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domingo, 30 de junho de 2019

Passatempo 9 anos / Saída de Emergência



Com a simpática colaboração da Saída de Emergência, "O tempo entre os meus livros" festeja o seu 9º aniversário oferecendo o livro "Seca" de Neal Shusterman e Jarrod Shusterman.


Este passatempo decorre até dia 15 de Julho.

Para concorrer, as regras são muito simples:
1. Ser seguidor do blogue e da Editora SE.
2. Enviar email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com indicando no assunto o título do livro a que concorre e no corpo do email o nome e morada.
3. Pode concorrer a todos os livros que entender enviando um email por cada livro.

Passatempo 9 anos / Editorial Presença



Com a simpática colaboração da Editorial Presença, "O tempo entre os meus livros" festeja o seu 9º aniversário oferecendo o livro "Há algo estranho na água" de Catherine Steadman.

Este passatempo decorre até dia 15 de Julho.

Para concorrer, as regras são muito simples:
1. Ser seguidor do blogue.
2. Enviar email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com indicando no assunto o título do livro a que concorre e no corpo do email o nome e morada.
3. Pode concorrer a todos os livros que entender enviando um email por cada livro.

Passatempo 9 anos / Porto Editora



Com a simpática colaboração da Porto Editora, "O tempo entre os meus livros" festeja o seu 9º aniversário oferecendo os livros "As mais belas coisas do mundo" de Valter Hugo Mãe e "Dupla mais que perfeita" de Louise Pentland.

 


Este passatempo decorre até dia 15 de Julho.

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1. Ser seguidor do blogue.
2. Enviar email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com indicando no assunto o título do livro a que concorre e no corpo do email o nome e morada.
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Passatempo 9 anos / Pergaminho



Com a simpática colaboração da Pergaminho, "O tempo entre os meus livros" festeja o seu 9º aniversário oferecendo o livro "Gestão da Mente" de Andy Gibson.


Este passatempo decorre até dia 15 de Julho.

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2. Enviar email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com indicando no assunto o título do livro a que concorre e no corpo do email o nome e morada.
3. Pode concorrer a todos os livros que entender enviando um email por cada livro.

Passatempo 9 anos / Matéria-Prima



Com a simpática colaboração da Matéria-Prima, "O tempo entre os meus livros" festeja o seu 9º aniversário oferecendo o livro "Estava Tudo Ótimo" de Teresa Rebelo.

Este passatempo decorre até dia 15 de Julho.

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1. Ser seguidor do blogue e da editora (FB ou Insta)
2. Enviar email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com indicando no assunto o título do livro a que concorre e no corpo do email o nome e morada.
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Passatempo 9 anos / Gradiva


Com a simpática colaboração da Gradiva, "O tempo entre os meus livros" festeja o seu 9º aniversário oferecendo os livros "Um Elevador Chamado Desejo" de Jasmine Guillory e "Uma Mulher de Cinquenta Anos" de Maria Monforte.

 

Este passatempo decorre até dia 15 de Julho.

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Passatempo 9 anos / Clube do Autor



Com a simpática colaboração do Clube do Autor, "O tempo entre os meus livros" festeja o seu 9º  aniversário oferecendo o livro "A Prova" de Stéphane Allix.


Este passatempo decorre até dia 15 de Julho.

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Passatempo 9 anos / Alfaguara



Com a simpática colaboração da Alfaguara, "O tempo entre os meus livros" festeja o seu 9º aniversário oferecendo o livro "A mulher mais bonita da cidade" de Charles Bukowski.

Este passatempo decorre até dia 15 de Julho.

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sábado, 29 de junho de 2019

Na minha caixa de correio

  

  
 
 

Ofertados pela editoras:
- Perfeito (Leya)
- Ghost (Fábula / 2020)
- A Mãe (Planeta)
- 1793 (Suma de Letras)
- O Rinoceronte do Rei (Clube do Autor)

Comprados num alfarrabista:
- Linhagem de Ouro
- As Crianças Invisíveis

Ofertado por uma amiga:
- Picasso

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Adivinhem lá...


O blogue faz hoje 9 anos.

Esperem por novidades no próximo fim de semana.

Estejam atentos!


quinta-feira, 27 de junho de 2019

A Escolha do Jorge: "A Justiça de Yerney"



Sou Yerney de Betajnova. Fizeram-me uma grande injustiça e é essa a razão por que ando pelo mundo inteiro à procura da justiça que Deus enviou à Terra e que os juízes detêm nos seus livros.” 
(p. 60)
“Vai levar muito tempo a encontrá-la, meu amigo. Já muitos vieram em busca dela… Eram muitos e ficaram pelo caminho, e os «Pôncios Pilatos» lavaram daí as mãos.” 
(p. 56)
Em boa hora regressa às livrarias “A Justiça de Yerney”, uma das obras mais significativas de Ivan Cankar (1876-1918), um nome maior da literatura eslovena do século XX. A 1ª edição desta novela em língua portuguesa ocorreu em 2004, ano em que a Eslovénia integrou a União Europeia a par de outros nove países da Europa Central e de Leste. Como forma de dar a conhecer um pouco da literatura desses países, a Cavalo de Ferro publicou uma colecção de dez obras, divulgando, dessa forma, escritores e obras de países como Hungria, Eslováquia, Polónia, Estónia, Chipre, Eslovénia, entre outros.

