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terça-feira, 31 de maio de 2016

A Convidada Escolhe: O Ensaio

«O Ensaio» de Eleanor Catton é um livro interessante para quem sonha ser ator, já que a maior parte do cenário se situa num Instituto de Artes Dramáticas, de renome. Não se trata de vidas de atores mas de iniciação à representação. O ano letivo está no começo e os candidatos para entrar no 1º.ano são muitos, tantos quantos os seus anseios. O nervoso antes das provas não tem medida e até que os resultados saiam a ansiedade é enorme. Toda esta situação nos é transmitida com muita emoção e suspense. A seguir segue-se a vida quotidiana nas aulas, principalmente do 1º ano, com ensaios, provas e todas as peripécias próprias da juventude e de uma escola de artes. Algumas partes da vida pessoal dos alunos também não é esquecida com alguma ironia e graça.
Um dos meus destaques vai para uma professora, particular, de saxofone, que dá as suas aulas no mesmo edifício do Instituto, e com quem alunas, de uma escola secundária, confidenciam as suas vidas pessoais e amorosas, ocasiões em que ela aproveita para saber mais e intrometer-se. As mães também a contactam para que ela influencie as filhas nas suas vocações, segundo os seus interesses. São peculiares, insólitos e divertidos estes diálogos.
O segundo destaque é o enorme escândalo que rebenta quando se sabe do envolvimento sexual de uma aluna do último ano da referida escola secundária feminina, Vitória, com um professor. Surgem os inquéritos, as censuras e principalmente os comentários, julgamentos e mexericos.
O assunto sexo, que devia ser tabu tornou-se assunto banal, mas com grandes mistérios. A homossexualidade feminina também é abordada, embora se fique pela ambiguidade pois não fica bem definido se acontece ou não por parte de algumas alunas.
O terceiro e grande destaque é o facto dos alunos do primeiro ano do Instituto de Artes Dramáticas resolverem inspirar-se no escândalo, que saiu nos jornais, sobre a aluna e o professor, para fazer a sua encenação de fim de ano. O personagem desta encenação Stanley é namorado de Isolde, aluna da escola feminina e de saxofone e irmã de Vitória. Quando os alunos tomam conhecimento de que Isolde e seus pais vão assistir ao espetáculo, instala-se o alarme. A partir desta situação a fronteira entre a ficção e a realidade começa a ser ténue. O que é teatro, o que é real?
A autora utiliza os dias da semana para narrar os factos passados na escola feminina e os meses para os passados no Instituto de Artes, sem que exista uma ordem cronológica. Assim, o leitor pode por vezes sentir uma certa confusão e pensar se entendeu bem ou não a narrativa. Aconteceu-me isso. Contudo, o livro é interessante para quem goste do mundo da representação, é sensual, impertinente e descomplexado, conseguindo prender o leitor até ao fim.

Maria Fernanda Pinto

segunda-feira, 30 de maio de 2016

"Os Últimos Sete Meses de Anne Frank" de Willy Lindwer

Este livro é formado por seis testemunhos. Impressionantes, todos eles. Que marcam profundamente quem os lê e que precisam ser lidos por todos. Pouco mais tenho a dizer. Foram pedaços de vidas que estiveram guardados bem no fundo de quem as viveu e que, finalmente, veem a luz do dia. Para que nunca se esqueça. Foram pessoas cujos caminhos se cruzaram com Anne Frank após ser descoberta no "abrigo" e após a sua detenção.

São testemunhos verídicos de seis mulheres que, de uma forma ou de outra, se cruzaram com a família Frank nos campos de concentração. Sobreviveram. Deveria ser tudo mentira, não é? Mas não podemos, nem devemos, enterrar a cabeça debaixo da terra. Por isso existem livros assim. Para que não esqueçamos nunca. Leiam.

Doi perceber, destes testemunhos, que depois da guerra ter terminado, os sobreviventes estiveram por conta própria, quase sem ajuda, tal era o caos que se vivia então e que a maioria da população não se apercebeu o quanto sofreram os prisioneiros.

Terminado em 25 de Maio de 2016

Estrelas: 6*

Sinopse

O extraordinário diário de Anne Frank tem vindo a comover milhares de leitores em todo o mundo, sendo um testemunho pungente e humano da perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, sabe-se muito pouco da vida desta jovem após a sua captura, a 4 de agosto de 1944, e posterior envio para os campos de concentração. Como suportou ela a brutalidade do regime nazi? As respostas são-nos dadas, neste livro, pelas mulheres cujas vidas se cruzaram com Anne Frank em Westerbork, Auschwitz e Bergen-Belsen.
Willy Lindwer, cineasta holandês, realizou um documentário televisivo intitulado Os Últimos Sete Meses de Anne Frank, pelo qual recebeu um Emmy. Impressionado com as entrevistas que levou a cabo com seis mulheres que viveram e partilharam com Anne Frank os dias de horror nos campos de concentração nazis, Lindwer decidiu publicá-las integralmente, dando origem a este livro.
Cada uma das seis entrevistadas tem uma história extraordinária para contar - exemplos de um terror inimaginável, mas, simultaneamente, histórias de coragem e compaixão.
A vida de Anne Frank terminou pouco antes do seu décimo sexto aniversário. Estas mulheres tiveram mais sorte. Sobreviveram.

domingo, 29 de maio de 2016

Ao Domingo com... José Pacheco (Nuno Vaz)

O meu nome real é José Pacheco: com esse verídico nome viajei de Moçambique, onde nasci, para Portugal, onde vivo há muitos anos.
Sob nomes de empréstimo, escrevi e publiquei alguns livros. Perguntam-me, às vezes, por que me invento nomes. E a resposta é: porque principia aí a construção de uma ficção; enceno-me como autor, numa espécie de cerimonial que exige, no mínimo, um outro nome (ou escrever com lápis, ou olhar para uma árvore que descubro pela janela, por exemplo).
Sob o pseudónimo de «Gil Duarte» editei um romance, Nada Mais e o Ciúme, e duas novelas com as quais contribuí para associações ligadas à causa da protecção de animais (Mira-Lata e Zen).
O pseudónimo «Nuno Vaz» inaugura uma nova fase na minha escrita. Este romance, Pó, é uma história talvez principalmente sobre a convivência entre pessoas muito diferentes, cultural ou geracionalmente. Há choques minúsculos que se vão acrescentando, há equívocos e incompreensões. Gosto muito de uma personagem chamada Sónia: é uma mulher de uma aldeia no Baixo Alentejo, sujeita a constrangimentos económicos, sociais, culturais, amorosos, mas que, pela influência de um professor de Português (um padre) adquire um interesse e um prazer na leitura que, de certa forma, a tornam numa pessoa muito melhor do que seria se se deixasse mecanicamente determinar pelas condições. Não é a personagem principal, longe disso. Mas quanto mais releio o romance, mais entendo que ela fornece uma linha e uma chave de leitura interessante.


