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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

"A Casa da Beleza" de Melba Escobar

Apercebi-me que não tinha ainda postado a opinião que fiz deste livro e, por isso aqui vai ela! Foi escrita a quente como perceberão pela emoção nela contida mas, se a fosse escrever hoje, não retiraria nenhuma palavra. Que melhor elogio se pode fazer? 
Colômbia. Bogotá. Ainda está muito presente em mim a sensaçāo de aperto que senti ao acabar de ler as últimas páginas deste livro. E sinto que este final que achei tāo sufocante corrobora em pleno com a ideia que tinha deste país, desta cidade. Corrupçāo, dinheiro sujo e fácil e, sobretudo, uma injustiça gritante que me revolveu o estômago ao terminar esta leitura.
Gostei muito, portanto. Mas, fiquei incomodada. Muito. Queria poder mudar o fim, alterá-lo! Nāo porque ele seja mau, nāo. Para final de um livro está perfeito. Mas porque na vida nāo deviam existir finais assim e, no entanto, eles estāo aí, presentes nos jornais, no mundo. Na vida. E foi isso que me incomodou. Essa semelhança com a realidade. Felizmente, creio, ainda longe deste cantinho do mundo que é Portugal. Espero. Mas muito perto da ideia que tenho desse país.
A sinopse está perfeita. Dá apenas uma pequena ideia do que poderá ser este livro. Pequena, muito pequena ideia. E é isso que é suposto uma sinopse fazer: dar uma leve ideia da trama do livro e nāo revelar de todo o seu conteúdo.
Recomendo!
Terminado a 13 de Maio de 2018
Estrelas: 5*
Sinopse
Karen, esteticista de profissão, muda-se de Cartagena para Bogotá em busca de uma vida melhor. Ao chegar, não só consegue trabalho como depiladora n'A Casa da beleza como ainda se transforma na chave para resolver o mistério da morte de uma das suas clientes - uma jovem, vestida com o uniforme da escola, que aparece morta no dia a seguir a ter visitado Karen no salão.

Com quem se ia encontrar a cliente de Karen?

Entre conversas íntimas e confissões, Karen acabará por ser a confidente de uma psicanalista, da mulher de um congressista, de uma famosa apresentadora de televisão e de uma mãe desolada que busca justiça num país onde a verdade só pertence àqueles que podem pagar por ela.

A Casa da Beleza é uma radiografia descarada de um país em que os ideais sucumbem facilmente perante a corrupção, a injustiça e a cultura do dinheiro fácil. No melhor estilo da novela negra, esta é um,a história que mostra o pior da América Latina de hoje. Tendo por cenário um afamado salão de beleza de Bogotá, o tema de fundo são as relações de poder, desenhadas a partir das vozes de três mulheres que vão tecendo uma trama de histórias para desmascarar uma sociedade construída sobre mentiras.
Cris

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A Escolha do Jorge: “Uma Manhã Perdida”



“Protege-nos, por conseguinte, uma inexorável lei do progresso ou andamos permanentemente num círculo?” 
(p. 166)

A questão colocada acima pode servir de mote para este romance “Uma Manhã Perdida” da romena Gabriela Adameșteanu (n. 1942), publicado pela primeira vez em 1984, nos últimos anos da presidência de Nicolae Ceaușescu (1918-1989).

Uma longa narrativa centrada na personagem da septuagenária Vica Delcă que revisita grande parte do século XX da História da Roménia, desde as vésperas da 1ª Guerra Mundial (1914-1918) até à década de 70, sensivelmente.


Vica Delcă é uma uma sobrevivente e uma lutadora, um exemplo de resiliência no contexto da História complexa do seu país. Órfã desde os 11 anos, Vica tomou a responsabilidade de criar os seus irmãos mais novos quando ainda mal conseguia tomar conta de si. Ajudada por vizinhos e amigos, Vica relata-nos inúmeras histórias de dificuldades económicas, lutando a todo o custo para que ela e os irmãos não morressem à fome. Os relatos de Vica adquirem um tom que, por vezes, nos magoa moralmente, na medida em que a palavra «fome» é a que mais se repete ao longo de “Uma Manhã Perdida”.

