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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Último Paraíso de António Garrido

Os livros deste autor terāo sempre um lugar na minha estante. Tenho A Escriba, ainda por ler, e O Leitor de Cadáveres que já li e adorei. A sua escrita é simples mas desperta a nossa curiosidade. Os temas escolhidos primam pela variedade e denota-se uma pesquisa intensa pois a ficçāo casa-se na perfeiçāo com aspectos da História, o que leva o leitor a confundi-los e dá credibilidade aos personagens de tal modo os julgamos reais! 

É difīcil, creio, António Garrido escrever algo melhor que O Leitor de Cadáveres. Confesso que esse livro apanhou-me de surpresa e ainda hoje, já muito tempo volvido, me lembro de algumas sensaçōes que ele me despertou. Talvez o factor surpresa tenha feito com que ficasse essa sensaçāo tāo boa, que dura até hoje. Na leitura de O Último Paraíso as expectativas eram muito elevadas... Epá! Acabei de ler o que escrevi e quase que aposto que dá a ideia que vou dizer que nāo gostei tanto desta leitura! Pois nāo, nāo vou dizer nada disso!

Gostei sim. Como nāo gostar? Romance, intriga e aspectos históricos que conferem veracidade à narrativa. Tudo aqui se encontra, tal como esperava. A viagem, desta feita, foi para a Uniāo Soviética, por volta do ano de 1930, quando muitos americanos, desesperados por uma vida melhor e para fugir à depressāo que assolava a América, partem para esse país buscando melhores condiçōes de vida. O último paraíso ou um paraíso sonhado, irreal?

Foi importante, no final destas páginas, tomar consciência do contexto socio-económico da época através de algumas palavas do autor bem como da história que está por detrás da fiçāo. Por tudo isto recomendo esta leitura. As páginas voam rapidamente. Gostei muito do final que faço questāo de nāo revelar, pois claro!

Terminado em 28 de Janeiro de 2017

Estrelas: 5*

Sinopse
Em 1929, o jovem e experiente Jack Beilis tinha o seu próprio carro, usava fatos feitos à medida e frequentava os melhores clubes de Detroit. Mas a crise brutal que nesse ano atingiu a América atirou-o, como a milhares de compatriotas, para os braços da fome e do desespero. Forçado a sair do país após cometer um crime, foge para a União Soviética, o império idílico onde a todos era igualmente garantido o direito à felicidade, sem suspeitar dos insólitos incidentes que o destino ainda lhe reserva. Inspirado em acontecimentos reais, este thriller combina magistralmente factos históricos, suspense e romance, resultando numa extraordinária reinvenção do mito do sonho americano.

Cris

sábado, 28 de janeiro de 2017

Na minha caixa de correio

   

  

  



Comprados na Feira da Ladra: Confia em Mim e Vegetariano Todos s Dias,
Da editora Chá da Cinco chegou 365 Dias com Saúde,
Oferta da Bertrand, Confissōes de Inverno,
Do Clube do Autor chegaram Quando o Amor Acontece, Passagem Para o Horizonte, Na Senda de Fernāo Mendes Pinto, Um Lugar Perto de Nós e No Princípio Estava o Mundo.




quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A escolha do Jorge: O Direito à Preguiça


Paul Lafargue (1842-1911) é um dos intelectuais revolucionários mais conhecidos ligados ao socialismo francês e na sua experiência no exílio, em Londres, dinamizou a Primeira Internacional. Genro de Karl Marx (1818-1883), é difícil dissociar a obra de um e de outro, na medida em que ambos foram acérrimos defensores do proletariado face ao crescente avanço do mundo industrializado numa lógica de associação com o capitalismo em geral.
Publicado em 1880, O Direito à Preguiça é um conjunto de quatro textos que reflecte sobre as consequências do desenvolvimento da agricultura e da indústria, no século XIX, conhecido na História como a 2ª Revolução Industrial.
Com o aumento da população que teve lugar a partir do século XVIII, verificou-se um aumento de mão-de-obra que ficou disponível para trabalhar nas minas e nas fábricas, não só pela pressão demográfica que conduzia a necessidades para provir, do mesmo modo que, devido à crescente
mecanização da agricultura, as pessoas viram-se na iminência de sair dos campos para as cidades e arredores, na tentativa de alcançarem melhores condições de vida.
Paul Lafargue refere que o aumento da população veio a embaratecer a mão-de-obra que, tendo aumentado, e estando tão disponível, o preço a pagar pela força do trabalho diminuiu para cerca de metade face ao valor que os trabalhadores auferiam antes de terem saído dos campos, no século anterior.
Mais, a pressão do lucro numa lógica capitalista, vai obrigar a que os patrões olhem para o proletariado como o outro lado da mercadoria, um meio para atingir o fim, neste caso, o aumento da produção que entrará nos circuitos económicos nacionais e internacionais. Por outro lado, a necessidade de trabalho para satisfazer as necessidades da prole, vai obrigar o proletariado a jornadas de trabalho que chegam às 14 horas diárias. É precisamente este aspecto que é criticado por Paul Lafargue e desenvolvido ao longo do ensaio, a submissão do proletariado por necessidade e por falta de conhecimentos constitui, em si mesmo, o motor para a exploração da classe desprotegida em detrimento daqueles que detêm os meios de produção e, consequentemente, o lucro.
“Uma estranha loucura domina as classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Essa loucura arrasta atrás de si misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Essa loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até à exaustão das forças vitais do indivíduo e da sua prole.” (p. 11)
É o trabalho exercido até ao limite das forças que impede o proletariado para o tempo livre, que não tem, para o ócio, tema igualmente desenvolvido por Robert Louis Stevenson (1850-1894), contemporâneo de Paul Lafargue, em “Apologia do Ócio”. Somente a possibilidade do ócio permitirá às classes trabalhadoras o acesso à escolaridade e, com o passar dos anos e das gerações, à tomada de consciência de classe e a necessidade de luta face aos seus direitos, subindo grau a degrau na busca da felicidade. “Não há dever tão subestimado como o dever de ser feliz.” (Robert Louis Stevenson, “A Apologia do Ócio”, p. 26, Antígona)
Com o aumento dos movimentos sindicalistas e a sua actividade, assiste-se a um efectivo decréscimo do número de horas da jornada diária, porém, não deixa de ser irónico, que além das inúmeras lutas travadas entre o proletariado e os senhores do capital, o certo é que a industrialização e mecanização da agricultura contribuíram também, a longo prazo, para a libertação do homem no que concerne aos trabalhos que exigem um esforço físico maior e, noutra perspectiva, à redução da jornada diária.
“O sonho de Aristóteles é a nossa realidade. As nossas máquinas, animadas pelo fogo, com membros de aço, infatigáveis, com maravilhosa fecundidade, inesgotável, cumprem docilmente por si próprias o trabalho sagrado; e, no entanto, o génio dos grandes filósofos do capitalismo continua dominado pelo preconceito do salariado, a pior das escravaturas. Ainda não compreendem que a máquina é o redentor da humanidade, o Deus que resgatará o homem das ‘sordidae artes’ e do trabalho assalariado, o Deus que lhe dará tempo livre e a liberdade.” (p. 85)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O convidado escolhe: Nos passos de Santo António - Uma viagem medieval

Confesso que não sou muito dado a "literaturas". As maratonas de 500, 400, 300 ou mesmo menos páginas intimidam-me e rapidamente perco o interesse antes de começar. Tudo isto porque não tenho a disciplina de leitura suficiente para acompanhar enredos minimamente complexos nem as características e evolução das personagens. Sinceramente  tenho pena, mas não dá... Sempre me refugiei em temas mais ou menos profissionais com algumas tímidas investidas em livros de política, ciência ou história.

Tudo isto a propósito de ter "tropeçado" há dias, numa livraria, com este último livro do Gonçalo Cadilhe e, mal o folheei e li umas diagonais, disse a mim próprio: "andas sempre a olhar para as mesmas prateleiras... nunca reparaste no género?" Sabia que existia mas nunca tinha verdadeiramente experimentado. Acho que encontrei o meu estilo de leitura. 

E posso dizer que foi uma agradável revelação. O estilo de escrita do autor é realmente cativante e permite galgar páginas com prazer e sem esforço. 

