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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Ao Domingo com... Perpétua Aço

... a propósito da obra Fez no Sábado Quinta-feira

Nasci em Benavila, concelho de Avis, junto à albufeira da Barragem do Maranhão. Foi aí, no coração do Alto Alentejo, que cresci e estudei até ao 12.º ano de escolaridade, tendo terminado o ensino secundário no Liceu de Portalegre. Em 1981 ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, cidade para onde então migrei e onde continuo a trabalhar e a viver até hoje, sem nunca ter descurado a sua paixão pelo Alentejo. Costumo dizer que sou um pássaro que voou para a cidade. Não me esqueço, porém, que foram as minhas raízes – a minha família, a minha terra e a boa gente de lá - que me forneceram o alimento necessário para que as asas me crescessem.

Sempre gostei de escrever. Em pequena já eu rabiscava coisas em papéis, blocos, cadernos, agendas, mesas, paredes, enfim, em tudo o que apanhava, até a parte de baixo da mesa de corte do meu pai eu risquei toda com giz de alfaiate. Amante das letras e da leitura, sobretudo de autores portugueses, ao longo da vida fui aguçando o gosto de escrever sobre o que via, o que sentia ou mesmo o que inventava. Em verso ou em prosa, conforme a maré ou o estado de alma, mantive secreto durante muitos anos o sonho de um dia me tornar escritora.

Curiosamente, a minha vida profissional resume-se a escrever: contratos, atas, pareceres. E nos meus tempos livres, para não variar, escrevo. Em verso ou em prosa, crónicas, contos, o que a inspiração dita e a caneta ou o teclado materializam. Continuo a escrever em tudo o que apanho tal como quando era miúda. Felizmente, a evolução tecnológica permite deixar a salvo mesas e paredes, pois há sempre à mão um computador, um tablet ou um smartphone, e é aí que vou armazenando os escritos, uma pequena parte dos quais vou divulgando nas redes sociais, até para que não se percam se todos os aparelhos se avariarem.

Nem sempre fui muito organizada com os meus escritos (hoje em dia com os computadores torna-se um pouco mais fácil), mas em 2014, com o incentivo de alguns amigos, consegui recuperar e arrumar alguns poemas numa coletânea que publiquei em 2015, a Primavera Prometida. A Primavera Prometida é uma obra mais ou menos autobiográfica para toda a gente que sente e que passa, como eu passei, pelas diversas estações da vida entre amores e desamores, paixões e desilusões, fantasias escangalhadas e esperanças renovadas.

Logo depois do lançamento da Primavera Prometida, e porque não escrevo só sobre coisas tristes e sérias e dramáticas, e porque acho que o melhor sentido da vida é mesmo o sentido de humor que há em tudo e em todos, comecei nos meus tempos livres a organizar uma nova coletânea, com poemas mais leves, que brincam com as pequenas comédias que há em nós e no nosso dia-a-dia. Foi assim que surgiu e foi ganhando forma a ideia do Fez no Sábado Quinta-Feira, cujo lançamento acabou por ocorrer em 26 de novembro de 2016 na minha aldeia. Os poemas que dele constam foram selecionados de entre as centenas de quadras mais ou menos satíricas que escrevi recentemente, quase todas de 2012 para cá, algumas mais publicáveis que outras, com o relato de viagens, passeios, jantares e aventuras com vários grupos de amigos. Por isso é que em quase todos, qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Há uma ou outra história fictícia, que recontei em verso, mas a grande maioria dos poemas foram inspirados em situações, muitas vezes anedóticas é certo, mas reais. Foi verdade, por exemplo, que comprei dois perus enormes no Natal de 2015 e que à conta disso um deles esteve quase para servir de borrego na Páscoa, tal foi a quantidade de carne com que forneci o frigorífico lá de casa; foi também verdade que corri Lisboa inteira à procura de meias brancas para o meu filho João usar no primeiro estágio de enfermagem e que só encontrava meias com raquetes de ténis; foi verdade que certo serão de férias no Algarve, a meio de um jantar exótico com amigos de Bigas, terra também muito profícua em nomes engraçados e a que os locais chamam de «Las Bigas» (freguesia de Lordosa – Viseu) se nos juntou, vindo do nada e saltando o muro da varanda, um criador de bacorinhos e encantador de galinhas, o Luix dos Leitões, que nos contou histórias fantásticas, tais como o transporte de ovelhas num Seat Ibiza; tal como foi verdade que em Santa Maria - Cabo Verde, quando um amigo meu pediu a conta de umas cervejas num bar local a avantajada empregada, vestida de cor-de-rosa e já com uns copinhos a mais, lhe perguntou se ele não queria – imaginem! - um dedo no «cu»; tal como são verdadeiros os relatos sobre a partilha dos peixes Ernesto e Zé Maria por um casal divorciado, o nascimento do Pedro Bill em Cabo Verde, a Próstata Minguante de um amigo meu e a Saga dos Primos, entre muitas outras histórias. Destaco também aqui o carinho especial que tenho por certas utilidades que mereceram assento neste livro, tais como napperons, electroválvulas, ‘varomas’ que ‘varomeiam’, balanços que não balanceiam, secadores de cabelo e sistemas de rega caseiros com tubos e pauzinhos ligados à eletricidade.

