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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A escolha do Jorge: "Adoração" de Cristina Drios

“Adoração” é o mais recente romance de Cristina Drios publicado pela Teorema e o sucessor de “Os Olhos de Tirésias” (2013).
“Uma rapariga, um polícia, a máfia e Caravaggio” serve de mote para entrarmos numa obra que tem tanto de intimista como de thriller. Uma obra que mistura a ficção histórica com inúmeras referências a obras literárias, recuperando ainda alguns personagens marcantes relativos a obras que fazem parte da nossa cultura como pontos de referência. 
Viajamos no tempo através da “Adoração” que constitui simultaneamente uma das obras de Caravaggio que desapareceu do Oratório de S. Lourenço, em Palermo, em 1969, mas também o título de um manuscrito de Salvatore Amato, contemporâneo do pintor italiano, que relata a história da procura desesperada do artista.
A obsessão de Salvatore Amato por Caravaggio confunde-se com a adoração daquele pelas obras do artista, do mesmo modo que podemos colocar em confronto as ideias de paixão sentimental e paixão estética que a dado momento se poderão confundir.
O manuscrito que ocupa uma boa parte da “Adoração” corresponde a uma busca incessante de Caravaggio que, com o passar dos anos, se transforma em obsessão. A narrativa evolui como um jogo do gato e do rato que em certa medida reflecte as obras do próprio Caravaggio em que o “chiaroscuro” ganha uma dimensão sem precedentes, evidenciando o carácter de secretismo nas obras do artista italiano. A verdade ganha forma através das sombras que, aos poucos, permitem a sua desocultação.

A ideia da verdade que se mostra para depois se voltar a ocultar é o jogo de espelhos em relação à própria vida de Caravaggio que passou anos escondido, de cidade em cidade, na sequência de um assassinato do qual aguardava um indulto papal.
O desespero de Caravaggio na obtenção do indulto papal e, consequentemente, na sua redenção, reflecte-te também nas suas obras em que os rostos do povo são transpostos para personagens religiosos na tentativa de redimir o povo dos seus pecados e da sua pobreza através da adoração e contemplação das obras do pintor através dos tempos.
Este jogo de espelhos que tanto deseja trazer à luz a verdade como rapidamente se esconde por entre as sombras é o registo permanente utilizado em “Adoração” à medida que doseia dados concretos da realidade com a ficção.

Excertos:
 “A irascibilidade perdoa-se aos génios. Dificilmente se perdoa ao comum dos mortais. Caravaggio, o génio da pintura dos corpos e das sombras, foi perdoado. Continuará a sê-lo de cada vez que alguém, soltando uma exclamação, admirar e, em retorno, exultar com a Beleza de cada um dos seus quadros. Ao contrário do que acontece com outras obras, não somos nós que olhamos, são as personagens que nos olham. Admirai uma dessas telas e vereis que sois observado, de outra dimensão, ao mesmo tempo íntima e intangível, porque, na verdade, descobrireis que é aí, no território da genialidade e do fracasso, que Deus espreita.
(…)
No decurso dos anos, tornou-se apenas cada vez mais exigente consigo mesmo, deixando de entregar trabalhos que não julgasse à altura do próprio talento e sobretudo da Verdade. Outras vezes, ao contrário, não pintava durante longos períodos. Era como se existisse um tempo dentro do tempo, um tempo finito dentro do tempo infinito da criação. Na verdade, enquanto pintava, o Caravaggio suspendia-o, não envelhecia à mesma velocidade que envelhecemos nós e, no acto de gerar beleza, era Deus, o criador supremo, que abria a boca de espanto perante a sua criação. Sim, talvez Deus se espante com as suas obras mais perfeitas. E aqueles que, como ele, atingiram a perfeição alcançam a imortalidade.”

"Sei agora que tinha razão, pois nos seus quadros, os santos, virgens e cristos, são esta gente do Trastevere; as suas dores são as dores deste povo, sujo e malcheiroso, que enche as igrejas de Roma e o aplaude. São o exército de Deus - oh, o vosso nome é Legião! - e vêem-se, pela primeira vez, nos altares, dando-lhes rosto. Aqui, na imundície das ruelas do bairro mais pobre da cidade, são apenas larápios, salafrários, prostitutas e agiotas, malfeitores e arruaceiros, gente sem eira nem beira que todos os dias chega de longe à procura de um futuro e ali se deixa cair, exausta, esperando uma vida melhor. O Trastevere não é, nem sequer à luz do dia, um lugar recomendável, e Roma, a grande Roma, um pardieiro onde tudo desagua, o melhor e o pior da humanidade."

Texto da autoria de Jorge Navarro

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