Revela-nos um Santo António viajante num trajecto que ele terá feito desde Coimbra até Itália e França, passando pelo norte de África. Onde os factos não se encontram suficientemente documentados, o autor deduz, de uma forma convincente, os caminhos que terá provavelmente tomado. De qualquer forma, não senti falta de eventuais "rigores históricos estritos". No caminho da descrição dos lugares e trajectos, ficam-me deste livro, as referências que o autor nos deixa à história, cultura e costumes dos lugares e dos povos que encontra. E ainda a descrição de episódios, peripécias e contactos com pessoas reais, com nome próprio, que pontuam aqui e ali a narrativa e a enchem de vivacidade.

Fiquei fã de Gonçalo Cadilhe. Terminado este, rebobinei o seu percurso como escritor e já me atirei ao "Planisfério Pessoal". Estou quase a meio das 350 páginas. Quebrei o enguiço. Já faço maratonas...

Abílio Delgado

Sinopse
De Lisboa a Pádua, o escritor-viajante Gonçalo Cadilhe faz uma viagem com muitas paragens e revelações históricas sobre a vida de Santo António, seguindo os passos do santo em plena época medieval.Santo António nasce por volta de 1190; Portugal acabava de ser fundado e, na época, a cidade de Lisboa corria o risco permanente de voltar a cair as mãos dos mouros. Santo António não nasceu António, mas Fernando. Foi batizado de Fernando Bulhão, da família dos Bulhões, e mais tarde assumirá então o nome de Santo António. Ficou conhecido no entanto como Santo António de Pádua, porque os santos ficavam conhecidos com o nome do lugar onde faleciam. No caso de Santo António, ele falece em Pádua, é aí que começa o seu caminho celestial.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A convidada escolhe: A Gorda

Este livrinho foi perfeito nas minhas deambulações diárias, em que qualquer momento livre servia
para o abrir e ler.

Memórias de uma jovem que se tornou mulher enquanto cirandou nas várias divisões da casa (por capítulos), amou e perdeu-se no preconceito de que era gorda.

Mas não é apenas disso que se trata. Um romance que claramente tem muito de autobiográfico e fala da vida e dos pequenos nadas que a compõem com um olhar critico, objetivo e impiedoso, mas também especulativo e manipulando o real. Fala das pessoas que aparecem na nossa vida e mais tarde desaparecem por um motivo qualquer e do que nos deixam. Fala ainda da solidão e do vazio que se esconde.

Uma mulher como todas as outras. Como eu. Uma mulher com um mundo dentro de si. Uma mulher com uma identidade e tanto sentir, tantas vezes ambíguo mas verdadeiro. Uma mulher que tinha uma fome impossível de saciar que desamou o seu corpo.

Leitura crua mas que me encantou. Irrepreensível escrita e quase poética. Percebo agora o muito ruído que há em torno deste livro de que também eu faço eco.

Vera Sopa

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

"Romão e Juliana" de Mário Zambujal

Os livros que Mário Zambujal escreveu (ou vai escrever) possuem um lugar cativo nas minhas estantes! Quem já leu algum sabe do que falo. A sua escrita é única, sui generis. A ironia e o sentido de humor banham-se nestas águas como se nelas tivessem nascido, naturalmente. A escrita do autor reconhece-se facilmente, querendo com isto dizer que ela é especial, musical mesmo! 
A história é simples e uma questāo impōe-se no decorrer deste pequeno romance que se lê em poucas horas: um amor que encontra barreiras, dura, mesmo depois delas terminarem? Ou é precisamente esses impedimentos que levam a que os dois apaixonados se mantenham juntos? Romão e Juliana, sāo dois jovens cujas famílias nāo se podem ver. Qualquer analogia que o leitor faça com a história de "Romeu e Julieta" fica, a dada altura, pelo caminho visto que o desenlace é bem diferente, sendo fruto de uma imaginaçāo fértil e algo que, creio, foi bem pensado para que o leitor nāo achasse que mais uma vez se repetiria o fim trágico dos apaixonados. E, no entanto, nem tudo é um mar de rosas...
Para os fâs de Mário Zambujal nāo preciso de recomendar este livro. Para quem nunca leu nada deste autor, (eu adoro a sua escrita! Sou por isso suspeita) podem começar com este ou talvez o Serpentina. Foi dos últimos que li e gostei tanto ou mais que este. Fica a sugestāo.
Terminado em 18 de Janeiro de 2017
Estrelas: 5*
Sinopse
Com "Romão e Juliana" vamos ao reinado de D. João V, ele próprio protagonista de aventuras galantes, ficou célebre a que manteve com Soror Madre Paula Teresa de Almeida, Madre do Convento de Odivelas. De igual liberdade não gozam Romão e Juliana pelo que tentam vencer as barreiras em peripécias sucessivas. Fiel ao seu consagrado estilo narrativo, pleno de imaginação e humor, Mário Zambujal traz-nos uma nova e apaixonante história.

Cris

sábado, 21 de janeiro de 2017

Na minha caixa de correio

  


Ofertas:

- Gosto de Mim Todos os Dias ( Fiquei apaixonada por esta agenda! Se gostam de dicas e receitas e sāo fās de uma alimentaçāo mais saudável, espreitem esta agenda...É o que tenho vindo a fazer esta semana.), Editora Arena.
-10 Mudanças Essenciais Para Mais 10 Anos de Vida, Editora Arena
-A Nova Educaçāo, Editora Objectiva

Compras:

- Mangas Explosivas, comprado nos saldos da Bertrand.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Novidade Sextante Editora

O segredo da modelo perdida
de Eduardo Mendoza

O famoso protagonista, cabeleireiro e investigador dos romances O mistério da cripta assombrada, O labirinto das azeitonas, A aventura do tocador de senhoras e O enredo da bolsa ou da vida regressa agora recordando um caso encerrado nos anos oitenta, e tenta resolvê-lo vinte anos mais tarde.
«Um incidente trivial trouxe-me recordações e fez-me viajar ao passado. Há alguns anos vi-me envolvido num assunto desagradável. Assassinaram uma modelo e culparam-me a mim. Agora tudo isso são águas passadas, mas um impulso levou-me a resolver, por fim, esse caso obscuro. Muita coisa mudou. A cidade, mais que tudo. Naquela época Barcelona era uma porcaria. Hoje é a cidade mais admirada. Quem havia de dizer! O presente nada tem que ver com o passado. Ou tem?»
Os manejos dos poderosos postos a nu para resolver o mistério são pretexto para revelar também a evolução de uma cidade, Barcelona, nas mãos de uma administração gananciosa.
Mestre da sátira e do absurdo, Eduardo Mendoza desenrola uma panóplia de personagens tão excêntricas como tragicómicas ao serviço de uma trama em que nada é o que aparenta.

Novidade Bertrand

Confissões de Inverno
de Brendan Kiely

Quando a vida de Aidan Donovan, de 16 anos, começa a desmoronar-se à sua volta, ele procura refúgio no bar do pai e nas atenções do padre Greg, o único adulto que o escuta.
Chegado ao Natal, Aidan entra numa crise profunda ao compreender a natureza obscura do afeto do padre. Vira-se então para um novo grupo de amigos: Josie, a rapariga por quem talvez esteja apaixonado, Sophie, a amiga um pouco rebelde, e Mark, o carismático capitão da equipa de natação, cuja sensação de angústia rivaliza com a de Aidan.
Um romance ousado e corajoso que olha de forma intensa e sensível para os desafios do crescimento e do amor.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A escolha do Jorge: Norma


Sofi Oksanen (n. 1977) é uma das jovens escritoras finlandesas, cujo nome tem tido bastante projecção na Europa desde a publicação do seu primeiro romance “A Purga” (2008) que lhe valeu vários prémios literários, além de ter sido adaptado ao cinema, em 2012, e também ao teatro em vários países, nomeadamente em Portugal.

“A Purga” é daqueles livros que dificilmente se esquecem, não só pela história dramática, avassaladora e de sobrevivência, numa época em que a Estónia era ainda uma das repúblicas da então URSS. E tratando-se de ficção histórica, Sofi Oksanen, com a sua escrita criativa empurra o leitor para o centro de uma narrativa que se torna empolgante e quase policial, num jogo de gato e rato, em que o mais forte não olha a meios para esmagar o mais fraco.

Rapidamente percebemos que as mulheres desempenham um papel importante na obra de Sofi Oksanen. As suas fragilidades, os medos, a intimidade intrínseca que as une numa causa comum para lutar por direitos que, na verdade, deveriam ser tidos como adquiridos.