Publicado inicialmente em 1907, “A Justiça de Yerney” remonta às vésperas da 1ª Guerra Mundial, numa época em que a Eslovénia integrava o Império Austro-Húngaro marcado por fortes tensões políticas. Como o próprio título indica, o tema central desta novela de Ivan Cankar é o da justiça e tendo passado mais de um século da sua publicação, esta obra continua actual como nunca, sobretudo quando somos surpreendidos regularmente com casos bastante complexos em que a justiça aparentemente é tida como inoperante.
O caso específico desta novela centra-se num problema doméstico na medida em que Yerney, o personagem principal, já de idade avançada, é despedido da herdade dos Sitar, numa pequena localidade eslovena, quando o novo proprietário assume o comando da herdade na sequência da morte do pai.
Yerney é um homem que dedicou a sua vida ao trabalho e a Deus. Sob a sua orientação e responsabilidade, Yerney construiu a herdade dos Sitar, no fundo, contribuiu para a sua afirmação e riqueza da família. Humilde, honesto e trabalhador, Yerney é um homem com uma fé fervorosa e inabalável em Deus, crente nos desígnios divinos e com um enorme sentido de justiça. Yerney é o mais puro dos homens e ciente de que a humanidade é herdeira da lei divina que se encontra escrita nos livros do Direito.
Mas a vida trocou as voltas a Yerney e este, já perto do fim da sua vida, vê-se a braços com o seguinte dilema, percorrendo montes e vales na Eslovénia, entre sábios, juízes e padres, dirigindo-se à longínqua Viena em busca de uma audiência com o Imperador, tudo para que se cumpra a justiça. “Agora, diga-me, a quem pertence a macieira: ao homem que a plantou e enxertou, ou ao que ao passar só colheu as maçãs quando estavam maduras?” (pp. 57-58)
Os vários interlocutores de Yerney compreendem o seu sentido de justiça e a própria ideia que subjaz à sua pretensão que é encarada como loucura da parte deste dado não fazer sentido um assunto doméstico ganhar relevo num contexto nacional e até imperial. Mas Yerney não encara o problema da mesma forma. Fizeram-me uma grande injTexto da autoria de Jorge Navarroustiça e é essa a razão por que ando pelo mundo inteiro à procura da justiça que Deus enviou à Terra e que os juízes detêm nos seus livros.” (p. 60) Há mesmo quem tenha pena de Yerney e seja solidário com o respeitoso idoso, no entanto, a causa está perdida, acabando por se tornar um não-assunto. “A tua fé é inabalável, Yerney, e quem te privar dela pecará gravemente. Esperarei por ti até voltares, Yerney. (…) Diz-me também, Yerney, que farás quando regressares sem teres encontrado a justiça, seja diante de Deus ou diante do Imperador.” (p. 48)
À medida que Yerney se vê confrontado com a inoperância da justiça e até a incompreensão dos seus interlocutores, Yerney percebe que a aplicação das leis como forma de aplicar a justiça entre os homens já não reflecte a lei divina, pondo, dessa forma, os tribunais e os juízes em causa. “Aqui não é a casa da justiça; é um lugar maldito, o refúgio de processos vergonhosos e de perjúrio…” (p. 44) “Não, esta casa não é a casa da justiça; esta é a casa das mentiras, da hipocrisia, do banditismo que originais. Não sois os servos das palavras e leis de Deus, mas antes das de Satanás e da sua injustiça.” (p. 64)
O caso adquire proporções inimagináveis e Yerney, cada vez mais maltratado e depauperado, vai perdendo a lucidez face ao assunto que o leva a apelar pela aplicação da justiça divina. Tratado como “imbecil” e “criança idiota” (p. 73), Yerney começou a sentir uma dualidade de sentimentos, “a mágoa e a fé digladiavam-se no seu coração” (p. 91) e nem face à admoestação do padre da sua terra natal quis dar ouvidos. Yerney perdera completamente o sentido de realidade. Yerney enlouquecera na busca pela justiça. “Rende-te, mesmo perante a injustiça. No final, Deus fará a correcção.” (p. 91)
E assim fez!
Deus tenha misericórdia de Yerney, dos seus juízes e de todos os pecadores.” (p. 94)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 26 de junho de 2019

"A Alma Trocada" de Rosa Lobato de Faria

Pouco tenho a dizer sobre este livro e sobre esta autora, tanto é o que há para referir! Já aqui tenho dito que adoro a sua escrita, que cada livro lido é uma descoberta, uma aventura na arte de comunicar com o leitor. Temo chegar o dia em que nada mais tenha para ler da Rosinha. Por isso guardo algumas das suas obras nas minhas estantes com um misto de desejo de as devorar e, ao mesmo tempo, uma vontade de as manter no segredo dos deuses...

Gostava de a ter conhecido pessoalmente. Cabeça desempoeirada, sem os preconceitos que a sua idade poderia permitir. Este livro é espelho disso. Teófilo, Teo para os amigos, é professor de francês, homossexual. É também o narrador desta história que nos conta na primeira pessoa. E a Rosinha soube colocar-se na pele deste personagem e deu-lhe vida, como poucos o conseguiriam fazer. Mostrando os seus defeitos e as suas qualidades. As suas decisões e que impacto tiveram na sua vida. As suas dúvidas, os seus medos. E também os seus amores, porque Teo soube lutar por Hugo, que lhe dá um amor sereno e seguro, mas a paixão por um conhecido de infãncia invade-o e mortifica-o, ao mesmo tempo. E depois, os outros, sempre os outros que podem condicionar as nossas escolhas. Num Portugal retrógado de há 40/50 anos atrás, os pais que não aceitam a sua orientação sexual e uma avó que o acolhe com o seu amor e o aceita tal como é. E a cereja no topo do bolo: o nosso protagonista quer ser escritor!

E quando pensamos que Rosa Lobato de Faria enveredou por caminhos que dificilmente agradariam a todos, com o enredo a caminhar para aspectos mais místicos, com Téo a pensar que possuía "uma alma trocada", eis que nos deparamos com uma explicação plausível, que nos faz descansar e apreciar a fértil imaginação desta autora!

Um romance muito terra a terra, verosímil e que bem poderia ser real.

Gostei muito desta leitura! Recomendo sem reservas. Para todos os gostos.

Terminado em 21 de Junho de 2019

Estrelas: 6*

Sinopse
É um lugar comum dizer-se que determinada orientação sexual não é uma escolha, porque, se fosse, ninguém escolheria o caminho mais difícil. Foi esse caminho mais difícil que Teófilo teve de percorrer, desde a incompatibilidade com os pais, aos desencontros dentro de si próprio, chegando mesmo a acreditar que alguém lhe tinha trocado a alma... Rosa Lobato de Faria aborda, desta vez, um tema diferente - o tema da homossexualidade masculina ... , num romance que, mantendo embora o tom poético que sempre tem caracterizado as criações da autora, se arrisca por caminhos até aqui pouco explorados na ficção portuguesa.

Cris

terça-feira, 25 de junho de 2019

A Convidada Escolhe: "Acredita em Mim"

Viciante. Intenso. Excelente leitura.

Claire julga-se atriz mas acaba enredada num trabalho para uma firma de advogados como engodo para maridos infiéis. Um dos maridos não vacila e a mulher aparece morta e Claire é envolvida como isco para apanhar o criminoso que é tido como sociopata.

O livro "Flores do Mal" de Charles Baudelaire é o elo de ligação de duas mentes brilhantemente retorcidas que confundem o leitor. "Acima de tudo, porém, é uma história sobre um homem e uma mulher a tentarem adivinhar os motivos um do outro."  (pag. 290)

Capítulos curtos, escrita direta na voz de Claire e um enredo bem construído com bom ritmo e muitas reviravoltas que mantêm o suspense no auge.

Muito superior ao anterior thriller psicológico do autor "A rapariga de antes" que também li.