E o melhor de tudo é que todas as personagens descritas no Capítulo IV correspondem a pessoas reais. É real a existência de um conterrâneo que leva gatos a casa e se autointitula «Pai dos Gatos» e a quem estou muito agradecida pois muitas vezes foi entregar o meu saudoso Lumi a casa dos meus pais. Tal como é verdadeiro o elenco de anexins bem-dispostos e engraçados existentes em Benavila, um património que merece ser preservado e que me inspirou um poema específico bastante exaustivo e que teve um enorme sucesso na minha aldeia. Pois que em termos de alcunhas existe lá de um tudo, tal como refiro numa das quadras: «Dos que matam aos que cagam / Dos tachos às peças de roupa / Até àqueles que balham / Nenhuma figura se poupa».

É também verdade que o meu avô Tonh’Aço via televisão com uns óculos pretos sem lentes, que não dispensava, e que, já lá vão uns aninhos, basicamente «fez no sábado quinta-feira», me contava, a mim e ao meu irmão, histórias e lengalengas non-sense e cheias de humor, com as quais me despertou para estas andanças de fazer paródias com as pequenas coisas do quotidiano.

Rezava assim a lengalenga que ele me dizia e que deu nome a esta obra:

«Fez no sábado quinta-feira 
Para lá d’Elvas três semanas 
Andei dez anos no verão 
Lá nas Américas romanas 
Embarquei em dois calheis 
Na Baía de Lisboa 
Fui dirigido à proa 
Desembarquei em Alenqueres 
Casei com sete mulheres 
Falta-me uma para a primeira 
Passei à Ilha Terceira 
Andei três dias numa hora 
Abalei e vim agora 
Fez no sábado quinta-feira 
Agarrei num alforginho 
Num pau com quatro engatas 
Uma cadela e duas vacas 
Uma borracha com toucinho 
E um cesto cheio de vinho 
Trinta metros de banana 
Dei passos à “amaricana” 
E já estive em Aiamonte 
Abalei hoje e vim “onte” 
Para lá D’Elvas 3 semanas…»

Conforme escreve a minha querida amiga Teresa Pais no Pref’Aço da obra, «As oito (VIII) partes que compõem a obra (I – Anedotas e Situações; II – História e Filosofia das Emoções; III – Locais e Ocasiões; IV – Pessoas e Emoções; V – Santos e Tradições; VI – Sonhos e Alucinações; VII – Utilidades e Funções e VIII – Fez no Sábado Quinta-feira), podem ser lidas aleatoriamente que o leitor continuará fascinado pela sensibilidade, pela agudeza e graça de espírito da Autora “…Sou singular e plural, Sou estas letras que pinto, E Poeta…talvez um dia!”, in Autorretrato.»

Dediquei este livro em primeira mão ao meu Avô Tonh'Aço, que se fosse vivo teria feito 109 anos por ocasião do lançamento desta obra, mas ele também é dedicado a todos os que me inspiraram e que sei que continuarão a inspirar, motivando-me todos os dias a escrever mais e melhor.

Este livro é para que todos se revejam, se divirtam com isso e riam muito porque, como disse Charles Chaplin, «um dia sem rir é um dia desperdiçado!»

Muito obrigada!

Perpétua Maria Coelho Aço (Peta Maria)

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