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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

"A Força do Amor" de Angela Hart

Keeley e Angela. Uma menina de 8 anos e uma mãe de acolhimento. Nunca uma leitura me colocou os nervos tão em franja! Sobretudo por passar a ter a noção de como deve ser difícil cuidar e amar crianças vítimas de abusos.

Angela e Jonathan são uma família de acolhimento e vivem em Inglaterra. Já são um casal experiente nessas andanças pois passaram em sua casa muitas crianças, por períodos mais ou menos longos. Com eles estão dois rapazes adolescentes, quando recebem uma menina com traumas e abusos psicológicos e físicos ainda não determinados. É preciso uma dose de paciência e amor muito grande pois o comportamento de Keeley não é pacífico e consegue fazer desesperar o mais santo dos homens! A mim fez-me pensar sobre estas famílias de acolhimento e a preparação que devem ter de modo a conseguirem ultrapassar a barreira que uma criança que foi abusada cria para se defender e proteger. Não reagir e não confrontar é muito difícil quando, insistentemente, as birras (e não só) surgem do nada e parecem ser infinitas! Como reagir? Como chegar ao coração de uma menina que foi magoada vezes sem conta?

O que mais me impressionou foi o facto de este livro não ser ficção. Esta obra é escrita na primeira pessoa por Angela Hart, a autora, e somos confrontados com a dificuldade do que será dar amor e manter a calma com uma criança que injuria constantemente e é malcriada ao ponto de fazer desesperar todos os que estão à sua volta. Isso juntamente com todas as regras que necessitam cumprir, pois uma criança que foi abusada precisa de atenções e cuidados especiais! Os Hart, tiveram com esta menina uma dificuldade acrescida já que nada parecia resultar. E às vezes parece que nada resulta mesmo. Só mais tarde é que se descobre que algo ficou dessa dádiva de amor.

Este livro é um relato pessoal onde a autora coloca, para além do sucedido com esta colocação, as dúvidas que teve na altura sob a melhor forma de lidar e amar uma criança com tantas dificuldades de adaptação e qual a melhor forma de a fazer revelar os traumas que sofrera. 

Recomendo muito esta leitura. Já há muito tempo que não lia nada sobre esta temática. Li alguns livros de outra autora que abordam temáticas semelhantes e de que gostei muito, Torey Hayden. Conhecem? Também fiquei muito curiosa em ler outro livro de Angela Hart que já foi publicado cá, "Ninguém me ama".

Terminado em 14 de Agosto de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Keeley, de oito anos de idade, parece a menina mais doce do mundo, mas os demónios do passado tornam o seu comportamento longe de angelical.

Ela faz com que Angela, a sua mãe de acolhimento, passe por momentos muito exigentes e difíceis enquanto trava batalhas diárias contra os seus problemas psicológicos profundamente arraigados.

Conseguirá o amor e o cuidado especializado de Angela e do seu marido, Jonathan, ajudar Keeley a triunfar contra todas as probabilidades?


Cris

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A Convidada Escolhe: "Londres"


Londres, Virginia Woolf, 1931,32

Como é a Londres de Virginia Woolf? Quase cem anos depois, que diferenças se encontram entre a visão da escritora que nasceu, amou e viveu durante tantos anos nesta cidade e uma cidadã-turista que visita a cidade e que a dá a conhecer a outras pessoas que a visitam pela primeira vez?

Entre os inúmeros pontos de interesse da cidade tão presente nos seus Diários, Virginia Woolf escolhe como “roteiro” neste The London Scene seis aspectos, correspondentes a seis ensaios escritos na Primavera de 1931 e publicados em Dezembro desse mesmo ano e ao longo de 1932 na revista Good Housekeeping.
Começa pelas docas, pela azáfama do porto, com as entradas constantes de navios vindos da Índia, da Austrália, da América, de todo o mundo, trazendo e levando produtos ao sabor das necessidades e do gosto das populações. A dança dos guindastes é constante e a sujidade e o lixo não são coisas boas de se ver, em contraste com Oxford Street onde se encontram “refinado(s) e transformado(s)” os produtos trazidos e deixados em bruto nas docas de Londres. Mas Virginia Woolf alerta que Oxford Street “não é a rua mais distinta de Londres”, tanto mais que aqui “há demasiadas pechinchas, demasiados saldos” para concluir que “Tendo em conta tudo isto – os leilões, os carrinhos de mão, as pechinchas, o esplendor – não se pode dizer que seja refinado o carácter de Oxford Street.” Nesta maré que é Oxford Street tudo é transitório como os nossos desejos, veloz como as notícias, reflectindo que “o encanto da moderna Londres está em ser feita não para durar, mas para passar.”
Depois da “Maré de Oxford Street” Virginia Woolf leva-nos a visitar as casas do casal escocês Thomas e Jane Carlisle em Chelsea e de Keats em Hampstead. Sem água canalizada, todo o trabalho de aquecimento e transporte de água para os banhos desde a cozinha até ao terceiro andar da casa dos escoceses, em que a Sra. Carlisle e a criada se afadigavam, tornavam esta casa num campo de batalha contra o frio e o pó. Virginia Woolf diz que esta casa é marcada pelo mês de Fevereiro, ao contrário da casa de Keats, uma casa despojada de móveis, com muita luz e em que reina a Primavera.
A Catedral de Saint Paul e a Abadia de Westminster não podiam deixar de ser referidas como locais marcados pela vastidão, pela serenidade e pela presença de grandes estadistas e homens de acção que aqui repousam e onde se encontram os seus nomes e estátuas jazentes. Não menos digno de nota, uma inscrição que leu na parede de uma pequena igreja – St. Mary-le Bow – onde a memória e as qualidades de um homem comum ficaram imortalizadas.
O confronto entre o perene e o transitório que Virginia Woolf faz na referência às estátuas dos homens que ficaram na história e que existem na cidade e o dia-a-dia das pessoas comuns é aprofundado no ensaio sobre a Câmara dos Comuns. Aqui, os deputados são comparados a um “bando de pássaros num campo de terra lavrada.” ”Estes homens pouco se distinguem das pessoas normais” mas são eles que decidem da paz ou da guerra, ou das coisas mais comezinhas como a velocidade a que se pode conduzir em Londres. Virginia Woolf dificilmente os vê transformados em estátuas. “Os dias do indivíduo e do poder pessoal terminaram de vez”. e conclui que a democracia transformou o Parlamento. No entanto, o seu optimismo não é excessivo pois a democracia ainda avança a custo, lentamente e é vigiada por inúmeros polícias…
Finalmente, o último ensaio é o delicioso e pouco lisonjeiro retrato de uma londrina. Chama-lhe Sra. Crowe. É “uma coleccionadora de relações”, recebe um grupo restrito de amigos para o chá das cinco, os quais alimentam com as suas conversas frívolas a bisbilhotice de que são feitas as suas vidas. Afinal de contas para eles e para a Sra. Crowe, Londres não passava de uma aldeia e a bisbilhotice era tudo o que queriam da vida.
A ideia que perpassa da cidade de Londres nestes ensaios escritos em 1931 é de uma cidade trepidante, em que as pessoas se acotovelam, com multidões sempre apressadas, havendo até referência a turistas (pág. 67). “Os únicos sítios tranquilos …são os cemitérios.” A trepidação e o encanto da sua cidade testemunhados por esta ilustre londrina, continuam a atrair milhões de turistas um século depois. Como seria “The London Scene” escrito por Virgínia Woolf em 2019? Numa página do seu Diário de 5 de Maio de 1924 escrevia “Londres fascina, saio e é de imediato um mágico tapete colorido e eis-me transportada para a beleza, sem ter sequer de mexer um dedo.”

