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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A escolha do Jorge: Tudo Passa

“Tudo Passa” é uma das obras emblemáticas de Vassili Grossman (1905-1964) a par de “Vida e Destino” e "Bem Hajam!” igualmente publicadas em língua portuguesa.

Vassili Grossman é proveniente de famílias judias da Ucrânia tendo a sua mãe sido vítima dos nazis; formado em engenharia química à semelhança de Primo Levi, o autor desde cedo dedicou-se à escrita estando ao serviço da URSS no âmbito da 2ª Guerra Mundial em assuntos que enalteciam o país em detrimento dos Alemães em temas como a Batalha de Estalinegrado, a queda de Berlim ou o Holocausto.

Se por um lado o autor era reconhecido no seio da URSS como um dos escritores de apreço do Estado, por outro lado, só mais tarde a URSS se apercebeu que a escrita de Vassili Grossman apontava as garras na defesa dos direitos do Homem, o que significa que inevitavelmente o autor iria denunciar os crimes mais ferozes e hediondos cometidos no seio do estado soviético.

“Tudo Passa” desenvolve-se num misto de romance e ensaio envolvendo o leitor na história de Ivan Grigorievitch que passou três décadas da sua vida em campos de trabalho forçado, na Sibéria, e que ao fim deste tempo, regressa a Moscovo para viver o tempo que lhe resta, em liberdade. Esta história que varia entre o comovente e o angustiante é relatada de uma forma em que são postos a nu as muitas armas utilizadas pelo estado soviético como forma de controlar e esmagar a população. O medo instalou-se de forma severa e a liberdade foi totalmente retirada aos cidadãos. Este foi o destino da URSS durante décadas. Uma população subjugada e silenciada pelo medo. Era o medo que conduzia às múltiplas denúncias de familiares e vizinhos que viriam a acabar em campos correccionais onde acabariam por morrer à fome, com doenças, ou vítimas de tortura e esgotamento físico ou a conjugação das razões enumeradas anteriormente. Quem sobreviveu, ficou com a vida despedaçada, muitas vezes mutilado com deficiência física, além dos traumas de natureza psicológica e emocional a que foi sujeito. Que préstimo teriam estas pessoas em liberdade, na sociedade que desconheciam e relativamente à qual foram retirados durante anos a fio? Eram estranhos aos outros, tornaram-se estranhos para eles próprios.

Mas chegou o dia 5 de Março de 1953 que trouxe a notícia do falecimento de Estaline! A URSS tremeu ante a notícia porque ninguém concebia simplesmente a ideia de que o grande ditador morresse e se assim era a explicação assente no medo latente e vibrante pelo qual as pessoas viviam.  A morte de Estaline teve um impacto de tal forma grande na URSS que Vassili Grossman escreveu “Stálin morreu fora do plano, sem ordem dos órgãos de direção. Stálin morreu sem ordem pessoal do próprio camarada Stálin. Nesta liberdade, neste voluntarismo da morte havia qualquer coisa de dinamitador, contradizendo a própria essência profunda doestado. Grande perturbação abrangeu as mentes e os corações.” (p. 32)

Embora o regozijo fosse sentido em certos meios e tantas vezes à porta fechada, após a morte de Estaline veio a comprovar-se que o período então vigente nada mais era do que a consolidação do anterior assente nos valores marxistas-leninistas e tendo Estaline como o grande exemplo na concretização de um Estado soviético forte assente no medo e na liberdade confiscada aos cidadãos.

É precisamente o que aconteceu com Ivan Grigorievitch que ao regressar da Sibéria procurava dar continuidade à sua vida que ficara em suspenso, no reatar amizades e até uma relação amorosa parada no tempo durante décadas. O tempo passa e as vidas daqueles que fizeram parte da vida dos que experimentaram o cárcere também seguiram o seu curso ainda que, passadas três décadas de ausência, “Tudo Passa” para Ivan Grigorievitch se dar conta que afinal tudo permanece na mesma, um buraco negro nas vidas das pessoas, que continuam assombradas com a ausência da liberdade.

Ivan Grigorievitch vai relatando as suas experiências desde o comunismo de guerra entre brancos e vermelhos até que estes, os bolcheviques instituem a ditadura do proletariado assente nos princípios de Marx sob a vigilância e orientação de Lenine. Estão assim criadas as bases daquele que foi um dos mais terríveis estados totalitários que a História conheceu. De Lenine a Estaline foi um passo, acentuando-se uma política baseada nas depurações frequentes porque, também Estaline, nunca conseguiu vencer o medo que o corroía sob o perigo eminente de o Estado vigilante ruir.

