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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Rapariga em Guerra de Sara Nović

      Um livro que me encheu verdadeiramente as medidas. Lido num dia de descanso em que nem quis sair para nāo perder pitada. 
      Creio que nāo é fácil escrever uma história onde a acçāo se passa num cenário de guerra. Pode-se cair em pieguices exageradas ou entāo, pelo contrário, descrever muito superficialmente os actos de horror que as guerras, todas, trazem consigo. O meio termo é importante para o leitor conseguir embrenhar-se na história, senti-la sua. Foi, de facto, o que me aconteceu. 
      As guerras sāo, felizmente para muitos, uma coisa lá bem longe. E esta, o desmantelamente da antiga Jugoslávia e a guerra civil entre a Croácia e a Sérvia, nos anos 90, acabou por ficar remetida algures em mim numa memória longínqua. Mesmo tendo visitado o país já há alguns anos e ter ainda encontrado casas com vestígios dessa guerra (por exemplo, algumas casa ainda com os buracos das balas) nāo se consegue visualizar o sofrimento passado por esse povo e bem depressa somos conquistados pela beleza de um país possuidor de uma costa belíssima e, consequentemente a beleza da paisagem faz esquecer o seu passado sofrido. No entanto, ao ler passagens do livro fui, de novo, passear pela Croácia e ficou o desejo de lá voltar. Agora com outros olhos, certamente.
      Como dizia, aqui a autora prende-nos logo nas primeiras páginas. Ana, uma menina croata de 10 anos, recorda a sua infância livre e feliz. As dificuldades eram muitas porque a sua família nāo tinha muitos recursos mas a bicicleta, o seu amigo Luka, o futebol e a relaçāo especial com o seu pai preenchiam os seus dias. Aos poucos, este cenário muda: a comida escasseia, os aviōes sobrevoam e os ataques aéreos, os abrigos e o cheiro a queimado passam a ser uma realidade. As brincadeiras mudam, passando a imitar o que os seus pequenos olhos veem. 
      Uma escrita arrebatadora, pormenores descritos com uma clareza surpreendente, por vezes com a inocência própria de uma criança que aprendeu a creser mais rapidamente do que era suposto. 
      Nāo posso deixar de vos contar como me senti descontente quando a narrativa dá um salto temporal. Sabem aquela sensaçāo de nāo querer abandonar as páginas que retratam uma época, de querer saber mais pormenores? Mas, verifiquei com agrado que a autora soube conquistar a minha atençāo rapidamente porque a história parece real e aborda outros aspectos que me pareceram muito interessantes: o que fazer com as memórias que foram dolorosamente postas de lado para se conseguir sobreviver?
      A guerra vista com os olhos de uma criança. Uma mulher que cresceu mas, escondido o passado, nāo sabe onde pertence, onde é a sua casa. Recomendo muitíssimo. Nota máxima.

Terminado em 15 de Abril de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
      Uma saga de guerra, um relato da passagem à idade adulta, uma história de amor e de memória, Rapariga em Guerra percorre todas estas facetas e revela-se um romance de estreia ao mesmo tempo perturbador e cheio de esperança, escrito com a força da verdade. Zagreb, 1991. Ana Juric é uma menina de dez anos com um espírito descontraído, que vive com a sua família na capital da Croácia. Mas, nesse ano, a Jugoslávia é abalada pela guerra civil, destruindo a infância idílica de Ana. A paz do dia a dia é manchada pelo racionamento, pelos constantes raids aéreos e os jogos de futebol são substituídos pelo fogo das armas. Os vizinhos começam a desconfiar uns dos outros e a sensação de segurança começa a desvanecer-se. Quando a guerra lhe bate à porta, Ana tem de encontrar um novo caminho num mundo perigoso.
      Nova Iorque, 2001. Ana é agora uma estudante universitária em Manhattan. Apesar de todas as tentativas para deixar o passado para trás, não consegue escapar às recordações de guerra e aos segredos que guarda até dos que lhe são mais próximos. Perseguida pelos acontecimentos que lhe roubaram a família para sempre, regressa à Croácia depois de uma década de ausência, na esperança de fazer as pazes com o lugar a que um dia chamou casa. Enquanto enfrenta o passado, procura reconciliar-se com a história difícil do seu país e com os acontecimentos que lhe interromperam a infância, há tantos anos. Avançando e recuando no tempo, este livro é um retrato franco e generoso de um país devastado pela guerra, mostrando-nos, com uma escrita brilhante, a impossibilidade de separar a história de um país e a história do indivíduo.
      Sara Nović revela destemidamente o impacto da guerra numa menina e o seu legado em todos nós. É a estreia de uma escritora que olhou para o passado recente e encontrou uma história que ressoa ainda hoje.

Cris

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