Mouriscas, 3 de Agosto de 2019
Almerinda Bento

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

"Entre Nós" de Susan Wiggs

Foi uma leitura simpática esta. Fluída, como uma amiga afirmou. A escrita conquista-nos pela simplicidade e as páginas voam. 

Um pequeno aspecto desagradou-me porque achei desnecessário. A personagem principal utiliza algum calão que achei que ficava a mais. Quase que impróprio para a caracterização dessa mesma personagem. Não sendo púdica, soou-me mal. 

De resto, gostei da história. A autora focou bem os aspectos positivos e negativos da cultura amish comparativamente com a nossa. E, claro, aprende-se sempre, facto que adoro. 

É uma história de amor, boa para esta época de férias e de descanso. O final é previsível como se quer num enredo assim mas é uma leitura muito agradável que recomendo para quem gosta de um romance com alguns contratempos mas que acaba bem.

Terminado a 12 de Agosto de 2019

Estrelas: 4*

Sinopse
No coração pacífico das terras dos amish, uma situação de vida ou de morte destrói os alicerces desse mundo tranquilo. A autora número um em vendas do The New York Times, Susan Wiggs, oferece-nos uma história fascinante que desafiará as nossas crenças mais profundas.

Cris

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Experiências na cozinha: "Pequenos almoços e lanches saudáveis para crianças"

Este é um livro para se ter naquela prateleira da cozinha onde temos os livros que dão jeito ter sempre à mão. É pequeno mas está repleto de pequenos almoços e lanches para miúdos... e graúdos! 

Snacks preciosos para levarmos connosco para que as asneiras sejam minimizadas. Alguns são tão fáceis de fazer que pensamos " porque não me lembrei antes disso?". A época do "bolicao" está a ficar para trás e ainda bem. O açúcar é terrível e os seus malefícios, infelizmente, estão a atacar as nossas crianças.

As dicas de planeamento e organização, que a autora refere nas primeiras páginas, também são preciosas e muito úteis. São a base de uma  alteração nos hábitos alimentares que urge divulgar.

Optámos por fazer a receita da página 44, "Iogurte com bolachas de aveia e fruta da época" mas pode-se fazer a granola caseira (pág 40) e substituir as bolachas de aveia pela granola. Gostámos muito do resultado da receita mas, a Palmira e eu, concordámos: com a granola deve ficar mais crocante e ainda mais delicioso! 

Ora espreitem as fotos e a receita: nada mais fácil, não? Reparem que fizemos também num frasco para vos mostrar como podemos levar esta delícia connosco reutilizando aqueles frascos que todos temos em casa. Bom apetite!




 




Palmira e Cristina

terça-feira, 13 de agosto de 2019

A Convidada Escolhe: "O Grande Bazar Ferroviário"