Vera Sopa

segunda-feira, 24 de junho de 2019

A Convidada Escolhe: "Em Tudo Havia Beleza"


Em Tudo havia Beleza [Ordesa], Manuel Vilas, 2018

Obrigada à vida, que me deu tanto.
Deu-me o riso e deu-me o pranto.
Assim distingo a sorte do quebranto,
os dois materiais que compõem o meu canto,
e o canto de vocês, que é o mesmo canto,
e o canto de todos, que é o meu próprio canto.”
Violeta Parra
Abrir um livro em que o autor tenha escolhido para epígrafe este belo poema de Violeta Parra é, desde logo, um bom augúrio. À medida que se vai progredindo no livro, constituído por centena e meia de capítulos ou quadros, alguns muito breves, entramos na intimidade do autor/narrador que logo no início nos fala da sua dor e da impossibilidade de a medir ou quantificar. No seu caso, a somar aos infortúnios ou percalços da vida, a dor pela perda do pai e da mãe. Uma dor que ele vai tentar superar, se é que tal é possível!, pela escrita deste livro e pela fuga para um lugar mágico da sua infância, um lugar num vale cercado de montanhas onde foi muito feliz com os pais. Ordesa é esse lugar mágico, “Ordesa” é o nome original deste livro traduzido por Vasco Gato e que na sua versão portuguesa é “Em Tudo havia Beleza”.
Professor durante 23 anos, com um historial de abuso de drogas e de álcool a que consegue sobreviver, pai de dois filhos com quem a comunicação não é fácil, o seu divórcio aos 52 anos vai ter um efeito novo na sua vida. Tudo tem de ser reorientado, tudo passa a ter outro significado que o vai levar a dar à vida e morte dos pais uma importância que antes nunca tinha dado. Ele projecta-se nos pais, culpa-se por não lhes ter feito as perguntas para respostas que hoje já não pode ter, e antevê nos filhos aquilo que eles também sentirão quando ele já não existir. Sobretudo, culpa-se por aquilo que deixou de fazer, por aquilo que não verbalizou , pelos abraços que nunca conseguiram dar, talvez por pudor, as provas de amor que ficaram por dar e que agora já não são possíveis de demonstrar. Muitas vezes pensa e coloca-se no papel de uma terceira pessoa que lhe fala, lhe dá conselhos, ideias e sugestões, como que se distanciando dele, assumindo uma voz crítica. Há aspectos a que volta, que repisa, que repete, vertendo para o papel os medos, as dúvidas, as hesitações, os fantasmas.
Por isso, ao lê-lo senti que era um livro que fazia muito sentido, que fazia todo o sentido, porque é muito verdadeiro, muito palpável. Revi-me muitas vezes nele, encontrei-me nele e dei por mim por vezes a pensar: isto podia ter sido escrito por mim. Mas também penso que, pelo facto de a dor da morte e da perda definitiva estar sempre subjacente no livro, a sua leitura não será fácil para quem tiver esse sentimento de perda e de luto ainda muito recente. Não é fácil.
Enquanto é muito preciso nas datas de muitos acontecimentos da sua vida – nascimento em 1962; “No dia 9 de Junho de 2014 deixei de beber”; anos do nascimento, casamento e cremação dos pais; concepção em Novembro de 1961; “Escrevo estas palavras a 9 de Maio de 2015” – a data do seu divórcio é imprecisa pois “não se sabe muito bem o momento, pois não é uma data, mas um processo…” É crítico e cáustico relativamente à instituição casamento. Transcrevo duas passagens, a primeira decorrente dum almoço com gente da cultura para que foi convidado pelo rei Felipe e por Letizia
É normal sentir compaixão pelos casais, especialmente pelos casais que começam a acumular anos de vínculo conjugal, porque todos sabemos que o casamento é a mais terrível das instituições humanas, pois requer sacrifício, requer renúncia, requer negação do instinto, requer mentira atrás de mentira, proporcionando em troca a paz social e a prosperidade económica.” (pág. 40)
A segunda, em que recorda o tio Rachmaninov, o irmão do pai
E, para cúmulo, o Rachma divorciou-se. Isso é que foi espantoso.(…) O mais curioso é que lhe invejei essa vida. Julgo que o casamento de longa duração não é próprio da natureza humana. Fico contente que o Rachma tivesse sabido dar-se conta disso. Imagino que tenha sido isso. Os homens aceitam os casamentos de longa duração porque deixam de acreditar na juventude.
Penso que após o seu divórcio se terá transformado noutro homem. Bem, entendo assim que o Rachma disse não a essa ordenação simbólica da realidade que existe por trás do casamento de longa duração, que é um pesadelo, que é uma prisão; claro que quem vive nesses casamentos sorri, e parece tratar-se de um sorriso verdadeiro. Acho que os casamentos de longa duração não valem a pena, percebo que esta afirmação seja exagerada, mas a renúncia às paixões também é um exagero do sacrifício razoável. Certos antropólogos dizem que a monogamia não é natural. Essa feira interminável de infidelidades entre homens e mulheres, de mal-entendidos dolorosos, está por trás da imposição da monogamia.
Talvez tenha sido o capitalismo eclesiástico a inventar os casamentos de longa duração.” (págs. 347 e 348)
E depois os lugares pontuam as diferentes fases da vida, desde logo Barbastro na região do Alto Aragão onde nasceu, Saragoça onde estudou, Madrid a imensa capital política, Ordesa e as montanhas que a cercam, a poderosa Catalunha ligada às viagens do pai quando o negócio do têxtil estava florescente e a Galiza onde o irmão do pai casou e se estabeleceu. Um mosaico da Espanha franquista, da Espanha pobre a que a sua família sempre pertenceu mesmo quando a prosperidade momentânea do caixeiro-viajante ou o sonho da sala exclusivamente usada pelas visitas da mãe não passaram de um breve episódio nas suas vidas. E depois fica o desamparo, a solidão, apanágio de quem é pobre, de quem só pode comprar electrodomésticos de marca branca, ou de quem opta por ter uma sala grande sem serventia em vez de uma casa de banho em condições! Do outro lado a monarquia e os que gravitam à volta do poder. A ironia em torno da Espanha e do seu povo não poupa os pais que não ligam a nada da política, para quem os interesses não vão além dos programas de culinária na televisão (o pai) ou o acompanhar todos os detalhes da vida de Julio Iglesias (a mãe).
O autor/narrador expõe-se, revela-nos acontecimentos marcantes da sua vida e nomeia os membros da sua família à medida que eles vão surgindo no livro com nomes de grandes mestres da música. O pai é Bach, a mãe é a Wagner, Vivaldi e Brahms são os nomes que dá aos filhos, Monteverdi e Händel são os tios maternos e Rachmaninov o tio irmão do pai, a viver na Galiza. Até ao rei ele dá um nome – Beethoven – o rei dos músicos. E depois a figura sinistra do padre G. que ele recorda como alguém que é o Mal, alguém cujo toque provocou nele um apagão, desde sempre associado a um sentimento de medo, o medo típico da vítima que se acha culpada do mal que lhe provocaram.
O pai – Johann Sebastian – é constantemente recordado como uma pessoa boa que atraía os desventurados. São muitas as marcas, anotações e sublinhados que fiz, mas deixo aqui apenas alguns em torno da figura do pai.
O meu pai foi um artista do silêncio.” “A medicina ainda não é inteligente, é ainda uma simples prática, simples constatação de factos. Tem de descobrir a beleza e a salganhada imaterial de um tumor cancerígeno, porque num tumor cancerígeno também está a vontade de vida do corpo do homem que o traz dentro de si. É essa a razão de o meu pai ter escolhido o silêncio. Não havia nada a dizer. A medicina estava vazia, a religião nunca existiu, e ele já abandonara o seu carro. Os seres humanos já estavam na invisibilidade, não tinha nada para nos dizer” (pág. 70)
Na realidade, eu nunca soube quem era o meu pai. Foi o ser mais tímido, enigmático, silencioso e elegante que conheci na minha vida. Quem foi? Não me dizendo quem era, o meu pai estava a forjar este livro.” (pág. 217)
Éramos então pai e filho, de uma forma que nunca mais voltaríamos a ser.
Jogávamos muito bem.
Formávamos um único ser, fundíamo-nos.
Éramos amor.
Mas nunca falámos disso, nunca o dissemos.
Nunca.” (págs. 264 e 265)
Sobre a mãe – a Wagner – limito-me a fazer esta transcrição: “Como sou parecido com a minha mãe, absolutamente igual.” (pág. 360)
Muito próximo do fim,
O mês de Junho aparecia por Barbastro como um deus a iluminar a vida das pessoas.
Era o paraíso. Foi o meu paraíso. Foram eles o meu paraíso, o meu pai e a minha mãe, como gostei deles, como fomos felizes e como nos desmoronámos. Que bela foi a nossa vida em conjunto, e tudo está perdido agora. E parece impossível.” (pág. 235)
Manuel Vilas tem uma produção poética intensa e a sua escrita é muita rica, mas simples, sem artifícios. Este romance autobiográfico surpreende pela escrita, mas não posso deixar de aqui referir o último capítulo (157) que se refere à noite da sua concepção quando os pais eram uns jovens a estrear a sua vida conjugal e um prédio em que tudo era novo, em comparação com a decrepitude do mesmo prédio passados cinquenta anos. É um capítulo simplesmente belíssimo.
O epílogo – A família e a História – é como que a síntese, em poesia, das cerca de quatrocentas páginas que constituem o livro.
Termino, voltando ao princípio e ao icónico canto da grande Violeta Parra
Obrigada à vida, que me deu tanto. Deu-me o riso e deu-me o pranto. …”
16 de Junho de 2019
Almerinda Bento

