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terça-feira, 21 de maio de 2019

"Santa Bakhita" de Véronique Olmi

Há livros que nos deixam sem palavras! Uns porque são muito bons e mexem connosco, outros porque são tão maus que nada temos a dizer sobre eles. Estes últimos abandono-os. Confesso que já há muito tempo que isso não me acontece. Acho que acabamos por saber seleccionar naturalmente e escolher aqueles que mais têm a ver com os nossos gostos. Mas confesso-vos, também, que já não lia um livro como este, que vos trago hoje, já há muito, muito tempo. Foi uma leitura fantástica, fabulosa!

Não conseguirei, por mais que queira, traduzir por palavras como este livro mexeu comigo. Por variadíssimas razões. A primeira pela história de vida que conta. Baseada em factos verídicos, a autora conta-nos como uma menina negra, sudanesa, se viu enredada nas malhas do tráfico de escravos. Tudo começou por volta de 1870 e qualquer coisa, já que a própria, muitos anos mais tarde não sabia precisar a sua idade. Nem tampouco o seu nome de origem. Nem o local (tribo) de onde foi raptada. Supõe-se que teria uns 3 ou 4 anos. 

É indescritível tudo o que Bakhita passou. Nada me fazia expectar tamanha barbárie, tamanho sofrimento. É preciso ter um estômago que aguente tanta coisa que foge, hoje, ao nosso olhar... Por outro lado, esta história fez-me ter um conhecimento mais real de um mundo que não deveria ter existido (e será que não existe ainda encapotado sob outras formas e outro nome?). Por mais que vos fale no que Bakhita viveu, nada vos prepara para tamanho horror! E achando não me competir desvendar nada deste livro, que passou despercebido, fico-me por aqui: tudo o que pensava que a escravatura teria de pior, este livro superou em muito.

Por razões felizes, Bakhita veio para Itália. Conseguiu fugir ao seu destino mais certo, a morte. Mas, também aqui, preparem-se para a dureza dos relatos descritos pela autora. Bakhita era única na sua cor num mundo em que só existiam brancos. Foi sempre "um objecto raro", um espécime que todos queriam tocar, ver e que poderia estar ligada a um ser demoníaco. Palavras de espanto, nojo e horror, caras onde o medo se refletia, pedras atiradas, Bakhita experienciou de tudo um pouco. Mesmo assim, ela considerava que isso nada era comparando com o que tinha vivido. Para o leitor, contudo, o choque continua. Há muitas formas de escravidão...

A língua sempre foi, para ela, um impedimento. Desde cedo teve de lidar com diferentes dialectos que a impediram de se expressar e comunicar com os outros sudaneses que foram aparecendo na sua vida. O seu coração era de uma imensidão incalculável. Pelo caminho foi oferecendo o seu amor a várias crianças que cruzaram a sua vida com a dela. 

Bakhita foi canonizada pelo Papa João Paulo II. A sua história foi objecto de um livro de memórias (que teve como título "Uma história maravilhosa") cujo relato lhe foram pedindo ao longo dos anos em que viveu como freira numa ordem italiana. Este livro teve consequências que ela própria não esperava e não desejou.

As minhas 6 estrelas vão, de igual modo, para a escrita da autora. Crua e delicada ao mesmo tempo. Uma proeza quando se tratam assuntos tão "negros" como negra era a pele de um ser extraordinário que soube aproveitar o que a vida lhe deu de bom e superar-se a cada dia. 

Um livro marcante com uma escrita inspiradora sobre uma vida completamente desconhecida, atrevo-me a dizer, da maior parte das pessoas. Ainda nem vamos a meio do ano mas este vai ser, muito provavelmente, o meu livro de 2019. Dizer que recomendo esta leitura é pouco! 

Terminado em 19 de Maio de 2019

Estrelas: 6* (o mais gordas possível!)

Sinopse
Quando Bakhita foi raptada da sua aldeia natal, no Sudão, tinha apenas sete anos e estava longe de imaginar a extraordinária odisseia em que ia transformar-se a sua vida.

Feita escrava pelos raptores, vendida, trocada e oferecida várias vezes, conheceu a maldade humana em toda a sua dimensão e sentiu-a na pele ao ser vítima da crueldade dos seus senhores.

Anos mais tarde, um cônsul italiano comprou-a, e foi na Europa, depois de uma batalha judicial, que Bakhita voltou a conhecer a liberdade. Abraçou, então, a vida religiosa junto das Irmãs Canossianas, em Veneza, e atravessou o tumulto das duas guerras mundiais, consagrando a vida às crianças pobres e auxiliando os soldados feridos.

É essa história que Véronique Olmi conta de forma tocante neste seu romance, que em 2017 venceu o Prémio Fnac e foi finalista dos Prémios Femina e Goncourt – a história de uma criança feliz que veio a passar pelos maiores sofrimentos, mas que acabou canonizada por João Paulo II.

Cris

2 comentários:

  1. Obrigada, já tomei nota. O relato fez-me lembrar uma mini-série que deu no Canal 2, chamada " The Book of Negroes ", que me deu socos no estômago a cada episódio!

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    1. Titica, olá! Não conheço a série q falas mas vou cuscar... obgda pela dica! Bjinho

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