O Grande Bazar Ferroviário, Paul Theroux, 1975
Um livro extraordinário, de que tirei inúmeras notas, fiz imensas anotações e sublinhados, assinalei páginas… Foram cinco semanas de viagem, a acompanhar os quatro meses que Paul Theroux levou desde que partiu em Setembro de 1973 de Londres e a que regressou no início de Janeiro de 1974. Não conseguiu cumprir a promessa de que estaria em casa antes do Natal, apenas tendo conseguido durante a viagem no Transiberiano apanhar um programa da BBC que passava algumas canções de Natal!
A edição da Quetzal abre com um texto de Francisco José Viegas e um belíssimo prefácio que Paul Theroux decidiu fazer ao seu livro em 2008. O mundo tinha mudado muito entre 1973 e 2008 e ele sentiu necessidade de “explicar” o que o levara a escrever aquele livro, o seu primeiro livro que ele não quis rotular de “livro de viagens” por desprezar essa designação que associa a turismo de massas, a interesses comerciais, a luxo e comodidade, tudo aquilo que ele deixou em casa, quando decidiu aceder a um convite de uma editora para escrever sobre uma viagem. A ideia de movimento, da verdade da viagem, de ir sozinho, anónimo e ser autosuficiente agradava-lhe, ele que já viajara antes, já trabalhara em diferentes países, mas nunca escrevera sobre a experiência da viagem, de apanhar comboios, de conhecer passageiros, de ouvir diálogos.
Uma viagem longa a partir da Europa, entrando na Ásia pela Turquia, seguindo pelo Irão, Afeganistão e Paquistão até à Índia e Ceilão, entrando na Birmânia, passando pela Tailândia, Laos, Malásia, Vietname, Japão, Extremo Oriente Soviético, Sibéria, Polónia, Holande e de novo Inglaterra. Foram 30 comboios, alguns com nomes míticos, poucos aviões e barcos, sempre que a ligação de comboio era impossível. Comboios de todo o tipo, todos diferentes e com “personalidades” próprias: Expressos, Locais, Correios, de passageiros, o Expresso de Bombaim que afinal era mais um comboio local que expresso com as paragens constantes dos passageiros que accionavam o alarme para assim se apearem e ficarem mais perto de casa… já sem falar da viagem na carruagem privativa do director dos Caminhos de Ferro Vietnamitas, ou o Super Expresso “Raio de Sol” para Quioto, o comboio de passageiros mais rápido do mundo (pelo menos nessa altura) que fazia os 500 kms entre Tóquio e Quioto em menos de três horas.
A escrita de Theroux é tão vívida, que é impossível não sentir que se viajou com ele, que se conheceram pessoas bizarras, que se descobriu que cada comboio é uma incógnita, pois pode ou não ter carruagem-cama, vagão-restaurante, que nos dois primeiros meses o sol brilhou, que a primeira chuvada foi na Índia e que as monções trouxeram inundações e o risco de colapso de pontes na Tailândia, e que foi na Birmânia que teve a primeira sensação de frio que depois se intensificou drasticamente no Japão onde a neve e a aproximação da viagem gélida através da Sibéria o obrigaram a comprar roupa quente para substituir a roupa fresca e puída que usara até então.
Se teve de ser vegetariano à força na Índia onde teve os primeiros desarranjos intestinais, ou se fingiu que comia pardalinhos na Birmânia, aprendeu que em muitas estações onde paravam havia vendedores de produtos locais que respondiam à inexistência de vagões-restaurante em muitos dos comboios. E se isso era impensável nas estações no Japão, em que a saída de passageiros na estação e a partida do comboio era uma questão de segundos, noutros comboios o drama de perder o comboio não se colocava. E aqui não posso deixar de referir uma personagem bizarra – Duffill – que, na atrapalhação de ir comprar víveres para a viagem com destino à Turquia, perdeu o Expresso do Oriente logo em Itália, o que deu origem ao verbo “duffilar”. Pois em quatro meses de viagem, o autor só ficou “duffilado” em Moscovo onde ficou retido dois dias, não lhe tendo sido permitido embarcar no comboio para a Polónia, por não ter visto de trânsito.
Imaginamos Paul Theroux com o seu cachimbo, óculos, mapa, livros e blocos de apontamentos, aonde vai anotando todos os detalhes e impressões de viagem. Na passagem por Itália estava a ocorrer uma epidemia de cólera; em Istambul soube da morte de Pablo Neruda no Chile que acabara de ser tomado de assalto por Pinochet; a imagem omnipresente de Ataturk parecia que tinha feito congelar a cidade desde 1938, ano em que morreu; no Irão e em Teerão que lhe deixou uma impressão muito negativa, deparou-se com duas realidades distintas com mulheres de saia e blusa e outras totalmente cobertas com véu e com o rosto tapado; a presença dos americanos ligados à extração do petróleo na região; o suborno (bakchich) como prática corrente para se conseguir qualquer coisa; o Balochistão em guerra; o Afeganistão e o Paquistão como zonas de conflito; a péssima impressão deixada por Cabul, ao contrário de Peshawar; os hippies; a droga. A Índia como um grande país, muito diverso e muito dividido, as aldeias, as estações de comboio apinhadas onde os indianos literalmente viviam, o lixo, a degradação, as pessoas mutiladas que mendigavam, a prostituição infantil. Madrasta, que um indiano lhe disse que era onde estava “a verdadeira Índia”, foi onde teve o primeiro susto da viagem com um taxista que lhe colocou o dilema: praia ou rapariga? A estranheza daqueles a quem dizia querer ir ao Ceilão, um país marcado pela fome, pobreza, mendicidade e ociosidade, pois segundo eles no Ceilão “não se passa nada”. Nessa viagem para o Ceilão (Sri Lanka) teve o comboio todo por sua conta e em Columbo fez uma conferência sobre literatura norte-americana, como aliás já tinha feito em Istambul e como faria em Bombaim, Calcutá, Saigão, Hué e Hokkaido.
A foto da capa da autoria de Oleh Slobodeniuk não está referenciada quanto ao local. Quero, no entanto, ver nela a viagem que Paul Theroux fez a Gokteik no norte da Birmânia. Uma viagem, uma verdadeira ousadia, cheia de dificuldades e perigos por os comboios serem alvo de constantes ataques de rebeldes e de ladrões e que, no fim, quando ele pensava que iria parar à cadeia, o aconselharam a não repetir. Birmânia, Laos, Tailândia, Malásia, Singapura, Vietname na época das monções, foram os destinos que marcaram a viagem a caminhar para o fim. No meio de paisagens de uma beleza indescritível, são notórias a indústria do sexo e o caos deixado nos despojos da aventura de guerra dos americanos na península da Indochina: acampamentos acupados por refugiados, hospitais pilhados, crianças louras que falam vietnamita, instabilidade, vulnerabilidade e insegurança. Numa nota de rodapé, o autor refere que em 1975, grande parte das cidades por onde passou dois anos antes, tinham ido pelos ares com muitas centenas de mortes.