Quanto a “Norma” (2015), é o mais recente romance da escritora finlandesa, publicado recentemente pela Alfaguara, à semelhança do que já tinha acontecido com “A Purga” e “Quando as Pombas
desaparecem”. “Norma” apresenta-nos uma história contada a partir dos dias de hoje, em Helsínquia, a capital da Finlândia, começando precisamente com o funeral de Anita, a mãe de Norma. Mãe e filha estiveram sempre ligadas durante toda a vida na sequência de uma particularidade biológica de Norma que foi sempre escondida pela mãe para que não se expusesse e não fosse vítima de bullying por parte dos colegas, mas também por perceber, desde cedo, que consequências poderiam advir para Norma face a uma eventual descoberta ou exposição dessa mesma particularidade do seu corpo.

Ao contrário de “A Purga” que segue uma linha no âmbito da ficção histórica, “Norma” reflecte, em certa medida, nalgumas das tensões que sobreviveram ao desmantelamento da URSS, na relação com os países que então se tornaram independentes. Não diria que se tratasse de uma espécie de continuação de guerra fria, mas percebe-se quais foram os países que se conseguiram libertar, uns mais, outros menos, dos tentáculos russos. Percebe-se quais alguns dos países que após a independência da URSS conseguiram legislar e elaborar uma constituição que protege os cidadãos e também aqueles países cujas leis ou a inexistência das mesmas sobre determinados assuntos deixam o espaço suficiente para a movimentação de máfias com ramificações muito específicas e totalmente estranhas, pelo menos para cidadãos europeus que vivem na parte mais ocidental do continente.

No dia do funeral de Anita, Norma é abordada por pessoas que lhe são estranhas e rapidamente é levada a crer que, afinal de contas, a proximidade e intimidade que tinha com a sua mãe estava apenas embelezada. Muito provavelmente Anita agiu dessa forma para proteger a filha, mas o certo é que Norma vê-se enredada numa teia com ramificações que nem ela tinha uma verdadeira consciência, tal como das pessoas envolvidas. O certo é que Norma “herdou” todo um conjunto de problemas da sua mãe pelo facto desta estar envolvida numa rede que, com a evolução da narrativa, perceberá o leitor se era vítima ou criminosa. E, nesse sentido, se a sua morte no metro de Helsínquia terá sido um aparente suicídio ou um inusitado assassinato.

Um salão de cabeleireiros que serve de apoio para a máfia dos cabelos com ramificações por países da região, mas também com ligações à América Latina é um dos temas que se desenvolve neste romance de Sofi Oksanen. Ficamos a saber que os cabelos ucranianos são os mais procurados graças à sua rara beleza ainda que as potenciais clientes nunca questionem a forma como chegam àquele salão de cabeleireiros, em Helsínquia.

O mesmo salão de cabeleireiro serve como ponte para o recrutamento de casais que pretendem realizar uma inseminação artificial recorrendo a raparigas jovens ou a mulheres que perderam a família na guerra, oriundas de países como a Geórgia e que, através de uma quantia irrisória de dinheiro, pouco significativa para os finlandeses, conseguem passar despercebidos graças à omissão da lei no que concerne às barrigas de aluguer na Geórgia.

Norma só pode contar consigo própria para poder sair de uma situação tão complexa quando tem dezenas de olhos postos em si. Um passo em falso será fatal!

Uma vez mais, Sofi Oksanen serve de voz para as mulheres que, em situação de desespero, utilizam o seu corpo em troca de uma quantia irrisória como forma de sobrevivência. Exploração sobre exploração, temos em “Norma” a denúncia de quem tem dinheiro e que se serve dele para esmagar quem não o tem, mas também sendo um dos móbiles destas redes mafiosas que, dadas as descrições por Sofi Oksanen neste romance, não deverá estar muito longe da realidade das geografias descritas.

Excertos:
“- Com esta varinha mágica tornamos os sonhos realidade. Nós somos padres, parteiras, terapeutas, médicas, agentes de rituais de passagem. Cobrimos as mulheres de papel de alumínio, toalhas e capas. Lavamo-las das suas vidas antigas e enviamo-las para vidas novas. É de nós que depende o êxito das mudanças na vida delas. No entanto, o ideal é mesmo quando as mulheres lhe tomam o gosto e estão prontas para pagar o que quer que seja por um bom cabelo.” (p. 95)

“- As clientes estão completamente malucas com os cabelos ucranianos. Que raio é que elas comem por lá? As mulheres dos países ricos estragam os cabelos com a comida processada que comem e gastam rios de dinheiro em todo o tipo de tratamentos. Na Roménia, pelo contrário, as mulheres do campo lavam os cabelos quando muito com sabão, usam talvez também algumas ervas e comem tomate criado nos seus jardins. Não admira que os cabelos romenos tenham cada vez mais sucesso. Mas isto aqui, isto é material de outra categoria.” (p. 99)

“A mulher contou às amigas que estava a fazer tratamentos de fertilização, as viagens à Geórgia passavam por viagens de férias, o trabalho do marido obrigava-o também a viajar para o estrangeiro e desta vez a mulher iria com ele. Passados seis meses, o casal regressaria à Finlândia com o seu filho biológico e, na certidão de nascimento, no espaço reservado à filiação, os nomes deles apareceriam como sendo os pais. A escolha do país fora determinada não só pela sua fraca legislação como pelo facto de os finlandeses não saberem praticamente nada sobre o país e o filho imprevisto do casal que não podia ter filhos, e as férias em Tbilisi não seriam associadas ao turismo de barrigas de aluguer. A Geórgia não tinha fama de ser uma fábrica de crianças, não havia escândalos, nem casos surpreendentes que chegassem aos noticiários internacionais. A guerra na Geórgia já havia sido esquecida, bem como as outras agitações na região, e ninguém pensava no facto de, em consequência dessas guerras, o país estar cheio de mulheres sozinhas que não tinham dinheiro e que precisavam de sustentar a família.” (p. 120)

Texto da autoria de Jorge Navarro

"A Americana Que Queria Ser Rainha de Portugal" de Ana Anjos Mântua

É pela boca da própria Nevada Hayes, americana, mulher de D. Afonso, Duque do Porto, que ficamos a conhecer um pouco da sua história. O relato ser feito na primeira pessoa foi uma opçāo muito inteligente da parte da autora/editora porque faz a diferença entre o que poderia ter sido um romance maçudo e aquele que se me apresentou: uma história onde transparece a profunda pesquisa efetuada, sem que o leitor sinta qualquer ponta de aborrecimento. Pelo contrårio, a vida desta mulher, de mentalidade muito avançada, é um verdadeiro rol de novidades e de acontecimentos em tudo menos monótonos! 

Nevada era um furacāo para a época. Inteligente, instruída, bonita, gostava de viajar e bem sabedora do que pretendia da vida: melhores condiçōes de vida sem ter de depender de ninguém. Interesseira? Talvez isso transpareça também um pouco nestas linhas mas creio que a autora soube retratar com mestria a sua forte personalidade e todos os factos que desencadearam nela os sentimentos mistos e contrårios: alegria infinita mas, de igual modo, uma tristeza profunda. Nevada durante a sua vida revela-se lutadora, persistente e sensível mas profundamente determinada a conseguir os seus objectivos ao ponto de ser completamente desprendida para com a pessoa que era suposto amar mais do que a si própria, o seu filho. Agarrou sempre as oportunidades que encontrou para melhorar a sua vida (casou-se várias vezes) e soube ultrapassar os vários acontecimentos negativos que a vida lhe trouxe e dar sempre a volta por cima. Adorava viajar e, confesso, essa foi a parte que senti uma certa inveja: Nevada quase nāo parava quieta! Gerava polémica mas, creio, que sempre soube aproveitar isso em seu favor. Defeitos? Claro que os possuía e tinha tantos fās como pessoas que lhe queriam mal e a criticavam.

Um livro que se lê com muita fluidez, perfeito para conhecer a vida de uma das nossas princesas. Gostei muito de "a conhecer" através desta escrita cuidada e simples. Recomendo!