Já agora, gostava de aproveitar para convidar as pessoas que tenham curiosidade e disponibilidade, para aparecer no lançamento do romance: dia 2 de Junho (uma 5ª-feira), no Cofre da Previdência, Praça do Município. Às 18 horas, com apresentação do escritor Miguel Real.
E muito obrigado, Cris.

José Pacheco (Nuno Vaz)

sábado, 28 de maio de 2016

Na minha caixa de correio

  

  

  

 

Agradeço antes da mais as ofertas que me chegaram esta semana: Somos Todos Feitos de Estrelas da Topseller, Quando Ruiu a Ponte Sobre o Tamisa, cortesia da autora Ana Gil Campos e Illuminae da editora Nuvem de Tinta.

De uma loja Cash Converters, Paixão Indiana e Educação Siberiana.

Da primeira visita à Feira do Livro: O Fim De Lizie, A Tarde Azul, A Lebre Olhos Âmbar, A Bíblia de Barro e veio como oferta, Maigret e o Punhal Assassino.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

A Escolha do Jorge: As Viúvas de Dom Rufia

"As Viúvas de Dom Rufia" é o sucessor das obras aclamadas de Carlos Campaniço, "Os Demónios de Álvaro Cobra" (2013) e "Mal Nascer" (2014), cujo universo continua a decorrer no Alentejo profundo, embora, desta vez, a narrativa decorra nos primeiros anos após a implantação da República.
"As Viúvas de Dom Rufia" é-nos apresentado num estilo mais descontraído, brejeiro por vezes, seguindo em linha com o Firmino, o Dom Rufia, personagem principal, que está decidido a vencer na vida, deixando para trás a vida de trabalho árduo nos campos, de sol a sol, e de miséria, com muito pouco para sobreviver.
Abandonado pelo pai e órfão de mãe, Firmino é criado pelos tios, Maria Teresina e Homero que, desde tenra, revelou-se uma criança com muita energia e dotada de imaginação antevendo-se grandes sarilhos à conta das suas traquinices ao ponto de ser reconhecido como ser reconhecido como um potencial problema em Fernão de Baixo, aldeia onde vivia com a família.
Determinado em enriquecer, contrariando assim uma pobreza que se vivia na região e que estava longe de ser ultrapassada, além da dependência do poder dos senhores detentores das terras, Firmino (ou simplesmente Dom Rufia, a alcunha que lhe foi atribuída na sequência de uma das suas tropelias) parte de terra em terra, no Alentejo, à procura da sua sorte. Aproximando-se de mulheres solteiras, casadas ou viúvas, Firmino não olhava a meios para alcançar o seu grande objetivo. Com uma grande lábia e dois palmos de testa, não houve menina ou senhora madura que resistisse aos seus galanteios. Passou por Moura, Alvito, Almodôvar, Beja, Viana do Alentejo e outras tantas localidades em busca de riqueza, mas acabando por vingar como o perfeito pinga-amor. De terra em terra, semeou amores, colheu paixões e a todas amou este Dom Rufia!
Fez-se passar por ourives, médico, advogado e até diplomata! Tal era a conversa de Dom Rufia que o fez inventar um novo personagem a cada mulher que conhecia numa nova localidade! A todas mentia, a todas regressava! A todas amava e todas o amavam! Foi verdadeiro uma única vez. Foi com Mariana a quem contou toda a verdade porque o peso de todas as mentiras já era maior do que ele. Embeiçou-se de tal forma por Mariana ao ponto de se condoer com a sua pobreza ser ainda maior do que a dele, devolvendo-lhe, na medida do possível, uma vida mais condigna. "Confessou que vivia para enriquecer, que buscava viúva, solteira, encalhada, jovem com bens, qualquer uma que o salvasse da pobreza." (p. 225)
A par de Firmino, destaca-se igualmente um personagem peculiar, errante, oriundo do Chile, conhecido por Juan de los Fenómenos, que "levava a sua única vida a desembrulhar enigmas (p. 135), "um investigador do comportamento da Metafísica e da ordem da Criação" (p. 246) ou simplesmente era tido como "uma espécie de filósofo com fé" (p. 249). Juan de los Fenómenos interessava-se por todas as situações curiosas cuja explicação não existe na razão, como por exemplo a criança que muda a cor dos olhos consoante a estação do ano, o indivíduo com unhas cujas propriedades eram milagrosas curando todos os males ou a idosa que adivinha o que as pessoas tinham comido. A par destes casos que Juan de los Fenómenos ia conhecendo aqui e acolá pelo Alentejo profundo, deparou-se também com um dado indivíduo, multifacetado, com o dom da ubiquidade, vestindo uma identidade diferente em cada localidade por onde passava.
Os capítulos dedicados a Juan de los Fenómenos intercalados com a história de Dom Rufia correspondem, de certa forma, à herança mais remota, aos ecos de "Os Demónios de Álvaro Cobra" que não procuravam explicações para estranhos fenómenos e acontecimentos com o herói da história.
De terra em terra, de peripécia em peripécia, Dom Rufia vai divertindo o leitor com as suas muitas vidas, muitas histórias e mentiras incontáveis. Dom Rufia constrói um mar de ilusões a cada dia que passa, aproximando-se do inevitável precipício.
Fica a advertência de Homero, o tio de Dom Rufia: "Há mentiras que se tornam tão caras que nem a verdade do dinheiro por vezes as salva." (p. 244)

Excerto:
"Mas a verdade, senhores e senhoras, é que ele nasceu e cresceu nesta família humilde, que não teve hipóteses de lhe dar outra vida. Nunca aceitou tal condição. Jurou não se deixar escravizar pelos donos destes campos, que obrigam um homem a trabalhar de sol a sol para ganhar o que mal dá para pagar um pão. Ideias que ninguém lhe meteu na razão. Ele as descobriu, ele as defendia. Ajudou-o a natureza, que lhe pôs muita imaginação na cabeça. O resultado disso foi querer tornar-se um homem rico. Era esse o lugar que havia escolhido para si, sem deixar que fosse o destino a escolhê-lo." (pp. 256-257)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Passatempo Alfaguara: O Livro dos Baltimore

Quem leu A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert e Os Últimos Dias dos Nossos Pais ficou de certeza fã da escrita de Joël Dicker.

