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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

"O Segredo do Escritor" de Liz Nugent

Ler quase de seguida uma série de livros que "nos enchem as medidas" pode significar uma repetição de adjectivos para os qualificar que tendem a ser um pouco enfadonhos para quem visita o blogue mas, mesmo correndo o risco de me repetir, aqui vai a minha opinião sobre este livro: gostei muito!

Perante um acontecimento bastante trágico, que nos é relatado na sinopse e nos é dado a conhecer logo nas primeiras páginas (o coma de Alice, consequência dos maus tratos infligidos por seu marido, o escritor Oliver Ryan), desenrola-se o enredo deste livro que nos vai prendendo cada vez mais com o passar das páginas.

Falando sempre na primeira pessoa, os muitos personagens apresentam-nos todo um passado que culminou naquele acontecimento, os seus pontos de vista, os seus interesses e motivos. Um fio condutor liga as suas opiniões e permite que o leitor não se perca na trama.

Vai sendo contada a história desse escritor, autor de tamanha barbárie! E, se por um lado Oliver Ryan é-nos apresentado como alguém sem escrúpulos, egoista e indiferente aos que o rodeiam, quase um psicopata, por outro, sentimos alguma piedade e empatia porque foi criado sem amor e sem quaisquer laços familiares. Rejeitado pelo pai a quem quase suplica amor, desconhecendo quem foi a sua mãe, com uma madrasta e um meio-irmão que espia de longe, Oliver cresce sem família e quase sem amigos.

E mesmo se, nalguns pontos desta leitura, o factor surpresa não está presente (ou porque se torna fácil adivinhar o que vai suceder, ou porque nos são fornecidos dados pelos próprios personagens) isso não é impeditivo que a nossa atenção se mantenha focada porque sentimos que algo mais há escondido e que o enredo não ficará só por aí... E não fica mesmo. 

Muito bom! Gostei especialmente do fim que de "cor-de-rosa" nada tem... Recomendo!

Terminado em 27 de Agosto de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

O atraente e carismático Oliver Ryan é a imagem do sucesso. Ele e a mulher, Alice, levam uma vida invejável de privilégio e bem-estar. Invejável até que, certa noite, depois do jantar, Oliver agride Alice com tal violência que a deixa em coma.
O próprio Oliver fica aturdido com o seu gesto. No período que se segue, enquanto todos tentam perceber o que terá motivado esse surpreendente ato de selvajaria, Oliver conta a sua história. E o mesmo fazem aqueles com quem a sua vida se cruzou ao longo de cinco décadas. A verdade é ao mesmo tempo trágica e monstruosa, uma história de vergonha, inveja, fraude e manipulação.
Só Oliver sabe o que teve de fazer para alcançar a vida que ambicionava e a que sentia ter direito. Mas nem mesmo ele está preparado para o choque que a revelação do passado lhe reserva.
O Segredo do Escritor é uma história invulgar de tensão psicológica, um retrato complexo e empolgante sobre a génese de um sociopata, na tradição de Barbara Vine e de Patricia Highsmith.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A Convidada Escolhe: Um Dia...O Dia Não se Repete

"Um dia… o dia não se repete", Ana Paula Timóteo, ilustrações de Susana Matos, 2014

Sabendo do meu gosto pela leitura e pela escrita, Ana Paula Timóteo já me tinha falado do seu livrinho de contos breves e muitas histórias que tinha feito em parceria com uma talentosa amiga ilustradora de seu nome Susana Matos. Adquirido na última Feira do Livro de Lisboa, não foi um livro lido de uma assentada, antes intervalou outras leituras e, embora seja um livro, pelas suas características, a que apetece voltar mais vezes, foi uma das minhas leituras num Verão excessivamente quente.
Há uma nostalgia, uma melancolia, um olhar para um "paraíso perdido" na maior parte dos contos de Ana Paula Timóteo. Os animais, os velhos e a velhice são personagens e temas com frequência presentes nas suas histórias. O fim da meninice e, um dia, a surpresa de se perceber que a meninice acabou e que a velhice bate à porta… é o "corpo" do conto "As Férias" sempre marcadas para o dia 25 de Junho! É este o conto que dá título ao livro de Ana Paula Timóteo – "Um dia, o dia não se repetiu".