Terminado em 16 de Janeiro de 2017

Estrelas: 5*

Sinopse
Quando D. Afonso, príncipe real, saiu do automóvel junto ao Paço Real de Sintra naquele ameno dia 8 de Junho de 1908, Nevada Hayes sentiu um calafrio e foi subitamente acometida por um pressentimento: um dia seria sua mulher. Um dia seria rainha de Portugal.
Nascida no Ohio, Estados Unidos, filha de um merceeiro, cedo percebeu que estava destinada a uma vida melhor. E lutou com todas as suas forças para a conseguir. Trabalhou em Washington e Nova Iorque, casou por amor e por interesse, teve um filho que abandonou, viveu em França, Itália, viajou por países exóticos, divorciou-se duas vezes e viu-se envolvida em vários escândalos. O seu nome fez correr tinta na imprensa, nomeadamente quando conseguiu casar com D. Afonso, apesar da recusa e indignação de D. Manuel, último rei de Portugal, então no exílio em Inglaterra. Tornara-se finalmente duquesa do Porto, princesa de Bragança.
Houve quem a retratasse como uma mulher fria, calculista, mal-educada, mas Ana Anjos Mântua, coordenadora da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, conta-nos a sua história para além do rol dos seus incontáveis defeitos. Através de uma investigação cuidada, a autora traz-nos um romance empolgante sobre esta extraordinária mulher, que se transformou ao longo da vida para se tornar uma das figuras mais admiradas e faladas pela imprensa internacional e pela aristocracia europeia da época. Morreu a 11 de Janeiro de 1941, viúva do «seu amor» D. Afonso, e depois de ter conseguido reclamar ao Estado Português a herança que considerava sua por direito.

Cris

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A Purga de Sofi Oksanen

Finalmente dispuz-me a ler este livro que me tinha sido emprestado e que tantas opiniōes positivas tem. Gostei muito por variadas razōes. 

A primeira está relacionada com a escrita da autora. Simples, directa e reveladora, aos poucos, da trama que nos quer contar. Sem floreados mas de uma grande objectividade. 

Depois, segue-se a história em si que obrigou-me a procurar um pouco da História da Estónia, país do qual sabia muito pouco. E mais uma vez fico agradada quando um livro me induz a procurar algo concreto, passado ou presente, da vida de um povo. Fiquei mais esclarecida sobre as suas lutas passadas e sobre esse país, alvo de tantas ocupaçōes. Mais, fiquei com curiosidade em viajar até lá.

Seguidamente gostei muito da forma como as personagens nos sāo apresentadas, sobretudo de Aliide, uma idosa a quem damos de imediato a nossa simpatia mas que, mais tarde, ao conhecermos o seu passado, confontamo-nos com essa dádiva. Merece realmente essa simpatia ? O que será que esconde essa mulher solitária, perturbada e que é perseguida pelos aldeōes? Zara, outra personagem, é também alguém com quem sentimos empatia imediata. Pela sua grande ingenuidade que lhe trouxe problemas graves e vivências que nenhum ser humano devia conhecer. As duas, ligadas por laços de famîlia que ambas julgavam impossíveis.

O passado e o presente. E uma viagem por um país, através da história destas duas mulheres. Recomendo muitíssimo!

Terminado em 8 de Janeiro de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
Em 1992 a União Soviética desmorona-se, e na Estónia é possível por fim saborear a liberdade e projectar o futuro. Todos migram para a capital e ninguém quer viver no campo. Ficam apenas os velhos, alguns bêbados e bandos de rapazes desordeiros. Aliide Truu, senhora idosa, vive alheada do mundo na sua casa numa aldeia despovoada, e passa os dias a ouvir rádio e fazer conservas de fruta. A aparente normalidade da sua existência é despedaçada numa noite de fim de Verão, quando a sua vida se cruza com a de uma jovem mulher que precisa desesperadamente da sua ajuda. Zara conta que trabalhava como empregada de mesa, e que anda fugida do marido violento. Nada disto é verdade. Ao inventar uma história para si, Zara espera conseguir esquecer o passado. Ao oferecer abrigo a Zara, também Aliide terá de confrontar o passado nebuloso, carregado de paixões, traições e vinganças. Para poderem sobreviver, ambas as mulheres terão de enfrentar e aceitar a verdade da sua história. E só então poderão também descobrir os inesperados laços que as unem. As vidas de Zara e Aliide, e das gerações de mulheres que representam, desdobram-se sobre o pano de fundo da ocupação soviética da Estónia e compõem um mosaico da sociedade europeia dos últimos cinquenta anos: a repressão política, o tráfico humano, a violência sobre as mulheres. É diante deste inquietante cenário que a vida fervilha e se desenrola um incrível drama familiar, pleno de rivalidade, culpa, desejo e amor.         

Cris

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

"A Longa Estrada Para Casa" de Saroo Brierley

Tive oportunidade de assistir à ante-estreia do filme que este livro originou. Gostei muito. Uma história verídica quase inacreditável, nāo tivesse sido ela vivida e posteriormente narrada pelo autor, Saroo Brierley. O primeiro lugar que nos é apresentado é a Índia, país de contrastes evidentes e conhecidos um pouco por todos nós. Depois da Índia, a Austrália. Um salto de muitos kilómetros e culturalmente diferente também. A unir estes dois países uma criança de quatro, cinco anos. Perdida.

O livro chegou às minhas māos depois de ver o filme. As experiências que tenho nesse sentido nāo sāo negativas, pese embora goste de ter primeiro conhecimento da história pelas páginas escritas e só depois pelas imagens. Mas, gostei muito de ler e apreciar pormenores que o filme nāo abarcou, visualizando interiormente na leitura os locais que a tela me deu a conhecer.

Como referi, esta história é quase inacreditável. Uma criança perde-se do seu irmāo mais velho e viaja horas sem fim num comboio até Calcutá. Consegue sobreviver semanas na rua, fugindo de perigos que as ruas dessa cidade sobrelotada e nāo muito limpa lhe trouxeram. 

Muitos anos depois e de uma nova vida construída bem longe dali, Sarroo chega à Índia pelas māos do Google Earth. Recomendo, tanto o livro como o filme, se bem que este tenha algumas diferenças face ao livro que nāo me pareceram razoáveis. Pormenores diferentes para os quais nāo encontro explicaçāo plausível.

Gostei do filme. Prefiro o livro.

Terminado em 11 de Janeiro de 2017

Estrelas: 5*

Sinopse
Quando Saroo Brierley se serviu do Google Earth para descobrir a aldeia onde nasceu, a milhares de quilómetros de onde vive e da qual quase não se lembra, rapidamente se tornou notícia em todo o mundo.
Saroo, de cinco anos, está numa estação de caminho de ferro, sozinho. Perdeu-se de Guddu, o irmão mais velho, que o acompanhava. Sem saber como regressar a casa, enfia-se num comboio acreditando que Guddu há de encontrá-lo. Ali adormece e no dia seguinte vê-se nas perigosas ruas de Calcutá, por onde deambula durante semanas, só e sem qualquer documento, perante a indiferença da multidão. Acaba por ser acolhido num orfanato e, mais tarde, é adotado por um casal australiano. Embora feliz na Austrália, com a sua nova família, que em vão tenta conhecer as suas origens, Saroo nunca deixa de pensar na mãe e nos irmãos que ficaram a quase meio mundo de distância. Passa horas a perscrutar imagens do Google Earth na esperança de localizar e identificar referências da sua aldeia que lhe permitam reencontrar a mãe biológica.
Longa Estrada para Casa é um testemunho verídico na primeira pessoa, comovente e intenso, que já inspirou milhões de pessoas em todo o mundo. Um hino à esperança, ao poder dos sonhos e à coragem de nunca desistir, que agora vê nova luz numa adaptação ao cinema pelo realizador Garth Davis com Nicole Kidman, Rooney Mara e Dev Patel.

Cris

sábado, 14 de janeiro de 2017

Na minha caixa de correio

  

 

Oferta da Porto Editora: Viver na Noite. Filme em cartaz. Curiosa para ver/ ler os dois.
Do Clube do Autor chegou a minha próxima leitura: Romāo e Juliana. O eterno Mário e o seu humor tāo próprio.
Qualquer Coisa Como comprei nos saldos da Bertrand. Baratinho, nāo resisti.
A Virtuosa Arte de Reinar foi oferta da autora Alice Lázaro, que participou na rúbrica Ao Domingo com... no passado Domingo.
 A Americana Que Queria Ser Raínha de Portugal foi uma oferta da Manuscrito e já estou a meio. Conto terminar este fim de semana.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A escolha do Jorge: O Ruído do tempo


“A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo.” (p. 104)

Assombroso e avassalador! Dois adjectivos que assentam no mais recente romance de Julian Barnes (n. 1946), “O Ruído do Tempo”, publicado pela Quetzal. Vencedor do “Man Booker Prize 2011”, com o romance “O Sentido do Fim”, Julian Barnes apresenta-nos uma obra que em o autor se transcende a si mesmo, fazendo a ponte entre o romance histórico e a literatura para a dissecação da
própria História, no que concerne à vida de Dmitri Dmitrievich Chostakovich (1906-1975), o compositor mais consagrado da União Soviética, e a relação com o Poder, que se traduz numa rota de colisão com a arte propriamente dita.

