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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A Convidada Escolhe: "Londres"


Londres, Virginia Woolf, 1931,32

Como é a Londres de Virginia Woolf? Quase cem anos depois, que diferenças se encontram entre a visão da escritora que nasceu, amou e viveu durante tantos anos nesta cidade e uma cidadã-turista que visita a cidade e que a dá a conhecer a outras pessoas que a visitam pela primeira vez?

Entre os inúmeros pontos de interesse da cidade tão presente nos seus Diários, Virginia Woolf escolhe como “roteiro” neste The London Scene seis aspectos, correspondentes a seis ensaios escritos na Primavera de 1931 e publicados em Dezembro desse mesmo ano e ao longo de 1932 na revista Good Housekeeping.
Começa pelas docas, pela azáfama do porto, com as entradas constantes de navios vindos da Índia, da Austrália, da América, de todo o mundo, trazendo e levando produtos ao sabor das necessidades e do gosto das populações. A dança dos guindastes é constante e a sujidade e o lixo não são coisas boas de se ver, em contraste com Oxford Street onde se encontram “refinado(s) e transformado(s)” os produtos trazidos e deixados em bruto nas docas de Londres. Mas Virginia Woolf alerta que Oxford Street “não é a rua mais distinta de Londres”, tanto mais que aqui “há demasiadas pechinchas, demasiados saldos” para concluir que “Tendo em conta tudo isto – os leilões, os carrinhos de mão, as pechinchas, o esplendor – não se pode dizer que seja refinado o carácter de Oxford Street.” Nesta maré que é Oxford Street tudo é transitório como os nossos desejos, veloz como as notícias, reflectindo que “o encanto da moderna Londres está em ser feita não para durar, mas para passar.”
Depois da “Maré de Oxford Street” Virginia Woolf leva-nos a visitar as casas do casal escocês Thomas e Jane Carlisle em Chelsea e de Keats em Hampstead. Sem água canalizada, todo o trabalho de aquecimento e transporte de água para os banhos desde a cozinha até ao terceiro andar da casa dos escoceses, em que a Sra. Carlisle e a criada se afadigavam, tornavam esta casa num campo de batalha contra o frio e o pó. Virginia Woolf diz que esta casa é marcada pelo mês de Fevereiro, ao contrário da casa de Keats, uma casa despojada de móveis, com muita luz e em que reina a Primavera.
A Catedral de Saint Paul e a Abadia de Westminster não podiam deixar de ser referidas como locais marcados pela vastidão, pela serenidade e pela presença de grandes estadistas e homens de acção que aqui repousam e onde se encontram os seus nomes e estátuas jazentes. Não menos digno de nota, uma inscrição que leu na parede de uma pequena igreja – St. Mary-le Bow – onde a memória e as qualidades de um homem comum ficaram imortalizadas.
O confronto entre o perene e o transitório que Virginia Woolf faz na referência às estátuas dos homens que ficaram na história e que existem na cidade e o dia-a-dia das pessoas comuns é aprofundado no ensaio sobre a Câmara dos Comuns. Aqui, os deputados são comparados a um “bando de pássaros num campo de terra lavrada.” ”Estes homens pouco se distinguem das pessoas normais” mas são eles que decidem da paz ou da guerra, ou das coisas mais comezinhas como a velocidade a que se pode conduzir em Londres. Virginia Woolf dificilmente os vê transformados em estátuas. “Os dias do indivíduo e do poder pessoal terminaram de vez”. e conclui que a democracia transformou o Parlamento. No entanto, o seu optimismo não é excessivo pois a democracia ainda avança a custo, lentamente e é vigiada por inúmeros polícias…
Finalmente, o último ensaio é o delicioso e pouco lisonjeiro retrato de uma londrina. Chama-lhe Sra. Crowe. É “uma coleccionadora de relações”, recebe um grupo restrito de amigos para o chá das cinco, os quais alimentam com as suas conversas frívolas a bisbilhotice de que são feitas as suas vidas. Afinal de contas para eles e para a Sra. Crowe, Londres não passava de uma aldeia e a bisbilhotice era tudo o que queriam da vida.
A ideia que perpassa da cidade de Londres nestes ensaios escritos em 1931 é de uma cidade trepidante, em que as pessoas se acotovelam, com multidões sempre apressadas, havendo até referência a turistas (pág. 67). “Os únicos sítios tranquilos …são os cemitérios.” A trepidação e o encanto da sua cidade testemunhados por esta ilustre londrina, continuam a atrair milhões de turistas um século depois. Como seria “The London Scene” escrito por Virgínia Woolf em 2019? Numa página do seu Diário de 5 de Maio de 1924 escrevia “Londres fascina, saio e é de imediato um mágico tapete colorido e eis-me transportada para a beleza, sem ter sequer de mexer um dedo.”

Mouriscas, 3 de Agosto de 2019
Almerinda Bento

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