A fome crónica de Vica é tão-somente um reflexo da fome que se faz sentir em toda a Bucareste e na Roménia em geral ao longo do século XX. Antes, durante e depois das duas guerras mundiais, não importando qual o regime político vigente naquele país do Leste europeu, esmagou por completo toda uma população que se tornava cada vez mais pobre e triste, num país cinzento marcado continuamente, como se tornasse uma espécie de destino ou sina do povo romeno. “Portanto, uma direção infeliz, para a qual é fácil levar este povo, enterrando-o cada vez mais na corrupção e na pobreza.” (p. 148)

Vica Delcă sai de casa, numa manhã, bem cedo, para visitar a sua cunhada e o sobrinho, num outro bairro de Bucareste. No decurso do trajecto, ouvimos o pensamento de Vica que nos vai relatando sobre a marido, com pouca mobilidade, a perda do irmão, a forma como vive a cunhada e o sobrinho que ao visitá-los se apercebe que têm muito pouco para comer, a visita às madames, na expressão do sobrinho Gelu, para quem trabalhou fazendo pequenos trabalhos de modista, muitas vezes passajando e remendando tecidos envelhecidos, quase sem préstimo para que as senhoras, aparentemente com mais dinheiro possam vestir algo diferente, marcando ainda a diferença numa sociedade decadente.

Antes de sair de casa, Vica coloca em sacos todo um conjunto de tralha velha que considera poder vir a servir àqueles que visita. O certo é que numa sociedade cinzenta, marcada pela pobreza e pela fome, as pessoas contentam-se e sujeitam-se a tudo o que lhes provém.

As dificuldades de Vica e a fome são tais que os seus pensamentos se repetem inúmeras vezes à medida que surgem os vários interlocutores, como por exemplo: “(…) Vivem duas alminhas com apenas seiscentos lei, e a renda da casa, e a luz e a televisão.” (p. 69)

Durante as suas visitas, Vica está sempre com fome, esperando que lhe ofereçam uma fatia de pão ou algum dinheiro, como no seguinte excerto:
“- Toma lá, Vica – dizia-lhe a Madame Ioaniu -, se calhar faz-te falta…
- Dê cá – respondia ela -, dê cá, que eu sou o seu balde do lixo…” (p. 60)

O mesmo acontece em casa da cunhada que aproveita o pão velho cujo destino é o lixo ao que Vica se antecipa dizendo:
“- Porquê deitá-lo fora? – diz ela. – Dá-mo cá, que eu sou o teu balde de lixo…
O Gelu farta-se de rir quando a ouve! E ela leva o pão para casa, faz pão ralado, põe no chá, molha-o e come-o à colherada. Ao menos isso ganha com a cunhada.” (p. 37)

São muitas as formas usadas por Vica e a população em geral enganar a fome, como as descritas acima. Vica deambula pela cidade durante um dia inteiro e acabamos por perceber que sai de casa porque considera que tem de ajudar os outros, embora no seu íntimo tente mendigar de porta em porta no sentido de enganar a fome.

Entre recordações e humilhações, Vica conclui que perdeu o seu tempo. Percorre Bucareste de uma ponta à outra para receber uma fatia de pão e cinquenta lei, uma espécie de complemento de reforma, oferecida por Ivona em memória da madame Ioaniu, sua mãe, do tempo que Vica fazia os seus trabalhos de modista.

As histórias que giram em torno dos cinquenta lei, o dinheiro que tanta falta faz a Vica e ao seu marido, mas que Ivona, tendo com o marido uma boa pensão, acabamos por perceber que também passam dificuldades, não esquecendo o facto de o seu filho se encontrar exilado em França.

Este jogo entre as palavras verbalizadas e o pensamento é um “tour de force” em relação à mesquinhez e pequenos ódios e raivas que, no fundo, somente reflectem o ambiente cinzento vivido nos dias da ditadura que torna as pessoas medrosas, relegando-as para a sua solidão, numa época em que o regime transformava cada cidadão num potencial delator.

