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terça-feira, 7 de maio de 2019

"As Longas Noites de Caxias" de Ana Cristina Silva

Li este livro durante o feriado do 25 de Abril. Fez todo o sentido celebrar a liberdade lendo sobre ela. E este livro é isso mesmo: uma ode à liberdade! Àquilo por que passaram algumas pessoas para que nós, hoje, possamos falar e pensar livremente. Não faço ideia como seria viver nesse ambiente, sem poder expressar as minhas opiniões, viver situações em que o medo impere.

Gostei de sentir e aperceber-me de como seria viver assim, sem a liberdade que vivemos hoje. Ana Cristina soube reproduzir lindamente a época salazarista. As prisões, os movimentos estudantis, a PIDE. As ameaças, o medo, a tortura.

Em relação ao enredo esperava um pouco mais. A história de duas mulheres que se cruzam e que pertencem a polos opostos quanto às suas ideologias políticas. Considero a caracterização destas duas personagens um pouco simplista: uma é essencialmente boa, a outra essencialmente má. Recuso-me a acreditar que o ser humano se reduza a esses extremos. Mas, será que tenho razão? Depois de terminada a leitura fiquei a pensar sobre este assunto.

No entanto, gostei de ler. Gosto dos livros desta autora. Recomendo-os todos.

Terminado em 25 de Abril de 2019

Estrelas: 4*

Sinopse
Um romance poderoso e emocionante sobre duas mulheres que viveram intensamente a ditadura. Leninha, a mais temida e poderosa figura feminina da polícia política portuguesa: a PIDE; e Laura, uma das vítimas que mais sofreu às mãos da terrível agente. Baseado na vida de uma figura tão terrível como fascinante: a mulher que chegou mais alto na hierarquia da PIDE, ainda hoje uma grande desconhecida para a maioria dos portugueses.

Cris

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A Convidada escolhe: Cartas Vermelhas

      É um romance impressionante, baseado na história verdadeira de Carolina Loff da Fonseca, uma militante comunista com um percurso de vida cheio de aventuras, desafios e escolhas, algumas bem difíceis. Mais uma vez, Ana Cristina Silva surpreende pela extraordinária capacidade de retratar as suas personagens, de pôr quem a lê na pele dessas personagens, pela profundidade, verdade e sinceridade com que transmite os seus sentimentos.
      Desta feita, Carol uma mulher jovem e bonita que desde sempre soube olhar para as discriminações sociais como algo contra as quais era preciso lutar, para lhes pôr fim. As circunstâncias da vida levaram-na a abraçar os ideais da igualdade e da justiça e a ingressar no partido comunista. Mas a generosidade incondicional da sua militância que se prolongou por bastante tempo e que a levou ao maior sacrifício da sua vida – abandonar a filha em Moscovo com apenas quatro anos – foi esbarrando, no terreno e no contacto com os círculos do poder das elites comunistas, com a dura realidade. A descrição da imagem da militante forte e segura que esconde o seu drama pessoal, num ambiente em que a afirmação de sentimentos de receio ou de dúvida é sinal de fraqueza e por isso precisa ser reprimida; o sentido de responsabilidade e a força de um ideal de justiça para a humanidade que apaga o remorso e as necessidades individuais, os ideais que se sobrepõem à realidade e que não deixam ver com objectividade, tudo isto surge neste romance de Ana Cristina Silva.
      O afastamento entre Carol e a pequena Helena que se previa ser por um curto período acabou afinal por se prolongar por duas décadas. Ao longo desse período e por circunstâncias diversas que as foram afastando cada vez mais, se muitas vezes Carol sentia remorso por ter deixado a filha longe, outras tantas vezes o empenhamento e as responsabilidades apagavam esse remorso pelo abandono da filha numa escola em Moscovo. O reencontro entre as duas, marcado pela frieza e desconfiança de Helena, não mais criança mas já mulher, levará Carol a decidir tentar redimir-se aos olhos da filha, através da escrita romanceada da sua vida e actividade como militante. E é este o tema deste romance psicológico, muito rico.           Considero que é o drama do abandono de uma criança por uma mãe por apego a um ideal, embora dilacerada por contradições íntimas muito fortes, o centro deste romance. Ao invés, discordo da nota da editora na capa do livro – “A história de uma militante comunista que se apaixona por um inspector da PIDE” – por considerá-la redutora e apenas realçar um aspecto da vida desta militante que a fez cair em desgraça dentro do partido.
      No relato de “Cartas Vermelhas”, acompanhamos a vida de Carol que tem de alterar a sua identidade e assumir personalidades diversas adaptadas aos papéis que lhe são conferidos nas diferentes missões que lhe são atribuídas, o que faz com grande mestria. O mundo está em mudança e as qualidades que demonstrara na prisão onde teve a filha, levaram o partido comunista a dar-lhe a missão de tradutora em Moscovo onde o clima de suspeições e denúncias passa a ser normal; o Brasil sucumbe a uma ditadura militar e a derrota do PC do Brasil liderado por Carlos Luís Prestes é um duro golpe para o movimento comunista internacional; em Espanha é-lhe dada a missão de jornalista no período da Guerra Civil onde a luta entre as facções se mistura com a desumanização e a crueza da guerra. Carol vai depois para Portugal dominado pelo medo da delação exercida pela PVDE. Em Portugal, após um período de regresso à actividade partidária e à prisão, a sua ligação a um inspector da polícia política salazarista levou à sua expulsão do partido comunista. Entretanto, a guerra que abala toda a Europa torna cada vez mais difícil um reencontro entre mãe e filha!
      Este livro provoca muitas interrogações para as quais certamente há diferentes respostas. O que faz que seja possível deixar uma criança abandonada numa instituição para responder a um ideal maior de justiça para a humanidade? Como é possível que uma mulher com uma vivência tão rica, diversificada e extrema e com ideais tão fortes sucumba à sedução de um inimigo desses ideais? Será que nos dias de hoje tal seria possível?
      Creio que não. Mas este livro dá muito que pensar.