A narrativa inicia com o episódio que teve lugar em Janeiro de 1936, no Teatro Bolshoi, em que Chostakovich se sente incomodado após a saída de Estaline e demais políticos representantes do Poder, no decurso da ópera “Lady McBeth do Distrito Mtensk”, sendo publicado, dois dias mais tarde, no jornal “Pravda” a frase “Chinfrim em vez de Música” em alusão à ópera. Algo idêntico volta a repetir-se em 1948.

Ainda que estes episódios tenham acontecido na juventude de Chostakovich, não impediram que se tornasse o compositor mais consagrado da União Soviética, sobretudo nos anos em que prevaleceu o culto da personalidade durante a era estalinista. Ainda que a arte fosse encarada como pertencente ao Povo, a mesma tinha de estar sob a alçada e orientação do Poder, esmagando e despojando os artistas do seu sentido criativo, na medida em que a alma humana constituía a base de trabalho dos músicos e dos escritores. “Os engenheiros da alma humana: uma frase gélida e mecanicista. E no entanto… com que trabalhava o artista, senão com a alma humana?” (p. 50-51) “De agora em diante, só haveria dois géneros de compositores: os que estavam vivos e assustados e os que estavam mortos.” (p. 59)
Julian Barnes disseca os murmúrios e angústias da alma de Chostakovich, reflectindo-se no próprio funcionamento da União Soviética, em particular, da era estalinista, na tensão existente entre consciência e obediência, sentimento de culpa e pessimismo, mascarado de optimismo. “Esfregar, esfregar, esfregar, vamos fazer desaparecer toda a velha pele russa e pintar-lhe por cima uma nova capa soviética, a brilhar. Mas nunca resultou – a tinta começou logo a saltar, mal foi aplicada.” (p. 83)

As contradições do regime soviético contribuíram para a alteração da interpretação dos conceitos optimismo e pessimismo, fortemente manipulados pelo recurso à ironia que deveria estabelecer a harmonia entre ambos, mas que, tantas vezes, se apresenta como forma de sobrevivência num regime claustrofóbico. De evitar é o recurso ao sarcasmo dado ser interpretado pelo Poder como “a linguagem do destruidor e do sabotador” (p. 98), referindo-se aos inimigos da URSS e do Povo. Por essa razão, o Poder “achava que, se matasse suficiente população e desse à restante população uma dieta de propaganda e terror, daí resultaria o optimismo.” (p. 83)

Com a subida de Krushchev ao poder, Chostakovich resolve, em certa medida, eventuais problemas e divergências com as cúpulas do Partido, dado que passa a ser reconhecido por este a sua importância e impacto no seio da URSS. Por outro lado, a ascensão e reconhecimento de Chostakovich nesta nova fase, pós-Estaline, implica ser esmagado na sua essência, vendo-se obrigado a tomar decisões e a participar em jogos de bastidores para os quais não estava preparado, não queria, mas também não podia rejeitar a oferta que se apresentava, agora, como um presente envenenado. “Para que serve, afinal, uma consciência, se não for como a língua que percorre os dentes à procura de cáries e procura zonas de fraqueza, duplicidade, cobardia, ilusão?” (p. 163) “Uma alma podia ser destruída de três maneiras: pelo que outros nos fizeram; pelo que outros nos obrigaram a fazer a nós próprios; e pelo que voluntariamente decidimos fazer a nós próprios.” (p. 179)

A alma atormentada de Chostakovich será seguramente um reflexo da alma russa em geral, sobretudo quando confrontado com a seguinte questão: “o que é pior para um compositor?” (p. 128) Reforçamos, o que é pior para um compositor quando somos confrontados com a seguinte premissa que reflecte mais de maio século de História da URSS?
“Lenine achava a música deprimente.

 Estaline pensava que entendia e apreciava a música.

 Krushchev desprezava a música.

 O que é pior para um compositor?” (p. 128)

Numa relação tão complexa entre o compositor Chostakovich e o Poder no decurso de várias décadas, opondo Arte e espírito criativo ao Poder, é lícito questionar o que resta a artistas como Chostakovich? Julian Barnes dá-nos a resposta: “O que podíamos construir contra o ruído do tempo? Só essa música que está dentro de nós – a música do nosso ser -, que é transformado por alguns em música real. Que ao longo das décadas, se for suficientemente forte e verdadeira e pura para afogar o ruído do tempo, se transforma no murmúrio da História.” (p. 138)

Texto da autoria de Jorge Navarro


domingo, 8 de janeiro de 2017

Ao Domingo com... Alice Lázaro

Falar na primeira pessoa comporta riscos uma vez que o equilíbrio se torna muito difícil de alcançar pelos receios, tanto de ficar aquém como de ir além, das expectativas geradas. Por outro lado, se entrarmos no campo psicanalítico pode dar-se a entender uma baixa ou um excesso de auto-estima, indesejáveis, em qualquer dos casos, à imagem que se quer passar.

É por isso que tenho evitado criar um blog pessoal, preferindo assumir os riscos de uma atitude confortável, onde me abstenha do confronto comigo mesma e sobretudo com o outro, confrontos para os quais, garantidamente, não tenho disponibilidade mental. Do tempo que disponho, tenho-me servido para uma tarefa prioritária, que é a minha realização intelectual, derivada da pesquisa de fontes inéditas, que acrescentem alguma coisa positiva a quem ler, quando possa existir a divulgação de tais conteúdos.

Foi este o horizonte que me norteou desde que decidi abandonar a docência, enquanto actividade remunerada e passei a dedicar-me, exclusivamente, à investigação e à escrita. Este acto consciente colocou-me perante desafios, como seja o de alcançar estabilidade psicológica e emocional versus material, através da concretização de um bem que reputo superior num meio hostil e cujos meandros, porque desconhecidos, me garantem, em contrapartida, somente a solidão e a indiferença. A dissecação desta afirmação levar-me-ia agora por outros caminhos justificativos do bem-estar que alcanço neste recolhimento interior, tendo em mente exemplos maiores, sem precisar de me isolar fisicamente do mundo à minha volta.

Desloco-me num tempo histórico enquanto curso do mesmo tempo, infinito, vivenciado no recurso à imaginação especulativa, donde derivo a recriação de vidas, à imagem e semelhança de um criador. Posto este desabafo confessional – que na opinião do poeta é mais ou menos sincero – diria que a ter de eleger um tempo e uma época, teria dificuldade em optar, porque me apaixono sempre e sem remédio pelo último tempo que descobri nos documentos e na revisitação da escrita dos que dele falaram antes de mim. As circunstâncias têm ditado as escolhas, portanto. Deste modo, sob as formas de ensaio biográfico e/ou de memórias, diria que o século XVIII tem sido o meu eleito, em razão e causa do muito que me têm ensinado as figuras da corte mariana (D. Maria I) e da joanina (D. João V), esta em despique com aquela. Deriva daqui a produção de alguns dos meus trabalhos que assumiram a forma de livro dos quais lembraria a propósito A Flor da Murta; O Reinado do Amor; Se Saudades Matassem…; Com o Mais Fino Amor e ultimamente A Virtuosa Arte de Reinar. (Escuso aqui, sem menosprezo pelo gosto que tenho neles, outros trabalhos dos quais tirei o maior proveito pessoal, em termos afectivos, também, como seja Napoleão andou por aí…; As 7 Vidas de José Maria de Vasconcelos Mascarenhas; A Escada de Jacob, com a recuperação de vivências centradas no século XIX já, os dois primeiros e o último, no século XVII.

Como os últimos acabam por ser os primeiros – falo de sequência cronológica – diria que A Virtuosa Arte de Reinar ocupa agora o horizonte dos meus afectos. Não só porque estou de volta à figura de D. Maria I, aqui neste livro como partenaire do seu confessor, o primeiro, que foi o jesuíta Timóteo de Oliveira, onde interagem ambos como personagens centrais, através dos Parabéns que ele lhe dedicou anualmente e enquanto pôde ao longo da vida.

Por meio deste corpus manuscrito foi possível reconstruir um mundo de vivências que vão do quotidiano palaciano (à volta da celebração do aniversário natalício da princesa e futura rainha) à pedagogia, veiculada por uma mensagem, eivada de princípios morais e éticos, adequados ao espírito da época, mas sobretudo ao cultivo de uma acção governativa, norteada por valores cristãos e universais, onde sobressaia o bem e o amor ao próximo, conceitos que nos dias de hoje soam estranho.

