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quinta-feira, 25 de maio de 2017

A escolha do Jorge: "Viajante à Luz da Lua"


 "Levamos dentro de nós a direcção do nosso caminho, e dentro de nós brilham as eternas estrelas do nosso destino." (p. 220)
Singular, electrizante, nocturno, e intimista, quatro adjectivos que caracterizam “Viajante à Luz da Lua” do húngaro Antal Szerb (1901-1945). O livro que constitui uma das referências da literatura húngara contemporânea foi recentemente publicado pela editora Guerra & Paz, permitindo, desta forma, aos leitores portugueses o contacto com um autor que se percebe ser grande por todos os elementos que integra neste romance sublime e magistral.
Fazendo uma breve pesquisa sobre a vida de Antal Szerb, rapidamente percebemos que muitos aspectos se reflectem em “Viajante à Luz da Lua”. Considerado uma referência no meio académico do seu país, Antal Szerb foi eleito Presidente da Academia Literária Húngara, em 1933, e tornou-se professor de Literatura da Universidade de Szegad, em 1937. Falava fluentemente várias línguas e viveu durante alguns anos em países como a França, Inglaterra e Itália. Foi galardoado em 1935 e 1937 com o Prémio Baumgarten, além de ter traduzido obras a partir do francês, inglês e italiano. Herdeiro de toda uma tradição cultural judaica pela via seus pais, Antal Szerb foi, contudo, baptizado católico, ainda que durante o regime nazi, tenha sido perseguido devido à sua ascendência, as suas obras foram proibidas, acabando por ser enviado para o campo de concentração de Balf, na Hungria, onde viria a morrer, em 1945.
Em relação à obra “Viajante à Luz da Lua”, Antal Szerb constrói uma narrativa em torno de Mihály, um adolescente burguês de Budapeste, assente na nostalgia permanente que remonta a uma juventude feliz face a um período da vida em que sentiu o amor de uma forma idílica, pura, na relação com alguns amigos próximos em que confundia a fronteira entre a amizade e o amor e onde o teatro desempenhava uma componente determinante, de sublimação. A obsessão pela morte tornou-se uma constante na representação de sucessivos papéis ao ponto de Mihály apostar ao máximo na representação de obras de referência da literatura ou mesmo de acontecimentos históricos em que a morte estivesse presente. A necessidade de representar a morte constituía um misto de fascínio pela necessidade em que a imaginação é estimulada face ao desejo de representar a melhor das mortes, mas também de perceber que a vida continua para lá do teatro através das suas múltiplas “ressurreições” ou “ressurgimentos” como se a vida e a morte não passassem de um mero jogo.
“O mais difícil era ter de participar nos seus jogos. Não tenho nenhuma inclinação para o teatro nem para a interpretação, sou irremediavelmente tímido e, ao princípio, quase sempre senti que iria morrer, quando me vestiam o colete roxo do avô para desempenhar o papel do Papa Alexandre VI, numa peça sobre os Bórgia. Mais tarde, habituei-me a isso, mas não era capaz de improvisar aquelas frases barrocas que eles conseguiam. Em contrapartida, era uma excelente vítima. Era o melhor para ser envenenado ou frito em óleo a ferver. Algumas vezes tive de representar a multidão, vítima da crueldade de Ivan, o Terrível, e agonizar e morrer vinte e cinco vezes seguidas, e sempre de uma maneira diferente. As minhas técnicas de agonia tinham muito sucesso.
Também tenho de te contar outra coisa, apesar de me custar um pouco, mesmo depois de ter bebido tanto vinho, mas a minha mulher deve saber isto: gostava muito de ser vítima. Logo de manhã, já pensava nisso e esperava pelo momento durante o dia todo, sim…
- Porque gostavas tanto de ser vítima? – perguntou Erzsi.
- Hum… por razões eróticas, se é que me faço entender… Com o passar do tempo, era eu que inventava as histórias em que podia desempenhar o papel de vítima.” (pp. 37-38)
O palco de representação destes sucessivos papéis era a casa de Tamás e Éva, irmãos pobres, sem mãe e com um pai alcoólico, ambiente que exercia fascínio sobre Mihály e outros amigos burgueses na medida em que aquele convívio colidia com as regras e valores em que a burguesia se movia. O contraste dos ambientes, aquela pobreza desmesurada e a ausência de consciência da realidade por parte dos irmãos Tamás e Éva funcionavam como que um desejo de revolta face a uma ordem estabelecida, mas prestes a ruir com a 1ª Guerra Mundial.
Esta amizade acaba por se confundir com amor na medida em que os rapazes deste grupo se sentiam apaixonados por Éva que por sua vez mantinha uma relação deveras íntima com o seu irmão Tamás. A amizade e o convívio com estes irmãos marcou para sempre a vida dos demais rapazes, nomeadamente Mihály que para sempre nutriu um amor obsessivo por Éva, mas também por Tamás que acabou por ter uma morte trágica, sendo que, a partir daí ainda se consolidou mais a ideia de perseguir a morte, de a desejar, como que havendo um erotismo ao concretizá-la, para amar, para compreender e para depois ressurgir novamente algures numa outra esfera.
