Gosta deste blog? Então siga-me...

Indique o seu email para receber actualizações

Também estamos no Facebook e Twitter

domingo, 8 de janeiro de 2017

Ao Domingo com... Alice Lázaro

Falar na primeira pessoa comporta riscos uma vez que o equilíbrio se torna muito difícil de alcançar pelos receios, tanto de ficar aquém como de ir além, das expectativas geradas. Por outro lado, se entrarmos no campo psicanalítico pode dar-se a entender uma baixa ou um excesso de auto-estima, indesejáveis, em qualquer dos casos, à imagem que se quer passar.

É por isso que tenho evitado criar um blog pessoal, preferindo assumir os riscos de uma atitude confortável, onde me abstenha do confronto comigo mesma e sobretudo com o outro, confrontos para os quais, garantidamente, não tenho disponibilidade mental. Do tempo que disponho, tenho-me servido para uma tarefa prioritária, que é a minha realização intelectual, derivada da pesquisa de fontes inéditas, que acrescentem alguma coisa positiva a quem ler, quando possa existir a divulgação de tais conteúdos.

Foi este o horizonte que me norteou desde que decidi abandonar a docência, enquanto actividade remunerada e passei a dedicar-me, exclusivamente, à investigação e à escrita. Este acto consciente colocou-me perante desafios, como seja o de alcançar estabilidade psicológica e emocional versus material, através da concretização de um bem que reputo superior num meio hostil e cujos meandros, porque desconhecidos, me garantem, em contrapartida, somente a solidão e a indiferença. A dissecação desta afirmação levar-me-ia agora por outros caminhos justificativos do bem-estar que alcanço neste recolhimento interior, tendo em mente exemplos maiores, sem precisar de me isolar fisicamente do mundo à minha volta.

Desloco-me num tempo histórico enquanto curso do mesmo tempo, infinito, vivenciado no recurso à imaginação especulativa, donde derivo a recriação de vidas, à imagem e semelhança de um criador. Posto este desabafo confessional – que na opinião do poeta é mais ou menos sincero – diria que a ter de eleger um tempo e uma época, teria dificuldade em optar, porque me apaixono sempre e sem remédio pelo último tempo que descobri nos documentos e na revisitação da escrita dos que dele falaram antes de mim. As circunstâncias têm ditado as escolhas, portanto. Deste modo, sob as formas de ensaio biográfico e/ou de memórias, diria que o século XVIII tem sido o meu eleito, em razão e causa do muito que me têm ensinado as figuras da corte mariana (D. Maria I) e da joanina (D. João V), esta em despique com aquela. Deriva daqui a produção de alguns dos meus trabalhos que assumiram a forma de livro dos quais lembraria a propósito A Flor da Murta; O Reinado do Amor; Se Saudades Matassem…; Com o Mais Fino Amor e ultimamente A Virtuosa Arte de Reinar. (Escuso aqui, sem menosprezo pelo gosto que tenho neles, outros trabalhos dos quais tirei o maior proveito pessoal, em termos afectivos, também, como seja Napoleão andou por aí…; As 7 Vidas de José Maria de Vasconcelos Mascarenhas; A Escada de Jacob, com a recuperação de vivências centradas no século XIX já, os dois primeiros e o último, no século XVII.

Como os últimos acabam por ser os primeiros – falo de sequência cronológica – diria que A Virtuosa Arte de Reinar ocupa agora o horizonte dos meus afectos. Não só porque estou de volta à figura de D. Maria I, aqui neste livro como partenaire do seu confessor, o primeiro, que foi o jesuíta Timóteo de Oliveira, onde interagem ambos como personagens centrais, através dos Parabéns que ele lhe dedicou anualmente e enquanto pôde ao longo da vida.

Por meio deste corpus manuscrito foi possível reconstruir um mundo de vivências que vão do quotidiano palaciano (à volta da celebração do aniversário natalício da princesa e futura rainha) à pedagogia, veiculada por uma mensagem, eivada de princípios morais e éticos, adequados ao espírito da época, mas sobretudo ao cultivo de uma acção governativa, norteada por valores cristãos e universais, onde sobressaia o bem e o amor ao próximo, conceitos que nos dias de hoje soam estranho.

O livro parte assim da recuperação dos Parabéns com intenção de recriar um período de tempo, relativamente longo, que cobre os anos de 1749 a 1786, isto é, de fornecer o enquadramento político e social do antes e do depois da subida ao trono da rainha D. Maria I. Tendo início no reinado de D. João V, o assunto dos Parabéns encontra pelo meio o reinado de D. José I, subordinado ao consulado pombalino, do qual são vítimas num todo, parte da nobreza, condenada à morte em nome do atentado perpetrado contra o rei (a chamada conspiração dos Távoras) e os jesuítas, que sofrem perseguição, expulsão e encarceramento, num contexto da abolição da própria Companhia de Jesus.

Sendo o P.e Timóteo de Oliveira membro desta Companhia, ficou exposto à desgraça que atingiu os seus companheiros e a ele, como não podia deixar de ser, dado o seu alto cargo e missão junto da futura rainha. Sepultado vivo no cárcere do presidio da Junqueira (Lisboa) durante cerca de 20 anos, dali saiu por ordem da nova soberana, quando esta subiu ao poder em 1777.

Deste delicado processo, que marcaria indelevelmente a vida do jesuíta Timóteo de Oliveira e da luta travada por ele e pelos seus companheiros, dos sobreviventes, quase todos no exílio, dá-se conta no livro, tendo a pesquisa que levei a cabo, resultado na construção da biografia do confessor, ao mesmo tempo que se traz à luz, passos ignorados e/ou desconhecidos da sua vida privada no enquadramento das suas relações sociais na alta esfera da corte, bem como a produção literária da sua lavra, rigorosamente esquecida, se é que se pode dizer conhecida, pela historiografia.

O livro foi apresentado na BNP (Biblioteca Nacional) no dia 14 de Dezembro de 2016, tendo a ocasião constituído para mim um ponto alto, enquanto autora, pela reunião de pessoas interessadas, mas também da minha estima e consideração, ao mesmo tempo que assinalou justamente o 2.º centenário da morte da Rainha Dona Maria I (Rio de Janeiro, 20 de Março de 1816), num esforço grande de marcar a efeméride com a saída do livro antes do ano de 2016 terminar. O desinteressado e anónimo preito de homenagem poderá servir de bitola à maneira como encaro a realização da tarefa que tomei em mãos e espero prosseguir até ao limite do possível.

Alice Lázaro

Para mais informação ver site da autora: www.binhomirroico.com

Nota Importante:
Quero agradecer à autora do Blog “O Tempo entre os meus Livros” a gentileza da sua lembrança, por ter posto ao meu dispor o seu espaço online para incluir e divulgar os livros da minha autoria. 

Sem comentários:

Enviar um comentário