quarta-feira, 19 de junho de 2019

"Em Nome do Amor" de Lesley Pearse

Quando se lê uma autora que se gosta muito as comparações com outros livros dela já lidos são inevitáveis! Por já ter lido melhores, digo-vos que este não foi o que mais gostei dela. Creio que os temas de fundo abordados neste livro - violência doméstica, Síndrome de Estocolmo - poderiam ter sido tratados de uma forma mais exaustiva e profunda. Com isto não quero dizer que não gostei do livro, de todo! Queria apenas um pouco mais de páginas porque sei que a autora o conseguiria fazer com mestria!

A morte de duas senhoras, mãe e filha, provocadas por um fogo posto leva a uma busca por parte de Katy com o intuito de descobrir o culpado e ilibar, assim, o pai que se encontrava na cadeia acusado injustamente de ser o autor do crime. 

Gostei particularmente de, a dada altura do enredo, o leitor saber mais sobre alguns acontecimentos do que alguns personagens e de existirem várias situações a acontecerem em simultâneo. Este facto motiva o leitor e incentiva-o a continuar, desejoso de saber pormenores e chegar ao fim. 

A escrita de Lesley continua como sempre a conheci: intensa, emotiva, fluida. Os temas abordados são sempre actuais muito embora possam retratar épocas passadas, como esta obra que nos coloca nos anos sessenta. Outros dos aspectos que aprecio nesta autora é o facto de saber retratar muito bem os ambientes descritos colocando o leitor em épocas que não viveu mas sentindo-se verdadeiramente presente nelas. Tudo isto coloca algumas questões, sendo a mais relevante a que deixo a pairar aqui: serå que houve uma mudança suficientemente grande nas nossas mentalidades e hoje tratamos as vítimas de violência doméstica com a ajuda que elas merecem ou ainda existem preconceitos que nos fazem vê-las como as "culpadas" da situação que vivenciam? O que realmente mudou?

Terminado em 17 de Junho de 2019

Estrelas: 4*+

Sinopse
Katy Speed tem 23 anos e o sonho de viver em Londres, longe da pequena cidade de Bexhill-On-Sea e do temperamento difícil da mãe.

Enquanto não consegue escapar, acompanha avidamente a vida de Gloria Reynolds, a simpática e glamorosa vizinha da frente. Para Katy, entediada com a pacatez do seu dia a dia, as estranhas movimentações na casa de Gloria são um alimento para a imaginação...

Quem serão as mulheres que a visitam ao sábado num carro preto? E porque é que por vezes vêm acompanhadas de crianças? O certo é que essas atividades suspeitas provocam algum desconforto na comunidade. Uma noite, porém, um incêndio devastador vai por fim a tudo isso… e também à vida de Gloria e da filha. Depressa se torna evidente que se tratou de fogo posto, uma notícia chocante para todos mas principalmente para Katy, pois o principal suspeito é o seu pai. 

Ela sabe que ele é inocente. 
E vai fazer tudo para o provar... nem que para isso tenha de arriscar a própria vida.

Romance de amor e história de coragem, Em Nome do Amor é uma incursão perturbante ao lado negro das relações humanas. No magnífico retrato de uma época já distante, a autora bestseller trata com profundidade e coragem temas tremendamente relevantes ainda nos dias de hoje.

Cris

segunda-feira, 17 de junho de 2019

"O Jardim das Flores de Pedra" de Deborah Smith

Os anteriores livros desta autora repousavam já há demasiado tempo nas minhas estantes. Este novo passou por cima da pilha dos que tenho para ler e avancei com esta leitura tendo quase a certeza que iria gostar. E sim, gostei muito!

