorial Estampa e que tem passado de certa forma despercebido dos leitores (como, regra geral, acontece com a maioria dos livros publicados), rapidamente vislumbramos que se trata de um dos mais belos frescos da sociedade lisboeta contemporânea através de uma narrativa centrada num prédio de s
pequena dimensão onde habitam desde pessoas singulares a famílias com crianças, idosos, no fundo, os vários géneros de famílias dos nossos dias.
Escrito em estilo tendencialmente policial em que uma jovem moradora do prédio é encontrada morta no elevador, todos os moradores são entrevistados pela polícia, tantos as crianças, como os mais idosos, no intuito de perceber até que ponto não haja algum dos vizinhos implicado naquela misteriosa morte.
À medida que a narrativa vai desfiando, vamos percebendo aos poucos quem é quem naquele prédio lisboeta com todas as suas vicissitudes relacionadas com o quotidiano. Telhados de vidros todos têm e medos também é coisa que afinal é parte intrínseca ao ser humano, mais não seja o medo da solidão face ao envelhecimento que se agrava e intensifica na sociedade atual.
Com soberbos momentos de humor, “Todos os Dias são Meus” apresenta-nos um estilo de escrita acutilante retratando também com rigor todos os moradores do prédio em questão atendendo ao seu nível etário, não esquecendo o nível socioeconómico a que pertencem. É essa transposição do discurso oral dos personagens para a escrita que é um dos grandes pontos a favor desta narrativa, evidenciando com rigor todo um quadro mental da sociedade portuguesa adensando por um lado o aspecto de benevolência, mas por outro de uma profunda mesquinhez, intriga e diz-que-diz entre dentes.
À medida que todos os moradores são visitados, o leitor vai tomando consciência do modo como a solidão (ou o medo dela) exerce um peso determinante sobre o modo de ser e estar das pessoas criando mecanismos de autodefesa, por vezes algo incompreensíveis na fugaz tentativa de chegar ao outro.
Numa escrita limpa e reflectida, Ana Saragoça apresenta-nos em “Todos os Dias são Meus” um livro que nos inebria conquistando desde as primeiras páginas, levando-nos a compreender de forma por vezes dolorosa, como o ser humano pode ser levado à loucura e à morte em situações limite.
Excertos:
"Olhe, aí escusa de bater que não está ninguém. O velhote ontem chegou tarde e quando soube o que aconteceu, deu-lhe uma coisa e foi para o hospital. Também credo, não era caso para isso, a rapariga não lhe era nada. Morava por cima, e depois? Esse, desde que a mulher morreu, mais valia ter ido também. Os viúvos são a coisa mais desasada que há, não aguentam nada. E os filhos são uns desnaturados. Muito importantes, muito importantes, mas veja lá se levam o velho para casa deles. Os homens ainda vá, já se sabe como é que são, mas pensa que a filha é melhor? Eu bem a ouço na escada a despedir-se, adeus papá, tenha cuidado papá, ó papá não mexa no fogão, mas para casa dela é que ela não o leva, é o levas. Está bem, eles pagam à mulher que vem cá todos os dias tratar-lhe da casa e da comida, e ela até me disse que são muito certos a pagar. Quando me disse quanto é que recebia eu ia morrendo, só me faltou o vagar. Se soubesse que era tanto, tinha-me oferecido eu para tratar dele. E era de mais confiança, que a mim ninguém me tira que esta quando enche a despensa ao velho enche também a dela." (pp. 29-30)
"Quando a minha ex andou com os miúdos naqueles gurus new age, foi um fartar vilanagem: reiki, regressão, florais de Bach, os quartos redecorados por um especialista em feng shui, xaropes e cápsulas do Celeiro, e eles cada vez mais descompensados, mais traumatizados, e com os chakras mais desalinhados. Mil vezes a psicóloga, que aliás é uma mulher muito interessante, apesar de me culpar por todos os problemas dos miúdos, da hiperactividade à prisão de ventre, e de nunca ter aceitado jantar comigo." (p. 36)
"Na vida as pessoas são tudo menos coerentes e conseguiram surpreender-me sempre - pela negativa. Os livros existem porque alguém concebeu uma intriga com princípio, meio e fim, com peripécias e um desenlace. A vida real pode arrastar-se indefinidamente por intrigas mesquinhas, completamente desprovidas de interesse, e sem outro fim à vista que não a morte." (p. 60)
Texto da autoria de Jorge Navarro
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
"Quando Fores Mãe Vais Ver" de Ana Saragoça
Querem um livro super divertido para intercalar com leituras mais pesadas? Uma leitura que se faz em pouco mais de uma hora? Em que não param de sorrir ou mesmo gargalhar? Em que comentam: "Ai, que eu já disse isto!"?
