Este livro foi para mim, antes do mais, um murro no estômago. Como é o relacionamento com uma pessoa – o irmão com síndrome de Down um ano mais novo – quando se é criança e mais tarde quando se sai de casa dos pais e se passa a ter uma vida independente e vinte anos mais tarde, quando os pais morrem e é preciso viver vinte e quatro sobre vinte e quatro horas com o irmão então com quarenta anos? Sem moralismos, nem hipocrisia, o narrador – o irmão mais velho, professor universitário, totalmente absorvido no "estudo do verbete" – leva o/a leitor/a a vivenciar os diferentes estados de alma desse convívio com um familiar deficiente, em diferentes momentos das suas vidas: amor, paciência, compreensão, ciúme, sentimento de posse, remorso, raiva, incompreensão, estranheza, medo, desespero, impotência, esgotamento, derrota, amor.
E este percurso de vida coloca-nos na posição de nós próprios nos interrogarmos sobre como agiríamos, caso fôssemos nós o irmão ou a irmã do Miguel. É por isso um livro que não é "confortável" nem nos pode deixar indiferentes. Mesmo que se queira "fugir", passar uns dias de férias na casa de campo de família, há muito abandonada, mas um possível refúgio no Tojal, os problemas do narrador e do Miguel não deixam de estar presentes. Portugal vive em pleno período da crise e da presença da troika e o interior do país é a solidão e a violência de um presente sem futuro e sem perspectivas, uma terra abandonada aos velhos e aos infelizes que não migraram. "Implodimos mais do que explodimos e tudo fica na mesma" e "o interior de Portugal é uma mulher de preto, viúva, feia, fechada à janela do primeiro andar de uma casa velha…". As telenovelas substituem o pequeno mundo em que vivem e as actrizes servem de paliativo à falta de Luciana, o amor de Miguel.
Desde sempre a sexualidade das pessoas com deficiência tem sido tratada como um tabú pela sociedade: familiares, instituições, pessoas em geral. Este é um dos grandes temas de "O Meu Irmão". Como lidar com um amor que é tão forte e se torna obsessivo ao longo dos anos? Há uma infantilização dos deficientes e uma rejeição das suas necessidades sexuais e do direito à privacidade, uma ideia fixa de controlar e de proteger e uma impotência quando se percebe que nem tudo é controlável. "É muito fácil fazermos mal às pessoas que amamos" diz a certa altura o narrador. Quer a instituição onde o Miguel e a Luciana passam o dia, quer o irmão de Miguel encaram com preocupação e repulsa um amor que se vai instalando entre os dois e que não conseguem controlar, nem com o afastamento nem com as proibições ou castigos. E esse é um aspecto que o livro deixa em aberto e que nos questiona, aos ditos "normais", que assumem um estatuto de superioridade, de tomada de decisão e de controlo sobre a sexualidade das pessoas com deficiência.
Outro aspecto que considerei muito interessante no livro refere-se à comunicação e ao relacionamento entre as famílias e as instituições de apoio e acompanhamento das pessoas com algum tipo de deficiência, os quais nem sempre são pacíficos ou transparentes e por isso nem sempre vão no sentido de proporcionar o melhor serviço para quem devendo ser sujeito é tratado como objecto.
Por fim e essa é talvez a marca mais nítida neste romance, tem a ver com a caracterização da personagem do Miguel, complexa, em nada tratada como "o coitadinho", antes mostrando o seu lado frágil, mas matreiro, obstinado e teimoso, mas sensível e imprevisível.
Os conceitos de normalidade ou de deficiência acabam com esta obra também por ficar muito questionados. Será normal e saudável a actividade obsessiva e totalmente centrada do narrador, que o leva a afastar-se de todos, desde colegas a familiares e o torna incapaz de estabelecer amizades? Será anormal e doentio amar e querer ser amado, expressar sentimentos tão diferentes como são o amor, o ciúme, o carinho, a afectividade, a solidão? Afinal aquele será assim tão "normal" e este será assim tão "deficiente"?
No último capítulo, Miguel e o irmão, em vésperas de regressarem à grande cidade, percorrem uma última vez o campo perto da casa do Tojal, perdidos no nevoeiro, irmanados na mesma solidão e fragilidade. Para ambos o futuro é uma grande interrogação.