Com o apoio da editora Alfaguara temos para oferecer aos nossos seguidores um exemplar de O Livro dos Baltimore.

Basta enviarem um e-mail para otempoentreosmeuslivros@gmail.com com o vosso nome completo, morada e nome do seguidor.

Só é permitido uma participação por pessoa.

O passatempo termina a 13 Junho.

Boa sorte!

Vales de Desconto da Porto Editora

É hoje, é hoje!
Para quem anda no mundo da lua, ou seja, para quem não anda no mundo dos livros, fica a notícia: hoje começa a Feira do Livro de Lisboa (FLL).
O Tempo Entre os Meus Livros, colaborando com a Porto Editora, disponibiliza vales de desconto desta editora. Basta imprimir e ler as condições...
Boa FLL! Boas compras!

Para obter os vales clique no link abaixo

Para obter os vales clique aqui.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

"Síndrome de Antuérpia" de João Felgar

Se há coisas que admiro num escritor é a forma como consegue escrever dois livros muito diferentes mas, mesmo assim, tão admiravelmente belos. Confesso que esperava impaciente este livro de João Felgar mal soube que o autor estava prestes a terminá-lo. Gostei muito de Terra dos Milagres e estava muito curiosa com esta segunda obra. Propus-me lê-la sem fazer comparações porque temia que, depois um primeiro livro com a qualidade de Terra dos Milagres, fosse difícil criar uma segunda obra com tanta mestria. Em parte, a culpa disso é do leitor pois as altas expectativas que muitas vezes tem, fazem com que pegue na segunda obra esperando dela o céu...

Mas a sua escrita está lá. Reconhece-se bem, sem dúvida. A forma inteligente como conta a história e como a desenvolve, os personagens caracterizados psicologicamente até à exaustão mas sem cansar, a descrição dos espaços, dos lugares, dos costumes e tiques de toda uma aldeia, tudo está lá. O enredo desenvolve-se devagar. É preciso contar, explicar ao pormenor como toda uma aldeia (ou quase) se une para guardar um segredo. Um crime. E é nesse decorrer devagar em que é descrita a história que se saboreia pormenores tão delicados, frases belíssimas e carregadas de sentido. Não esperem um ritmo tão intenso e rápido como o do primeiro livro, como eu o fiz, confesso. Degustem com calma as palavras do autor e garanto-vos que quando o final chegar ficarão a pensar nele. Sem correr o risco de vos contar nada, faço-vos as mesmas perguntas que tive de fazer para perceber esse final: Quem costumava enviar bilhetinhos a Antuérpia? Como o fazia? Então...

Embora tivesse prometido a mim própria não comparar as duas obras, não consegui. O humor subtil, que adorei em Terra dos Milagres, não o encontrei aqui tantas vezes mas nem por isso este livro lhe fica atrás. Parece-me que é-se conquistado mais rapidamente pela primeira obra mas, esta segunda, prima pela mestria com que o autor consegue descrever a facilidade com que o horror consegue espalhar-se a toda uma aldeia, cúmplice e inocente ao mesmo tempo.

O nome das personagens merece um destaque especial: muito imaginativos, sui generis q.b., parece que encaixam perfeitamente em cada personagem, que lhes pertencem por direito. E, sobretudo, não precisamos de elaborar um "mapa" para não os trocarmos.

Embora me pareça que não será do gosto de um público tão abrangente e vasto como o de Terra de Milagres, este livro encheu-me as medidas. Deliciem-se. Provem-no devagar, como merece!

Terminado a 21 de Maio de 2016

Estrelas: 5*+

Sinopse

No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome.
Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.
Neste novo romance, João Felgar regressa ao universo mágico das pequenas aldeias, tão elogiado pelos leitores de Terra de Milagres, e às histórias que só nelas ganham força e misticismo.

terça-feira, 24 de maio de 2016

A convidada escolhe: “A Noite não é Eterna”

É belíssima a capa e muito sugestivo o título deste livro, o último escrito por Ana Cristina Silva. A dimensão individual e colectiva do sofrimento de Nadia e da Roménia - ela com a perda do filho Drago e o povo romeno sob a ditadura de Ceausescu – fazem de Nadia e da Roménia os grandes sujeitos deste romance.
Exímia no tratamento dos sentimentos, a autora envolve o/a leitor/a no ambiente asfixiante, gélido e cinzento duma Bucareste onde se morre de
doença, de frio e de fome, em que as pessoas receiam a própria sombra porque a delação vem sem se saber de onde nem de quem, ou então caem no alheamento e indiferença como sentimento protector. A desumanização a que as pessoas são levadas pela violência do quotidiano e pelo desespero de um regime totalmente arbitrário impede qualquer laivo de solidariedade ou de compaixão, raramente quebradas.
A caracterização psicológica de Nadia é extremamente complexa. Ferida de morte pelo rapto de Drago de três anos pelo próprio marido, um ambicioso quadro do partido, Nadia pensa no suicídio, perde a vontade de viver e de viver para a filha, ao mesmo tempo que se culpabiliza por ser incapaz de sair da sua concha de desespero, finge, ganha forças e sujeita-se a tudo para procurar o filho algures num tenebroso orfanato onde há muito as crianças não são mais que seres famélicos e desprotegidos. O sentimento de perda de Drago leva-a a actos heróicos em que põe a sua segurança em risco, mas essa é a única forma que encontra de dar utilidade à sua vida e de minimizar o sentimento de culpa que tem pela irreparável perda do filho. A vontade de morrer e de matar o marido atormenta os seus dias e as noites que passa em claro, mas que nunca consegue concretizar, pois a vida é sempre mais forte do que a morte. O sentimento de dever para com o filho de quem só tem recordações e a imagem é acompanhado de uma culpabilização constante, que a impede de aceitar a possibilidade de sentir amor por outra pessoa ou sequer a possibilidade de suportar a ideia de ser feliz.
Mas o sonho de viver em liberdade, o sonho de que um dia a noite acabasse também chegaram para o povo romeno com a queda do ditador Ceausescu no dia de Natal de 1989. A euforia da liberdade, a festa de poder viver a luz do dia irromperam com a força de um sonho há muito aguardado. E para Nadia, seria possível voltar a amar, seria possível alguma vez voltar a ser feliz sem o sentimento de culpa pela perda de um filho? Nadia queria acreditar que agora se abria a possibilidade de um recomeço.