Apenas refiro alguns dos contos, em especial os que mais me disseram ou com os quais mais me identifiquei. "A Insónia" quando temos um despertador dentro de nós que, como por magia, nos desperta todos os dias sempre à mesma hora e que um dia, por força dos comprimidos, nada nem ninguém nos acordam quando tudo abana à nossa volta. "O Ritual" é a história dos sonhos que ficaram por cumprir. Quando tudo passou e as rotinas junto ao fogão em volta dos empadões, dos biscoitos para o cão e dos bolos para a professora de piano fazem parte de um passado já esquecido, só restam os gestos da mãe tocando ao fim do dia num piano imaginário. "O Bolachas" é um dos contos que fala daqueles animais que um dia entram na nossa vida. "A Lei" é uma história triste de uma sociedade que descarta os velhos e não lhes concede qualquer valor. A nossa! Também em "D. Cecília" temos as rotinas de um lar de idosos e uma reflexão sobre o que é individual e particular num espaço que uniformiza e retira identidade às pessoas que lá estão. "Alberto" é a história das pessoas que são diferentes, que não se integram na sociedade tal como ela está "organizada", que apenas são acolhidas e acarinhadas pelos pais, neste caso a mãe, até ao dia em que ela parte… "O Silêncio" – recordou-me "a cegueira" de Saramago – pode afinal ser uma bênção inesperada, um recomeço, um reaprender a viver e a comunicar. Em "A Parede" surgem-nos os medos que todos/as temos; os limites que não queremos passar; as dúvidas, as interrogações e o desconhecido que nos fascinam, mas nos tolhem.

As ilustrações de Susana Matos são maravilhosas. Delicadas, minuciosas, feitas com pequenos traços a preto e branco, contam histórias e completam os contos de Ana Paula. Certamente constituiu um privilégio a colaboração desta ilustradora neste livrinho de contos datado de 2014.

Almerinda Bento

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

"Segunda Vida" de S.J.Watson

Há livros que nos marcam mais do que outros. Li Antes de Adormecer, o primeiro livro deste autor, e gostei de tal maneira que sabia que uma das minhas leituras seria este Segunda Vida. Às vezes a leitura não surge tão depressa como gostaríamos mas este livro manteve-se, heroicamente, na minha pilha dos "to read".

O estilo de S.J.Watson manteve-se. Sem perceber como vi-me envolvida no enredo e, posso-vos dizer que esta leitura é, garanto-vos, daquelas cujas páginas fogem das nossas mãos, tal águia em busca da presa... Voam pelos nossos dedos muito rapidamente e, quando percebemos, já nos encontramos nas últimas páginas. Forte, dominador, o enredo está particularmente bem escrito, dando-nos a conhecer devagar pequenos pormenores que posteriormente fazem toda a diferença para tentarmos descobrir descortinar o que se vai passar. Sem qualquer sucesso, devo dizer-vos. A minha lucidez é frequentemente afectada porque me envolvo demasido com alguns dos personagens... Neste caso foi com Júlia que, tendo sofrido o embate da morte da sua irmã caçula, que ajudou a criar e pela qual se sentia responsável, tenta desesperadamente descobrir quem a assassinou e abandonou numa ruela de Paris.

Não, não descobri quem foi, nem tão pouco tive um daqueles palpites certeiros que povoam as cabeças mais ilustres, mas adorei ter sido "enganada" dessa forma. Creio que os bons livros assim devem fazer... Do final, que acho particularmente feliz, também não tive nenhuma antevisão e ainda agora, que vos escrevo estas linhas, estou para perceber se o adoro ou o detesto. Uma mescla de ambos os sentimentos toldam-me o coração neste momento!

Falar de Júlia, por quem sentimos uma empatia imediata, é falar de alguém que o autor criou com a sensibilidade à for da pele, com um passado recheado de emoções fortes e situações que lhe conferem uma fragilidade imensa mas, ao mesmo tempo, uma pessoa que não desiste de lutar e que tenta ultrapassar os seus erros da melhor forma que é capaz. Gostamos dela e desculpamos-lhe essas suas fragilidades que a metem num turbilhão de confusões com risco da própria vida e a do filho adoptivo, que adora.

Esta leitura relembra ao leitor algumas questões acerca das redes sociais e dos perigos que podem advir de encontros marcados por essas vias... Quem é quem na realidade?
Recomendo muitíssimo para quem gosta de emoções fortes e momentos de puro terror. Um triller psicológico a não perder!