No Japão para onde voa, encontra uma sociedade totalmente diferente. Um “povo programado”, disciplinado, mergulhado na parafernália electrónica, onde tudo é veloz e eficiente e angustiante; estranhamente consumindo entretenimentos de erotismo violento em que o sadismo está banalizado em espectáculos para turistas, em bandas desenhadas, em filmes. É exactamente em Hokkaido – “A Terra do Grande Céu” – que o fascina pela beleza natural e que fotografa à exaustão, que Paul Theroux tomou a decisão de escrever este livro. Sente-se que o autor começa a sentir os efeitos do cansaço, o desejo de que a viagem chegue ao fim. Olha para trás, para as semanas que decorreram e para as terras e pessoas que conheceu e sente a necessidade de fazer sínteses, de fazer avaliações. Decide que o título do seu livro será o nome de uma rua na Índia “O Grande Bazar Ferroviário”.
Tal como a viagem de avião de Da Nang para Saigão tinha sido assustadora, a viagem de barco no Mar do Japão que faz a ligação Japão-Rússia não foi menos. A ligação de Khabarovsk – recorda Tchékhov que por lá passou quando em 1890 esteve durante alguns meses em Sacalina – até Moscovo pelo Transiberiano (10 mil kms) é a mais longa viagem de comboio do mundo e vai ser a parte mais penosa da viagem. Não só pela distância, mas pelo cansaço, pela uniformidade da paisagem, pelo frio (34 graus negativos), pela solidão, pelas saudades de casa, pelo sentimento de culpa, pelos pesadelos em que a mulher e o filho aparecem e, embora tente criar uma disciplina que o ajude a sobreviver, a verdade é que o ambiente dentro do comboio não permite. Depois de passarem o Extremo Oriente Soviético seguindo ao longo da Mongólia em que as bétulas e os cedros são a paisagem para além da imensidão da neve, a Sibéria só começa depois de Irkutsk e depois temos a tundra. Perde a noção do tempo, “o desespero faz-me fome” “raramente sabia onde estávamos, nunca sabia as horas correctas e detestava cada vez mais aquelas geleiras que tinha de atravessar para ir para o vagão-restaurante.” e a urgência de chegar é tudo o que tem. A bebida é a companhia dos russos e ele é o único ocidental no comboio, pois lá bem atrás os seus companheiros tinham apanhado o avião para Moscovo, fazendo em 9 horas a viagem que ele precisava de fazer em vários longos dias.
Falta-me falar dos passageiros e dos livros ou das referências literárias que a viagem lhe evocou. Duffill que partira de Londres com ele e que se tinha perdido a meio do caminho antes de chegar a Istambul e Molesworth, companheiros na viagem no Expresso do Oriente; Sadik o turco a caminho da Austrália, “foi boa companhia num troço maçador da viagem”; um indiano que vivera toda a vida em Inglaterra e que se queixava das atitudes racistas dos ingleses, tal como Radia que trabalhara 30 anos na SHELL apelidandos os ingleses de exclusivistas e dominadores; um alemão que fugira de um centro de reabilitação a caminho da Índia e que se alimentava de ópio e água; Vishnu um indiano de Simla que vaticinou que um dia voltariam a encontrar-se no Reino Unido ou nos EUA, o tal que lhe indicara que em Madrasta encontraria ele a verdadeira Índia; em Jaipur, o sr. Goipal, contacto da embaixada e que em princípio seria um facilitador ao nível da comunicação, revelou-se um verdadeiro desastre; um monge budista americano pouco dado a conversas; um jovem inglês aparentemente a fugir da namorada indiana; o sr. Bernard um birmanês que havia sido chefe de cozinha o que lhe permitira conhecer pessoas muito importantes e participar em eventos especiais, convida-o a pernoitar na sua casa onde, num quarto com lareira é brindado com uma refeição principesca como há muito não comia; e ainda dois altos funcionários do Bangladesh responsáveis por planeamento familiar nas áreas rurais e que vinham de uma conferência sobre esse tema.
Da lista de livros que Theroux escolheu e levou e sobre os quais foi escrevendo à medida da sua narrativa, lembro “A Pequena Dorrit” de Charles Dickens, autor que ele evoca em Calcutá, por esta cidade do norte da Índia lhe lembrar a Londres de Dickens. “Ariadne” e outros contos de Tchékhov, a pensar em Sacalina onde se localizava a maior penitenciária russa*. “Autobiografia de um Iogue” de Paramahansa Yogananda, Na passagem por Lahore recorda Kipling que aí viveu e trabalhou, Bombaim a que estão ligados Mark Twain que lhe dedica um capítulo de “Following the Equator” e V. S. Naipaul que relata em “An Area of Darkness”uma situação em que entra em pânico numa estação ferroviária de Bombaim. “Exilados” de James Joyce, poemas de Browning ou “O Canto Estreito” de Somerset Maugham. “Silêncio” de Shusaku Endo, ou “Contos Japoneses de Mistério e Imaginação" de Hirai Taro são outras obras que fui identificando ao longo da leitura de “O Grande Bazar Ferroviário”.
E se as minhas notas já vão longas, revelando alguma incapacidade de síntese, a verdade é que me foi difícil não colocar aqui algumas transcrições. Concluo dizendo que este não é um roteiro turístico, mas tão só uma viagem solitária feita por Paul Theroux, longe das comodidades do turismo de massas. Um registo na primeira pessoa de alguém que possibilita quem o lê a viajar com ele e a deitar abaixo uma visão etnocêntrica da realidade. O mundo é muito mais do que o lugar onde nascemos e vivemos.
Foi muito bom viajar com este autor que ainda não conhecia. E penso que comecei da melhor maneira.
*Em 2018, a Barraca levou à cena no TeatroCinearte a peça “A Volta o Mar, no Meio o Inferno”, sobre a experiência vivida por Tchékov em Sacalina, (21 de Abril a 8 de Dezembro de 1890), onde faz o “recenseamento da população local e um extenso levantamento sociogeográfico da região.” Nota da publicação editada pelo TeatroCinearte
23 de Julho de 2019
Almerinda Bento