Almerinda Bento

segunda-feira, 23 de maio de 2016

"Perder a Barriga Sem Fazer Abdominais" de Teresa Manafaia

No passado dia 13, a convite da editora Manuscrito, fui assistir a uma apresentação/aula/conversa com a autora do livro Perder Barriga Sem Fazer Abdominais, Teresa Manafaia, licenciada e pós graduada na Universidade de Motricidade Humana e que há mais de vinte anos se dedica à sua profissão.

É para uma aula? Já lá estou. Tudo o que esteja relacionado com nutrição, saúde, ginástica eu topo! Não me julguem fanática mas há tanto para aprender e tanto para fazer para se conciliar nessas vertentes que, sempre que posso, eu aceito participar...

Gostei de falar com a Teresa. O livro não nos fala só sobre exercício físico e da importãncia de uma boa respiração quando o fazemos mas alia também aspectos que devemos ter conta como a alimentação (o açucar é um veneno!), um bom sono (dormir bem é essencial!), a exposição solar (a vitamina D ajuda a fixar o calcio) e a importância de gerir o stresse da melhor forma possível.

São cinco semanas. Vou tentar, estou a preparar a cabeça e sobretudo a despensa. Hå que retirar algumas coisas docinhas que por lá andam...

Se quiserem espreitar alguns videos vejam no FB da autora ou em www.manafaia.com.



Como cheguei cedo deliciei-me com as vistas sobre Lisboa.



Resultado do Passatempo Presença

Trago hoje o resultado do passatempo do livro A Confissão do Navegador de Duarte Nuno Braga, ofertado pela Editorial Presença.

Com 198 participações válidas, foi seleccionado o n* 62 que correspondeu a;


Margarida Pombo de Lisboa


Parabéns! Espero que este livro te propicie bons momentos de leitura!

Um obrigada especial à Editorial Presença pela sua gentil colaboração.

Para mais informações sobre o livro ver Editorial Presença Aqui!

domingo, 22 de maio de 2016

Ao Domingo com… Maria Helena Ventura

Um dia, devia ter uns treze, catorze anos, um jovem mais velho escrevia-me uma cartinha de amor que eu só conseguia ler anos mais tarde. Nada de novo, acontecia a quase todas as meninas, mas na altura a chegada da mensagem provocava um terramoto, lá em casa.
Era interrogada: conhecia, não conhecia? Com muita perplexidade e encantamento à mistura, respondia que não, mas de pouco me valia. A seguir a um longo silêncio mandavam-me para o quarto, donde não poderia sair durante mais de uma hora.
Não ficava nada aborrecida. Nunca encarei o isolamento, que alguns confundem com solidão, como um castigo. Era antes uma bênção, o tempo de recolher ao coração repartido pelas folhas de papel. Essa tarde ficava na companhia dos meus cadernos de poemas, que compunha desde os dez anos e só dava a conhecer às pessoas muito amigas. 
Antes de abrir o mais recente, folheava o livro Libertação, de Miguel Torga, à procura dos primeiros versos de Amor:
A jovem deusa passa/Com véus discretos sobre a virgindade/Olha e não olha, como a mocidade/E um jovem deus pressente aquela graça…
A primeira fase da consciência do meu crescimento merecia ser celebrada com um poema inédito, mas no espaço disponível do caderno, para minha surpresa, não nascia poema algum, aquela tarde, só um conjunto de frases lapidares sem qualquer profundidade, registos infantis sobre a injustiça de me julgarem culpada de um facto a que era alheia. Menos mal que, naquela idade, os sentimentos desconfortáveis depressa ficam lavados com um aguaceiro de palavras. E a seguir às frases o pensamento guiava a mão por uma lista de nomes sobre os quais gostaria de escrever, todos de figuras injustiçadas pelos coevos ou silenciadas por interesses mal definidos.
Em prosa nunca tinha experimentado textos de grande fôlego, como as estórias dos autores que tanto gostava de ler. Lá estavam na mesa mal arrumada dois livros já lidos - David Copperfield, de Charles Dickens e as Mulherzinhas, de Louisa May Alcott – e dois à espera de serem afagados - Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett e As Minas de Salomão, na versão portuguesa de Eça de Queiroz. Os proibidos jaziam sob a cama, a jeito de serem puxados com uma bengala para ler, noite dentro, quando a casa ficasse quieta…
Como admirava os escritores que lia! Para mim eram deuses do Olimpo, criadores de mundos mágicos onde eu poderia refugiar-me. Bastava abrir a porta – a capa do livro - que logo se agigantava, certa de que, mal entrasse, ninguém poderia alcançar-me. 
Nos anos seguintes ensaiava voos na literatura infantil que nunca viam a luz, ou em novelas infanto-juvenis que também não chegava a publicar. Tinha receio de não estar preparada. E lia mais. E a lista de figuras interessantes ia crescendo. A Poesia, o género literário de que mais gostava, continuava a fazer-me companhia. Começaram por marcar-me O Cristo Cigano de Sophia de Mello Breyner Anderson, Libertação e Cântico do Homem, de Miguel Torga, O Canto e as Armas, de Manuel Alegre. E viria a conhecer melhor a obra dos poetas de Cadernos do Meio-Dia, coordenados por António Ramos Rosa e Casimiro de Brito e a dos jovens poetas que cada dia se revelavam. Dos meus ensaios poéticos surgiam então sete livros e outros tantos esboços de novos títulos ainda na penumbra das gavetas. E explorava a arte do romance e novela que sempre rejeitava, depois de horas de convívio ameno com a escrita.
Mais tarde, em empenhada investigação para o mestrado, contactava dezenas de pessoas em itinerância entre Timor, Austrália e Portugal. Várias gerações, a mesma luta, uma força de viver. Quanta lição de vida! Nessa altura sentia o imperativo de levar o desafio antigo mais além. Baseando-me na história de uma das jovens mulheres, procurava ilustrar a coragem de todas as outras tecendo um enredo aliciante. E em poucos meses nascia Mar Mulher, um romance pequenino que se convertia numa experiência tão agradável, que nunca mais deixaria a ficção.
Depressa percebia que esse género literário era outra forma de fazer Poesia, como cantar, compor, representar. Qualquer gesto criativo que expusesse o melhor de nós seria um poema de louvor à vida. E continuo a pensar o mesmo. Antes de começar a escrever por volta das 9.30, faça sol ou caia chuva, começo logo a sentir como é bom conviver com a luminosidade das palavras. E quando, fechada a noite, está tudo silencioso, é ainda a luz das palavras, que saltitam como estrelas no computador, que me lembra como a Poesia pode acontecer sempre que afastamos o que não presta para colhermos as bênçãos diárias. Nem sempre fazemos por isso, ou fazendo, conseguimos, mas vale a pena tentar de novo.
Hoje celebro a chegada de mais um romance histórico: Conheces Sancho? É o décimo nono título: onze romances, sete livros de poemas, um livro para crianças. Já consigo conviver com o rótulo de construtora de mundos ficcionais. Menos deificados, vistos por dentro, porque a consciência do trabalho necessário para conseguir terminar a obra, despe o labor de vestes glamorosas. É um trabalho como qualquer outro executado com devoção, ainda que envolvido pela alegria terapêutica de ver nascer novas entidades.
Por que vivemos tantas horas dentro de um computador ou colados às folhas de papel a tratar por tu as letras?.. É uma pergunta recorrente. Talvez a escrita liberte. O espírito em galope pelas sendas da noite interroga os mistérios da vida, porque é preciso fazê-lo, pronto obtendo as respostas que se esquivam na pressa dos dias. Talvez a escrita engrandeça. Afinal ficamos com a ilusão de que, ao construir pontes imaginárias, nos aproximamos uns dos outros, acrescentando uns centímetros à nossa estatura moral. 
Escrever deve ser o melhor acto de celebração da vida. É como se amassássemos o barro das experiências de que somos feitos com a centelha luminosa do espírito e conseguíssemos uma pasta maleável, apta a criar peças que estabeleçam empatia com os outros. Pelo menos com alguns dos outros. Ao percorrer esse caminho, ou um caminho qualquer, é menos importante alcançar metas, sempre agradáveis ao ego, do que empreender a viagem corajosa do autoconhecimento. Não com o objectivo de obter habilitação para poder passar mensagens ou ensinar seja o que for, mas tão-só para partilhar experiências que passam a ser comuns. Talvez nessa partilha nos ajudemos…talvez, pelo sentimento de pertença à mesma tribo.
Toda a gente gosta de respeito e afecto, mesmo que tenha alcançado um longo rol de títulos ou de glórias. É com esses ingredientes que trato as personagens, porque esse respeito e carinho hão-de passar para quem lê. 
Para que continuem a ler-me. Só espero que me deixem escrever para eu aumentar o espólio dos devaneios literários. A minha única riqueza reside na fantasia.