O livro parte assim da recuperação dos Parabéns com intenção de recriar um período de tempo, relativamente longo, que cobre os anos de 1749 a 1786, isto é, de fornecer o enquadramento político e social do antes e do depois da subida ao trono da rainha D. Maria I. Tendo início no reinado de D. João V, o assunto dos Parabéns encontra pelo meio o reinado de D. José I, subordinado ao consulado pombalino, do qual são vítimas num todo, parte da nobreza, condenada à morte em nome do atentado perpetrado contra o rei (a chamada conspiração dos Távoras) e os jesuítas, que sofrem perseguição, expulsão e encarceramento, num contexto da abolição da própria Companhia de Jesus.

Sendo o P.e Timóteo de Oliveira membro desta Companhia, ficou exposto à desgraça que atingiu os seus companheiros e a ele, como não podia deixar de ser, dado o seu alto cargo e missão junto da futura rainha. Sepultado vivo no cárcere do presidio da Junqueira (Lisboa) durante cerca de 20 anos, dali saiu por ordem da nova soberana, quando esta subiu ao poder em 1777.

Deste delicado processo, que marcaria indelevelmente a vida do jesuíta Timóteo de Oliveira e da luta travada por ele e pelos seus companheiros, dos sobreviventes, quase todos no exílio, dá-se conta no livro, tendo a pesquisa que levei a cabo, resultado na construção da biografia do confessor, ao mesmo tempo que se traz à luz, passos ignorados e/ou desconhecidos da sua vida privada no enquadramento das suas relações sociais na alta esfera da corte, bem como a produção literária da sua lavra, rigorosamente esquecida, se é que se pode dizer conhecida, pela historiografia.

O livro foi apresentado na BNP (Biblioteca Nacional) no dia 14 de Dezembro de 2016, tendo a ocasião constituído para mim um ponto alto, enquanto autora, pela reunião de pessoas interessadas, mas também da minha estima e consideração, ao mesmo tempo que assinalou justamente o 2.º centenário da morte da Rainha Dona Maria I (Rio de Janeiro, 20 de Março de 1816), num esforço grande de marcar a efeméride com a saída do livro antes do ano de 2016 terminar. O desinteressado e anónimo preito de homenagem poderá servir de bitola à maneira como encaro a realização da tarefa que tomei em mãos e espero prosseguir até ao limite do possível.

Alice Lázaro

Para mais informação ver site da autora: www.binhomirroico.com

Nota Importante:
Quero agradecer à autora do Blog “O Tempo entre os meus Livros” a gentileza da sua lembrança, por ter posto ao meu dispor o seu espaço online para incluir e divulgar os livros da minha autoria. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Na minha caixa de correio






Ofertas das editoras Arena e Suma de Letras, Isto é Mais Que Um Diário e O Homem Ausente.
Os restantes foram ganhos nos passatempos do JN.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Impunidade de H. G. Cancela

Que leitura terrível para terminar o último dia do ano! Ainda estou pasmada com a violência que grassa nas páginas deste livro. De tal modo que ainda hoje, decorridos alguns dias, não consigo pensar nele sem que uma forte angústia me trespasse o coração.

Nas primeiras páginas (quase 100) uma estranha história é-nos apresentada bem devagar. Os personagens e o enredo surgem-nos de uma forma segmentada, incompleta quase. Um homem chega a um apartamento onde duas crianças vivem num abandono que mete dó. Percebe-se que ele é o pai mas não se compreende o passado que o levou até ali, as suas razões nem tão pouco o que ali veio fazer. E a mãe, onde estará?

Não quero de modo algum desvendar o enredo mas quero prevenir-vos que precisam de ter um estômago bem forte para aguentarem estas páginas, esta escrita simples mas de uma violência terrível. A dúvida que ainda tenho e que me impede de dar muitas estrelas (mas sentindo, ao mesmo tempo, que se desse poucas não seria honesta comigo mesma) é se essa violencia seria necessária, imprescindível ou se posso classificá-la de gratuita...

Todo o livro é pautado pelo abandono, pelo sofrimento desses pequenos seres que quase não têm direito a um nome e pelo terrível fim que se antevê. Um fim sem esperança, sem luz. Por outro lado, a apatia que caracteriza o estado de espírito da mãe face às crianças choca o leitor e a quase indiferença com que o pai trata delas também não deixa indiferente quem lê estas páginas. 

Sei que foi um livro que muitos acharam perfeito, muito bom. Para mim, Impunidade merece ser lido, sim. Mas classificá-lo parece-me impossível. Pelo menos por agora que ainda estou ferida pela violência das palavras e o enredo desta história. 

Terminado em 31 de Dezembro de 2106

Estrelas: ???

Sinopse
Um homem caminha primeiro a pé, tacteando no escuro, depois de automóvel, conduz toda a noite, dorme na pressa de um hotel retoma a viagem primeiro ainda em terras portuguesas, depois em Espanha.Em Sevilha sobe ao último andar de um prédio. Tem a chave da porta, a casa está desarrumada e nela se encontram duas crianças adormecidas quase entre sinais de abandono. «Aproximei-me da cama maior. O rapaz tinha apenas as cuecas vestidas. Magro, as pernas esguias, o cabelo comprido. Ouvia-se a respiração. Rápida, regular, entrecortadas por pausas de onde emergia com uma aspiração sufocada. Da outra cama, não se ouvia nada. A menina estava despida, com o cabelo espalhado pelo rosto e as pernas cobertas com a ponta do lençol. Apoiei-me nas grandes, debrucei-me e afastei-lhe o cabelo. Não se mexeu. Respirava devagar, com os lábios entreabertos e um quase insensível movimento do peito. Parecia fria, apesar do calor, o corpo contraído, a cabeça colada aos joelhos. Tinha os lençóis húmidos em redor das coxas. Na penumbra, a sua pele esbatia-se contra o tecido branco.» Este é o ínicio de uma história inesperada, dura, com o «esplendor das coisas ameaçadas».

Cris

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A escolha do Jorge: Os Frutos da Terra