"Nós, bem intencionados, generosos, idealistas, não temos nem nunca teremos ao nosso dispor mais do que as palavras! Por isso acontece com tanta frequência darmos por nós impotentes e sozinhos, e, como se sabe, a solidão traz consigo o desejo egoísta de nos pouparmos e o medo..." (p. 278)

A narrativa avança muito lentamente ao longo de um dia que afinal se pretende que passe rápido para que não se faça nada novamente. É uma espécie de morte lenta em que todas as pessoas estão anestesiadas. É esta cadência do tempo asfixiante que marca as rotinas diárias sem sentido, de uma sociedade sem sentido, de um país sem sentido e sem rumo. Perante esta conclusão de perda de tempo, diz Vica a dada altura do dia: “Eu é que sou parva, em vez de ficar na minha casinha onde não me falta nada, fiz-me à rua só para ficar um pacote de nervos. Quando penso no caminho que inda tenho de correr para voltar a casa, nem me apetece levantar daqui da poltrona. Mas tenho de me levantar! Ao menos que coma um bocadinho de pão!” (p. 127)

A indiferença que as pessoas sentem umas pelas outras é outra das ideias bem vincadas nesta obra. Ninguém vale nada, ninguém tem qualquer préstimo, perderam-se os valores e até as relações amorosas esfriam. Acalentam-se ódios, guerrinhas e traições entre as pessoas que fingem apreço entre si, mas surgida a oportunidade surgem momentos desta natureza: “Porque não ficas em casa, hem? Anda a morte à tua procura e tu à nora pela cidade – diz o guarda-freio.” (p. 48)

É esta imagem de pessoas alucinadas e aparvalhadas por uma vivência sem sentido numa Bucareste estranha e que a todos engole para um precipício sem fundo onde se desenrola “Uma Manhã Perdida” de Gabriela Adameșteanu.

Se por um lado chegamos a rir com as palavras de Vica Delcă, por outro, ficamos incomodados com a pobreza e a corrupção vividas na Roménia, como se se tratasse da sina do país. É esta ideia de quando é que isto tem um fim que mais parece o início de algo igualmente mau, tenebroso e ainda mais cinzento, um funesto destino reservado àquelas gentes. “(…) Tencionava perguntar-lhe, meu caro, se já viu um povo europeu tão pouco confiante em si próprio. Arriscava-me até a dizer mais: um povo que se despreze a si próprio?” (p. 299)

Não raras vezes, as passagens de “Uma Manhã Perdida” têm uma forte correspondência com a História de Portugal, em especial os anos da ditadura e mesmo com a passagem para a democracia, acabamos por perceber que há tanto de Roménia em Portugal, assim como a Vica Delcă é somente uma entre milhares e milhares de portugueses que, embora vivam em liberdade, nem sempre têm consciência dos agrilhões à sua volta.

Excertos:
“(…) Enquanto a vida política e a social andarem normalmente, e tu fores um ser normal, sem sombra de idealismo, então podes ter a ilusão da tua vivência isolada. Mas não passa disso mesmo, duma mera ilusão, em que é raro caírem aqueles que trabalham para construir a cultura de um povo. Porque o primeiro resultado da cultura é o cimentar relações de solidariedade – na horizontal, com os membros da sociedade que lhe é contemporânea, e na vertical, com as gerações anteriores. Portanto, mesmo aqueles que trabalham com sinceridade para edificar a cultura de um povo, mesmo que pensem neles próprios como individualidades autónomas, como se fossem, assim, o umbigo do universo – isso mesmo! -, não podem deixar de sentir, pelo menos de quando em vez, que pertencem a um organismo unitário. E em momentos como parece ser o que vivemos presentemente, quando os interesses coletivos começam a passar para a primeira linha, em tais momentos difíceis, quem for de boa-fé, vai descobrir que é impossível separar o seu destino do dos outros…” (p. 154)

“- Porque neste país, meus caros, as pessoas parece que já nasceram cansadas e resignadas, como se tivessem vivido outras tantas vidas difíceis e desgostosas, e desistiram há muito de lutar contra o mal todo-poderoso. E a desordem, o caráter provisório de tudo, o primitivismo multiplicam-se espontaneamente… Como os micróbios no meio do pó… Existem no ar, qual fermento da desordem…
- Como uma enzima – ri o convidado.
- Como uma enzima, se quiser – concede o professor. – Um micróbio todo-poderoso da corrupção, do caos, do trabalho feito em cima do joelho. Os males de que se queixava o meu pai e dos quais nem nós parámos de nos queixar. E tudo junto forma essa formidável inércia em que as energias ficam presas, pervertidas e se afogam.” (p. 281)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