Terminado em 25 de Agosto de 2016

Estrelas: 5*+

Sinopse

O muito aguardado novo thriller psicológico do autor do bestseller Antes de Adormecer…
Ela ama o marido.
Ela está obcecada por um estranho.
Ela é uma mãe dedicada.
Ela está preparada para perder tudo.
Ela sabe o que está a fazer.
Ela está a perder o controlo.
Ela é inocente.
Ela é totalmente culpada.
Ela está a viver duas vidas.
Ela pode perder ambas.

sábado, 27 de agosto de 2016

"A Partir de Uma História Verdadeira" de Delphine de Vigan

Este é um livro que terei muito gosto em reler daqui a uns tempos! Dou, por essa e muitas outras razões a nota máxima. Preciso com urgência de falar sobre este enredo fabuloso com quem já tenha lido o livro. Aqui não o posso fazer sob pena de vos contar mais do que devo. Malta amiga, fica aqui a dica...

Obrigada a interromper esta leitura quase no final porque a mala já ia muito cheia e não se justificava levá-lo quando faltavam umas dez páginas, foi com desagrado que não o levei de férias comigo. Fiz-me acompanhar de dois livros mais leves e mais pequenos mas fiquei irremediavelmente presa a um final que não descortinei e que queria desesperadamente conhecer... Ao fim dos doze dias, de muitas caminhadas e kilómetros percorridos pela Polónia, já de regresso, consegui extinguir finalmente a minha curiosidade. Conclusão?

Este é um dos melhores livros lidos este ano, sem qualquer sombra de dúvida.

A intensidade narrativa aumenta com o virar das páginas criando um suspense magnífico. A personagem principal, Delphine, é uma escritora já com provas dadas (a autora?) e, após a edição do seu último livro, vê-se a braços com um bloqueio que a impede de escrever uma linha que seja. A causa é, alegadamente, uma amiga recente que se insinua e intromete na sua vida cada vez mais, a L.

Misterioso, fascinante,  absorvente, verdadeiramente especial, este livro representou para mim uma leitura perfeita. Sentir-me dentro da personagem, conhecê-la e conhecer os seus medos, os seus bloqueios, a sua admiração crescente por L., as suas inseguranças, foi realmente um prazer.  A aniquilação da sua personalidade e, posteriormente, a sua libertação deixou-me sem fôlego. 

A escrita de Delphine de Vigan não me era desconhecida (já tinha lido e adorado Nô e Eu) mas a ideia fantástica de colocar factos pessoais numa história ficcionada faz com que o leitor, a determinada altura, não consiga discernir o que é ficção do que é realidade. Adorei isso!

E o final do livro? Aquele por que ansiei enquanto estive de férias? As últimas páginas foram lidas com sofreguidão e o final revelou-se magestoso! Um FIM* como nunca vi. A conclusão é tirada pelo leitor depois de lida a última palavra e apanhou-me de surpresa. Que significado tão grande uma palavra pode conter! E que reviravolta fenomenal!

Leitura obrigatória! O livro que eu gosteria de ter escrito, se desejasse de ser escritora...

Terminado em 22 de Agosto de 2016

Estrelas: 6*

Sinopse

Delphine crê que a sua incapacidade de escrever terá coincidido com a entrada de L. na sua vida. L. é a mulher perfeita que Delphine gostaria de ser: muito bonita, impecavelmente cuidada, de uma grande sofisticação e inteligência. L. está também ligada à escrita – é escritora-fantasma. L. insinua-se lenta mas inexoravelmente na vida de Delphine: lê-lhe os pensamentos, adivinha-lhe os desejos e necessidades, termina-lhe as frases, torna-se totalmente indispensável – é a amiga ideal. Mas, aos poucos, sabemos que ela conseguiu isolar Delphine (afastando toda a gente), que lhe lê os diários, a correspondência, que se faz passar por ela! E quer demover Delphine de escrever o livro que esta está a preparar, obrigando-a a escrever a obra que ela (L.) quer: Introduz-se, assim, na vida da amiga de forma insidiosa, permanente, por fim violenta, controlando tudo. É aqui que há um volte-face na intriga – até aí muito perto do real – e uma possibilidade autobiográfica.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Antes de Eu Partir" de Paul Kalanithi

Perturbadora, no mínimo, esta leitura. Mas, quem me conhece já sabe que preciso de ler algo, por vezes duro mas real, para não deixar-me levar apenas pelos romances (que adoro, aliás!), fruto da imaginação dos autores.