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

"O Homem Em Busca De Um Sentido" de Viktor E. Frankl

Este livro tem apenas 159 pág. e, no entanto, tem tanto para nos dar. Creio que a vida e obra deste psicoterapeuta foi baseada nisso mesmo: em dar. Como referiu um seu aluno, "o sentido da sua vida foi ajudar os outros a encontrar um sentido para as suas vidas".

Resumindo, mas não "spoilando": Viktor formou-se em Neurologia e doutorou-se em Psiquiatria. Encontrava-se em Viena quando, ao optar por ficar aí para ajudar a tomar conta dos seus pais em vez de aceitar um visto para a América, foi apanhado pela guerra. Passou por quatro campos de concentração, de entre os quais Auschwitz. Sobreviveu. A sorte esteve, em muitos aspectos e opções que tomou, do seu lado. As decisões arbitrárias de quem mandava deixava muito ao factor sorte a vida de quem era prisioneiro. Mas terá sido só isso? O que o manteve vivo e não o fez desistir? Viu muitos colegas deixarem-se invadir pela morte e desistir da vida. Sem esperança. 

Depois da libertação, os prisioneiros enfrentaram aquilo que já não esperavam: a indiferença de quem esteve cá fora, os seus entes queridos que não regressaram, no fundo a destruição dos sonhos que os mantiveram vivos. Como superar tudo de novo quando pensavam que o pesadelo tinha já terminado?

Este livro tem duas partes distintas. A primeira é duríssima. Contando vários episódios que se passaram com ele e com quem estava junto dele, Viktor dá-nos conta de pequenos e, ao mesmo tempo, profundos e intensos acontecimentos que podiam fazer alguém simplemente desistir.

O que faz uma pessoa aguentar? A que se agarra? Que sentido encontra para se manter à tona apesar de tudo o que vê à sua volta? Antes de ser preso, Viktor já pensava neste assunto e estava a escrever um livro sobre este argumento: a procura de um sentido, seja ele qual for, é a chave para a saúde mental. Depois durante os anos em que esteve nos campos, teve de procurar, para si, o sentido da sua existência.

A segunda parte deste livro é uma explicação mais aprofundada, escrita anos depois, da sua teoria, a Logoterapia (Logos = sentido). Penso que terá muito mais interesse a quem se propõe estudar esta área do saber. 

Surpreendente. Uma obra que será, certamente, editada pelo dobro das vezes que já foi. E não foram poucas, não senhor! Como o próprio autor refere "este livro não se debruça sobre os grandes horrores (...) mas sobre a imensidão de pequenos tormentos". Foi isso que mais me impressionou. 

Terminado em 5 de Agosto de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Nos seus momentos de maior sofrimento, no campo de concentração, o jovem psicoterapeuta Viktor E. Frankl entregava-se à memória da sua mulher - que estava grávida e, tal como ele, condenada a Auschwitz. Conversava com ela, evocava a sua imagem, e assim se mantinha vivo. Quando finalmente foi libertado, no fim da guerra, a mulher estava morta, tal como os pais e o irmão. No entanto, ele alimentara-se de outro sonho enquanto estava preso, e, este sim, viria a realizar-se: projetava-se no futuro, via-se a falar perante um público imaginário, e a explicar o seu método para enfrentar o maior dos horrores. E sobreviver. Viktor E. Frankl sobreviveu. E até morrer, aos 92 anos, divulgou por todo o mundo o método desenvolvido no campo de concentração - a Logoterapia. O psicoterapeuta descobriu que os sobreviventes eram aqueles que criavam para si próprios um objetivo, que encontravam um sentido futuro para a existência - fosse ele, por exemplo, cuidar de um filho ou escrever um livro. Em O Homem em Busca de um Sentido, escrito em 1946, o autor narra na primeira parte a sua dramática luta pela sobrevivência. E na segunda, em breves páginas, sintetiza os mais de 20 volumes ao longo dos quais desenvolveu o seu método - aplicável a qualquer pessoa, em qualquer circunstância da vida.

Cris

"A Mulher Que Escondeu Anne Frank" de Miep Gies

Estou abismada com esta leitura. Não sei sinceramente porque é que esta obra não foi publicada cá antes, se é de 1987. Afirmo, sem medos, que se trata de um dos livros da minha vida. 

Faltam-me as palavras. Queria dizer-vos tanto! A vida de Miep teve, logo desde a sua infância, acontecimentos tão marcantes que por si só bastariam para escrever um livro. Logo desde pequena (11 anos) foi enviada de Viena, cidade onde nasceu, para Amesterdão num programa para ajudar crianças subnutridas. Acabou por ficar mais tempo, tal era o seu estado de saúde. Ficou num país que passou a considerar seu. E mais não conto... Só para vos situar, lembro-vos que Miep foi uma das pessoas que ajudava os Frank a manterem-se no anexo. As suas buscas por comida para tantas pessoas não era tarefa fácil numa época onde a fome era uma constante até para quem não era judeu ou de outra qualquer forma perseguido pelos alemães.

Fiquei de tal forma envolvida na sua história (e na história de Anne Frank, contada por alguém que viveu fora do "anexo", que acompanhou a guerra do lado de quem não era judeu mas que fez de tudo para ajudar porque acreditava que era o correcto, porque os seus amigos não tinham "raça" pois eram amigos do coração), que acreditei que o final poderia ser outro! 

Os perigos porque passou, a fome, a incerteza, a coragem que precisou arranjar, o nunca negar quando lhe foi pedido ajuda, tudo isso foi uma descoberta para mim que me levou a terminar a última página com o coração cheio e a acreditar que o Homem é capaz de feitos maravilhosos! 

Um dos aspectos que me despertou a atenção foi a descrição dos acontecimentos passados no pós guerra. Pensar que finda a guerra todos os problemas ficaram resolvidos é ser ingénuo. Gosto, pois, de conhecer melhor essa época e aqui, Miep descreve bem como era difícil sobreviver tanto pela falta de alimentos como pela angústia de não se saber quem voltaria...

Um livro que recomendo vivamente. E não, não é mais do mesmo! É um livro fabuloso.

Terminado em 3 de Agosto de 2019

Estrelas: 6* - Um dos melhores livros lidos este ano!