Gostei da premissa que nos é apresentada logo nas duas primeiras páginas. Li-a duas, três vezes. Para ver se compreendia bem a interligação entre as personagens aí apresentadas. O facto final é-nos apresentado logo no início e a partir daí vamos assistindo ao desenrolar dos acontecimentos que explicam como é que tudo aconteceu. Sabem aqueles policiais ou thrillers em que o criminoso é apresentado logo no início? Isso não faz com que percamos o interesse, acho que o incentiva mais ainda.

Agora perguntam-me vocês se este livro se pode incluir num dos géneros que referi em cima... Eu diria que não, embora haja uma morte, ou melhor, um assassinato e que à roda dele girem todas as personagens e suas vidas. Considero-o mais um romance. Bem escrito. Pausado. Que nos envolve e alicia para uma leitura onde um amor que se prevê cheio de obstáculos, consegue ultrapassá-los.

A história é-nos narrada por uma menina de 7 anos. E ficamos aí durante os seus próximos três anos. A meio do livro um salto temporal de 25 anos. Passamos ao Presente. E é aí que o Passado volta e que já não deixa sossegar quem o quis enterrar.

Recomendo. Uma leitura que se faz rápida e sem que haja pontos mortos.

Terminado em 13 de Junho de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Para Darl Union, a vida em Burnt Stand, na Carolina do Norte, foi sempre uma estranha mistura de riqueza, privilégio e solidão. Criada pela avó, uma mulher tão fria e dura como a pedreira de mármore que é a herança da família, o amor é-lhe estranho até ao dia em que se apaixona perdidamente por Eli Wade, o filho de um canteiro.

Porém, o amor adolescente e puro cedo se vê comprometido por uma teia de mentiras e de morte: o pai de Eli é considerado o responsável pelo desaparecimento da tia-avó de Darl e, embora inocente, acaba por ser morto.

Mas agora, vinte e cinco anos depois, há segredos que podem literalmente vir à superfície – e Darl e Eli têm finalmente uma hipótese de enfrentar e resolver o passado.

Cris

sexta-feira, 14 de junho de 2019

A Escolha do Jorge: “Jó – Romance de um homem simples”



Jó – Romance de um homem simples”
Joseph Roth

(Ulisseia)


“Não te admires, não fiquei louco. Fiquei velho, assisti à queda de vários mundos, finalmente tornei-me sábio. Durante todo o tempo fui um professor estúpido. Agora sei o que digo.” 
(pp. 160-161)

Publicado em 1930, “Jó – Romance de um homem simples” (“Hiob” no original), é considerada obra-prima por excelência de Joseph Roth (1894-1939), um dos últimos escritores herdeiros da tradição judaica e um dos nomes mais representativos da literatura do século XX.

Natural da Galícia, Joseph Roth cria um romance que é um reflexo da sua própria vida, sobretudo no que respeita à ideia de exílio, uma constante na história dos judeus, assente na história de Mendel Singer que em tudo se assemelha à vida de Jó do Velho Testamento, que vai sofrer os pecados e as dores do mundo até ficar à beira de perder a fé em Deus.

Com uma escrita sem igual, Joseph Roth cativa o leitor desde as primeiras páginas das suas obras, falando-lhe ao coração e, no caso específico de “Jó”, é um romance que interfere com os nossos sentidos, o nosso intelecto, tratando-se de um romance cuja natureza e sentido pertence, também ele, a um universo relegado para a História, na sequência da 2ª Guerra Mundial com o holocausto e a fuga de milhões de judeus que se espalharam pelo resto do mundo.

A primeira parte do romance é passada na remota localidade de Zuchnow integrada no Império Russo, antes da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), em que Mendel Singer é-nos apresentado como um judeu convicto, temente a Deus, seguindo todos os preceitos da religião com muito rigor, casado com Deborah com quem teve quatro filhos: Jonas, Schemarjah, Mirjam e Menuchim, este último que nasceu deficiente.

No meio da pobreza que não só reflecte a vida naquela região do Império Russo, dá-nos a ideia das muitas dificuldades vividas pelos judeus na Europa de Leste, tema já desenvolvido pelo autor, na obra “Judeus Errantes” (1927), em comparação com as melhores condições de vida dos judeus no Ocidente.

Mendel Singer herda a pequena casa do seu pai e que já tinha sido do seu avô, tornando-se professor à semelhança daqueles, como que uma garantia de ordem estabelecida, tanto do ponto de vista económico, social e cultural.

Os anos passam e o filho Jonas torna-se cossaco, um militar ao serviço do Czar, a contragosto da família e dos preceitos judaicos, ao contrário de Schemarjah que se torna desertor, emigrando para os Estados Unidos, tornando-se um empresário de sucesso. Mendel Singer vive um sério dilema entre permanecer em Zuchnow, onde nada acontece, mas onde pode dar apoio ao filho Menuchim que tarda em falar e em locomover-se ou partir para Nova Iorque, na sequência da chamada de Schemarjah (Sam), para que a sua filha Mirjam não se perca por ser tão dada aos prazeres do corpo junto dos jovens cossacos que deambulam por Zuchnow.

A família parte então rumo a Nova Iorque, à terra da esperança e das oportunidades, para a então concretização do sonho americano. A nova língua, o dinheiro, a alimentação, os novos hábitos, tudo é novo para a família Singer que passa a viver num bairro onde a maioria dos seus habitantes são também judeus. Joseph Roth dá-nos aqui, na segunda parte do romance, um espelho daquilo que é a vida dos judeus em Nova Iorque no início do século XX, o seu quotidiano, os laços de solidariedade e o compromisso com Deus, não esquecendo a forte ligação às terras de origem. Neste ponto, em jeito de parêntesis, Joseph Roth aborda uma temática que será fortemente desenvolvida por Bernard Malamud (1914-1986), romancista e contista, de ascendência russa, tendo já nascido em Nova Iorque.

Apesar da nova vida para a família Singer, Mendel continua a viver como se vivesse no país natal e há um aspecto importante que o consome à medida que os anos passam: o facto de Menuchim ter ficado a cargo dos vizinhos na longínqua Zuchnow. “Cantava nos bons e nos maus momentos. Cantava quando agradecia aos céus e quando os temia. O seu balanço era sempre o mesmo. E só na sua voz, um ouvinte atento teria reconhecido se Mendel, o justo, estava reconhecido ou pleno de angústias.” (p. 143)