Pouco tenho a escrever sobre este livro. Estou a senti-lo neste momento e isso é o mais importante para mim. A mensagem que Paul queria contar e transmitir, passou na íntegra. Tentar imaginar-me na sua pele é impossível sequer. Mas viver um pouquinho da sua vida, do seu sentir, das suas reações e sofrimento quando soube que, aos 36 anos, tinha um cancro fatal e pouco tempo tinha de vida (quando ainda tinha tanto para realizar), da sua luta e espírito combativo, foi muito importante para mim. Sendo médico experiente e conhecedor do que se iria passar consigo, a sua força e resiliência é de louvar. Mas, de louvar é também, e sobretudo, a sua fraquesa e a sua dor que mostra sem pejo. A importãncia dos laços famíliares e dos amigos.

Perturbador, como já referi, e contado num tom intimista, uma vida findada a meio da sua existência.

Merece ser lido!

Terminado em 21 de Agosto de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

Aos 36 anos, ao terminar uma década de formação como neurocirurgião, Paul Kalanithi foi diagnosticado com um cancro inoperável no pulmão. Num dia era um médico que dava esperança aos que lutavam pela vida, no seguinte passou a ser um paciente que tentava sobreviver.
Antes de Eu Partir conta-nos a transformação de Kalanithi, que passou de estudante de Medicina em busca do sentido da vida a neurocirurgião respeitado pelos seus pares. Até que, numa estranha ironia de vida, se viu no papel de paciente e pai de um recém-nascido. Ao enfrentar a sua própria mortalidade, não pôde deixar de se interrogar: o que nos faz querer viver? O que fazemos quando a vida é interrompida de forma tão abrupta? O que significa ser pai quando a nossa própria vida está a fugir?
Paul Kalanithi faleceu enquanto escrevia este livro profundamente comovente, contudo, o seu amor pela literatura e medicina levou-o a partilhar as suas maiores inseguranças e receios. Partiu demasiado cedo, mas não sem antes nos deixar este testemunho lírico e extraordinário sobre a condição humana.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A Convidada Escolhe: O Ano da Morte de Ricardo Reis

"O Ano da Morte de Ricardo Reis", José Saramago, 1984
Uma das minhas leituras de férias e mais um dos livros de José Sramago já há algum tempo à espera de chegar a sua vez. Como sempre, fascinante, denso, com incursões inesperadas a propósito de tudo e de nada, desde expressões da nossa linguagem do dia-a-dia, até deambulações sobre a vida, a morte, o ser, o existir, o sonho… sobretudo nos encontros de Ricardo Reis com Fernando Pessoa. Surpreendente, para ser lido com calma, saboreando os caminhos que Saramago nos convida a seguir ao longo das páginas deste romance.

Em finais de Dezembro de 1935, Ricardo Reis chega de barco a Lisboa, vindo do Brasil onde esteve dezasseis anos a viver. É o reencontro com a sua cidade, ficando alojado no Hotel Bragança na Rua do Alecrim, não sabendo ainda por quanto tempo lá vai ficar. Sem planos definidos, Ricardo Reis é uma personagem solitária que vai observando e apreendendo a realidade da cidade, do país e do mundo, sem se envolver directamente, antes colocando-se de fora.

No entanto, o cemitério dos Prazeres onde está sepultado Fernando Pessoa falecido em 30 de Novembro de 1935, é o primeiro local que Ricardo Reis visita mal chega a Lisboa. No primeiro dia do ano de 1936, quando a euforia do novo ano é vivida lá fora e Ricardo Reis já se recolheu ao seu quarto no hotel Bragança, Fernando Pessoa (ou o seu fantasma) visita-o pela primeira vez e avisa-o de que só poderão ter mais oito meses para se encontrarem e explica que tal como quando estamos no ventre das nossas mães não somos ainda vistos, mas todos os dias elas pensam em nós, após a morte cada dia vamos sendo esquecidos um pouco "salvo casos excepcionais nove meses é quando basta para o total olvido".