Sinopse
Ao longo de mais de dois anos, Miep e o marido ajudaram a esconder judeus numa Holanda tomada pelos nazis. Como milhares de heróis desconhecidos do Holocausto, eles arriscaram diariamente a vida ao levar alimentos, livros, notícias e carinho às vítimas.

Miep trabalhava como assistente de Otto Frank, o pai de Anne Frank, e tornara-se íntima da família. Ao longo de 25 meses, ela e o marido mantiveram a família Frank escondida no anexo de um prédio de Amesterdão até serem traídos por uma denúncia anónima. Quando a Gestapo invadiu o esconderijo, a 4 de agosto de 1944, e prendeu todos os seus ocupantes, deixou para trás o diário de Anne e outros dos seus escritos, em folhas soltas, Miep recolheu esses escritos na esperança de voltar a encontrar Anne e lhos poder entregar.

Neste livro intemporal, Miep relembra esses dias tortuosos e fá-lo com uma clareza e uma emoção vívidas. A narrativa vai da sua própria infância, enquanto refugiada da Primeira Guerra Mundial, até ao momento em que entrega a Otto Frank - o único dos ocupantes do esconderijo a sobreviver ao Holocausto - o pequeno diário axadrezado. Até então, não fora lido por ninguém.

Cris

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Experiências na Cozinha: "Receitas para um Superintestino"

Tratar por dentro para que se reflicta por fora. Creio ser este o lema deste livro e deveria ser o nosso também.

Palavras como microbiota, probióticos, prebióticos, germinados, poderão ser mais ou menos desconhecidas para nós, mas outras como ingestão de água, fibras, exercício físico, açúcar, alimentos processados, já, certamente, nos chegaram aos ouvidos.

Este livro é muito mais do que a soma das receitas que contém. Tem informação importante sobre como ter um intestino saudável. Já ouviram dizer que o intestino é o nosso segundo cérebro?

Seguimos a Mª Inês no Instagram. Há sempre tanta coisa para aprender e melhorar, tanta informação e receitas que às vezes nos perdemos um pouco. Que tal começar por alguma coisa fácil? Uma receita simples, de entre as que há neste livro, foi a escolhida por nós: a chucrute. Claro que tínhamos de alterar alguma coisa mas deixamo-vos aqui a receita original. Comecem por ela, é o nosso conselho! Nós utilizamos a couve roxa em vez da couve lombarda ou repolho e também não nos saímos mal. Ora vejam:






Palmira e Cris

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

"Frida Kahlo, Uma Biografia" de María Hesse

Quem nunca ouviu falar de Frida Kahlo? Quem não reconhece os seus retratos? Exposições, livros, cinema. Frida é mundialmente conhecida pelos seus auto-retratos, pela sua vida marcada pela dor, pelo seu amor por Diego Rivera, tão conturbado como a sua própria vida.

Este livro é uma visão da sua vida aos olhos da ilustradora María Hesse. E que visão maravilhosa onde as ilustrações sabem, tão bem, retratar o texto! São ilustrações ao estilo de Frida, alguns dos seus retratos foram adaptados e recriados pela autora que soube, de uma forma espectacular, pintar a vida de Frida. 

Fiquei maravilhada, sem palavras! Muito bom, recomendo sem reservas.

Deixo-vos com dois links a que vale a pena deitar um olho sobre esta graphic novel e, também, com algumas fotos.







Terminado em 31 de Julho de 2019
Estrelas: 6*
Sinopse
Uma obra de arte dentro de uma obra de arte. Uma bela biografia da pintora mexicana Frida Kahlo ilustrada com as imagens evocativas de Maria Hesse. 
A vida de Kahlo, desde a sua infância, passando pelo acidente traumático que mudaria sua vida e sua arte, seu amor complicado por Diego Rivera e a feroz determinação que a levou a se tornar uma grande artista.
Inspirado pelas experiências da icônica pintora mexicana, este livro oferece um belo passeio ilustrado pela vida e obra de Frida Kahlo.

Cris

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A Escolha do Jorge: "Schlump"



“A juventude é pródiga, vive no paraíso e nem se apercebe quando a verdadeira felicidade lhe bate à porta.” (p. 26)
“Um rouxinol entoava toda a felicidade que transbordava do seu pequeno coração. Fazia-o de modo tão nostálgico, tão doce, tão ditoso, como se no mundo ainda houvesse coisas como o amor, como a felicidade.” (p. 153)

A edição de Schlump do alemão Hans Herbert Grimm (1896-1950) em língua portuguesa constitui seguramente um dos acontecimentos editoriais do ano a cargo da PIM! Edições que nos presenteia com um volume de luxo, cuja capa mantém a mesma da edição original, publicada anonimamente em 1928.
Com o subtítulo de Histórias e aventuras do desconhecido soldado Emil Schulz, chamado «Schlump», narradas pelo próprio, este romance constitui um grito de protesto sobre o absurdo da guerra, além de manifestamente ter um discurso anti-militarista e anti-fascista, razões que estiveram na origem de o livro ter sido queimado nos autos-de-fé nazis na década de 30.