A guerra estala e tudo se complica na vida de Mendel Singer e na de sua família, ficando adiada a viagem para ir buscar o filho na Europa. A América que é tida para tantas pessoas como a terra das oportunidades e da riqueza, para Mendel esse sonho americano estava cada vez mais distante, ficando cada vez mais consumido perante a desgraça e tragédia que se instala no seio da família ao ponto de se ter arrependido de sair de Zuchnow (integrada na Polónia após a guerra), estando praticamente a perder a fé em Deus. "Se lá tivéssemos ficado - pensava Mendel - nada disto teria acontecido! Jonas tinha razão, Jonas o mais burro dos meus filhos! Amava os cavalos, amava a aguardente e amava as mulheres, agora está desaparecido! Jonas, não vou rever-te nunca mais, não vou poder dizer-te que tinhas razão ao tornares-te um cossaco. - "Porque têm de andar sempre a cirandar pelo mundo?" - dissera Sameschkin. "É o diabo que corre convosco!" Ele era um campónio, o Sameschkin, um campónio inteligente. Mendel não queria vir. Deborah, Mirjam, Schmarjah - eles é que queriam partir, andar pelo mundo. Era melhor ter ficado, amado os cavalos, bebido aguardente, dormido nos campos, deixado Mirjam andar com cossacos e amado Menuchim." (pp. 158-159)

A vida de Mendel Singer torna-se de tal modo desgastante, marcada por tantas coisas negativas que só trazem dor que é aqui que a sua vida se torna semelhante à de outros eleitos de Deus, como Jó do Velho Testamento. “O meu coração ainda bate, os meus olhos ainda vêem, os meus membros ainda se mexem, os meus pés ainda andam. Como e bebo, rezo e respiro. Mas o meu sangue estagna, as minhas mãos estão murchas, o meu coração vazio. Já não sou Mendel Singer, sou o que resta de Mendel Singer. A América matou-nos. A América é uma pátria, mas é uma pátria mortal. O que na nossa terra era dia, aqui é noite. O que na nossa terra era vida, aqui é morte. O filho que lá se chamava Schemarjah, aqui chamava-se Sam.” (p. 154)

Numa época em que Deus é parco em milagres, Mendel é inesperadamente visitado pela mão de Deus que lhe concede uma graça, um milagre, semelhante aos descritos no Velho Testamento. É neste aspecto que as obras de Joseph Roth reflectem aquele carácter mágico da sua prosa, a elegância das suas palavras, a sua generosidade sem limites e um coração pejado de amor pelos homens e pelo mundo. "Embora Deus tudo possa", começou Menkes, de todos o mais sensato, "há que pôr a hipótese de ele já não fazer grandes milagres por o mundo já não os merecer. E mesmo que Deus quisesse, no teu caso, fazer uma excepção, impedi-lo-iam os pecados dos outros." (pp. 166-167)
É inesperado o desfecho de “Jó” (ou “Hiob”), mas de uma rara beleza que nos enobrece enquanto seres humanos. Neste romance em particular, compreendemos o verdadeiro sentido da palavra, da língua, da capacidade de comunicar e passar uma mensagem de teor universal e universalizante, capaz de encher a humanidade e o mundo com valores, com tudo quanto é bom, com sentido, com amor e paz de espírito.

Marcante e genuinamente belo, “Jó – Romance de um homem simples” continua a permanecer uma pérola da literatura contemporânea escondida entre milhares de livros que povoam as livrarias. Sendo cada vez mais difícil separar o trigo do joio com o que é trazido à luz - numa época em que, não raras vezes, as editoras oferecem lixo envergonhando aquilo que é literatura e confundindo os leitores com propostas equívocas ou até mesmo críticos com a sua rede de amigos que prestam favores alternadamente em nome de algo que não o da literatura, na maioria das vezes -, é com nomes como Joseph Roth que necessitamos de (re)considerar o sentido da literatura. Talvez por estas razões, Joseph Roth seja um autor com maior dispersão editorial no nosso país, no que respeita à edição das suas obras, a saber: “Judeus Errantes” e “Fuga Sem Fim” (Sistema Solar), “A Marcha de Radetzky” (Vega), “A História da 1002ª Noite” (E-Primatur), “Confissão de um Assassino” (Cavalo de Ferro), “O Leviatã”, “A Lenda do Santo Bebedor” e “O Chefe de Estação Fallmerayer”, publicado recentemente (Assírio & Alvim) e a obra em análise “Jó – Romance de um homem simples” (Ulisseia).

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Para os Mais Pequeninos: Frida Kahlo da colecção Pequenos Livros Sobre Grandes Pessoas


Mais um livrinho que li desta colecção fabulosa. O anterior foi sobre Anne Frank (podem ver aqui o meu comentário). A minha opinião manteve-se com esta leitura e fiquei interessada nos restantes. 

De uma forma simples e concisa o leitor fica a conhecer a vida de Frida Kahlo no geral. Pode, caso se trate de dar a conhecer a alguém mais pequeno, fazer-se uma leitura baseada nos desenhos que o livro apresenta e, assim, descer ao nível dos mais novos. 

Tendo já lido sobre esta pintora houve, no entanto, pequenos detalhes da sua vida que fiquei a conhecer melhor. Gostei muito e recomendo.

Ficam as fotos:







Cris

terça-feira, 11 de junho de 2019

"O Tempo Entre Costuras" de Maria Dueñas

As minhas 5 e 6 estrelas diferem sobretudo porque os livros a que atribuo 6* possuem um toque que os diferencia. Algo como, por exemplo, a parte histórica muito bem enquadrada na ficção, um final surpreendente, um murro no estômago a meio da leitura que implica um volte face no enredo... Um "je ne sais quoi" que se traduz numa leitura fantástica. Às vezes acontece o inesperado: durante quase toda a leitura do livro ainda não sei se dou 5 ou 6 estrelas. E é no final que a "coisa" se dá! Com isto quero dizer que considero os livros a que atribuo 5* muito bons mesmo. Os de 6* têm "aquele gostinho especial" que os diferenciam, segundo o meu ponto de vista.

Foi isso o que aconteceu com este livro. Demorei quase 2 semanas a lê-lo porque para além das suas muitas páginas, da letra pequena e compacta, passei algum dos meus momentos livres na FLL. O tempo foi, pois, escasso. Durante a leitura o sentimento que perdurou em relação a esta leitura foi o de um prazer muito grande por sentir que estava a ler uma leitura completa, onde a ficção se mescla com a realidade, com a própria História. Personagens fictícios ao lado de personagens verídicos da História. 

O personagem principal é uma mulher, Siri, espanhola, que se vai tornando cada vez mais forte com o desenrolar do enredo e acaba por ser alguém que toma o seu destino nas mãos e luta para que se altere a sina que lhe cabia em sorte dada a sua inocência e ingenuidade ao confiar num amor que não a merecia. Uma mulher que se transforma aos olhos do leitor, que cresce enquanto personagem e a quem passamos a admirar. As vicissitudes fizeram-na mais forte, independente. Uma lutadora. Não apenas pelos seus desejos mais pessoais mas também por ideais mais profundos, que a fizeram estar ao lado de quem julgava que iria trazer para Espanha um bem maior. Através do que sabia fazer melhor - costurar - soube erguer-se e lutar por um mundo que queria mais justo. E quem diria que através dessa arte poderia infiltrar-se em certos ambientes e ... 

