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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A Convidada escolhe: O Plano Infinito

O Plano Infinito, Isabel Allende, 1991


Este é um dos livros iniciais de Isabel Allende e, à semelhança dos anteriores, foca-se de forma pormenorizada na caracterização de personagens e no acompanhar dos seus percursos de vida. Ao longo das quatro partes em que é dividido o romance, Isabel Allende, ao mesmo tempo em que nos dá a conhecer a vida de Gregory Reeves, faz um retrato dos Estados Unidos da América, da vida dura dos imigrantes vindos do México, do racismo e da segregação, do proliferar de seitas que arrastam multidões, dos anos loucos do amor livre e das drogas que marcaram a geração hippy, da carnificina que foi a guerra do Vietname de onde a América saiu derrotada e envergonhada, dos protestos dos movimentos pacifistas e anti-racistas e por fim o surgimento de um tipo de vida insustentável baseado no crédito fácil que viria mais tarde a eclodir na bolha financeira.
      Gregory Reeves é a personagem central, mas são inúmeras, diria mesmo demasiadas, as pessoas em torno dele, caracterizadas de forma viva e colorida. Se há relatos duros e sombrios, outros são engraçados e picarescos. As personagens “vêem-se”, são palpáveis, têm vida.
      Greg teve uma vida atribulada e difícil, aspirando antes do mais e, sobretudo, à aceitação e ao amor por parte dos outros. Desenraizado, percorrendo enquanto criança, a América do Norte na companhia de um pai pregador inflexível e de uma mãe fria e distante, até que a família se fixa numa comunidade de imigrantes predominantemente mexicanos. Aí, como, aliás, ao longo de toda a vida, e por diferentes motivos, sentir-se-á um estranho. Muito louro e branco é rejeitado e visto com desconfiança numa escola em que todos são morenos e usam uma linguagem diferente. Mas uma vez que é preso por um pequeno delito verifica que é tratado com benevolência por ser branco. Ou ainda quando chega à universidade de Berkeley percebe que lá só há brancos como ele.
      A sua vida amorosa que ele via ser a possibilidade de resgatar a felicidade que nunca tinha tido enquanto criança é um desastre. Nem amado pela mulher e muito menos pela filha, os piores anos da sua vida foram aqueles em que perdeu a “candura” e corresponderam aos anos da revolução sexual dos anos 60. Ao ser chamado para o Vietname, foi com a secreta esperança de morrer na guerra, mas, afinal, descobriu que “morrer é muito mais difícil que continuar vivendo”!
      Isabel Allende é brilhante nos relatos do horror da guerra que nos recordam muitos filmes emblemáticos sobre a guerra do Vietname. Greg regressa do Vietname e sente-se totalmente sozinho e fora do resto do mundo. Pode subir na carreira de advogado, mas a infelicidade, a ansiedade e a insatisfação são permanentes. Ele, tal como grande parte das personagens que o rodeiam não passam de ilhas sozinhas e isoladas. Greg leva uma vida de grande instabilidade e sofrimento, sem conseguir encontrar-se, chegar ao seu eu. Depois de se ter endividado com créditos e mais créditos para alardear um status falso, entra em falência. Tudo cai à sua volta. Será a terapia que vai fazer ao longo de anos que o irá ajudar a conhecer-se e dar-lhe as ferramentas para se levantar a partir do zero.
      No fim, percebe-se que Greg Reeves está a falar com Isabel Allende e que todas as personagens e acontecimentos que lhe está a narrar são a sua história de vida. Voltando ao princípio do livro, lê-se “quarenta e tantos anos mais tarde, durante uma longa confissão em que passou revista à sua existência e fez as contas dos seus erros e acertos, Gregory Reeves descreveu-me a sua recordação mais antiga…”
      Na dedicatória Isabel Allende escreve: “Ao meu companheiro, William C. Gordon, e às outras pessoas que me confiaram os segredos das suas vidas”. “O Plano Infinito” recheado de personagens é o retrato dessas muitas pessoas que confiaram os segredos Almerinda Bentodas suas vidas a Isabel Allende. Mais ou menos romanceado, mais ou menos verídico, é um livro denso com episódios de grande dureza e com personagens inesquecíveis.

Setembro 2017

Almerinda Bento

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