“Ali está o primeiro homem a habitar a região remota. Quando ali chegou, o lodo subia-lhe até aos joelhos e depois encontrou uma ladeira e aí se instalou. Seguiram-se-lhe outros, que percorreram um caminho nos baldios vazios, que foram seguidos por outros, e o caminho tornou-se uma estrada por onde agora avançavam com as carroças. Isak deveria estar satisfeito, orgulhoso. Era o fundador da povoação, era ele o margrave.” (p. 343)
Este é o mote que resume na essência “Os Frutos da Terra”, a obra de Knut Hamsun (1859-1952) que o consagrou como Prémio Nobel de Literatura, em 1920, tornando-se uma das referências da literatura ocidental e servindo de inspiração a toda uma geração de escritores como Kafka e Thomas Mann.
Podemos afirmar que “Os Frutos da Terra”, publicado em 1917, aprofunda o projecto literário de Knut Hamsun iniciado com “Os Filhos da Época”, em 1914, no qual devolve o homem à natureza, à terra, vivendo em comunhão com esta, na medida em que, em primeira instância, o homem é também um ser natural e que apenas na forma como se relaciona com a natureza consegue ser feliz. Enquanto que em “Os Filhos da Época” a narrativa desenrola-se num microcosmos, em “Os Frutos da Terra” é apresentada toda uma comunidade rural que se estende à aldeia mais próxima e até às cidades circundantes, compreendendo-se a dicotomia campo-cidade naquilo que pode ser entendido como um macrocosmos.
Está patente em “Os Frutos da Terra” a clara oposição de Knut Hamsun face à crescente industrialização do mundo ocidental na transição do século XIX para o século XX, assente na premissa de que o desenvolvimento de um país não pode, de todo, assentar nas máquinas e no dinheiro, não tornando o homem necessariamente mais feliz. O homem é apresentado como um dos elementos da natureza e é nela que deverá conhecer a verdadeira felicidade.
Knut Hamsun não descura o papel das cidades comparativamente com o mundo rural, na medida em que a cultura da cidade não deixa o homem indiferente à música, ao teatro, à ópera, e até à linguagem e ao requinte das pessoas.
Ao longo da obra é notório que todos aqueles que passam pela cidade tornaram-se pessoas diferentes, menos rudes, mais civilizadas e com vontade de conhecer o resto do país e o mundo, no entanto, a felicidade só é verdadeiramente encontrada quando os vários personagens regressam ao mundo rural vivendo em comunhão com a natureza.
Passado quase um século após a edição de “Os Frutos da Terra” e tendo em consideração as transformações que tiveram lugar em toda a Europa e no mundo com a destruição dos campos como fonte de matérias-primas para o desenvolvimento industrial e o consequente desenvolvimento urbano, esta obra assume, em certa medida, um carácter profético, dado que a civilização ocidental padece de um sentimento de perda, como que a perda do seu lugar na natureza, questionando-se o autor sobre o futuro da humanidade e procurando devolvê-la ao espaço que lhe é próprio.
A narrativa evolui ao sabor das estações do ano e dos trabalhos agrícolas. O tempo vai passando. A vida também. A população vai gradualmente aumentando naquela região remota afastada de tudo, e na qual tem de haver um esforço de todos para suportar o isolamento e a cadência das estações do ano que marcam as tarefas agrícolas.
Não sendo específico o período em que se desenrola a narrativa, poderíamos apontar para a segunda metade do século XIX. O telégrafo é instalado atravessando a região remota, estando assim ligado desde as cidades de Trondheim e Bergen, o serviço de correio torna-se mais eficaz, o comércio intensifica-se mesmo na região profundamente rural em que predomina uma economia fechada de auto-subsistência, a gradual introdução das máquinas agrícolas na ajuda das várias tarefas, a escola e até o porto marítimo da aldeia que sofreu fortes melhorias ligando a região a outras partes da Noruega e a destinos mais longínquos, quebrando, dessa forma, o isolamento, mas também fomentando a emigração.
Sendo um fervoroso opositor da crescente industrialização do mundo ocidental, na medida em que desvirtua o destino do Homem, Knut Hamsun considera que o desenvolvimento que tem lugar naquela região remota é o necessário e ponderado, sem exageros, existindo um equilíbrio na relação entre o campo e a cidade, sem que uma das partes seja beliscada em detrimento da outra. “Os colonos não se apoquentavam por causa de bens que não tinham: arte, jornais, luxos, a política valia tanto quanto o que as pessoas estavam dispostas a pagar por ela, nada mais. Os frutos da terra, por outro lado, tinham de ser obtidos de qualquer maneira. Eram a origem de todas as coisas, a única fonte. A vida dos colonos era triste e vazia? Ora, longe disso! Tinham os seus poderes superiores, os seus sonhos, amores, a sua superstição.” (p. 333) “A vida era composta por trabalho e sono, amor e sonhos…” (p. 341)
É importante ainda fazer alusão ao papel de alguns dos personagens no contexto da obra. É impossível falar de “Os Frutos da Terra” sem nos referirmos a Isak, que graças à sua obstinação conseguiu derrubar e desconstruir a ideia de deserto humano na esperança de construir uma propriedade em consonância com a natureza, cuja riqueza é retirada desta, os alimentos, os animais. A família é também a base de sustentação da vida de Isak. Identificado não poucas vezes como “monstro aquático”, Isak é um homem de acção, trabalho, pragmático, revelando-se o mais sensato de todos os homens e a imagem perfeita de tudo quanto conseguiu construir graças ao seu esforço em Sellanraa, a sua propriedade.
Inger, a esposa, personagem complexa, mas importante ao longo da narrativa, na medida em que, sofrendo de uma pequena deformidade e por mais tarde se ver obrigada a cumprir uma pena por infanticídio em Trondheim, é o elemento que passará a ligar o mundo citadino à ruralidade quando regressa ao lar. O caso do infanticídio, comum nos países nórdicos, serviu posteriormente de exemplo para o julgamento de casos semelhantes e sobretudo para a desconstrução da ideia de que as leis feitas por homens não protegem as mulheres e que somente quando estas tiverem o direito ao voto e consequente participação no Parlamento se poderá criar uma sociedade mais justa, cujos direitos e deveres são idênticos entre homens e mulheres no exercício da cidadania. Refira-se que o sufrágio universal feminino teve lugar na Noruega em 1910, em eleições municipais, e, em 1913, em eleições parlamentares.
Inger é também tratada verdadeiramente como uma mulher, nos seus pensamentos, desejos e actos. Inger é uma mulher cujo desejo sexual foi impulsionado pela sua experiência na cidade, desejando muito mais face ao que o campo, e sobretudo Isak, podem oferecer, entregando-se por vezes aos amores fortuitos como forma de concretização daquilo que sente, ainda que acabe por compreender que só obtém a segurança familiar através de Isak, o seu marido.
Inger constitui desta forma a ideia de concretização de alguns passos importantes naquilo que concerne à emancipação feminina na Noruega, seguindo em linha com o que, aos poucos, acontecerá na Europa e no mundo relativamente ao assunto.
Eleseus, o filho mais velho de Isak e Inger, é o protótipo de sonhador. Desde cedo teve a experiência de viver na aldeia e, mais tarde, na cidade, ficando totalmente seduzido e inebriado pelos prazeres que pode daí obter. É um sonhador inconsciente à conta do dinheiro dos pais, sobretudo porque Inger vê em Eleseus, na sua vida e nas suas viagens totalmente infrutíferas, aquilo que ela própria gostaria de ter realizado, mas sem efeito. Chegará o dia em que ambos, Eleseus e Inger, têm de acordar do sonho e encarar a realidade pura e dura, restando a Eleseus uma última viagem, sem retorno – a América.
Geissler, o meirinho, desempenha, ao longo da narrativa, um papel importante, constituindo uma espécie de alavanca para o desenvolvimento daquela região rural. Geissler tem uma visão de futuro, sabe exactamente o quê e quando os vários proprietários deverão investir para melhor proveito e sustento poderem retirar da terra. Considerado pelo filho como “nevoeiro”, uma espécie de “velho do Restelo”, Geissler não quis de forma alguma vender a montanha rica em vários tipos de minérios a uma empresa sueca e, quando o fez, cedendo aos sucessivos pedidos do filho com a intenção de ganhar dinheiro, rapidamente toda a região veio a sofrer, anos mais tarde, com a interrupção da exploração mineira em virtude de esta ter deixado de ser rentável. Toda uma região que se desenvolveu, ganhando certos hábitos alimentares, adquirindo boas roupas, entre outros aspectos do quotidiano, e rapidamente percebeu que estava perante um sério problema que agora chegava a todos.
“E vocês vivem com o céu e a terra, em conjunto com eles, em união com o largo horizonte e as vossas raízes. Não precisam de empunhar uma espada e atravessam a vida sem nada na mão e de cabeça descoberta, sempre com uma enorme gentileza.” (p. 376)
Por fim, é imperativo fazer uma alusão a Oline, uma personagem deveras complexa, oportunista e que sempre soube estar presente onde fazia falta. Mesquinha, intriguista, viscosa e venenosa, Oline é daquelas pessoas tóxicas que só existem para servir de entropia à vida de terceiros. Compraz-se na desgraça alheia e sofre quando a felicidade sorri a terceiros. Sai sempre vencedora de toda e qualquer querela, a mais simples conversa com Oline enreda o interlocutor numa teia confusa de factos em que qualquer um se vê culpado de algo que não fez ou de algo que não tenha dito ou pensado.
Oline é talvez a personagem mais interessante em “Os Frutos da Terra” porque está presente nalguns dos momentos cruciais da obra, que se apresentam como momentos de viragem na narrativa. Oline é talvez aquilo que poderíamos aludir à herança dos personagens mais complexos das primeiras obras de Knut Hamsun publicadas na última década do século XIX, como “Fome” (1890) e “Mistérios” (1892) cujos personagens principais padecem de uma esquizofrenia latente envolvendo o leitor nos seus enredos, como o caso específico de Nagel. Mas Oline é mais perversa, é inteligente e diabólica, daí ser um personagem ainda mais rico e mais interessante. “Bem, já não sei qual é a lei que regula os pecados de Sodoma, mas pobre alma que sou, sigo as palavras de Deus” (p. 327), refere Oline numa das suas últimas intervenções.
Amores impossíveis, relações tensas e suicídio como as existentes em “Pan” (1894) e “Victoria” (1898) não têm lugar em “Os Frutos da Terra”. Com a viragem do século, Knut Hamsun afasta-se desse padrão de tensão psicológica patente nos seus personagens, sem deixar, contudo, de criar situações ricas do ponto de vista literário na relação dos seus personagens.
No que respeita à tradução de “Os Frutos da Terra”, foi feita a partir do norueguês, por João Reis, acabando por devolver aos leitores portugueses uma das mais importantes obras-primas da literatura contemporânea, além de constituir um marco na carreira de Knut Hamsun, obra que constituiu a alavanca para ser galardoado com o Nobel de Literatura, em 1920, e o seu reconhecimento a nível mundial.
Tendo em consideração que esta obra conhecera, em 1942, uma primeira edição, com o título “Pão e Amor”, com tradução a partir do francês, não deixa de ser interessante (ou curioso) que, quando a comparamos com a actual tradução, ficamos com a ideia de se tratarem de dois livros totalmente diferentes. Ainda que “Pão e Amor” mantenha na sua essência o espírito e a ideia central da obra integral apresentada em “Os Frutos da Terra”, edição da Cavalo de Ferro, são muitas as partes que foram cortadas ou mesmo mal traduzidas, há situações em concreto que acontecem a uns personagens e quando as comparamos com a tradução a partir do original, acontecem precisamente a outros e até noutros contextos, não esquecendo o facto de alguns personagens nem sequer aparecerem na tradução de “Pão e Amor”.
A edição de “Os Frutos da Terra” publicada pela Cavalo de Ferro investe, desta forma, no rigor no que concerne à tradução, como devolve ao leitor uma obra ímpar à qual desejará retornar graças à sua rara beleza.
Não deixa de ser interessante que ainda em relação à edição de “Pão e Amor”, publicada em 1942, fora a primeira obra de Knut Hamsun publicada em Portugal cuja mensagem e linguagem utilizadas então reflectem as ideias essenciais do salazarismo numa altura em que Portugal assentava na terra e na vida rural.