O enredo passa-se maioritariamente em Espanha e Marrocos com uma breve passagem por Portugal. Primeiro a Guerra Civil Espanhola, seguida da II Guerra. Há sempre tanto a aprender com alguns pormenores que desconhecemos! 

Gostei muito do final deste livro que, embora possa ser considerado como "um final feliz", faz algumas considerações sobre o destino dos personagens que existiram na História e deixa em aberto as várias hipóteses do que poderia ter acontecido aos personagens fictícios num futuro mais longínquo. Não há um "e foram felizes para sempre" que me agradou especialmente. A vida assim é, uma incógnita. 

Recomento sem reservas.

Terminado em 8 de Junho de 2019

Estrelas: 6*

Sinopse
«O Tempo entre Costuras» é a história de Sira Quiroga, uma jovem modista empurrada pelo destino para um arriscado compromisso; sem aviso, os pespontos e alinhavos do seu ofício convertem-se na fachada para missões obscuras que a enleiam num mundo de glamour e paixões, riqueza e miséria mas também de vitórias e derrotas, de conspirações históricas e políticas, de espias.

Um romance de ritmo imparável, costurado de encontros e desencontros, que nos transporta, em descrições fiéis, pelos cenários de uma Madrid pró-Alemanha, dos enclaves de Tânger e Tetuán e de uma Lisboa cosmopolita repleta de oportunistas e refugiados sem rumo.

Cris

segunda-feira, 10 de junho de 2019

A Escolha do Jorge: “A Lotaria e Outras Histórias”


“A Lotaria e Outras Histórias”
Shirley Jackson 
(Cavalo de Ferro)
“- Doutor – disse -, como é que as pessoas percebem se estão a ficar loucas?” 
(p. 139)
Herdeira da tradição do gótico americano, Shirley Jackson (1916-1965) é um dos nomes incontornáveis da literatura do século XX cujas obras têm sido adaptadas ao grande ecrã, como o caso de “A Maldição de Hill House” (várias adaptações) e “Sempre Vivemos no Castelo” cujo filme estreou em Maio.
Mestre do suspense e do terror, Shirley Jackson tem a capacidade de agarrar por completo o leitor e arrastá-lo para o centro das narrativas como se tratasse de alguém a assistir de perto. Ninguém fica indiferente ao universo de Shirley Jackson, muito próximo do de Flannery O’Connor (1925-1964) e igualmente importante no contexto da literatura do século XX e ambas as escritoras também com uma obra relativamente curta, e que se notabilizaram como romancistas e contistas.

Mas creio que Shirley Jackson terá ido mais longe no modo como escreve sobre a natureza humana e, em especial, a maldade, tanto de forma evidente, como através da subtileza das suas palavras, do género de lobo com pele de cordeiro.
Shirley Jackson não tem qualquer pudor no modo como utiliza as palavras para matar alguém, seja com veneno, seja à pedrada, por vingança ou simplesmente por maldade pura, cumprindo rituais e tradições ancestrais. Este lado negro do homem é transversal à obra da escritora.
A originalidade das histórias a par do seu talento para escrever colocou Shirley Jackson entre os escritores de maior importância do século passado e quem lê as suas obras dificilmente as esquecerá, quer se trate do terror presente em “A Maldição de Hill House” ou o perturbador “Sempre Vivemos no Castelo” cujo ambiente fechado e preconceituoso esmaga qualquer um.
Mas o percurso literário de Shirley Jackson ficou marcado com a publicação do conto “A Lotaria” no “The New Yorker”, em 1949, tendo suscitado de imediato grande controversa ao ponto de muitos leitores terem cancelado a subscrição da revista e também através de cartas dirigidas à escritora mostrando a sua indignação.
O carácter terrífico e grotesto de “A Lotaria” torna este conto como o mais representativo da carreira de Shirley Jackson, como também um dos mais importantes da literatura contemporânea. Impossível ficar indiferente a esta história. Há algo de diabólico no seu conteúdo, mas simultaneamente fascinante ao ponto de nos questionarmos como é possível criar uma história tão impressionante tanto quanto horrível. Frases como “Não tenhas mau perder, Tessie.” e “Todos nós tivemos a mesma oportunidade.” (p. 278) são esmagadoras e de uma crueldade sem precedentes e ao mesmo tempo o reflexo daquilo que o ser humano é capaz de fazer a terceiros, tal é o seu lado negro e obscuro.
“A Lotaria e Outras Histórias” é a primeira obra publicada por Shirley Jackson, em 1949, reunindo vinte e cinco dos mais de cem contos que escreveu. Estrategicamente, “A Lotaria” é o último conto desta colectânea, talvez porque terá maior impacto junto dos leitores e aquele que dificilmente se esquecerá por ser tão tétrico e grotesco.
No entanto, para quem já estava familiarizado com os romances da escritora acima referidos e até “A Lotaria” (três vezes adaptada para cinema e encontrando-se novamente em fase de nova adaptação), irá, de certa forma, surpreender-se com alguma candura no modo como algumas das histórias são apresentadas. Talvez o carácter mais realista de alguns dos contextos torne os personagens menos agressivos, mas talvez mais dissimulados ou inquietos. Os contos reflectem de modo alternado a realidade opressiva dos meios rurais mais fechados, mais conservadores, mais preconceituosos, racistas, a necessidade em dissimular a maldade aparentando ser alguém caridoso e temente a Deus em oposição à ilusão da grande cidade, em especial, Nova Iorque, as expectativas em subir na vida e destacar-se na sociedade através da ideia de riqueza fácil e que rapidamente cai por terra, pois afinal, também os americanos fantasiam com o sonho que criaram e que não passa disso mesmo.
Nesta colectânea somos presenteados com contos que não raras vezes pensamos que dariam bons romances porque desejaríamos que a narrativa continuasse, mas Shirley Jackson soube parar e nalguns contos, creio que essa frustração criada no leitor terá sido intencional. Por outro lado, há histórias que nos deixam melancólicos, diria mesmo tristes, mas também inquietos, enervados e irritados.
Shirley Jackson soube analisar o ser humano nas suas várias dimensões, do mesmo modo que tanto se compraz a fazer o bem, mas também quando faz o mal (in)conscientemente. Nas obras de Shirley Jackson não importa dizer se uns personagens são bons e outros maus, o importante é aquilo que o homem é capaz de fazer e de dizer e até quando não faz nada ou se mantém em silêncio.
Não ficamos indiferentes com estas histórias de Shirley Jackson na certeza de que a experiência com a narrativa breve desta escritora contribuiu para consolidar a ideia de estarmos perante um dos grandes vultos da literatura do século XX, mas também no seu contributo para a compreensão do homem, numa perspectiva psicológica, mas também na relação com os outros, a dimensão social, quer se trate de uma pequena comunidade ou de uma grande cidade.
Destacaria, além de “A Lotaria” outros contos que, na minha opinião, foram os que mais me marcaram por razões distintas, ainda que toda a colectânea seja bastante equilibrada no que concerne à qualidade das histórias. Os insólitos “Como a minha mãe costumava fazer” (pp. 35-44) e “Villager” (pp. 51-57), o cómico e tenebroso “O Bruxo” (pp. 65-69), o inesperado “Charles” (pp. 89-94), o dissimulado “Jardim de Flores” (pp. 101-127), o insano “Colóquio” (pp. 139-141), as expectativas e frustrações de “Elizabeth” (pp. 143-180), “O Boneco” enervante (pp. 187-194), o assertivo “Claro” (pp. 213-218) e o inesperado “Estátua de Sal” (pp. 219-235)
Excertos:
- Há muito, muito tempo - começou -, tinha uma irmãzinha, tal como a tua. - O rapazinho ergueu os olhos para o homem, acenando a cada palavra. - A minha irmãzinha - prosseguiu o homem - era tão bela e tão simpática que eu gostava mais dela do que de qualquer coisa no mundo. Então queres que te diga o que fiz? (...) Comprei-lhe um cavalo de baloiço, e uma boneca, e um milhão de chupa-chupas - disse o homem -, e depois peguei nela e pus as mãos em redor do seu pescoço e belisquei-a e belisquei-a até ela estar morta. (…) E depois peguei e cortei a cabeça dela e tirei-lhe a cabeça…
- E cortaste-a toda aos pedaços? - perguntou o rapazinho sem fôlego.
- Cortei-lhe a cabeça e as mãos e os pés e o cabelo e o nariz - disse o homem - e bati-lhe com um pau e matei-a. (...) E peguei na cabeça dela e puxei-lhe o cabelo todo e...
- À sua irmãzinha? - perguntou ardentemente o rapazinho.
- À minha irmãzinha - disse o homem com firmeza. - E pus a cabeça dela numa jaula com um urso, e o urso comeu-a toda.
- Ele comeu a cabeça toda? - perguntou o rapazinho."
- Cortaste-a toda aos pedaços? – perguntou o rapazinho sem fôlego.
- Cortei-lhe a cabeça e as mãos e os pés e o cabelo e o nariz – disse o homem – e bati-lhe com um pau e matei-a. (…) E peguei na cabeça dela e puxei-lhe o cabelo todo e…
- À sua irmãzinha? – perguntou ardentemente o rapazinho.
- À minha irmãzinha – disse o homem com firmeza. – E pus a cabeça dela numa jaula com um urso, e o urso comeu-a toda.
- Ele comeu a cabeça toda? – perguntou o rapazinho.” (in “O Bruxo”, pp. 67-68)

