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terça-feira, 23 de maio de 2017

A convidada escolhe: “Nem todas as baleias voam”

      Oh, que livro! Foi assim com estas palavras que cheguei ao fim deste livro. Pura poesia, o que dizer sobre ele? Anotei tanta expressão, transcrevi períodos inteiros, não quis deixar de guardar algumas falas que mais me impressionaram e agora parece que tudo o que escrever é pequeno e pobre.
      É um tributo à música, ao jazz, à arte, mas é também um livro sobre o desencontro amoroso, o abandono, o desamparo, a amizade, o medo da morte, as cicatrizes do nazismo, a tensão entre potências naquele período a que se chamou Guerra Fria.
      Todos procuram algo, todos lutam pela esperança, a Utopia. A CIA quer dominar o mundo e neutralizar os russos, acreditando que o conseguirá fazer usando o poder do jazz. Erik Gould quer reaver a sua mulher, a única que amou na vida e que um dia desaparece, acredita que um dia ao telefonar para casa ela estará lá para o atender. Quem sabe se as mensagens que lança ao mar dentro de garrafas de cerveja algum dia chegarão até ela? Isaac Dresner anseia por um futuro perfeito sem guerras nem violências, gostaria de esquecer os horrores que testemunhou e gere uma livraria insólita – “Humilhados e Ofendidos” – que não dá lucro. Tristan anseia ser feliz, quer sentir que não está só no mundo, gostaria de não ser atormentado pela presença constante da morte e, entretanto, vai guardando numa caixa de sapatos os pequenos objectos que considera essenciais, a sua arca de sobrevivência. Tem como bússolas um atlas, onde vai traçando o roteiro imaginário da mãe que desapareceu e um “Dicionário de Sinónimos, Poético e de Epítetos”para encontrar as palavras que lhe faltam. Isaac e Tsilia são para Tristan os substitutos dos pais ausentes, tal como Clementine, a prostituta, é ouvinte, confidente atenta e relatora de escritos gnósticos. O Escritor/Homem do Chapéu Cinzento que não se quer dar a conhecer, para quem todo o processo criativo é violência e coação, até mesmo conseguir que as baleias voem! As prostitutas – Clementine e Arlette – são mulheres fortes e sabedoras, guardadoras de segredos e memórias.
      O livro parte da ideia insólita saída das mentes da CIA, numa altura de grande descrédito da administração americana, de pretender conquistar o mundo através da música, mais propriamente do jazz, uma música “desalinhada”, que encarna a revolta contra a opressão, a exploração, o racismo, ou seja, as doenças que o capitalismo gera. Levando-a até junto dos jovens russos, quem sabe os conseguiria conquistar e levá-los a rejeitar os ideais da então União Soviética? Para tal, nada como usar os “Jazz Ambassadors”, tal era o nome do plano, em digressões que entrassem no campo inimigo com uma arma diferente: a música, o jazz. Erik Gould,o pianista que respira música por todos os poros, seria o escolhido pela agência americana para essa missão insólita. Tal como o filho Tristan que sofria de sinestesia e via sentimentos, Erik Gould via notas musicais em tudo. Uma doença, uma obsessão. A arte é afinal a matéria desta obra de Afonso Cruz, inelutável quando se é capturado por ela. Clementine é exemplo disso: começou a prostituir-se por causa da música; queria comprar um fagote para poder tocar Bach.

“Um tipo larga a heroína, mas não larga a música.”
“Não imagina a quantidade de vezes que já tentei deixar a música. Mas não consigo, não se consegue, ninguém consegue.”
“ – E porque queria ele largar a música?
-Isso não sei, mas acho que por paixão, queria entregar-se a uma só, a Natasha Zimina, e o piano era uma espécie de adultério.”
“A arte é a maior estupidez humana. Serve para quê?”
“A arte é um desvio da norma. A arte é uma doença da expressividade humana.”
“- … os livros não explicam nada. 
- Então, porquê lê-los? 
- Para ignorar mais. É assim que nos tornamos cada vez mais livres.”
 “Não abras as gaiolas dos pássaros, senão morrem de liberdade.”
“Todos os sábados de manhã, acontecia-lhe a mesma coisa, uma ténue esperança de que tivesse chegado o dia, mas as notícias, a realidade, tudo desmentia essa esperança num futuro perfeito, nesse imenso sábado em que o leão se deitaria com a ovelha.”
“Haveria um imenso sábado, um dia.”
“Os milagres acontecem nos sábados em que menos esperamos.”

      Este é o primeiro livro que li de Afonso Cruz. Certamente a sua actividade multifacetada como escritor, músico, cineasta e ilustrador é a fonte de onde brota a criatividade e inspiração para “Nem todas as Baleias Voam”.

Almerinda Bento 
Maio 2017

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