O "Senhor Doutor Reis" como é tratado pelos empregados e hóspedes do hotel é um homem solitário, embora goste de almoçar em pequenos restaurantes pedindo ao empregado que não levante o prato à sua frente e deixe cheios o seu copo e o do seu companheiro imaginário. Gosta de observar e imaginar histórias sobre alguns hóspedes que jantam e frequentam o hotel e cria uma familiaridade por vezes forçada com o gerente – Salvador – com Pimenta que lhe carrega as malas e com Lídia a empregada que lhe limpa o quarto e lhe leva o pequeno almoço. Por outro lado, sendo alguém que se instala durante algum tempo no hotel sem ocupação nem ligações familiares ou sociais conhecidas, é observado não só pelo gerente e pelo empregado do hotel, mas também pela polícia política que quer saber as motivações daquele estranho doutor Ricardo Reis que regressou a Portugal vindo do Brasil. As notícias que lê todos os dias nos jornais para se pôr a par do que se passa no mundo e em Portugal pintam um retrato idílico de um país em que o salazarismo começa a fazer o seu caminho. O país da ideolgia da família unida e feliz, em paz, em confronto com as convulsões que se vivem na vizinha Espanha e no Brasil. O país da sopa dos pobres e das obras de caridade em todas as paróquias e freguesias. O país onde se morre de doença e de falta de trabalho. O país dos milagres de Fátima e da devoção ao chefe, arregimentando os seus seguidores na Mocidade Portuguesa, na Legião e em outros instrumentos de propaganda como a Obra das Mães pela Educação Nacional. O país dos filhos de pais incógnitos. O país da discricionaridade e da devassa da vida privada, dos interrogatórios e da intimidação sem quaisquer motivos, o início da triste história da PVDE/PIDE. No fim do interrogatório à saída da António Maria Cardoso, Ricardo Reis sentiu um fedor a cebola que exalava Victor, o informador. Mas também noutros momentos esse fedor rondava por perto.

Lisboa, a cidade de Pessoa, a cidade onde Ricardo Reis veio para morrer, é uma cidade cinzenta e triste em que a chuva cai impiedosa. O Carnaval também é molhado e sem graça. No Verão, o calor é
sufocante. A condizer com o ambiente de suspeição e desconfiança do Estado Novo, a cidade é
mesquinha, coscuvilheira, intromete-se na vida dos outros. Seja primeiro no hotel Bragança, ou mais tarde quando Ricardo Reis aluga um andar na Rua de Santa Catarina, as vizinhas espreitam, conjecturam, mexericam, imiscuem-se. Até para os dois velhos que se sentam junto à estátua do Adamastor, aquele novo morador de Santa Catarina não deixa de ser um motivo de interesse para matar as horas de ócio e de conversa. Felizmente para Ricardo Reis, daquele segundo andar há uma vista deslumbrante para o Tejo.

Em Espanha, depois da vitória das esquerdas nas eleições é para Lisboa que fogem e se refugiam os detentores de riquezas, aguardando a reviravolta que não tardará com o golpe fascista liderado por Franco. Na Alemanha e na Itália, os ditadores lançam os seus instrumentos de propaganda e preparam os seus seguidores para um dos períodos mais negros da história da humanidade. No Brasil o comunista Luís Carlos Prestes é preso. As notícias dos jornais portugueses dão conta de que no estrangeiro Portugal é visto como o país que finalmente vive um período de paz e prosperidade.
E agora, as duas personagens femininas que se relacionam com Ricardo Reis. Lídia – a musa das Odes de Ricardo Reis – e Marcenda são duas personagens centrais nesta obra e neste período da vida de Ricardo Reis. Como é apanágio de Saramago, as suas heroínas são sempre mulheres fortes e decididas. Lídia, empregada no hotel onde Ricardo Reis vai viver os primeiros tempos após a sua chegada a Lisboa, é senhora de si, apaixona-se pelo doutor Ricardo Reis mesmo sabendo das diferenças sociais que a impedem de poder ter uma vida social sem ambiguidades com aquele com quem se relaciona sexualmente. Marcenda, a jovem hóspede do hotel que todos os meses vem com o pai para uma consulta médica, encontra em Ricardo Reis uma pessoa mais velha que a trata como uma adulta e não como uma criança a quem se escondem verdades dolorosas.