Julho 2017
Almerinda Bento 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A Escolha do Jorge: "A Noite Não É Eterna"

"A Noite não é Eterna" é o mais recente romance de Ana Cristina Silva que nos apresenta uma narrativa que remonta à Roménia da década de oitenta do século passado, ainda sob o jugo de Nicolai Ceausescu.
Passada nos arredores de Bucareste, o livro centra as atenções no núcleo familiar composto por Paul, um alto quadro do Partido Comunista, a esposa Nadia, professora primária, e os filhos Inga e Drago. Excessivamente autoritário e determinado em ascender no seio do Partido, Paul não pensa duas vezes em entregar o pequeno Drago aos cuidados do Estado, seguindo escrupulosamente a ideia de Ceausescu em criar um exército único capaz de concretizar a revolução socialista.
Determinada em encontrar o filho Drago, Nadia falsifica documentos fazendo-se passar por uma inspetora estatal que supervisiona os orfanatos na região de Bucareste sem que se aperceba que, também ela, é vigiada pela Securitate, a polícia secreta do país. Após algumas tentativas falhadas na senda de Drago, Nadia é contactada pela Securitate propondo-lhe um jogo sujo, caindo desta forma nas malhas terríveis da ditadura através de alguns dos seus inúmeros peões. Em troca da informação relativa à localização do orfanato onde se encontra o seu filho, Nadia vê-se obrigada a vigiar Paul. Não tendo nada a perder, Nadia coloca o objetivo em encontrar o filho em detrimento da desgraça iminente que se abaterá sobre o marido até porque desde o momento em que Paul entregou o filho aos cuidados do Estado que Nadia vive com o sentimento de se vingar do marido desejando-lhe mesmo a morte.
Reencontrará Nadia o seu filho? Até onde pode ir o amor de mãe ferido capaz de incorrer numa pena máxima num regime inclemente?
Nadia vai conhecer a realidade dos orfanatos do seu país tomando consciência da existência de crianças seropositivas que foram infetadas na sequência de transfusões de sangue de acordo com as indicações de Elena Ceausescu. Sem se dar conta, a procura de Drago transformará Nadia num elemento contrarrevolucionário, opondo-se de forma determinada ao regime vigente, para lá do medo e do terror instalado no país, instrumentos utilizados como armas de arremesso.
Nadia integrará um movimento de resistência cuja missão é enviar crianças desprotegidas para a RDA que posteriormente seguirão para o Ocidente a fim de serem entregues aos cuidados especiais de entidades próprias.
Não me alongando em termos de sinopse de "A Noite não é Eterna", o livro ganha, à semelhança de outras obras da escritora, na dimensão psicológica dos personagens e na forma como a narrativa flui. Nadia ocupa a figura central passando de mulher submissa ao marido e ao regime comunista a mulher determinada a pôr cobro a todo um conjunto de injustiças. O seu repúdio face à situação que se abateu sobre si própria é em si mesmo a sua voz de repúdio face a um regime assassino que a todos esmaga com a sua força.
"A Noite não é Eterna" ganharia tanto mais se apresentasse mais alguns aspetos sobre Bucareste e até Timisoara, cidades onde se desenvolve a narrativa. Aspetos simples que constituiriam mais do que o eco ou o pano de fundo de cidades importantes, ainda hoje, naquele país, para além de alguns lugares-comuns que poderiam ter lugar noutras geografias europeias, como na RDA com a sombra da Stasi ou até mesmo Portugal no período salazarista com a atuação da PIDE.
Salvo uma ou outra pincelada histórica que surge no romance, é, com efeito, no final, que com a grande manifestação popular na Praça da República junto ao palácio presidencial e o julgamento sumário do casal Ceausescu ‘a posteriori’ que do ponto de vista histórico, o romance atinge a sua apoteose, com dados concretos que não só ilustram um dos marcos decisivos da história da Roménia contemporânea, mas também a esperança que fica no ar face a um amanhã melhor.
É essa encruzilhada e a esperança face à incerteza do amanhã após o derrube do regime de Ceausescu que Ana Cristina Silva tão bem reproduz. Talvez esteja aqui reproduzida a renovação sempre presente de uma contínua revolução dos cravos que tem ainda tanto abril por cumprir.