"A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata" de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows

Várias pessoas disseram-me que este livro era muito bom. Para além de saber vagamente que o tema de fundo era a II Guerra Mundial, nada mais conhecia sobre o enredo ou sobre os personagens. E é assim que gosto de pegar num livro: conhecer alguém meu amigo que o tenha lido e gostado mas não saber muito sobre ele.

E é tão bom quando saboreamos delicadamente um texto, quando as palavras nele contidas fazem sentido para nós e quando, sem saber se a história é veridica ou não, acreditamos nessas palavras mágicas, escritas certamente com amor, e a verosimilhança com a realidade é tal que nos transporta para esse momento descrito! Foi tudo isso que senti quando estava a ler esta obra e, mesmo ainda a meio da leitura, soube que as estrelinhas atribuídas iriam ser muitas...

É escrito sob a forma epistolar. Acredito que não deva ser tarefa fácil contar uma história, mantendo o ritmo, através de cartas, telegramas, bilhetes deixados ficar como recados urgentes, já que pouco mais havia na época descrita, nos anos que se seguiram à da II Guerra. E no entanto, a história flui maravilhosamente e as personagens dão-se a conhecer facilmente.

O enredo decorre numa das ilhas do Canal da Mancha, Guernsey, sendo que o espaço temporal, como referi, se situa no pós II Guerra. As vivências dos personagens na época da guerra e que eles relembram dão-nos a conhecer uma Sociedade Literária com um nome bastante sui generis e que surgiu para contornar  as pesadas regras impostas pelos alemães. Se para alguns membros os livros pouco significado tinham, para outros eles constituiam uma verdadeira paixão! E foi muito engraçado assistir ao nascimento dessa paixão que os livros são capazes de nos fazer sentir por parte das personagens mais renitentes...

Fiquei com vontade de ver o filme para saber como se portaram as personagens na tela e se correspondem áquilo que imaginei. Arrisco-me a que a desilusão se instale em mim mas, mesmo assim vou procurá-lo e assistir...

Recomendo sem reservas!


Terminado em 25 de Agosto de 2018

Estrelas: 5*


Sinopse
Londres, 1946. Depois do sucesso estrondoso do seu primeiro livro, a jovem escritora Juliet Ashton procura duas coisas: um assunto para o seu novo livro, e, embora não o admita abertamente, um homem com quem partilhar a vida e o amor pelos livros. É com surpresa que um dia Juliet recebe uma carta de um senhor chamado Dawsey Adams, residente na ilha britânica de Guernsey, a comunicar que tem um livro que outrora pertenceu a Juliet. Curiosa por natureza, Juliet começa a corresponder-se com vários habitantes da ilha. É assim que descobre que Guernsey foi ocupada pelas tropas alemãs durante a segunda Guerra Mundial, e que as pessoas com quem agora se corresponde formavam um clube secreto a que davam o nome de Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata. O que nasceu como um mero álibi para encobrir um inocente jantar de porco assado transformou-se num refúgio semanal, pleno de emoção e sentido, no meio de uma guerra absurda e cruel.