A partir de então, Schlump caiu no esquecimento até ser reencontrado em 2013 e publicado no ano seguinte, 85 anos após a primeira edição e um século após o início da 1ª Guerra Mundial (1914-1918).
São muitas as informações que nos levam a concluir que este romance tem muito de autobiográfico atendendo ao facto de Hans Herbert Grimm ter participado na 1ª Guerra Mundial.
Schlump divide-se em três partes: o entusiasmo, a desilusão e a crença na humanidade pelo amor como superação do horror da guerra.
Com 17 anos, o jovem Schlump toma a decisão patriótica de se alistar como voluntário na guerra que se acreditava que iria ser breve. É destacado numa pequena localidade francesa desempenhando funções semelhantes às de regedor da comunidade, sendo responsável por controlar a população nos seus afazeres diários. A par do patriotismo, as funções atribuídas e a descoberta da sexualidade junto das jovens que vai conhecendo fazem aumentar a auto-estima de Schlump desenvolvendo a ideia de que a guerra era, afinal de contas, algo maravilhoso que tinha acontecido na sua vida, tornando-se uma peça fundamental na gestão da pequena localidade inimiga onde se ouvia à distância, de vez em quando, o barulho da artilharia.
Com muito humor, a primeira parte deste romance apresenta-nos a guerra como algo ligeiro aos olhos de um adolescente a quem os seus congéneres alemães confiaram no desempenho das suas funções. A sua capacidade para se desenrascar no intuito de resolver situações inesperadas é inigualável tanto quanto caricata, daí que a ideia demonstrada da guerra afastada do campo de batalha é também absurda.
A segunda parte do romance tem como pano de fundo alguns dos cenários de guerra, as trincheiras, e a ideia de uma guerra infernal sem um fim em concreto à vista. Schlump fora destacado para uma das trincheiras onde assistiu ao inimaginável, ao horror que nunca nenhum ser humano deveria presenciar.
Não são muitas as descrições sobre as mortes, o armamento utilizado, as condições de sobrevivência, desde a alimentação passando pela contínua falta de descanso, no entanto são descrições de episódios muito gráficos, intensos, esmagadores que nos leva a reflectir sobre as razões da guerra.
Milhares de vítimas mortais dos dois lados das barricadas, muitas vezes em luta corpo-a-corpo, jovens que desperdiçaram o tempo e a vida numa guerra inútil e sem préstimo sem que alguma vez venham a ser reconhecidos por alguma coisa.
A fome, o desalento, às precárias condições no dia-a-dia, os amigos mortos em combate, os episódios com cenas horríveis de plena carnificina tornam esta guerra duradoura tanto quanto absurda. O tempo vai passando e a desilusão face à guerra instala-se perante uma vitória que, afinal não se concretizou.
“Já ocupavam aquela posição há vinte dias. A cal mordia-lhe as costas, havia sempre uns pedaços que lhe entravam pela roupa quando rastejava para entrar no bunker. Tinha feridas nas mãos que não saravam. Lama desde há vinte dias, só lama, já não havia uma palavra cordial, só se praguejava.
Como são felizes os que levam um tiro num braço ou numa perna. Estão em casa, podem deitar-se na cama e dormir, dormir, dormir.
Schlump estava terrivelmente desiludido com aquela guerra. E a oportunidade de realizar um ato heroico teimava em nunca mais chegar.” (p. 142)
Schlump é ferido numa destas cenas de guerra sangrenta e a desilusão não poderia ser maior face à guerra interminável sendo que o excerto que se segue dá-nos uma ideia do horror vivido entre mortos e feridos dos dois lados do conflito.
Schlump jazia entre os mortos, no campo de batalha, inconsciente, em seu redor sangue e mais sangue, farrapos ensanguentados, membros humanos e pedaços de equipamento, tudo enegrecido do sangue.” (pp. 150-151)
A terceira parte do romance coincide com a fase final do conflito, numa luta desesperada por parte da Alemanha em singrar e levar todo o esforço, todo o sacrifício do país a uma vitória. Era decisivo este combate, era o milagre que faltava e que nunca chegou. Era o desespero que vestia a farpela do entusiasmo que de nada serviu.
Era uma febre que a todos atingia. Um entusiasmo diferente do de 1914. Era o entusiasmo do desespero. Agora, só precisamos de um general, de uma ideia grandiosa, e estes soldados realizariam um milagre como o mundo nunca viu. Schlump esteve a ponto de voltar a oferecer-se como voluntário. Só que as experiências vividas na retaguarda e quando regressava a casa já lhe haviam roubado a inocência. «Mesmo que ganhemos», disse para si mesmo, «quem receberá as honras não será o herói imundo que anda na trincha, mas os dos uniformes a reluzir; nessa altura eles chegam-se à frente, quando agora, que chove fogo, fogem.» Não se ofereceu como voluntário.” (p. 219)
No meio de tanto horror, mortes, feridos, mutilados, destruição e sem que a compreensão processe todas aquelas imagens e acontecimentos, não deixa de ser notável como a crença na humanidade e num amanhã onde se pode ser feliz é possível. Schlump deixa-nos uma mensagem de amor como a única possibilidade de almejar a paz entre os homens e as nações em oposição ao absurdo da guerra. Se o homem aprendeu a matar sem dó nem piedade, sem sentido e sem critério, terá agora, em período de paz e de reconstrução, de reaprender a amar.
Hans Herbert Grimm deixa alguns recados às gerações futuras. Apesar de Schlump não ter alcançado um sucesso retumbante à data da sua edição, o romance não deixa de reflectir algumas ideias destemidas no final dos anos 20 quando a Alemanha vivia uma crise económica profunda a par da humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes, daí que o nacionalismo fervoroso da extrema-direita tenha adquirido expressão com o Partido Nazi que subiria ao poder no início da década de 30.
Schlump nunca poderia ter sido bem acolhido no seio dos ideais nazis sendo destruído nos auto-de-fé por se apresentar uma obra que põe a ridículo o fascismo, o militarismo e, em última instância, a guerra.
Os excertos finais selecionados fazem eco disso mesmo como alertas deixados por Hans Herbert Grimm para as gerações futuras face à responsabilidade dos governantes na criação do bem-estar da sociedade, daí a fragilidade dos estados democráticos que na sequência de populismos e pequenos nadas os estados podem ser conduzidos à pobreza, à ruína e à guerra.
Foram convocados para ser líderes do povo alemão. Ser líder significa ser um exemplo. Se os líderes forem competentes, todo o povo será competente. Se assim for, consegue-se escalar a montanha. O bem-estar e o mal-estar do povo depende da conduta dos seus líderes. A sua responsabilidade é colossal. E mal estará o povo cujos líderes se recusaram a fazer sacrifícios maiores que os dos homens nas fileiras.” (p. 212)
De resto, a guerra é uma carnificina abominável e abjeta, e uma humanidade que assiste a isto e o suporta durante vários anos não merece consideração. Quem criou essa humanidade tem boas razões para cavar um buraco no chão e lá se enfiar, tanta vergonha deverá sentir, pois esta sua criação é uma enorme ignomínia!” (p. 248)
Texto da autoria de Jorge Navarro

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A convidada escolhe: "Regenerar"

A capa do livro fala por si! É um “manual de bem-estar para viver de acordo com as estações do
ano”.