Nas ditaduras a cegueira do líder conduz à cegueira da população ao ponto de se reproduzirem atos ignominiosos em nome do líder. A ânsia em ascender dentro do Partido, como no caso específico de Paul, gera a reprodução de ideias e atos terríveis no seio doméstico ao ponto de cada lar reproduzir em certa medida a repressão do Estado sobre os cidadãos. Compreende-se assim que a violência doméstica (nem que seja somente do ponto de vista psicológico) seja um reflexo da violência que o próprio Estado exerce sobre os cidadãos em geral em nome de uma cegueira louca que é continuamente repetida em nome de um louco maior que era, no caso da Roménia, o próprio Ceausescu.
Deste modo, cada lar conseguia reproduzir a figura de Ceausescu através de cada marido e pai de família, tal como acontece com Paul na sua relação com Nadia e os seus filhos Inga e Drago.
Só uma pessoa louca consegue desvirtuar a linha que separa o bem do mal ao ponto de contagiar outros que contribuem para a manutenção do sistema que se alimenta a si próprio. Foi assim na Roménia durante mais de quatro décadas.
Ainda hoje a Roménia sofre as consequências da loucura repressiva de Ceausescu.
Outra das ideias bem conseguidas ao longo do romance é o conceito de revolução que nalgumas ditaduras constitui uma forma de iludir a população dando a ideia de se realizar algo grandioso e extraordinário, transformando o futuro do país em algo glorioso quando na verdade o que se pretende levar a cabo é aumentar o sofrimento da população na medida em que é com esse mesmo sofrimento e sacrifício coletivo que a revolução é concretizada.
"(…) Às vezes sentia-se confusa, porque via genuíno entusiasmo em muitos dos seus colegas, convencidos de que o país tinha descoberto o rumo para o paraíso." (p. 48)
Os opositores aos regimes são, pois, considerados como antirrevolucionários quando na verdade, aquilo que mais ambicionariam era efetivamente uma revolução propriamente dita que pusesse cobro ao regime comunista, ao fim da ditadura.
Gosto de pensar este livro, não na história em si, mas na ideia de ditadura e totalitarismo em si mesmos, na forma como surgem, os contextos favoráveis à sua instituição e à forma como são alimentados, levando e contagiando atrás de si milhares de pessoas que, em certa medida, contribuem para a destruição e corrosão do próprio país.
A intimidade é devastada. O sentido prático e comum da vida perde-se em detrimento de algo maior, o Estado, que tudo mina e tudo corrompe.
Nas ditaduras, a loucura instala-se transversalmente a toda a sociedade porque ninguém ligado ao Partido quer ficar para trás. Por uma questão de sobrevivência, cada elemento do Partido vê-se na iminência em ser denunciado tornando-se também delator, contribuindo para a instalação de um clima de medo, terror em tantas situações. Assim, compreende-se a loucura e o medo que se disseminam nas ditaduras como uma doença infecciosa.
"Nadia aprendera com a mãe a esconder-se atrás do vago, a dissimular o que sentia e a amordaçar o receio." (p. 47)
"Mesmo tentando desviar-se do medo, o sentimento enraizava-se no corpo, pois qualquer colega podia acusá-la de traição pelos motivos mais fúteis." (p. 48)
"Para que a desgraça não invada mais a sua vida, para não ser acusada de fraude e falsificação de documentos, e, sobretudo, se quiser saber onde está o seu filho, tem de passar a vigiar o seu marido e apresentar-me relatórios mensais.
(…)
Nadia compreendeu que aquela era a única maneira de ver Drago. Não hesitou. Disse que sim. Não havia mais nada a fazer. Para ter de volta o filho, tornar-se-ia uma delatora. Era uma escolha sem dúvida penosa, mas Paul merecia todos os castigos." (pp. 64-65)
"A Noite não é Eterna" é uma metáfora sobre as ditaduras que afinal não duram para sempre e os ditadores tão-pouco. Os seus atos, esses sim, permanecerão na memória coletiva, na História de um povo, como forma de alerta e sobreaviso das gerações futuras. Fica sempre a esperança no amanhã que o mundo acorde um pouco melhor.