Almerinda Bento
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terça-feira, 5 de abril de 2016
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
"O Meu Irmão" de Afonso Reis Cabral
Fiquei em estado de choque com esta leitura! Aliás, ainda estou... Confesso que já tinha conversado com algumas amigas da Roda dos Livros que, sem desvendarem a trama, me fizeram esperar qualquer coisa de "esquisito", mas nada me preparou para o final escolhido pelo autor. Terrível e inesperado! Talvez um pouco sem esperança num mundo melhor, acho! O que não impede que este livro esteja escrito irrepreensivelmente!
A história é-nos contada na primeira pessoa, por um homem com cerca de 40 anos. Fala-nos da sua vida, alternando entre um passado e um presente que sentimos/adivinhamos diferente e conflituoso. A sua personalidade roça a esquizofrenia, e vai alternando entre um amor (que nos parece fingido ou pelo menos com um carácter doentio, obsessivo) sentido pelo irmão mais novo, portador de Síndrome de Down, e um sentimento misto de raiva/ ciúme por esse mesmo irmão, por tudo o que ele acha que lhe é dado gratuitamente, sem qualquer esforço só porque é "mongolóide"! Sim, é um pequenino spoiler para vos mostrar como a escrita de Afonso Reis Cabral chega a ser dura quando pretende retirar-nos da nossa passividade!
Fiquei, por isso, espantada com a escrita do escritor: sóbria, cuidada mas, por vezes, agressiva, que "mexe" connosco e nos inquieta. Gostei especialmente da diferente abordagem de um tema que habitualmente é tratado de uma forma um pouco lamechas e que leva o leitor a sentir empatia muito grande com todos aqueles que rodeiam alguém com Síndrome de Down e pelos próprios, claro! Aqui, não se sente esse tipo de empatia pelo personagem principal, mas não se consegue deixar de ficar agarrado ao livro, sempre à espera de perceber que sentimento rege esse irmão mais velho e porque quer ele tomar conta de alguém de quem esteve afastado mais de vinte anos...
Uma primeira obra que me cativou. Espero mais ainda de uma segunda! Vamos ver o que tem este autor na gaveta.
Terminado em 14 de Janeiro de 2015
Estrelas: 5*
Sinopse
Vencedor do Prémio LeYa 2014 A relação entre dois irmãos, um deles deficiente mental, que têm de aprender a viver juntos Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana. Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento. "O Meu Irmão", vencedor do Prémio LeYa 2014 por unanimidade, é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso.
A história é-nos contada na primeira pessoa, por um homem com cerca de 40 anos. Fala-nos da sua vida, alternando entre um passado e um presente que sentimos/adivinhamos diferente e conflituoso. A sua personalidade roça a esquizofrenia, e vai alternando entre um amor (que nos parece fingido ou pelo menos com um carácter doentio, obsessivo) sentido pelo irmão mais novo, portador de Síndrome de Down, e um sentimento misto de raiva/ ciúme por esse mesmo irmão, por tudo o que ele acha que lhe é dado gratuitamente, sem qualquer esforço só porque é "mongolóide"! Sim, é um pequenino spoiler para vos mostrar como a escrita de Afonso Reis Cabral chega a ser dura quando pretende retirar-nos da nossa passividade!
Fiquei, por isso, espantada com a escrita do escritor: sóbria, cuidada mas, por vezes, agressiva, que "mexe" connosco e nos inquieta. Gostei especialmente da diferente abordagem de um tema que habitualmente é tratado de uma forma um pouco lamechas e que leva o leitor a sentir empatia muito grande com todos aqueles que rodeiam alguém com Síndrome de Down e pelos próprios, claro! Aqui, não se sente esse tipo de empatia pelo personagem principal, mas não se consegue deixar de ficar agarrado ao livro, sempre à espera de perceber que sentimento rege esse irmão mais velho e porque quer ele tomar conta de alguém de quem esteve afastado mais de vinte anos...
Uma primeira obra que me cativou. Espero mais ainda de uma segunda! Vamos ver o que tem este autor na gaveta.
Terminado em 14 de Janeiro de 2015
Estrelas: 5*
Sinopse
Vencedor do Prémio LeYa 2014 A relação entre dois irmãos, um deles deficiente mental, que têm de aprender a viver juntos Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana. Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento. "O Meu Irmão", vencedor do Prémio LeYa 2014 por unanimidade, é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso.
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