Muito mais haveria a dizer sobre este denso romance de José Saramago, repleto de referências poéticas a Camões, à "Mensagem" de Fernando Pessoa e aos seus muitos heterónimos, entre outros. Não sendo especialista na obra do poeta, limito-me aqui a fazer este breve apontamento sobre esta obra de Saramago que penso ser um manancial para os/as amantes da literatura e, sobretudo, para os/as estudiosos/as da poesia de Pessoa e dos seus diversos heterónimos.


Almerinda Bento

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

"Confissões" de Kanae Minato

Ufa! Como explicar o que senti ao ler este livro? Não é um livro fácil de ler, muito embora a escrita seja fluída e se leia muito rapidamente. E digo isso porque nos é dado a conhecer o lado negro do ser humano. E quando esse feio lado se encontra nos jovens, (quase) crianças acabadas de sair das saias das mães, então o leitor sente-se oprimido, com o coração apertado por verificar quanta maldade o ser humano é capaz de encerrar em si. E talvez por os protagonistas de tanta maldade serem jovens quis acreditar, no decorrer desta leitura, que o enredo não era muito verosímil. Só assim consegui ler pacificamente este livro e afastar-me suficientemente das personagens para que elas não me fizessem "mal".

Psicologicamente todas as personagens estão soberbamente construídas e a autora vai-nos apresentando cada uma delas em capítulos separados, através das suas confissões: primeiro a Prof. Moriguchi, mãe da pequena Manami, que foi encontrada morta numa piscina; depois Mizuki, uma sua aluna, seguida de Naoki e Shüya os presumíveis assassinos. Os seus motivos, as justificações, as vinganças desejadas e as conseguidas.

Muito embora saibamos "quem fez o quê a quem" há sempre mais um pormenor que surge numa dessas confissões que me levou a ficar preso às páginas sufocantes deste livro. Li, gostei, mas fiquei um pouco oprimida com a maldade do ser humano retratada aqui sem qualquer suavidade. Forte, duro e cru.

Deixa o leitor a pensar no (forte) papel da educação no desenvolvimento da personalidade de cada indivíduo. Que fatia da nossa personalidade é fruto da educação que tivemos?

Vejam por vós próprios e digam-me se sentiram o mesmo que eu!

Terminado a 19 de Agosto de 2016

Estrelas: 4*+

Sinopse

Os seus alunos assassinaram a sua filha. Esta é a sua vingança.
Os seus alunos assassinaram a sua filha. Ela não quer justiça, só vingança.
Confissões é um romance narrado a várias vozes, magistralmente construído onde o suspense é mantido até o fim, quando as diferentes peças encaixam. Mas também é uma reflexão sobre o sistema educativo, os laços familiares, o comportamento humano, o amor e a vingança.

sábado, 20 de agosto de 2016

Na minha caixa de correio

 

 

Ofertados pela Editora Marcador chegaram As Rochas, Segredos de um Escritor e As Sombras da Dúvida.
Pela Suma de Letras chegou Cartas de um Sonho.
O meu obrigada às duas editoras!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

"A Gravitação do Amor" de Sara Stridsberg

Fiquei a pensar neste livro quando o terminei de ler, a aperceber-me da história na sua totalidade, a deixar-me envolver por ela. Só mesmo após o terminus desta leitura isto aconteceu porque Sara Stridsberg foi apresentando esta história em pequenos flaches, capítulos pequenos que caminham para a frente e para trás, misturando o passado e o presente mas sem que o leitor se perca neles.

Muitas das cenas, quase cinematográficas, são passadas no Hospital Psiquiátrico de Beckomberga em Estocolmo, Suécia, onde Jackie visita frequentemente seu pai que se encontra internado aí. Jim é dominado por uma tristeza profunda, vive com intensidade mas muito rapidamente se deixa abater por essa tristeza que o consome ao ponto de desejar e tentar o suicídio mais do que uma vez. A morte está sempre presente nas conversas entre pai e filha. Uma certa indiferença da parte de Jim e um desejo de ser (mais) amada por parte de Jackie. Até onde se pode amar?

E é aí nesse sítio que Jackie descobre o amor e cria laços profundos com as pessoas que aí vivem. Paul, Sabina, Edvard. Mas uma dúvida persiste no seu interior, como que a medo: terá também ela vontade de desaparecer, como o pai? O medo de ser igual permanece durante quase toda a sua vida.