Maria Helena Ventura
Parede, 14 de Maio de 2016

sábado, 21 de maio de 2016

Na minha caixa de correio

  

  

  

 



Oferta gentil da Planeta: O Apelo do Anjo, Legado nos Ossos e O Guardião Invisível.
Da Porto Editora chegou-me O Peso do Coração.
Do Clube do Autor recebi Síndrome de Antuérpia e Uma Boa Mulher.
Da Alfaguara, O Livro dos Baltimore.
Ofertado pela Editorial Presença, Um Homem Chamado Ove.
A Vida no Campo chegou pelas mãos da Marcador.
Comprados numa loja em segunda mão, Maneiras de Voltar a Casa e A Vida Aqui e Agora.


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Novidade Presença

Um Homem Chamado Ove
de Fredrik Backman
À primeira vista, Ove é o homem mais rabugento do mundo. Sempre foi assim, mas piorou desde a morte da mulher, que ele adorava. Agora que foi despedido, Ove decide suicidar-se. Mal sabe ele as peripécias em que se vai meter. Um jovem casal recém-chegado destrói-lhe a caixa de correio, o seu amigo mais antigo está prestes a ser internado a contragosto num lar, e um gato vadio dá-se a conhecer. Ove vê-se obrigado a adiar o fim para ajudar a resolver, muito contrariado, uma série de pequenas e grandes crises. Este livro simultaneamente hilariante e encantador fala-nos de amizades inesperadas e do impacto profundo que podemos ter na vida dos outros.

Para saber mais pormenores sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.

Novidades Planeta

Legado nos Ossos
de Dolores Redondo
O julgamento do padrasto da jovem Johana Márquez está prestes a começar. A ele assiste uma grávida Amaia Salazar, a inspectora da Policía Foral que há um ano resolveu os crimes do denominado Basajaun, que semearam de terror o vale do Baztán.
Amaia também reuniu as provas incriminadoras contra Jasón Medina, que imitando o modus operandi do Basajaun assassinou, violou e mutilou Johana, a filha adolescente da mulher.
De repente, o juiz anuncia que o julgamento será cancelado: o réu acaba de se suicidar na casa de banho do tribunal. Face à expectativa e à irritação que a notícia provoca entre a assistência, Amaia é chamada pela polícia: o réu deixou um bilhete de suicídio dirigido à inspectora, um bilhete que contém uma mensagem concisa e inquietante: Tarttalo.
Essa única palavra que remete para a personagem fabulosa do imaginário popular basco desvendará uma trama terrífica que envolve ainspectora até culminar num trepidante desfecho.


O Apelo do Anjo
de Guillaume Musso
Na cheia sala de embarque, um homem e uma mulher chocam, espalhando as suas coisas pelo chão. Depois de uma discussão normal, recuperam os haveres e cada um segue o seu caminho. 
Madeline e Jonathan nunca se viram na vida e é improvável que se voltem a encontrar. Mas, ao apanharem as coisas, trocaram inadvertidamente de telemóveis. Quando se apercebem do engano, já estão a dez mil quilómetros um do outro: ela é florista em Paris, ele tem um restaurante em São Francisco.
Não tarda para que os dois cedam à curiosidade, analisando o conteúdo dos telemóveis. Uma dupla indiscrição, que conduz a uma revelação inesperada: as suas vidas estão ligadas por um segredo que pensavam estar enterrado para sempre...

Novidade Editorial Novembro

Quando ruiu a ponte sobre o Tamisa 
de Ana Gil campos

“Eu sou aquela que vive numa brisa morna quando ardo por dentro e toco friamente no mundo, porque não lhe chego a tocar. Nasci com o título eloquente de princesa, mais usado pelos outros do que por mim, transformei um belo sapo num astuto príncipe, parecendo mais príncipe do que esta princesa com quem se casou, e vivo amenamente no luxo dos meus dias. Sou uma princesa indiana. É isto que dizem que sou e é isso que aceito, mornamente.”