Texto elaborado por Jorge Navarro.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

"A Noite Não É Eterna" de Ana Cristina Silva

Gosto muito da escrita de Ana Cristina Silva e confesso que as minhas expectativas para esta leitura eram muito elevadas! Talvez por isso tivesse achado que este livro poderia ser maior. Passo a explicar melhor.

Sou fã da Ana Cristina. Creio que o primeiro livro que li foi As Fogueiras da Inquisição. Seguiram-se Cartas Vermelhas e A Segunda Morte da Ana Karenina. Adorei todos. Li também O Rei do Monte Brasil.

A Noite Não é Eterna conquistou-me pela capa que achei fantástica. A história passa-se em Bucareste, na Roménia, no tempo de Ceausescu. O ambiente está descrito em conformidade com o terror vivido nessa altura. A fome e o medo das denúncias são uma constante na vida dos seus habitantes. Para Nádia, porém, o verdadeiro terror surge quando o seu marido, um quadro do partido, entrega o filho de ambos ao cuidado do Estado, para ser criado e educado pelo partido, pois até então vivera sempre um pouco protegida dos horrores que se viviam.

São situações contadas pela autora que transmitem com muita veracidade o que na realidade se passava na Roménia sob o jugo desse ditador. Nádia incansavelmente procura seu filho e é nessa busca que abre os olhos para tudo o que se vivia nos orfanatos de então. Encontrará ela o seu menino? Poderá fazer alguma coisa para o libertar?

Bem escrito, como seria de esperar, este romance transporta-nos para uma época da qual conhecemos alguns factos e que, com os personagens ficcionados pela autora, conseguimos visualisar na perfeição. Pena que tivesse só duzentas páginas...

Terminado em 27 de Março de 2016

Estrelas: 4*

Sinopse

A Roménia, sob o jugo do ditador Nicolae Ceausescu, atravessa um dos piores períodos da sua história, com a população a enfrentar a fome e dominada pelo terror. Seguindo as orientações do Presidente para a criação de um exército do povo no qual os soldados seriam treinados desde crianças, Paul, um ambicioso funcionário do partido, decide levar de casa o filho de três anos e entregá-lo aos cuidados do Estado. Quando a mãe se apercebe do desaparecimento do pequeno Drago, o desespero já não a abandonará, bem como o firme desejo de acabar com a vida do marido.
Correndo riscos tremendos, Nadia não desistirá, porém, de procurar o menino, ainda que para isso tenha de forjar uma nova identidade, de fazer falsas denúncias, de correr os orfanatos cujas imagens terríveis chocaram o mundo e até de integrar uma rede que transporta clandestinamente crianças romenas seropositivas para o Ocidente. Mas será que o seu sofrimento pode ser apaziguado enquanto Paul for vivo? Enquanto o ditador for vivo?

terça-feira, 22 de julho de 2014

A convidada Escolhe: O Rei do Monte Brasil

"O Rei do Monte Brasil" foi em 2013 o livro vencedor do Prémio Literário de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues, instituído pela FENPROF a obras literárias escritas por docentes e investigadores/as. Desta vez, foi Ana Cristina Silva, docente do ISPA e autora de diversas obras literárias a galardoada com este prémio.

A obra situa-se no final do século XIX, início do século XX e tem como figuras centrais Gungunhana e Mouzinho de Albuquerque. É uma obra com interesse histórico, pois leva-nos ao período da primeira guerra colonial, quando os portugueses quiseram impor a sua soberania e domínio sobre os povos colonizados, neste caso, do sul de Moçambique, o reino dos Vátuas governado por Gungunhana. Mouzinho de Albuquerque foi o oficial ao serviço do rei D. Carlos I que o capturou e levou prisioneiro para Lisboa e posteriormente para a ilha Terceira.

O início do romance leva-nos a Angra onde Gungunhana é surpreendido com a notícia do suicídio de Mouzinho, no início de Janeiro de 1902. O feroz e vitorioso Mouzinho de Albuquerque era afinal um ser vulnerável e frágil que não tinha tido a coragem de lidar com a sua decadência e queda após um período de ascensão e glória! Mouzinho que nutrira a convicção da superioridade dos brancos sobre os pretos que considerava inferiores, ferozes e mais próximos da condição de animais!

Afinal, eram maiores as semelhanças do que as diferenças entre as duas personagens, ambas despóticas e sem hesitações quando tiveram todo o poder nas mãos.