Um ensinamento Jackie aprende com seu pai, Jim: a verdade deve ser dita sempre, mesmo quando magoa. E é isso que ela pretende ensinar ao filho, Marion. Sempre a verdade. No entanto, deseja também que ele nunca duvide do seu amor. A sua presença na vida de Marion é uma constante. Presença que Jackie não teve quando adolescente e, por isso, busca o amor do pai sofregamente, intensamente, mesmo depois de adulta.

Com uma escrita fluída, Sara Stridsberg conta-nos uma história através de pedaços da vida de Jackie, Jim e Lone, seus pais e, com eles, temos de montar o puzzle. São pedaços de vida que nos são atirados com dor, de repente, mas com beleza também. É uma leitura exigente, que deixa o leitor a pensar. Gostei.

Terminado 4 de Agosto de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

Quando Jimmie Darling é admitido no hospital psiquiátrico Beckomberga, nos arredores de Estocolmo, a sua filha Jackie começa a passar cada vez mais tempo na instituição, até que esta se torna todo o seu mundo quando a mãe parte numa viagem de férias. No hospital conhecemos o médico responsável, Edvard Winterson, que às vezes leva Jimmie e outros doentes a grandes festas na cidade. «Uma noite passada fora do recinto do hospital torna-vos novamente humanos», diz ele. Conhecemos também Inger Vogel, uma «enfermeira angélica de socas», que parece habitar um mundo entre a ordem e a devastação, bem como a doente Sabina, objeto dos desejos tanto de Jimmie como de Edvard, com as suas contas coloridas e a sua obsessão com a liberdade e a morte. A Gravitação do Amor, um livro de uma beleza arrasadora, explora o amor de Jackie por Jim e o modo como tenta aproximar-se dele, tanto em criança como em adulta e já mãe, tendo sempre como pano de fundo Beckomberga, na sua dimensão quase mítica de anjo punidor e redentor de espíritos atormentados.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Imagimorphia - Livro para Colorir


A Inês este ano está imparável... Mostro-vos, desta feita, mais uma das suas pinturas. Trata-se de uma pintura a aguarela que merece ser retirada do livro e colocada numa moldura. Fica a dica! Podem-se fazer quadros giros para quartos de crianças (e não só) aproveitando as figuras que gostamos mais, depois de pintadas.

Devo dizer-vos que este Imagimorphia possui figuras belíssimas capazes de fazer voar a nossa imaginação e só com um olhar demorado somos capazes de absorver cada desenho, tal é a quantidade de pormenores que contêm, um pouco à semelhança do livro anterior, Animorphia.
O lema é o mesmo: distrair a cabeça usando as mãos!


Obrigada à editora Vogais pela gentil oferta do livro.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

"A Viúva" de Fiona Barton

E se vos disser que olhei para a capa deste livro e, mentalmente, o coloquei de lado? Para mim tinha todo o aspecto de ser erótico... Não que tenha algo contra esse género literário porque já li uma meia dúzia deles mas, com tantos por ler, acabo por privilegiar outros tipos, sendo certo que não é esse realmente o meu preferido. Porém, na Feira do Livro de Lisboa acabei por perceber que essa ideia não correspondia à verdade e que na verdade se tratava de um policial.

Policial que, na verdade, se revelou muito bom! Gostei de ter entrado com muita facilidade na trama do livro, de me ter enganado com as pistas diferentes que nos são deixadas e de ficar na dúvida quanto ao assassino e até mesmo de duvidar se realmente existiria um assassino... Um rapto de uma criança é o mote para uma investigação que parece não ter grandes resultados. Para o final adivinha-se um pouco o que se esconde nas palavras dos suspeitos e o efeito surpresa não é tão grande mas o leitor não deixa de manter a esperança num final mais feliz.
O desaparecimento de uma criança de 2 anos leva a sucessivas investigações por parte das autoridades policiais e dos jornalistas. Mas não se torna tarefa fácil porque nada se consegue provar e os anos vão passando sem que se saiba o paradeiro da pequena Bella.

Narrado por quatro personagens e perspectivas diferentes, é um romance intenso, por vezes algo perturbador, sobretudo quando o leitor fica a par dos pensamentos de Jean, a viúva do principal suspeito. Sentimos que ela esconde algo e é conhecedora de mais do que aparenta mas só aos poucos ficamos conhecedores da verdade que esconde. Ela é de longe a personagem mais bem conseguida pois é alguém que não confiamos mas, ao mesmo tempo, sentimos que está inocente e que, durante o seu cadamento, foi subjugada pela forte personalidade do marido. Esta dualidade de sentimentos leva-nos a ficar presos às suas palavras tentando perceber o que está para lá do que afirma.