Uma misteriosa mulher encontrada inconsciente numa rua de Bombai. O dia a dia de uma família real indiana. Uma inquietante viagem por Goa. A luxuosa vida de uma princesa indiana em Londres. Um amigo inusitado (e conhecido por todos) com quem a princesa tem as mais íntimas confissões. As certezas de um casamento seguro e tranquilo abaladas por uma paixão inesperada que a princesa não sabe explicar nem controlar. Reencontros, dúvidas, angústias e revelações na vila de Sintra.
Numa escrita marcada pela fantasia, paixão, beleza e exotismo, a autora aborda temas como a globalização, as disparidades entre a pobreza e a riqueza, o nosso papel na sociedade, o amor e a paixão.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A Escolha do Jorge: A Borra do Café

"A Borra do Café" é a mais recente aposta da Cavalo de Ferro na publicação das obras de Mario Benedetti (1920-2009), uma dos mais importantes nomes das letras do Uruguai, tendo-se notabilizado como poeta, romancista e ensaísta.
"A Borra do Café" (1992) junta-se assim aos outros dois romances de Mario Benedetti reeditados no ano passado, "A Trégua" (1960) e "Obrigada pelo Lume" (1965).
Iniciamos a leitura de "A Borra do Café" e rapidamente somos abraçados pelas doces recordações da vida do jovem Claudio que é simultaneamente o personagem principal e narrador da obra. Claudio revisita as suas memórias do tempo de criança, dando particular ênfase aos anos em que viveu com a sua família no bairro de Capurro, em Montevideo. As descrições das memórias de Claudio contribuem em certa medida para o leitor revisitar também as suas próprias memórias, em especial, aquelas memórias associadas a acontecimentos que ainda hoje estão gravadas em nós e que ainda as descrevemos de forma naïve e romântica dado que a visão dos acontecimentos já se vai perdendo na linha do tempo ficando apenas a recordação de sentimentos e certas imagens.
"As memórias também se vão apagando. (…) Tu lembras-te de tudo o que te aconteceu quando tinhas seis anos? Não te acontece às vezes lembrares-te de uma coisa que aconteceu não como evocação directa da tua memória mas sim porque aquele episódio tem sido repetidamente contado, ao longo dos anos, pela tua mãe ou pelo teu pai? E depois acabas por assumir o teu papel de protagonista dessa história contada, contudo não o fazes no interior desse protagonismo que um dia tiveste." (p. 34)
Exemplo disso são as inúmeras referências à enorme figueira que existia no bairro de Capurro junto à casa de Claudio e que através dela permitia uma ligação ao sótão da sua casa. Outro dos exemplos foi o episódio que teve lugar no dia do Graf Zeppelin que deixou os mais velhos boquiabertos, hipnotizados por aquele mamarracho hermético estacionado no espaço". (p. 21) Passado o efeito da novidade, Claudio e os seus amigos correm em direção a uma gruta onde brincam às vezes e são confrontados com o facto de Dandy, um sem-abrigo conhecido de todos, estar morto, episódio que os marcará para sempre.
A narrativa vai evoluindo num misto de humor, ironia e alguma emoção através de uma linguagem pejada de erotismo e sensibilidade sobretudo a partir do momento em que Claudio, na adolescência, começa a sentir-se atraído pelo sexo oposto. Episódios como a primeira paixoneta de Claudio, um amor de pré-adolescência vai acompanhar o jovem ao longo de vários anos até este começar a namorar com Mariana ou a descrição da primeira experiência sexual de Claudio com Natalia estão sempre envoltas com inúmeras peripécias, sendo igualmente descritas com muita ternura e humanidade sem nunca cair na vulgaridade.
O erotismo e a linguagem andam de mãos dadas nas obras de Mario Benedetti culminando no tango quando dois corpos se encaixam perfeitamente ao sabor da música. Uma passagem marcante a este respeito e que de certa forma traduz um dos traços culturais de alguns dos países da América Latina é quando tocam os primeiros acordes de um tango sobejamente conhecido é o suficiente para despertar nos homens e nas mulheres o seu quê de proxeneta e de prostituta entregando-se nesta dança sensual.
Mas nem só de alegrias são retratadas em "A Borra do Café". Os momentos tristes que advêm da doença e da morte e que marcam toda uma vida sobretudo quando as pessoas envolvidas nos são próximas deixam um rasto de tristeza à semelhança daquilo que todos já tivemos oportunidade de sentir, não por vontade própria, mas porque a vida é assim mesmo.
E na sequência deste pensamento, surge em jeito de epígrafe uma frase de Fernando Pessoa num dos capítulos finais da obra "Mas a morte está dentro da vida" que se apresenta como um hino à vida, um pouco como o ditado popular "tristezas não pagam dívidas", por isso, o importante é nos agarrarmos ao que de bom a vida tem porque inevitavelmente sabemos que tudo tem um preço e tudo tem um fim. "Não quero esperar pelos velórios para valorizar as pessoas que me são próximas. É verdade: a morte está dentro da vida. Mas podemos mandá-la de férias, não? Trabalha tanto que bem as merece. E não sintamos a sua falta porque de qualquer forma voltará, e quando voltar tocar-nos-á no ombro." (p. 142)
É impossível falarmos de "A Borra do Café" sem fazermos uma breve referência a Juliska, a empregada montenegrina que trabalha em casa da família de Claudio. Com uma grande experiência de vida e amiga da família, ninguém resiste às dificuldades que Juliska apresenta face ao castelhano baralhando com frequência os géneros das palavras, trazendo à narrativa momentos bastante divertidos, além de percebermos a importância que ocupa no seio daquela família, sobretudo na relação com Claudio e a irmã Elena.
"Pouco a pouco fui-me habituando à relação meramente amigável com a Natalia. Mesmo assim, sonhava frequentemente com ela e, claro, os lençóis sofriam as consequências. A vigilância de Juliska era implacável.
- Menino deixar lençóis muito sujas com porcario. Uma conselha: é melhor ir aos putos.
Apressava-me a corrigi-la:
- Vá lá, Juliska, o que você quer dizer é putas.
- Menino perceber." (pp. 88-89)
É difícil resistir à sensibilidade e erotismo da escrita de Mario Benedetti que nos conquista e envolve com uma capa de felicidade melancólica com a leitura de "A Borra do Café". Se por um lado a escrita deste escritor uruguaio faz recordar até certo ponto algumas obras de autores nórdicos do final do século XIX e princípio do século XX em que a melancolia faz ponto de honra sendo quase uma condição e consequência da escrita, por outro lado, essa mesma melancolia é agraciada pela necessidade em agarrar a vida, de sentir prazer por se ter um corpo que também é uma das condições para se ser feliz, como dançar e sentir um tango em toda a sua pujança.
Como as borras do café que ficam no fundo da chávena, este livro faz-nos despertar um sem número de recordações que marcam também a nossa vida. Deixemos então a música tocar!