Gungunhana é uma personagem complexa que viveu a sua condição de chefe máximo de um reino, exercendo o poder de forma ambígua nos seus relacionamentos com os portugueses emissários do rei D. Carlos e os ingleses súbditos da rainha Vitória; eloquente e ardiloso, dominando os seus súbditos pelo terror e o arbítrio; desregrado e insaciável nas suas ambições sem limites. A sua vulnerabilidade revelou-se aquando da morte de uma das mulheres e de um dos filhos. Mais tarde, já longe de África, vivendo a condição já não de rei de Gaza, mas de rei do Monte Brasil na Terceira, onde se embrenhava para caçar coelhos e fugir dum mundo que lhe era estranho. Agora, Gungunhana não passava de uma sombra ou de personagem exótica para ser observada por jornalistas, senhoras da sociedade ou pela população. Aliás, Gungunhana apercebera-se, na hora da sua captura, que era um homem só, abandonado e desprezado pelo seu povo que não lhe tinha amor, mas sim medo.
Acompanhamos neste romance as últimas horas da vida de Mouzinho de Albuquerque, que havia tido as maiores honrarias e reconhecimento até a nível internacional, pelos seus feitos e bravura em África. Mas, com a queda da sua popularidade e importância na corte, Mouzinho decidiu pôr cobro ao sofrimento, suicidando-se. Ele acha que fez o melhor pelo seu país e que Portugal lhe virou as costas, não vê préstimo em continuar a viver, mas não quer que o seu suicídio seja visto como cobardia ou acto de loucura. É firme a sua intenção de pôr termo à vida, mas ao acompanharmos as suas últimas horas de vida, como se de um filme se tratasse, vamos percorrendo as ruas da baixa lisboeta como pano de fundo e o/a leitor/a é convidado/a a acompanhar os pensamentos, os sentimentos, as dúvidas e as contradições de quem sempre teve uma imagem de firmeza e segurança e cujo acto poderá ser entendido como fraqueza e cobardia. São as figuras omnipresentes da mulher, da rainha D. Amélia por quem nutre uma paixão platónica e do rei D. Carlos que o acompanham em pensamento antes do tresloucado acto tão bem retratado nalgumas das páginas deste interessante romance que aborda estes heróis da nossa história como pessoas de carne e osso e não apenas como personagens de quem apenas conhecíamos pelo nome e pouco mais.

Almerinda Bento

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

"O Rei do Monte Brasil" de Ana Cristina Silva

Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 168
Editor: Oficina do Livro
ISBN: 9789895560042

Li há pouco tempo o último livro desta escritora e, como fã que sou da sua escrita, não podia deixar passar esta obra. Gostei de conhecer um pouco melhor Mouzinho de Albuquerque e o rei moçambicano Gungunhana.

O livro é escrito, maioritariamente, a duas vozes: a de Mouzinho e a do régulo africano, Gungunhana. Contam-nos, ambos, as suas versões dos factos, ao jeito de confidência. As suas (possíveis) memórias quando o tempo se escoa e as suas vidas estão a chegar ao fim.

Não sou adepta, muito sinceramente, de monólogos pois fazem-me dispersar muito rapidamente. Isso aqui não aconteceu talvez porque o que foi narrado (os pensamentos que poderiam pertencer aos protagonistas) misturou-se muito bem com os factos históricos. E mais uma vez as barbaridades cometidas, tanto por um como por outro, chocaram-me e fizeram-me pensar nas inúmeras histórias de horror que a História possui!

No entanto, para quem nunca leu Ana Cristina não aconselho este livro para primeira leitura. Adorei "As Fogueiras da Inquisição", as "Cartas Vermelhas" e "A Segunda Morte de Anna Karenina". O meu palpite seria começarem por aí...

Terminado em Novembro de 3013

Estrelas: 4*

Sinopse

Em finais do século XIX, o oficial de cavalaria Joaquim Mouzinho de Albuquerque interna-se, ao serviço do rei D. Carlos, no coração de África com o objectivo de subjugar as tribos à administração colonial portuguesa; para isso, porém, queima aldeias inteiras, mata os insubmissos e, desobedecendo a ordens superiores, captura com espectacularidade o detentor de um império vastíssimo, Gungunhana, que traz para Portugal como troféu e acaba exilado nos Açores até ao fim dos seus dias.
Apesar de recebido pelo povo e aclamado pela imprensa como um herói da pátria, a crítica ao comportamento pouco ético de Mouzinho nos corredores do Paço, a indiferença do governo em relação aos seus planos para África e a paixão nunca abertamente confessada por D. Amélia acabam por levá-lo ao suicídio. Mas, se a notícia escandaliza o País, a verdade é que é lida com entusiasmo e sentimento de justiça por um Gungunhana já velho e destroçado, que passa os dias escondido na floresta do Monte Brasil, o local que encontrou na ilha Terceira… que mais se assemelha à terra dos seus antepassados. Com uma alternância de vozes narrativas que nos oferecem duas versões muito distintas do mesmo conflito, O Rei do Monte Brasil explora as memórias dos seus protagonistas às vésperas da morte, ilustrando-nos sobre a sua infância, as suas paixões marcantes, as atrocidades para as quais encontram sempre justificação e, de certa forma, a reflexão sombria sobre a decadência e a glória perdida.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