Cris

terça-feira, 28 de agosto de 2018

"A Campânula de Vidro" de Sylvia Plath

Sabem aquela sensação estranha de quando uma personagem, do nada, começa a fazer algo que não se coaduna com a sua aparente personalidade e achas que deves ter perdido algo na leitura (às vezes a minha mente vagueia sem eu querer e distancio-me do que estou a ler, necessitando depois de voltar atrás e reler)? Foi o que senti a meio deste livro! 
Escrito na primeira pessoa, com um carácter intimista que nos coloca muito próximo da personagem, a narrariva deste livro flui lenta mas com uma consistência que não nos permite sequer pensar afastar-nos das suas páginas.
Esther foi uma excelente aluna, ganhando prémios e bolsas. Num determinado período, através também de uma bolsa, vai para NY trabalhar numa revista. Assistimos aos seus dias na grande cidade e depois o seu regresso a casa, onde fica a saber que não lhe vai ser atribuída uma outra bolsa que iria definir um pouco o seu futuro. E é aí que se dá a reviravolta que referi, pois o seu comportamento altera-se, tornando-se obsessiva, doentia, depressiva, frequentando alguns psiquiatras e suas clínicas na tentativa (falhada) de conseguir sair da redoma de vidro em que se sentia metida. Sem esquecer que estamos em 1953, vemos passar pelos nossos olhos tratamentos inimagináveis nos nossos tempos (estou a lembrar-me, por exemplo, de choques eléctricos).
Voltei atrás, reli, e procurei nas páginas lidas algo na personagem que revelasse esse caracter instável ou algum acontecimento que a fizesse mudar repentinamente e, tirando o facto de não ter ganhado a bolsa, nada encontrei. E foi aqui que me perguntei até que ponto esta história não seria uma autobiografia... perguntei-me até que ponto um contratempo (que às vezes a vida nos oferece sem que estejamos à espera) poderia, de facto, ter despoletado uma alteração comportamental extrema. Achei sobretudo que os factos narrados estavam excepcionalmente bem descritos com uma veracidade e crueza tais que me pareceu que a autora os tinha vivido na realidade. No Posfácio verifiquei efectivamente que muitos acontecimentos narrados foram, de facto, verídicos e vividos pela autora.
É um livro denso, pesado que nos faz pensar em como a depressão pode mudar e alterar drasticamente a vida de alguém. Gostei e recomendo!
Terminado em 22 de Agosto de 2018
Estrelas: 5*
Sinopse
«The Bell Jar veio pela primeira vez a público em Inglaterra, no dia 14 de janeiro de 1963, editado pela Heinemann, com autoria atribuída a Victoria Lucas. O motivo que terá levado Sylvia Plath a recorrer a um pseudónimo prende-se com a óbvia coincidência existente entre personagens, eventos e lugares ali descritos, e a realidade biográfica da autora. Essa confusão entre realidade e ficção tem servido, ao longo dos anos, a uma vasta panóplia de equívocos que mais não fizeram do que dissimular o lugar da sua obra poética e narrativa na literatura anglo-americana contemporânea.» Do Posfácio

Cris

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A Escolha do Jorge: "A Marcha de Radetzky"


«Este reino tem de acabar. Logo que o nosso Imperador fechar os olhos, desmanchamo-nos em cem bocados. Os Balcãs vão ser mais poderosos do que nós. Todos os povos vão fundar os seus estadozinhos miseráveis, e até os judeus vão aclamar um rei na Palestina.” (p. 127)

Escrito em 1932, “A Marcha de Radetzky” (1932) constitui uma das mais sólidas e icónicas obras de Joseph Roth (1894-1939), um dos escritores europeus mais importantes do século passado e, contudo, tão esquecido. Stefan Zweig (1881-1942), seu contemporâneo, escreve nas primeiras páginas, numa espécie de prefácio, exaltação do autor, da necessidade do seu reconhecimento perante um mundo em decadência, tecendo também algumas considerações sobre “A Marcha de Radetzky”.

“Dizer adeus é uma arte difícil e amarga, que estes últimos anos nos permitiram aprender amplamente, direi mesmo mais do que amplamente.” (p. 7), diz Stefan Zweig na introdução da obra.
Estes dois autores, recorrendo ao seu sentido apurado e de análise da sociedade do seu tempo, bem como do comportamento e mente humanas, reflectiram nas suas obras uma espécie de profecias para o que viria a acontecer na Europa e no mundo perante a ideia evidente de que os valores que caracterizavam e organizavam a cultura centro-europeia se encontravam em desagregação, tudo caminhava para um fim. “O declínio da velha cultura austríaca, plena de distinção, tornada impotente pela sua nobreza de alma, foi o que ele quis mostrar através da personagem de um Austríaco, derradeiro representante de uma raça em vias de extinção.”, refere mais à frente Stefan Zweig.

