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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A Escolha do Jorge: “Billy Budd, Marinheiro”

 
“Billy Budd, Marinheiro”, obra de Herman Melville (1819-1891) publicada postumamente tornou-se, a par de “Moby Dick” e “Bartleby” noutra das grandes referências do escritor norte-americano, sagrando-o como uma das figuras incontornáveis da literatura contemporânea.
      “Billy Budd, o Marinheiro” é uma narrativa breve que nos remete para o ano de 1797, num navio de guerra britânico, o Bellipotent, que saía de Inglaterra para se juntar à frota no Mediterrâneo.
Billy Budd, obrigado a alistar-se no Bellipotent, rapidamente chamou a atenção de toda a tripulação tendo em consideração os seus atributos estéticos, sendo um indivíduo de rara beleza, reflectindo, pelas descrições ao longo da obra, como uma espécie de deus grego. A imagem fresca e jovem de Billy Budd levaram a que fosse habitualmente apelidado de Marinheiro Bem Parecido.
      Mas John Claggart, o mestre-de-armas, desenvolveu uma inveja profunda face a Billy Budd, e ainda que demonstrasse por este alguma simpatia, desenvolveu uma artimanha do mais mesquinho que pode existir, na tentativa de incriminar o marinheiro como estando a fomentar um motim entre a tripulação à semelhança daquilo que já tinha ocorrido na Primavera desse ano, em 1797, que ficou conhecido por a “Grande Revolta”, na baía de Nore.
      No entanto, a atitude de John Claggart é ainda mais complexa na medida em que a inveja demonstrada por Billy Budd nada mais é do que a atracção que sente pelo marinheiro e numa tentativa de ocultação da sua tendência, seria preferível eliminar o objecto do seu desejo sem atrair as atenções face à sua natureza.
      “É habitual que a mais subtil depravação emparceire com a invulgar prudência, por tudo ter de ocultar.” (p. 76)
      “A inveja de Claggart batia mais fundo. Se olhava de esguelha para o bom ar de Billy Budd, para a sua jovial saúde e a forma franca como gozava a vida, fazia-o por ela seguir a par com uma natureza que nunca tinha querido na sua simplicidade o mal, nem sofrera o retorno da sua mordidela de serpente; Claggart sentia isto de uma forma magnética." (p. 73)
      De toda a tripulação, John Claggart era o único elemento que olhando para Billy Budd conseguia perceber que se tratava de uma espécie rara de homem, com atributos (quase) divinos, em que uma mesma pessoa constituía em si mesma a fusão entre a beleza e o bem e a justiça ou a clara harmonia entre a estética e a ética.
      “E esta perspicácia só intensificava a paixão, que assumia formas variadas e secretas, por vezes a do cínico desdém, o desdém pela inocência – porque ele mais não era do que inocência! Sob um ponto de vista estético via-lhe porém o encanto, a corajosa desenvoltura do temperamento, e partilhá-los-ia de boa vontade se não fosse o desespero que eles lhe causavam.” (p. 73)
      John Claggart destila aos poucos o seu ódio que (in)directamente minava e corroía por dentro a sua pessoa, acabando por fazer uma falsa acusação relativa a Billy Budd junto do capitão Vere, responsável pelo navio. Parco em palavras e com certa deficiência na voz, Billy Budd não se consegue defender pelo uso da palavra, desferindo então um golpe mortal no acusador, o mestre-de-armas.
      Face ao sucedido, há a necessidade de aplicar a lei, a lei marcial que é o reflexo do cumprimento da lei natural face à evidência dos factos. O homicida será punido através do enforcamento. Estamos, pois, perante a complexidade da aplicação da justiça na medida em que a inocência do Marinheiro Bem Parecido se transformou em culpado.
      Desta forma, o navio de guerra Bellipotent é comparado à sociedade em que vivemos em que não raras vezes os inocentes não têm voz para fazer face ao cumprimento da justiça em seu benefício. É certo que atendendo à evidência dos factos, a justiça foi cumprida, mas os problemas de consciência perduraram nos pensamentos do capitão Vere que, no leito da morte, aludia ao sucedido num continuado de sons quase ininteligíveis “Billy Budd, Billy Budd, Billy Budd…”
      Billy Budd faz a apologia do Bem ou encarna a figura de Jesus em oposição a John Claggart que encarna o Mal ou o Diabo. Quanto ao capitão Vere, este lavou as suas mãos tal como Pôncio Pilatos.

Texto da autoria de Jorge Navarro

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