Neste grupo de amigos há um indivíduo com um percurso peculiar. Trata-se de Ervin que, em certa medida, tem tantos traços em comum com o próprio Antal Szerb, sobretudo no que concerne ao aspecto da religião. Ervin era judeu, mas converteu-se num católico fervoroso. Enquanto que para os demais amigos, o catolicismo constituía uma espécie de adaptação, para Ervin era a forma de demonstrar a rebeldia. Ervin tornou-se tão rigoroso consigo próprio face ao fascínio que sentia pela “severidade intransigente dos dogmas e das ordens morais” do catolicismo que “vigiava com uma pistola a salvação da sua alma.” (p. 43)
A nostalgia, o desejo de morrer, a obsessão por Éva que nunca terá ido além da forma de amor idílico ou platónico, não consumado acompanharão Mihály durante vários anos ao ponto de em plena lua-de-mel, com a sua esposa Erzsi, em Itália, se sente perturbado na sequência de um inusitado encontro com um dos amigos da adolescência. Os fantasmas regressam em cadeia à mente de Mihály ao ponto de interrogar tudo à sua volta, o sentido da vida, balançando entre o dever e o desejo abandonar o barco, seguindo a sua vida, descobrindo-se a si próprio.
E é isso que acontece… Mihály perde o comboio para Roma onde está Erzsi, trilhando cada um o seu caminho. Mihály jamais esquecerá a sua viagem a Itália, que sempre adiou, por considerar um país intenso, rico em História, em emoções e sensações, paisagens únicas que mexem com o seu intelecto e espírito.
Será esta sensação de “liberdade destruidora” (p. 187) que moverá Mihály. A planeada lua-de-mel de Mihály é substituída por uma longa viagem pela Itália, uma viagem de auto-reconhecimento, de descoberta, de morte e de ressurgimento, de perdão, mas também de amor. É à noite, nas inúmeras vielas e becos de algumas cidades que Mihály compreende a essência do ser humano, de si próprio. As sombras que contrastam com a luz, a escuridão, tantas vezes associados a estado de alma, de espírito, como se tratasse de uma luta titânica entre o desejo e o dever, o amor e o ódio, a paz e a guerra, a vida e a morte.
Inúmeras são as alusões a outras obras de referência no âmbito da literatura, mas também da História e da Filosofia, colocando Antal Szerb como um escritor completo fazendo a ponte entre a escrita e o conhecimento científico. “Viajante à Luz da Lua” para além do seu carácter intimista em que o leitor embarca, faz também a fusão entre a história das religiões e a ideia e sentido de história e de civilização apresentado por Oswald Spengler (1880-1936). Segundo o historiador e filósofo alemão, cada civilização tem o seu ciclo de vida semelhante ao do ser humano em termos biológicos – nasce, cresce, amadurece, entra em declínio e morre. Assim, cada cultura ou civilização poderá fundir-se numa outra cultura ou civilização que se lhe sobreponha, “engolindo-a”, mas mantendo alguns dos princípios ou valores que passam a ser adaptados a uma nova realidade emergente, actual. Independentemente desta sobreposição e fusão civilizacional, há uma ideia de civilização que subjaz a todas as civilizações que tem que ver com o filtro que que vai fazendo no decorrer dos séculos, pura depuração temporal, fruto das vivências face às novas necessidades que se impõem ao homem enquanto ser biológico e cultural, não esquecendo todas as conquistas alcançadas no domínio da ciência e da técnica que caracterizam um dado período e que é transmitido à geração seguinte.
Há uma passagem determinante que reflecte as ideias acima referidas quase como se tratasse de um ensaio ou de uma aula de Teoria da História e do conhecimento histórico que Antal Szerb, de forma exímia, transpõe neste romance. “No início da época romana, o cristianismo estava constantemente ameaçado de se converter na mais pura religião de morte, parecida com a dos índios do México. Mas depois, veio ao de cima o seu carácter mediterrânico e humano. O que se tinha passado? Os povos do Mediterrâneo conseguiram sublimar e racionalizar o desejo da morte, quero dizer que conseguiram atenuar o desejo da morte num desejo de além, transformaram o terrível ‘sex-appeal’ das sereias da morte numa coisa chamada coros e ordens celestes. Desde então, os crentes puderam aspirar a uma morte bonita, não desejavam os prazeres pagãos do acto de morrer, mas os prazeres civilizados e convenientes do paraíso. O desejo primitivo, ancestral e pagão da morte foi relegado para as camadas inferiores da religião, as superstições, os feitiços e o satanismo. Quanto mais forte é uma civilização, mais inconsciente se torna o amor pela morte.” (p. 186)
“Viajante à Luz da Lua” apresenta-se como uma obra magistral, completa, complexa, intimista, além de constituir em si mesma uma lufada de ar fresco no presente contexto editorial, apresentando o escritor Antal Szerb como um dos vultos incontornáveis da literatura contemporânea húngara, sendo marcadamente um herdeiro de toda uma tradição judeo-cristã naquilo que alude à herança cultural de toda uma grande família europeia, não esquecendo a ideia de destino, de sofrimento e também de renovação presentes no Judaísmo e que foram sublimados pelo Cristianismo.
Texto da autoria de Jorge Navarro


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