Pela introdução acima, “A Marcha de Radetzky” retrata os últimos cinquenta anos do Império Austro-Húngaro com a Batalha de Solferino, em 1859, até ao início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Três gerações da família Von Trotta são aqui retratadas, ligadas todas à vida militar, das quais, o primeiro, o avô, recebe o título de barão Von Sipolje (aldeia eslovena) na sequência de ter quebrado o protocolo e ter protegido o Imperador Francisco José de ser alvejado, ficando também conhecido como o Herói de Solferino.

Com o passar dos anos, o Herói de Solferino caiu no esquecimento ainda que no seio da família continuasse a servir de referência ao filho que se tornou comissário distrital e ao neto, Carl Joseph, tenente, no Império em decadência, mas mantendo a profunda lealdade ao Imperador.

Mesmo perante a ideia e até a evidência de decadência do Império, a simples ideia de lealdade constituía um sinónimo de conservação dos ideais de uma cultura e política centro-europeia comandadas pela figura do Imperador.

«Este reino tem de acabar. Logo que o nosso Imperador fechar os olhos, desmanchamo-nos em cem bocados. Os Balcãs vão ser mais poderosos do que nós. Todos os povos vão fundar os seus estadozinhos miseráveis (…).” (p. 127) O final do século XIX e início do século XX caracterizaram-se pela forte tensão nas várias regiões do Império Austro-Húngaro que lutavam a todo o custo pela sua independência, nomeadamente nos Balcãs, a sul, onde aumentava o foco de tensão, do mesmo modo que ao longo da narrativa se percebe da importância dos postos fronteiriços a leste com a Rússia.

A tensão aumentava não só a partir de dentro dos Impérios, mas também entre Impérios. O odor a desagregação andava no ar e a guerra era aguardada e ainda que se travassem batalhas aqui e acolá e se calassem eventuais tentativas independentistas, a guerra a uma escala alargada era inevitável. O assassinato do príncipe-herdeiro, Francisco Fernando, em Sarajevo, em 1914, constituiu a bomba-rastilho que desencadeou a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

“A Marcha de Radetzky” (1932) de Joseph Roth é uma obra que deve ser lida em parceria com “A Ponte sobre o Drina” de Ivo Andric (1892-1975; Prémio Nobel de Literatura em 1961) na medida em que ambas as obras retratam as mesmas temáticas, culminando com a guerra.

Enquanto “A Marcha de Radetzky” retrata o Império Austro-Húngaro nas regiões mais a norte e a leste e com um forte enfoque na relação e dependência com Viena, a capital imperial e a ligação ao imperador, “A Ponte sobre o Drina” retrata as regiões mais a sul, os Balcãs, e a dificuldade de articulação com Viena pelas diferenças culturais e sociais, pela não partilha dos mesmos ideais, daí os focos de tensão e desejos independentistas.

Contudo, em ambas as obras, denota-se a ideia de modernidade dos tempos, o que vai acontecendo um pouco por todo o Império em matéria de desenvolvimento até à entrada no século XX.

Joseph Roth em “A Marcha de Radetzky” faz a síntese de alguns dos seus romances, assim como do ensaio “Judeus Errantes” como forma de compreendermos a dinâmica social e cultural nas suas diversas vicissitudes.

“A Marcha de Radetzky” constitui, desta forma, uma das mais emblemáticas e importantes obras do percurso literário Joseph Roth cuja melancolia é palavra de ordem nas suas entrelinhas face a um mundo em desagregação nas vésperas do seu desaparecimento.

Uma obra singular em que a nostalgia e o sentimento de perda atravessa toda a narrativa com a escrita elegante e doce de Joseph Roth que agarra o leitor do princípio ao fim da narrativa.