Com temas fortes e actuais, como por exemplo, o papel dos media e a sua influência quer positiva quer negativa nas investigaçoes policiais e na procura da verdade, este romance faz-nos lembrar um caso real que se passou aqui mesmo em Portugal. A manipulação perigosa da verdade por parte de alguns orgãos de comunicação social e a sua especulação a troco de interesses monetários é algo de que todos nos apercebemos nos dias de hoje.
A pedofilia e o mau uso da internet para esses fins, a pornografia infantil, são também temas abordados e sempre actuais.

Gostei muito. Surpreendeu-me pela positiva. Intrigante, com várias pistas que o leitor segue e descarta com igual rapidez, é um livro a ler que recomendo vivamente.

Terminado a 1 de Agosto de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

A MULHER
A existência de Jean Taylor era de uma banalidade abençoada. Uma boa casa, um bom marido. Glen era tudo o que sempre desejara na vida: o seu Príncipe Encantado. Até que tudo mudou.
O MARIDO
Os jornais inventaram um novo nome para Glen: monstro, era o que gritavam e lhe chamavam. Jean estava casada com um homem acusado de algo impossível de imaginar. E à medida que os anos foram passando sem qualquer sinal da menina que alegadamente raptara, a vida de ambos foi sendo escrutinada nas primeiras páginas dos jornais.
A VIÚVA
Agora, Glen está morto e pela primeira vez Jean está só, livre para contar a sua versão da história.
Jean Taylor prepara-se para nos contar o que sabe.


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"Deixei-te Ir" de Clare Mackintosh

A-do-rei!

Simplesmente adorei este livro! Com um enredo de cortar a respiração que nos enche de angústia e medo, entrecortado por um sentimento de compaixão e dor, sentimos de imediato uma forte empatia com alguns personagens e ódio de morte por outras! E é essa palpitação intensa que sentimos quando a trama se adensa, esse virar de páginas rápido e automático de quem quer saber tudo a que tem direito, que me levam a dar pontuação máxima a este livro. Mas há mais, muito mais!

Os temas tratados são expostos com a seriedade e a profundidade de quem é conhecedor e, suspeito eu, de quem vivenciou problemas idênticos. A investigação policial que se seguiu ao atropelamento de uma criança de cinco anos e posterior fuga do condutor, mostra-nos que na maior parte das vezes as pistas não conduzem ao porto desejado tão rapidamente quanto seria de desejar, tornando-se difícil seguir em frente com a vida de todos os dias quando alguém querido parte. A perda, a desorientação de quem deixa de ter um motivo para viver estão fortemente retratados aqui.

Aproximadamente a meio do livro, um murro no estômago! Afinal quem julgámos conhecer não é o que parece, quem parece! Ou será? De novo, o medo. O pãnico de quem vive em permanente sobressalto. O comportamento da vítima, a atitude do agressor. E aqui, de novo, palavras sábias, escolhidas com seriedade e verdade.

Um livro para pegar e não mais largar, para devorar, portanto. Aconselho vivamente esta leitura! Uma autora a manter debaixo de olho...

Terminado em 29 de Julho de 2016

Estrelas: 6*

Sinopse

Numa fração de segundos, um acidente trágico faz desabar o mundo de Jenna Gray, obrigando uma mãe a viver o seu pior pesadelo. Nada poderia ter feito para evitar esse acidente.
Ou poderia? Essa é a pergunta que a inquieta quando tenta deixar para trás tudo o que conhece, procurando um novo recomeço refugiada num chalé isolado na costade Gales.
Também o detetive Ray Stevens, responsável pela investigação por este caso que procura a verdade, começa a ser consumido pela sua entrega ao mesmo, deixando a vida pessoal e profissional à beira do precipício.
À medida que o detetive e a sua equipa vão juntando as pontas do mistério, Jenny, lentamente, permite-se vislumbrar uma luz de esperança no futuro, o que lhe dá alguma segurança, mas é o passado que está prestes a apanhá-la, e as consequências serão devastadoras