"A Segunda Morte de Anna Karénina" de Ana Cristina Silva


Edição/reimpressão:2013
Páginas:224
Editor:Oficina do Livro
Fui à apresentação do livro de Ana Cristina na Livraria Barata. Estava gente em pé. Gostei de ver a casa cheia. Como gosto de ler os livros desta escritora.
Todos eles, talvez devido à sua formação em Psicologia, possuem personagens com um carisma próprio, uma força interior que nos impele a tomar o seu partido ou, pelo contrário, a odiá-los, quase. São detentores de variadíssimos sentimentos que expõem sem pejo e nos quais nos revimos. Amor, ódio, angústia, alegria, descontentamento. Os personagens entregam-se a nós, confessam-se e partilhamos, eles e nós leitores, tanto as alegrias como as tristezas que frequentam os seus corações.

Este livro senti-o como um desabafo de Violante, a personagem principal. É, também, um hino ao amor. Em qualquer dos sexos, sem preconceitos. A guerra, ela sim, é suja e dura. Essa sim deve ser considerada como algo aberrante e fora do normal. E isso está bem patente aqui neste livro.

As descrições dos sentimentos e dos lugares são tão autênticos que é como se de um filme se tratasse. Ao ler conseguimos "ver"! Daria um bom argumento para um filme, como afirmava um amigo aquando da apresentação do livro. Concordo em absoluto.

Ana Cristina sabe expressar-se, através dos personagens que cria, de uma forma que nos deixa rendidos. A história é construída para depois, no final, a pormos em causa, a reformularmo-la completamente. Isso agrada-me. Os fins felizes e "certinhos" deixar-me-iam insatisfeita se existissem nos livros desta autora. Ela quer-nos dar mais que isso. Devemos aproveitar, portanto!

Terminado em 24 de Outubro de 2013

Estrelas: 5*

Sinopse

Violante tinha, desde criança, um talento raro para a representação e, com a ajuda de Luis Henrique, um grande actor com quem acabou por se casar, tornou-se uma das mais aplaudidas actrizes portuguesas do princípio do século XX. Contudo, os que a vêem brilhar e afirmar o seu génio no palco dos maiores teatros nacionais desconhecem o terrível segredo que minou a sua vida e levou para longe o marido numa noite que podia ter acabado em tragédia. Agora, que Violante visita, longe da multidão, o jazigo de Rodrigo - um jovem oficial português caído na guerra das trincheiras em França -, espera finalmente sentir o desgosto da mãe que não chegou a ser, mas descobre que o filho que não criou carregava, afinal, no peito um peso tão grande ou maior do que o seu. E, com o espectro das recordações que essa revelação desencadeia, regressa também inesperadamente o próprio Luís Henrique, desejoso de obter, ao fim de tantos anos, a resposta que Violante não lhe pôde dar. O problema é que, numa conversa entre dois actores de excepção, nunca se sabe exactamente o que é verdade.
A Segunda Morte de Anna Karénina é um romance sobre o amor sem limites, a traição e os custos da vingança - e também uma obra arrojada sobre as tensões homossexuais reprimidas, sobre as vidas desperdiçadas de tantos portugueses na Primeira Guerra Mundial e sobre as diferenças - se é que existem - entre o teatro e a vida real.

sábado, 12 de novembro de 2011

Cartas vermelhas de Ana Cristina Silva


Edição/reimpressão: 2011
Páginas: 272
Editor: Oficina do Livro
ISBN: 9789895558070

Esperava desta escritura um livro assim. Intenso! Não foi, por isso, uma surpresa a sua leitura, desconfiava  já que iria gostar. A leitura que tinha feito de Fogueiras da Inquisição assim o demonstrava...

A sinopse revelava tratar-se de um romance histórico sobre uma mulher que muitos desconhecem ( Carolina Loff da Fonseca) com uma vida muito participativa nos acontecimentos que se sucederam, por volta de 1900 e anos seguintes, em vários pontos do mundo - desde a Cidade da Praia a Lisboa, passando por Moscovo e Madrid.