Excerto:
"O Norberto confiou-me um problema muito pessoal. Tinha-se afastado do padre Ricardo simplesmente porque ele lhe «tinha feito uma sacanice». Acontece que, num sábado à noite, o Norberto tinha ido, com vários dos seus novos amigos, a um prostíbulo do Pantanoso e a experiência tinha-lhe deixado uma má impressão. Uma semana mais tarde, ao confessar-se ao padre Ricardo, confiou-lhe o seu pecado. (Como diz a minha avó Dolores, e muito bem, cada cardume tem o seu pescador.) O padre, além de fixar como penitência uma tonelada de pais-nossos e de ave-marias (o pobre confesso esteve umas duas horas a rezar a fio), foi contar ao pai do Norberto, que tomou duas medidas imediatas e radicais: tirou-lhe a chave e aplicou-lhe duas monumentais bofetadas que lhe deslocaram a mandíbula durante várias horas. E ainda lhe explicou que a primeira bofetada era por causa do prostíbulo («ainda é muito cedo para isso»), mas que a segunda era por ter sido tão estúpido ao ir contar isso ao padre Ricardo, logo a esse, que, «como é público e notório, é um coscuvilheiro sexual de primeira ordem».
Para o Norberto, muito mais grave do que a palmada paternal tinha sido a dolorosa revelação de que, pelo menos para o padre Ricardo, o segredo da confissão era inconsistente. Tomou então uma decisão. No domingo seguinte foi à igreja, enfiou-se no confessionário e, quando teve a certeza de que o seu inimigo se encontrava atrás da rede, desenrolou todo um ramalhete de críticas, incluindo palavrões, durante vários e transcendentais minutos, que para o inferiorizado sacerdote foram uma antecipação das chamas do inferno iminente. A catilinária terminou com uma estrondosa exortação:
- E agora, padre intriguista e maldoso, vá contar ao meu pai que o mandei à merda.
Mas o padre Ricardo ficou em contrição e nos eixos." (pp. 82-83)

Texto elaborado por Jorge Navarro

"A Confissão do Navegador" de Duarte Nuno Braga

Se é certo que estava um pouco renitente com esta leitura pelo tema tratado e por temer que se tornasse um pouco aborrecida, também é certo que fui ficando cada vez mais cativada com o enredo ao virar das páginas. E o medo pelo desconhecido tornou-se numa ânsia de querer saber mais. E gostei.

Fiquei surpreendida pela forma como o autor, habilmente, deu-nos a conhecer uma parte da História de Portugal que, se bem me lembro, foi-me dada com muita ligeireza e rapidamente. Tenho uma vaga ideia de se ter falado de "alguém" ter descoberto o Brasil antes de Pedro Álvares Cabral e essa descoberta ter sido encoberta por vontades políticas e questòes de estratégia relacionadas com o Tratado de Tordesilhas. Desenvolver este assunto foi um tiro certeiro, dado com mestria pelo autor.

Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), geógrafo, cosmógrafo e navegador, era, para mim, um ilustre desconhecido. Até ter lido este livro. Mas, para além de todos os factos históricos que se descortinam deste romance, achei que o escritor soube muito bem dar vida a este navegador, construindo um personagem que o leitor passa a admirar, de personalidade determinada e de carácter forte. Colocando sempre uma pitada de romance que cria uma leveza ao livro, foram, no entanto, as descrições das conquistas e sua vida em mar alto que me apaixonaram.

Senti falta de um mapa com o tracejado das várias viagens descritas (logo eu que basta dar uma volta sobre mim mesma para me perder!) para ir acompanhando esses momentos e também de um glossário com algumas palavras de elementos que existiam na época. Por exemplo: "paraus". Percebe-se no decorrer da narrativa que se trata de um tipo de embarcação mas gostaria de ver uma nota explicativa, leiga que sou nessa matéria.

Tirando isso, achei perfeito este livro. Sinceramente não estava à espera, num primeiro livro, de uma escrita com tanta qualidade e onde se denota uma pesquisa apurada. Aguardo o próximo. Serei leitora atenta concerteza! Temo que, como muitas vezes acontece, este livro passe ao lado dos leitores. Não merece, de todo.

Uma história da História muito bem contada que nos prende profundamente. Vivenciamos os acontecimentos e somos transportados para uma época onde a honra e a palavra dada constituiam valores a ter em conta. Muito visual e realista, este romance chega a impressionar fortemente, tal é a força das descrições e a forma como o autor capta a reproduz os sentimentos dos personagens reais ou fictícios.

Fiquei fã da escrita de Duarte Nuno Braga. Venha o próximo livro!

Terminado em 15 de Maio de 2016


Estrelas: 5*+

Sinopse

Corre o ano de 1493. D. João II convida o navegador Duarte Pacheco Pereira a conhecer Cristóvão Colombo. Joga-se o destino de Portugal e do próprio Duarte Pacheco Pereira, incumbido de uma missão secreta que o leva aos confins do Atlântico. Neste empolgante romance histórico desvenda-se a figura pouco conhecida do navegador descrito por Camões como o «Aquiles lusitano». Do perigo dos mares ao calor da Índia e da batalha, somos levados para uma época envolta em segredos, conspirações e relações proibidas. A ambição de um reino muda a vida de um homem dividido numa busca espiritual entre a lealdade e o amor.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

"Regressar" de Catherine McKensie

Gosto de livros que me façam esquecer as páginas que possuem. Embrenhada de tal modo na leitura, fico sem saber em que página estou, quantas gostaria de ler nesse dia, quantas me faltam para a meta que me coloco diariamente... Quando isso acontece fico completamente dentro do livro, do enredo, "vejo-me" ao lado dos personagens. E gosto disso. Dessa sensação de não estar aqui mas "lá", de pertencer a esse mundo da história que leio.