Com um humor muito próprio, Ana Saragoça, consegue de uma forma perspicaz, juntar muitas frases que todas as mães dizem e que juraram nunca o fazer... contando alguns momentos reais por que passou ou passa. Revemos-nos em muitos deles, como mães ou como filhas, e isso permite que a boa disposição se instale em nós.
Um hino à alegria mas também um hino ao amor das mães que com as suas preocupações chegam ao ponto de exagerar, não deixando de ter razão, muitas das vezes!
Deixo um pequenino extracto que vos vai fazer sorrir. Passa-se quando a forma de vestir de um filho não é exactamente aquela que uma mãe gostaria...
"Hão-de dizer que a tua mãe é uma porca!
Serei lerda, admito, mas demorei anos a perceber o que esta frase queria dizer. Mesmo quando percebi, a ideia não se encaixou muito bem dentro da minha cabeça. A noção de alguém olhar para mim na rua ou na escola e imediatamente fazer juízos de valor sobre a higiene da minha mãe era demasiado rebuscada. Em primeiro lugar porque eu não estava suja. Em segundo porque ninguém esperava que uma adolescente fosse lavada pela mãe. Eu lavava-me sozinha desde os oito anos (...)"
Não acham uma delícia? O livro está cheiinho de um humor maravilhoso que me fez andar com um sorriso interior todo o dia...
Terminado em 29 de Dezembro de 2013
Estrelas: 5* (essencialmente pela boa disposição com que fiquei ao terminar a leitura!)
Sinopse
Com um humor muito próprio, Ana Saragoça, consegue de uma forma perspicaz, juntar muitas frases que todas as mães dizem e que juraram nunca o fazer... contando alguns momentos reais por que passou ou passa. Revemos-nos em muitos deles, como mães ou como filhas, e isso permite que a boa disposição se instale em nós.
Um hino à alegria mas também um hino ao amor das mães que com as suas preocupações chegam ao ponto de exagerar, não deixando de ter razão, muitas das vezes!
Deixo um pequenino extracto que vos vai fazer sorrir. Passa-se quando a forma de vestir de um filho não é exactamente aquela que uma mãe gostaria...
"Hão-de dizer que a tua mãe é uma porca!
Serei lerda, admito, mas demorei anos a perceber o que esta frase queria dizer. Mesmo quando percebi, a ideia não se encaixou muito bem dentro da minha cabeça. A noção de alguém olhar para mim na rua ou na escola e imediatamente fazer juízos de valor sobre a higiene da minha mãe era demasiado rebuscada. Em primeiro lugar porque eu não estava suja. Em segundo porque ninguém esperava que uma adolescente fosse lavada pela mãe. Eu lavava-me sozinha desde os oito anos (...)"
Não acham uma delícia? O livro está cheiinho de um humor maravilhoso que me fez andar com um sorriso interior todo o dia...
Terminado em 29 de Dezembro de 2013
Estrelas: 5* (essencialmente pela boa disposição com que fiquei ao terminar a leitura!)
Sinopse
Criar filhos exige doses gigantescas de paciência, estoicismo, resistência e imaginação. Ao cabo de milénios desempenhando primordialmente esse papel, as mulheres de todo o mundo acabaram por desenvolver um léxico quase comum, um glossário de frases feitas que todas ouviram às mães, e todas juraram que nunca repetiriam aos filhos - com os resultados que se conhecem.
O vocabulário das mães é verdadeiramente um colar, mas não de pérolas. É mais daqueles a que se vão acrescentando penduricalhos ao longo da vida, sem nunca retirar nenhum. O folclore materno tem frases certeiras em todas as áreas e para todas as fases de crescimento dos filhos: infância, adolescência e idade adulta - embora, para as mães, o conceito de idade adulta nos filhos seja altamente discutível. E, claro, com a chegada dos netos, nunca perdem uma oportunidade de nos inundar de novo com a sua imensa sabedoria...»
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