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quarta-feira, 10 de maio de 2017

"A Mãe Eterna" de Betty Milan

      Há livros que nos tocam particularmente. São lidos na altura certa. Talvez por isso as suas palavras penetram no mais profundo de nós. Vivêmo-las cá dentro. E por isso são únicos, como se fossem escritos para nós. Só para nós. Ou por nós.
      Foi o que me acontceu ao ler este Mãe Eterna. A autora desnuda-se e escreve para sua mãe. Uma filha que escreve para a mãe, para a mãe que um dia ela foi e que (quase) já não é pois os seus 98 anos transformaram-na noutra pessoa. Os seus noventa e oito anos fizeram estragos nessa mãe, como é natural, que ela ama, e Betty Milan, nessas palavras, recorda com saudade uma mãe que já não tem.
      Sofrido. Doloroso, mas surpreendentemente emotivo, real e comovente. Que toca cá dentro quando as palavras que lhe são dirigidas podem ser nossas, quando o sentimento é igual. Não fora pequenos nadas e poderiamos pensar que a (nossa) mãe evaporou-se e transformou-se noutra pessoa que já não conhecemos.

Vou deixar-vos aqui alguns extratos. Nunca faço isso. Com esse livro abri uma excepção.

"Já não tenho como me abrir com a minha mãe, ela ouve pouco e quase não se interessa. Por causa da idade avançada, deixou de ser quem era. Para suportar a perda, escrevo a uma interlocutora imaginária, uma interlocutora tão capaz de um amor incondicional. A escrita é um recurso vital quando a palavra é impossível e, na falta do destinatário desejado, inventamos outro."

"Se tu pudesses consolar-me! Mas o tempo do consolo passou. Já não podes. Quem deve poder agora sou eu, e para ser livre, preciso aceitar isso. Hoje és menos a nossa mãe do que o legado de si mesma. Semiviva, como um passarinho que partiu a asa e está destinado a permanecer até ao fim no chão... Que já não é passarinho pois já não voa.

Só não desejo a tua morte porque tu, de repente, ressurges como eras... uma palavrinha ou um gesto que evoca o passado... e dás-me a ilusão de eu ser ainda a tua eterna filha." 

"Se eu pudesse dar-te a vida de novo...fazer-te nascer de mim como eu nasci de ti... Não paro de desejar o impossível. Apesar dos teus 98 anos, não suporto perder-te. Eu, que sei do fim de tudo, não me conformo com o teu fim. (...) Sei que só a impermanência possibilita a renovação do Universo. Porém o coração não acompanha a cabeça."

Terminado em 1 de Maio de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
Aos 98 anos, com a saúde debilitada, a mãe mal ouve e quase não vê. A filha, que se vê no papel de mãe da própria mãe, questiona os médicos, as religiões, tudo. Para quê manter vivo alguém que já não vive? Num relato comovente, em forma de diário, a filha descreve as peripécias do dia-a-dia com a mãe; ao Um livro forte, uma reflexão gritante de tão actual, A Mãe Eterna apresenta-nos um dilema que mói a alma e nos faz questionar a vida, a morte e a relação mãe-filha.

Cris

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