A estrutura de “Tudo Passa” evolui deste modo entre o romance em que o leitor conhece inúmeros casos de vítimas do terror leninista e estalinista, mas também apresenta-nos um discurso que apela à reflexão, apresentando assim a forma de ensaio.

Vassili Grossman alerta-nos nas entrelinhas que o perigo está sempre à espreita face a ditadores improváveis. Nunca saberemos o que a História nos reserva, mas é nosso dever aprender com as suas lições de modo a evitarmos semelhantes horrores e sofrimentos.

Tantas vezes abafado face ao impacto do Holocausto, o terror vivido na URSS com milhões de vidas ceifadas é relegado para um segundo plano. Vassili Grossman não pretende sobrepor um em detrimento do outro, independentemente de o número de vítimas na URSS ser substancialmente superior, e num período de tempo também superior, que o do Holocausto quando circunscrito à 2ª Guerra Mundial. Tratam-se, pois, de duas situações que marcaram a História do século XX manchando a mão do Homem que passa a ser encarado como um assassino em massa a par das inúmeras conquistas em matéria científica e tecnológica que alcançou e tem alcançado. É este também o papel da História, não esquecer os milhões de vítimas nas mãos de indivíduos ignóbeis e tudo por causas perdidas como o nazismo e o comunismo.

“Mas onde está essa vida, onde está esse terrível sofrimento? Será que não resta nada? Será que ninguém vai ser responsabilizado por tudo isso? Será tudo esquecido, não ficará nada na memória? E a terra cobrirá as pegadas?” (p. 152)

Vassili Grossman é deste modo uma das vozes da URSS que tem a missão de denunciar o terror estalinista, mas também de alertar as consciências face ao futuro incerto. “Tudo Passa” afirma-se como uma obra singular não apenas de cariz histórico, mas fazendo a ponte com a literatura, constituindo uma das obras incontornáveis da segunda metade do século XX.

Vassili Grossman é daqueles escritores que não necessitam de ficcionar uma narrativa com histórias duras e macabras. Basta para isso basear-se na realidade que viveu de perto e da qual foi vítima em certa medida.

Excerto:
“O terror e a ditadura engoliram os seus criadores. E o Estado, que parecia apenas um meio, acabou por se tornar um fim! As pessoas que criaram este Estado pensavam que era um meio de concretização do ideal delas. Mas verificou-se que os seus sonhos e ideais eram apenas um meio do grande e terrível Estado. O Estado servidor transformou-se num autocrata sombrio. Não foi o povo que precisou do terror do ano de 1919; não foi o povo que liquidou a liberdade de imprensa e de palavra; não foi o povo que precisou da morte de milhões de camponeses – os camponeses eram precisamente a maior parte do povo, não foi o povo que mandou encher as prisões e os campos correcionais em 1937; não foi o povo que precisou das deportações mortíferas para a taiga dos tártaros da Crimeia, dos calmuques, dos balcares, dos búlgaros e dos gregos russificados, dos tchetchenos e dos alemães do Volga; não foi o povo que pôs fim à liberdade de semear, ao direito à greve operária; não foi o povo que estabeleceu o monstruoso descalabro dos preços relativamente ao custo real das mercadorias.
O Estado tornou-se dono e senhor, o nacional deixou de ser forma transformando-se em conteúdo, em essência, expulsou o caráter socialista para o transformar em invólucro, em fraseologia, casca, aparência. Resta a lei sagrada da vida que se definiu com trágica evidência: a liberdade do homem está acima de tudo; não há no mundo qualquer objetivo ao qual seja lícito sacrificar a liberdade humana.” (p. 179)

Texto da autoria de Jorge Navarro

2 comentários:

  1. Excelente comentário!!
    Tenho uma obra do Vassili Grossman, ainda não peguei nela porque é enorme, nomeadamente "Vida e Destino"

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  2. Obrigado Paula.De Vassili Grossman li também "Bem Hajam", livro que também recomendo. Trata-se de um misto entre livro de viagens, ensaio e memórias sobre a visita do escritor à Arménia, antigo país da URSS que ficamoscom vontade de conhecer após a leitura do livro.

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