"- Num período de crise internacional - disse o médico calmamente -, quando nos deparamos, por exemplo, com a rápida desintegração dos padrões culturais...
- Crise internacional - disse a Sra. Arnold. - Padrões. - Começou a chorar baixinho. - Ele disse que o homem não tinha o direito de não lhe guardar o 'Times' - prosseguiu histericamente, vasculhando o bolso em busca de um lenço - e começou a falar acerca do planeamento social a nível local, e na sobretaxa do rendimento líquido, e em conceitos geopolíticos, e na inflação deflacionária. – A voz da Sra. Arnold ergueu-se num uivo. – Ele disse mesmo inflação deflacionária.
- Sra. Arnold – disse o médico, contornando a secretária -, assim não está a ajudar.
- O que irá ajudar? – perguntou a Sra. Arnold. – Estarão realmente todos loucos menos eu?
- Sra. Arnold – disse o médico em tom grave -, quero que se controle. Num mundo desorientado como o que temos hoje, a alienação da realidade, muitas vezes…
- Desorientado – disse a Sra. Arnold. Levantou-se. – Alienação – disse. – Realidade. Antes que o médico a pudesse impedir, ela dirigiu-se à porta e abriu-a. – Realidade – disse, e saiu.” (in “Colóquio”, pp. 140-141)uido, e em conceitos geopolíticos, e na inflação deflacionária.
- Sra. Arnold - disse o médico, contornando a secretária -, assim não está a ajudar.
- O que irá ajudar? - perguntou a Sra. Arnold. - Estarão realmente todos loucos menos eu?
- Sra. Arnold - disse o médico em tom grave -, quero que se controle. Num mundo desorientado como o que temos hoje, a alienação da realidade, muitas vezes...
- Desorientado - disse a Sra. Arnold. Levantou-se. - Alienação - disse. - Realidade. - Antes que o médico a pudesse impedir, ela dirigiu-se à porta e abriu-a. - Realidade - disse, e saiu."

"Tinha uma imagem de pequenas crianças na cidade vestidas como os pais, seguindo uma civilização mecânica em miniatura, caixas registadoras de brincar de tamanhos cada vez maiores que os ajudavam a entrar no mundo real, milhões de pequenas imitações que tilintavam e sacudia e os preparavam para assumir os brinquedos enormes e inúteis pelos quais os pais viviam." (in “Estátua de Sal”, p. 225)

"Durante um minuto, ninguém se moveu, e então todas as tiras de papel foram abertas. Subitamente, todas as mulheres começaram a falar ao mesmo tempo, perguntando:" Quem é?", "Quem o tirou?", "São os Dunbar?", "Foram os Watson?" Depois, as vozes começaram a dizer: "Foi o Hutchinson."
- Vai dizer ao teu pai - disse a Sra. Dunbar ao filho mais velho.
As pessoas começaram a olhar à sua volta para verem os Hutchinson. Bill Hutchinson estava parado e calado, fitando o papel que tinha na mão. De súbito, Tessie Hutchinson gritou para o Summers:
- Não lhe deu tempo suficiente para tirar o papel que queria. Eu vi. Não foi justo!
- Não tenhas mau perder, Tessie – disse a Sra. Delacroix.
E a Sra. Graves disse:
- Todos nós tivemos a mesma oportunidade.” (in “A Lotaria”, pp. 277-278)ha na mão. De súbito, Tessie Hutchinson gritou para o Summers:
- Não lhe deu tempo suficiente para tirar o papel que queria. Eu vi. Não foi justo!
- Não tenhas mau perder, Tessie - disse a Sra. Delacroix.
E a Sra. Graves disse:
- Todos nós tivemos a mesma oportunidade."


Texto da autoria de Jorge Navarro