Foi com muita facilidade que isso me aconteceu com este romance. A escrita é simples mas acolhedora. A história cativante. Uma vida que é interrompida e que depois custa a recomeçar. Emma sofre com a morte da mãe. Na herança recebe um bilhete para um país africano. Sem perceber porquê cumpre o seu desejo e parte. Seis meses e peripécias depois, regressa, mas já nada está no seu lugar! Como recomeçar com a vida que deixou para trás? Será que é isso que na realidade deseja?

Descontraído mas escrito com profundidade, este romance diverte e, ao mesmo tempo faz pensar, propiciando por isso umas horas de leitura deliciosas.

Terminado em 13 de Maio de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

Quem nunca sonhou poder recomeçar a sua vida? Emma Tupper é uma jovem advogada, prestes a alcançar o sonho de se tornar sócia da sociedade de advogados onde trabalha. Após a morte da mãe, Emma decide desfrutar de uma prenda que esta lhe deixa: uma viagem a África. Mas o que era para ser um mês de férias depressa se transforma em seis meses de ausência forçada, quando Emma adoece e um terrível terramoto a deixa retida e sem contacto com o exterior.Para sua surpresa, quando finalmente regressa a casa, Emma constata que a família e os amigos acreditavam que estava… morta, e que a sua antiga vida desaparecera: o apartamento onde vivia acabara de ser alugado a um novo inquilino, o misterioso Dominic; na sociedade, a sua rival Sophie apossara-se não só dos seus clientes e da sua sala, mas também do seu namorado, Craig.Enquanto tenta resolver o caos em que se transformou a sua vida, Emma questiona-se: Seria feliz antes da viagem a África? Teria valido a pena sacrificar-se tanto em nome do trabalho? Amaria Craig de verdade? Quereria mesmo aquela vida de volta?

terça-feira, 17 de maio de 2016

A convidade escolhe: “Carruagem para Mulheres”

Este é um livro que comprei há vários anos e de que gostei tanto que tenho emprestado a inúmeras amigas. Não é habitual voltar a ler um livro que já tenha lido, mas decidi voltar a lê-lo até por causa da polémica recentemente levantada por causa da decisão de uma operadora ferroviária alemã criar carruagens exclusivas para mulheres, com o argumento da protecção. Deplorável vivermos num mundo onde há países, como a Índia, que têm esta prática; inimaginável
que fosse possível em pleno século XXI, haver países ditos evoluídos na Europa que optem por medidas idênticas. Daí esta minha decisão de reler este belo livro que na altura tanto me impressionou e que agora quis voltar a ler, talvez com outros olhos ou com mais atenção a outros detalhes.
Akhila é uma mulher com 45 anos, solteira, a trabalhar numa repartição de Finanças, que sempre sacrificou a sua vida em função da família, tendo ficado aprisionada pela tradição. Como filha mais velha, sustento da casa com a morte do pai e depois da mãe, passou a ser encarada pelos irmãos como alguém sem futuro, dependente e inferior.  Destinada a ser, antes de tudo, filha, irmã e tia. Ao contrário de aceitar essa condição de menoridade como destino inelutável, decidiu encetar uma vida independente, partindo de comboio com bilhete de ida para outra terra. Na carruagem que toma vai encontrar várias mulheres de diferentes condições e idades e essa viagem vai ser não só uma viagem de conhecimento das vidas de outras mulheres, mas também uma viagem de libertação.
As conversas que ouve e a sua própria história que partilha com as companheiras de viagem são um painel muito completo das desigualdades e da condição feminina. Não só reforçam a convicção de Akhila sobre a escolha que fez ao decidir fazer aquela viagem, mas dão ao/à leitor/a um pano de fundo das discriminações múltiplas que as mulheres vivem em todo o mundo e não apenas na Índia, onde se desenrola este romance.
Para as mulheres o destino está traçado logo à nascença, quando os pais decidem o casamento das filhas. Ter uma filha/ser uma filha é antes do mais um empecilho! A primeira menstruação é o sinal de que tudo terá de mudar na vida das meninas, pois passarão a ser mulheres e a ter de se comportar com virtude e modéstia, palavras constantemente ouvidas nos filmes. A virgindade é vital e por isso, a experiência da primeira relação sexual com o marido, por vezes um tio mais velho, é regra geral traumática ou carregada de sensações negativas. Pelo casamento, dependentes do dinheiro dos maridos, deverão ser boas esposas, o que significa ter tempo para tomar conta das necessidades do marido e dos filhos, cuidar da casa e aceitar as imposições da sogra. E para que não haja brigas nem desentendimentos, a mulher deve anular-se e aceitar ser inferior ao marido, não questionando, antes aceitando o seu destino. Prabha Devi uma das passageiras da carruagem diz a certa altura “Uma mulher com opinião era tratada como um mau cheiro. Era evitada”. Consciente da subalternidade e da despersonalização a que as mulheres são sujeitas, conclui: “ As mulheres tornavam-se uns pontinhos minúsculos com o passar dos anos”.
Outros temas como a solidão, o aborto forçado, a violação, a culpabilização da sociedade, a rejeição do filho de uma violação, o estigma que constitui o divórcio, a prostituição, o assédio nos transportes apinhados, o amor lésbico, a naturalização da desigualdade surgem nas histórias destas mulheres indianas fazendo deste livro um verdadeiro mostruário de diferentes formas de discriminação de género.
Akhila, apesar de não se ter casado, é uma mulher com um espírito livre e que não deixou de sonhar, embora as convenções e as tradições tenham moldado o seu percurso de vida truncando o seu relacionamento afectivo com um homem mais novo do que ela. Sempre que os desejos se tornam mais fortes, sobrevêm os sentimentos de culpa e de vergonha. Naquela carruagem para mulheres ela encontra mulheres que se adaptaram, que lutaram, que ganharam autonomia  e confiança, que sofreram e que querem dar um sentido às suas vidas. E a partilha destas histórias é uma aprendizagem, a tomada de consciência de que não estão sozinhas, de que não são sozinhas neste mundo que cria espaços próprios para “Senhoras, Idosos e Deficientes” como assinala o letreiro da estação onde Akhila inicia a sua viagem.
Numa nota no final do livro, Anita Nair informa o/a leitor/a que naquela altura em que terminou o livro já não havia carruagens com beliches para mulheres na Índia. Será que, passados pouco mais que uma dezena de anos, estamos num processo de retrocesso que leva a que espaços especificamente para mulheres comecem a surgir como normais e desejáveis para proteger “os fracos”? Preocupante e digno de reflexão!

Almerinda Bento