Excerto:
“«Era assim que eu gostava de morrer, meu caro Slama!», disse ele em vez do habitual «Deus o acompanhe!», e foi para o salão.
Escreveu as disposições para a colocação no caixão e para o funeral do seu criado numa grande folha de papel da repartição, com todo o cuidado, como se fosse um mestre-de-cerimónias, ponto por ponto, com todos os efes e erres. Na manhã seguinte foi à procura de um túmulo, no cemitério, comprou uma pedra tumular e mandou gravar o seguinte: «Aqui repousa, na paz do Senhor, Franz Xaver Joseph Kromichl, chamado Jacques, velho criado e amigo.» E encomendou um funeral de primeira com quatro cavalos e oito acompanhantes de libré. Foi, passados três dias, a pé, atrás do caixão como única pessoa de luto, seguido a conveniente distância pelo sargento Slama e muitos outros que se juntaram porque conheciam Jacques e especialmente porque viam o senhor Von Trotta a andar a pé. E foi assim que um número considerável de funcionários do Estado acompanhou o velho Franz Xaver Kromichl, chamado Jacques, até à sua última morada. 
A partir de então, o comissário distrital sentiu que a casa tinha mudado, que estava vazia e já não era acolhedora. Não voltou a encontrar o correio ao lado da bandeja com o pequeno-almoço, e até hesitava em dar novas indicações ao funcionário do serviço. Não voltou a tocar em mais nenhuma das suas campainhas de prata e quando, por vezes, à tarde, se punha à escuta pensava ouvir os passos de fantasma do velho Jacques a subir a escada. Por vezes ia ao quartinho em que Jacques tinha vivido e dava ao canário um torrão de açúcar, por entre as grades da gaiola.” (pp. 140-141)

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 21 de agosto de 2018

"Nada é por Acaso" de Maria Roma

Romance lido para o projecto de leitura #bookbingoleiturasaosol2 na categoria "livro cuja história se passe no Verão".  Ler este livro não foi difícil, embora, no início, fizesse alguma confusão com as personagens e os seus nomes, visto serem bastantes e não estar ainda habituada às suas especificidades. Nada que não se resolvesse com um papel e lápis...
É um romance leve (categoria "chick lit"), bom para quem se quer envolver num enredo amoroso, com traições à mistura, gente fútil de um lado, embora ligadas a profissões de topo, e personagens com mais conteúdo de outro lado. 
Adivinha-se o final a meio do livro mas creio que, para o público a que se dirige, cumpre o seu objectivo: entreter e distrair. É um livro para quem gosta de romances de amor fortes e, às vezes algo impossíveis, e que faz sonhar com dias de verão e amores tórridos. Sempre com consequências...
Não é um tipo de livro que leio habitualmente mas não custou nada a ler. Se o que vos disse suscitou o vosso interesse, experimentem! 
Terminado em 15 Agosto de 2018
Estrelas: 4* -
Sinopse
Nada É Por Acaso é um romance sobre o amor, a paixão, o desamor ou os encontros fortuitos, intensos e arrebatadores. Tal como o belo lago de Sirmione - em Itália, onde decorre a ação - que que muda bruscamente de uma calma plácida e de um calor intenso para uma tempestade arrasadora, também as personagens ganham força e solidez: numas prevalece a amizade, o amor intenso e a compaixão e noutras, o ciúme, a raiva, a inveja e até a vontade de prejudicar os outros de forma premeditada são tão naturais como respirar.

Mas Nada É Por Acaso é sobretudo uma história envolvente sobre a felicidade - perdida ou conquistada - em que o passado e o presente se entrelaçam num objectivo que todos, de formas diversas, anseiam alcançar.
Cris

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Para os Mais Pequeninos: Maria e Danilo e o Mágico Perdido

Já algum tempo que este livro vive na minha estante. Sabem que gosto de livros infantis, não é? Mas confesso que fui atraída para esta leitura porque adoro a escrita de Richard Zimler e fiquei curiosa. Como será a sua escrita quando dirigida a um público infantil?
Não fiquei espantada por gostar desta história nem, tampouco, pela mensagem nela contida! Vindo de Zimler não podia esperar outra coisa. 
É um livro que pode ser dirigido a um publico infantil que ainda precise que alguém leia para ele mas, também, para aqueles pequenitos que começam a desembaraçar-se sozinhos na leitura. 
E a história é tão bonita! E tão sabedora das pequeninas coisas que podem incomodar as crianças que possuem alguns defeitos físicos e que se achem inferiores por causa disso... Como ultrapassar esses problemas que podem constituir um handicap para o desenvolvimento harmonioso de uma criança? E como fazê-las acreditar que o mais importante não é o especto físico nem o que algumas pessoas (maldosas!) as fazem sentir?
Uma história maravilhosa que vão querer ler aos vossos amigos mais pequenitos! Podem acreditar!
Vejam algumas imagens:





Cris

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

"Os Loucos da Rua Mazur" de João Pinto Coelho

Escrevo esta review ainda a quente! Prefiro fazê-lo para que o que senti ao ler este livro não seja mascarado por um pensamento mais seletivo, para que o que escrevo seja mais genuíno.
As primeiras páginas desta leitura foram algo custosas. Não consegui deixar de comparar constantemente com o livro anterior do autor, que amei, e em cujo enredo "entrei" com uma rapidez incrível. Foi mais difícil esta história fazer parte de mim e, mesmo achando que depois todo o restante livro compensou esse facto, não quero deixar de vos falar disso... Assim, nas primeiras 100 páginas e sobretudo nalguns momentos em que o autor descreve o passado (nordeste da Polónia, antes da Segunda Guerra) a minha cabeça vagueou um pouco. 
Após essa dificuldade inicial, compreendi o que tinha em mãos. Um romance soberbo, espectacular, baseado num facto verídico mas pensado exaustivamente, com cabeca, tronco e membros. Adorei a dureza das descrições, a subtileza e sensibilidade do amor entre Shionka e Yankel, a narrativa contada num livro que é escrito durante este romance, o escritor / personagem Eryk com o seu ciúme e mágoas acumulados, o despeito, o ódio e a raiva conjunta de um povo face a outro. O inacreditável e o impensável. 
Um livro que me fez pensar nas "segundas guerras" a que assistimos nos nossos dias e que nos passam indiferentes pelos nossos olhos. Tantas! Que participação temos nelas? Com que indiferença e egoismo assistimos às "guerras" de hoje contra o Homem e contra o Planeta, ficando indiferentes?
Um livro que mereceu o prémio que teve. Amei.
Terminado em 12 de Agosto de 2018
Estrelas: 6*
Sinopse
Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.
Paris, 2001. Yankel - um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama - recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram - e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk - hoje um escritor famoso - está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira.

Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne - a editora que não diz tudo o que sabe -, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Na senda do extraordinário Perguntem a Sarah Gross, aplaudido pelo público e pela crítica, o novo romance de João Pinto Coelho regressa à Polónia da Segunda Guerra Mundial para nos dar a conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis, mostrando-nos também como a escrita de um romance pode tornar-se um ajuste de contas com o passado.

Cris

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

"Um Cântico de Natal" de Charles Dickens

Peguei neste livro porque um desafio de leitura "obrigou-me" a tal... Encontrar um escritor que tivesse as mesmas iniciais que eu e ainda por cima possuir um livro dele nas minhas estantes não me pareceu tarefa fácil. Contudo, ao vasculhar com atenção vi este livro reeditado pelo Clube do Autor e Charles Dickens (C.D.) surgiu-me como um anjo nas minhas prateleiras! Tenho tambéns deste autor "Grandes Esperanças" mas sendo uma edição mais velhota, este "Um Cântico de Natal" pareceu-me mais apelativo.
Que vos posso dizer de um livro cujo filme me lembro de ter visto em criança? E que voltei a ver, repetidamente, na TV, nalguns Natais após isso? Soube-me bem visualizar as imagens que retive desses tempos e voltar a ver Mr. Scrooge e os "seus" fantasmas... 
Terminado em 17 de Agosto de 2018
Estrelas: 4*+
Sinopse
"Um Cântico de Natal" é uma das histórias mais famosas da literatura e, sem dúvida, o conto de Natal por excelência. «Um daqueles raros livros que deu expressão a algo enorme. Acredito que a própria vivência do Natal foi tocada por estas páginas.(…) Uma obra que nos faz pensar e que nos faz sentir. É por isso que continuará a ser lida, não importa quantos séculos passem. As questões que levanta nunca perderão atualidade (…).» José Luís Peixoto in Prefácio «A arte de Dickens deu origem a algumas das obras mais marcantes de sempre.» The New York Times
 
Cris