Texto da autoria de Jorge Navarro

A convidada escolhe: A Mulher Transparente

O último livro que li em 2016, numa segunda edição cujos direitos de autor revertem a favor da APAV. Trata-se de um livro exemplarmente escrito, que trata de forma séria o problema da violência doméstica, como surge e se desenvolve o chamado ciclo da violência com picos de extrema gravidade, com períodos de acalmia e de aparente arrependimento e pedidos de desculpa por parte do agressor e que, não poucas vezes, tem um desfecho trágico.

Certamente o nome da narradora não foi escolhido ao acaso. Desde menina, Clara aprendeu a ser silenciosa, a apagar-se, como forma de sobrevivência, quando enfrentava a raiva da mãe. A primeira vez que deixou de se sentir insignificante e transparente foi quando começou a receber prendas, mimos e atenções do namorado. Mas, mesmo antes da primeira bofetada, ainda no namoro, o primeiro alarme surgiu quando ele lhe disse “a partir de agora sou eu quem toma conta de ti!”. Este tipo de discurso que para muitas jovens inseguras é um falso sinal de amor e protecção foi, no entanto, logo percepcionado por Clara como um sinal de posse a que se seguiu um processo de despersonalização que não mais parou. Mais tarde, já casada, ele insiste para que ela abandone o emprego, invocando o dinheiro que ele recebe ser suficiente e ela ter de ter disponibilidade total para quando nascerem os filhos. Mas Clara sempre percebeu que era fundamental preservar a sua independência económica, mesmo sendo pouco o que ganhava na biblioteca.

Como anteriormente referi este romance faz-nos seguir todo o ciclo da violência: as bofetadas, os pedidos de perdão, a violência bruta e inesperada e a vergonha de assumir uma “culpa” que não existe, os subterfúgios para esconder as marcas da violência e o despudor do agressor que mente descaradamente quando Clara vai parar ao hospital. Agressor e agredida entram no jogo da dissimulação, passando a própria agredida a tornar-se aliada do agressor ao esconder a violência dos outros, mesmo dos mais próximos – amigas e familiares – fechando-se sobre si própria, num misto de incompreensão, culpa e vergonha.

Até que chega o tempo em que ela se sente como “um trapo do chão” e culpada pelos efeitos da violência sobre o filho, única testemunha duma relação em que pai e mãe mais não são que predador/presa. A irmã desconfia, mas mesmo a amiga Rita ou desconhece ou não quer saber. Uma enfermeira que já mais do que uma vez a via chegar às urgências com desculpas inventadas, aconselha-a a sair daquele inferno e um homem fala-lhe de associações que ajudam mulheres vítimas de violência. Mas quando como Clara se está só, destroçada, sem qualquer auto-estima, é muito difícil quebrar esse ciclo de autodestruição em que se está mergulhada.

É muito fácil passar de agredida a agressora  quando se dá o reverso da medalha, ou seja, quando o poder muda de mãos e este romance também foca esse aspecto. Assim como o efeito de reprodução do padrão de agressor numa criança que cresceu e vivenciou um ambiente de violência. E como é difícil reaprender a viver sem medo e em liberdade, quando durante muitos anos o medo e a insegurança constituíram a rotina quotidiana.

Como Ana Cristina Silva me sugeriu no dia do lançamento da segunda edição deste romance “Partilhe este livro com mulheres que conheça que tenham sido, ou sejam vítimas de violência.” Com efeito, este livro é um grito de esperança, pela forma positiva como se dá o desenlace na vida de Clara. Porque as mulheres não têm de ser vítimas, nem silenciadas, nem transparentes. A felicidade é um direito que assiste a todos, mulheres e homens.

2 de Dezembro de 2017
Almerinda Bento

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

"Confissões de uma Médica" de Sofia Serrano


Neste livro, a Drª Sofia Serrano faz um relato muito honesto do seu percurso académico e de vida. Como médicos recém-formados conseguimos rever-nos em muitos dos episódios por ela descritos e é interessante verificar como nos cerca de 10 anos que separam os nossos percursos, pouco mudou. Os medos, as inseguranças, as derrotas e as vitorias continuam a ser os mesmos... 
Para quem não conhece o mundo da Medicina e o percurso que os estudantes têm de realizar até se tornarem médicos, este livro é um excelente primeiro contacto para conhecer esta realidade dura, algumas das provações e obstáculos a ultrapassar e muito do que se tem de abdicar e sacrificar durante o caminho. Tudo na esperança de vir a poder ajudar pessoas e salvar vidas a troco de pouco...
De facto, os médicos são apenas pessoas que por vezes abdicam de vertentes fundamentais da vida, como o tempo com os filhos (que muitos tomam como garantido!), para ajudar o outro.
A Drª Sofia clarifica estes e muitos outros "mitos" sobre os médicos e certamente dá voz ao que muitos apenas pensam e não dizem.

É um livro de leitura fácil e adorámos lê-lo. Embora nos toque de um modo especial por nos revermos em parte do percurso da Drª Sofia, é um livro que recomendamos a todas as pessoas com curiosidade em conhecer o outro lado da vida de um médico.

Carlota Moutinho e André Delgado

Sinopse
Em alguns momentos, a vida de uma médica até pode ter a mesma emoção das séries de televisão, mas a realidade - o dia a dia num serviço de urgências - não pode ser inventada por guionistas nem reduzida a episódios de 50 minutos; a realidade é sempre mais imprevisível e profunda do que a ficção.

Ao longo de vários anos, Sofia Serrano escreveu sobre a sua realidade diária: o trabalho árduo e aparentemente infinito durante o curso de medicina, a primeira autópsia, o primeiro parto por cesariana, as noites em branco e os turnos de 24 horas, os 110 nascimentos no seu primeiro ano de internato, a pressão de ter de tomar decisões, em segundos, que podem salvar uma vida.

Mas ser médico é mais do que a experiência clínica e a habilidade com o bisturi. No registo pessoal de quem escreve um diário, tão emocionante como divertido, tão sincero como comovente, esta obstetra/escritora mostra-nos os bastidores da vida hospitalar e familiar de uma médica, desvendando os segredos e o lado humano de alguém que também é mãe, e mulher, e que precisa desesperadamente do seu café para superar as maratonas nas urgências.

Confissões de uma Médica leva-nos para a intimidade de alguém que tem a assombrosa missão de trazer ao mundo, todos os dias, novas vidas - tantas vezes salvando aquelas que estão em risco. Relata as peripécias rocambolescas e cómicas de quem passa tanto tempo num hospital, como os amantes que visitam as grávidas antes dos maridos ou as mulheres que se julgam gordas, quando estão, de facto, grávidas de gémeos.

Mas, mais do que tudo, é um relato fiel e empolgante de alguém que é apaixonado pelo ofício que escolheu: ajudar a dar à luz, a trazer vida ao mundo - um milagre que nunca deixa de nos espantar.