Na 1ª leitura que fiz, verifiquei, com surpresa, que tudo se encaixava na minha mente, como se eu já soubesse algumas daquelas coisas, mas as tivesse esquecido, ou não as conseguisse exprimir. Tudo fazia sentido.

É um livro que se baseia na filosofia e tradição terapêutica oriental que olha para a nossa existência como sendo feita de ciclos, à semelhança das estações do ano, as quais se manifestam nas várias fases que atravessamos ao longo da vida (todos nós vivemos, uma Primavera, um Verão, um Outono e um Inverno)

Para quem não está familiarizado com estes temas, pode ser uma surpresa, porque nos transmite uma forma totalmente diferente de olhar para o que nos rodeia (por exemplo, quem não gosta do Inverno, vai perceber porque é que, interiormente, ele nos faz falta).

O livro também nos ensina que o nosso estado natural é termos saúde e que, quando ela falta, a tendência  do nosso organismo é regenerar. É aí que temos a possibilidade de transformar a nossa vida,  mudando hábitos, alinhando-nos com a estação que estamos a viver (a pessoal e a sazonal),  e seguindo os princípios de uma vida saudável de acordo com os ciclos da natureza.

Para isso, nos capítulos, dedicados a cada estação do ano, e respectiva energia, são-nos dados os pontos principais de autodiagnostico de alguns dos desequilíbrios associados a cada uma, bem como conselhos, propostas, reflexões, exercícios, quais os alimentos adequados e alguns remédios caseiros que nos vão ajudar a equilibrar, a fortalecer a nossa energia vital...a regenerar.

 Assim, vamos encontrar recomendações alimentares baseadas na Macrobiótica, exercícios de Chi Kung e muitos apelos à reflexão sobre o que somos e o que podemos fazer para melhorar a nossa condição física, mental e espiritual.

Vamos ainda perceber que há emoções que podemos controlar se pusermos em prática alguns hábitos (alimentares e não só) que irão ser um auxílio precioso nesse controlo. E acreditem que funciona!

Adoro este livro! É um excelente manual de vida! Volto sempre a ele no início de cada estação e encontro sempre coisas que me parecem novas, mas que já lá estavam, apenas eu não tinha reparado nelas e está escrito de uma forma tão clara que se torna perceptível mesmo para quem não navega nestas áreas.

Aprendi muito com este livro! Aprende-se sempre muito com o Lourenço!

Palmira Estalagem

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

"Ghost" de Jason Reynolds

NÃO ACREDITO QUE ESTE LIVRO TENHA TERMINADO ASSIM! Estava prontinha para correr a prova de atletismo mais importante da minha vida e PUM! Soou o tiro... 

Mas voltemos ao princípio! Castle ou Ghost como gosta de se chamar é um miúdo que vive mum bairro problemático, que tem um pai problemático, um colega também problemático que faz bulling com ele... Tem toda a sua pequena vida "feita num oito". Até que é pescado para participar numa corrida e ingressar num clube de atletismo e, embora algumas coisas ainda se compliquem mais de princípio, outras há que começam a acalmar...

Gostei muito desta leitura! O protagonista fala-nos na primeira pessoa e conta-nos um pouco do seu dia a dia: o bulling, o racismo, as dificuldades que o obrigam a crescer mais depressa. Uma leitura fluída, empática, a que ficamos presos logo de início! E o final... Oh céus! O final matou-me!

Terminado em 30 de Julho de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Castle Cranshaw, ou Ghost, como ele próprio se intitula, é um miúdo considerado “problemático”.

Vive sozinho com a mãe e uma das coisas de que mais gosta é descobrir novos recordes do guiness. Um dia, ghost passa por uma equipa de atletismo que está a treinar e fica com vontade de experimentar.

Ghost impressiona todos os presentes com a sua incrível velocidade e o treinador convida-o para entrar na equipa, mas com uma condição: ele tem de ter bom comportamento e bons resultados não só na corrida, mas também na escola.

Não é assim tão fácil manter-se fora de sarilhos, mas ghost integra-se no grupo e aprende as maiores lições com os seus erros e com as revelações dos colegas e do próprio treinador.

Ao longo do livro é ghost quem nos conta a sua história, que nos revela a importância do desporto, da amizade e da capacidade de sacrifício para se superar na pista e fora dela.

Cris

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Experiências na Cozinha: "Alma Feliz"

Trazemos-vos, eu a Palmira, mais uma delicícia que vão querer provar de certeza!. Desta feita retirámos a receita do livro de Grace Kelly, "Alma Feliz". Este não é um simples livro de receitas. Ele fala-nos num estilo de vida onde o ioga tem um papel de relevo. Dá-nos dicas e conselhos para mudarmos, aos poucos, pequenas coisas na nossa vida que nos vão trazer bem estar e saúde.

A alimentação possui, como não poderia deixar de ser, um papel primordial. Escolhemos um prato principal que se mostrou delicioso! É um empadão de couve-flor com cogumelos shitake no meio. Simplesmente maravilhoso!

Deixamo-vos as fotos e a receita! Escusado será dizer que poderão acrescentar algo mais ao recheio ou até alterá-lo conforme as vossas preferências. Nós podemos garantir que este assim está perfeito.

Ora vejam: 








Cris

sábado, 27 de julho de 2019

Na minha caixa de correio




Oferecidos pelas editoras parceiras:
Deixa-me mentir, Cultura Editora
Annabelle, Planeta
Coração, Sextante
A Mulher que Escondeu Anne Frank, Alma dos Livros

À Queima Roupa, oferecido por um amigo dos livros

Os restantes foram comprados num alfarrabista e FLL ( pedi a duas amigas para mos comprarem e ainda não as tinha visto)