Para além da leitura da sinopse, a escrita de Ana Cristina Silva não me podia deixar indiferente. É de uma forma espectacular que ela descreve minuciosamente, com uma imaginação sem limites, o que terá sentido essa formosa mulher que onde passava deixava um rasto de beleza mas também de empenhamento político, sempre em busca de um mundo mais justo. Ao fazermos esta leitura temos consciência do que é ficção e do que é real e isso é um ponto a favor da autora.

Mergulhamos na época do Estado Novo, das lutas clandestinas, das prisões e interrogatórios, na antiga União Soviética de Estaline, do Kremlim, da euforia mas também do medo que aí reinava e também dos horrores que se cometeram na Guerra Civil Espanhola, da Frente Popular...

Ficamos com vontade de saber mais sobre esta mulher especial, arruinada pelo remorso de ter abandonado a filha por longos anos, anos que tornaram difícil o seu reencontro e aproximação.

Gostei deveras e recomendo muitíssimo! A sinopse, no entanto, revela mais do que devia, não a leiam!

Terminado em 10 de Novembro de 2011

Estrelas:5*

Sinopse


Nascida em Cabo Verde de família branca e abastada, Carol nunca se resignou à miséria das ilhas. E, movida pelo sonho de construir uma sociedade mais justa, ingressou ainda jovem no Partido Comunista. Não se importando de usar a beleza como arma ideológica, abraçou a luta revolucionária, apaixonou-se por um camarada e ficou grávida pouco antes de ser presa. Foi a sua mãe quem tratou de Helena nos primeiros tempos, mas, depois de libertada, Carol levou-a para Moscovo, onde trabalhou nas mais altas esferas do Comintern. Aí, o contacto com as purgas estalinistas não chegou para abalar as suas convicções, mas o clima de denúncia e traição catapultou-a para o cenário da Guerra Civil espanhola, obrigando-a a deixar Helena para trás; e, apesar de ter escapado aos fuzilamentos franquistas, a eclosão da Segunda Guerra Mundial impediu Carol de voltar à União Soviética para ir buscar a criança. Será apenas vinte anos mais tarde que mãe e filha se reencontrarão em Berlim; mas a frieza e o ressentimento de Helena farão com que, na viagem de regresso a Lisboa, Carol decida escrever um romance autobiográfico com o qual a filha possa, se não perdoar-lhe, pelo menos compreender as circunstâncias do abandono, a clandestinidade, a prisão, a guerra, a espionagem e o inconcebível casamento com um inspector da polícia política. Inspirado na vida de Carolina Loff da Fonseca, este romance extremamente empolgante vai muito além dos factos, confirmando Ana Cristina Silva como uma das mais dotadas autoras de romance psicológico em Portugal.

sábado, 13 de novembro de 2010

As fogueiras da inquisição de Ana Cristina Silva




Edição/reimpressão: 2008
Páginas: 188
Editor: Editorial Presença
ISBN: 9789722339391
Colecção: Grandes Narrativas

Quando um tema me interessa, sou catapultada para dentro do livro com uma velocidade estonteante e tenho alguma dificuldade em "sair" dele e fazer uma crítica positiva, quanto mais negativa...

Gostei, aprendi e senti as minhas emoções ao rubro com este romance histórico. A Inquisição não é um tema leve nem fácil de ser tratado e esta autora, para além da pesquisa que se subentende ter sido feita, conseguiu uma história onde os aspectos reais se misturam muito bem nos fictícios, resultando num livro pequeno mas muito gostoso!

Várias gerações são retratadas, gerações que têm em comum o facto de terem ascendência judia e de necessitarem de camuflar a sua religião para poderem sobreviver num ambiente hostil, marcado pelos horrores da perseguição em nome de um Deus que servia para encobrir interesses pessoais. A fuga de judeus para fora do nosso país, o medo da denúncia, a prisão, a tortura, tanto física como psicológica, a morte pelo fogo foram uma realidade que não deve ser esquecida. Parece surreal, ilógico e difícil de compreender... Mais uma razão para se ler este livro! 

Terminado em 13 de Novembro de 2010

Estrelas: 5*

Sinopse

Numa altura em que os romances históricos são cada vez mais procurados pelos leitores, a Editorial Presença publica o primeiro romance de uma autora portuguesa onde realidade e ficção se entrelaçam brilhantemente. Esta história desenrola-se ao longo do século XVI, numa época em que o medo e a denúncia são constantes, em que as perseguições e os massacres se sucedem e a Inquisição é imposta em Portugal. Sara de Leão, protagonista e neta de uma família judaica portuguesa, é presa num calabouço, em Évora, acusada de práticas judaizantes. Para se conseguir evadir da penosa situação em que se encontra, Sara refugia-se no passado recordando a sua avó Ester Baltasar, que lhe transmitiu a história e a doutrina do seu povo. Uma obra envolvente, através da qual ficamos a conhecer esta extraordinária saga familiar, as suas vicissitudes, a coragem e a solidariedade que várias gerações revelaram face ao terror que as ameaçava.

Um pouco de História:





Antes mesmo da instituição da Inquisição em Portugal (1536), observamos por parte do Estado a preocupação em cercear ideias consideradas como perigosas ao regime. Em meados do século XV foi instituída a censura real através de um alvará de Afonso V, de 18 de agosto de 1451, que manda "queimar livros falsos e heréticos". 
A Inquisição foi pedida inicialmente por D. Manuel I, para cumprir o acordo de casamento com Maria de Aragão. A 17 de dezembro de 1531, o Papa Clemente VII, pela bula Cum ad nihil magis  instituiu-a em Portugal, mas um ano depois anulou a decisão. Em 1533 concedeu a primeira bula de perdão aos cristãos-novos portugueses. D. João III, filho da mesma D. Maria, renovou o pedido e encontrou ouvidos favoráveis no novo Papa Paulo III que cedeu, em parte por pressão de Carlos V de Habsburgo.
Em 23 de maio de 1536, por outra bula em tudo semelhante à primeira, foi instituída a Inquisição em Portugal. Sua primeira sede foi Évora, onde se achava a corte. Tal como nos demais reinos ibéricos, tornou-se um tribunal ao serviço da Coroa.
A bula Cum ad nihil magis foi publicada em Évora, onde então residia a Corte, em 22 de outubro de 1536. Toda a população foi convidada a denunciar os casos de heresia de que tivesse conhecimento. No ano seguinte, o monarca voltou para Lisboa e com ele o novo Tribunal. O primeiro livro de denúncias tomadas na Inquisição, iniciado em Évora, foi continuado em Lisboa, a partir de Janeiro de 1537. Em 1539 o cardeal D. Henrique, irmão de D. João III e depois ele próprio rei, tornou-se inquisidor geral do reino.
Até 1541, data em que foram criados os tribunais de Coimbra, Porto, Lamego e Évora, existia apenas a Inquisição portuguesa que funcionava junto à Corte. Em 1541 foram criados os Tribunais de Coimbra, Porto, Lamego e Tomar. Em 1543-1545 a Inquisição de Évora efectuou diversas visitações à sua área jurisdicional. Mas em 1544 o Papa mandou suspender a execução de sentenças da Inquisição portuguesa e o autos-de-fé sofreram uma interrupção.
Foram, então, redigidas as primeiras instruções para o seu funcionamento, assinadas pelo cardeal D. Henrique, e datadas de Évora, a 5 de Setembro. O primeiro regimento só seria dado em 1552. Em 1613, 1640 e 1774, seriam ordenados novos regimentos por D. Pedro de Castilho, D. Francisco de Castro e pelo Cardeal da Cunha, respectivamente.
De acordo com Henry Charles Lea no período entre 1540 e 1794, os tribunais de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora resultaram na morte por fogueira de 1,175 pessoas, e na queima de 633 efígies, e em 29,590 outras penas. No anetanto a documentação de alguns autos de fé desapareceu podendo estes números estar ligeiramente abaixo da realidade.
O Index ou Index Librorum Prohibitorum era a lista de livros proibidos cuja circulação tinha de ser controlada pela Inquisição. Os livros autorizados eram impressos com um "imprimatur" ("que seja publicado") oficial. Assim era evitada a introdução de conteúdo considerado herege pela Igreja.
A Inquisição foi extinta gradualmente ao longo do século XVIII, embora só em 1821 se dê a extinção formal em Portugal numa sessão das Cortes Gerais.
(retirado da Wikipédia)

Soltas...

"Avançando em auto-de-fé, por entre a chacota da multidão, terás como destino unir o teu corpo ao implacável ardor das chamas. Mas nem isso já te atormenta... O teu maior receio é o de não teres força para morrer pela honra e, antes de darem os teus ossos aos cães, confessares com mentiras as verdades que eles querem ouvir. Naqueles interrogatórios reina uma tenebrosa irrealidade, na qual as perguntas nunca encaixam nas respostas nem a verdade se distingue da falsidade."

"Agora, com o tempo tão próximo do final, passados que foram os três dias de mãos atadas, oscilo ainda entre a morte e uma espécie de vida. Vai-se instalando em mim uma espécie de torpor, que se parece com uma súbita bonança, mas que não é mais que alheamento. Não faz mal. A loucura talvez seja a única amiga a quem poderei dar a mão quando amanhã caminhar, por entre apupos, na procissão do auto-de-fé.(...) Irei morrer em breve, mas na verdade pouco sei do terror que me espera. E, todavia, ele invade-me completamente à medida que um ténue esplendor de claridade começa a romper por entre as grades."