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terça-feira, 4 de outubro de 2016

A Escolha do Jorge: Kallocaína

"Kallocaína" de Karin Boye (1900-1941) constitui uma das mais recentes apostas da Antígona que apresenta pela primeira vez no mercado português a mais emblemática das obras da escritora sueca. Desde a sua publicação, em 1940, "Kallocaína" tornou-se uma obra rapidamente reconhecida tornando-se num clássico moderno da literatura sueca contemporânea elevando a escritora a uma das mais emblemáticas da Suécia no século XX.
"Kallocaína" inscreve-se no contexto das mais importantes distopias publicadas ao longo do século passado. Herdeira das influências de obras como "Nós" de Zamiatine e de "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, a obra apresenta alguns dos principais pontos que mais tarde, George Orwell veio a publicar com "1984", o seu livro mais representativo publicado em 1949.
Karin Boye construiu um regime totalitário cuja originalidade assenta na fusão entre o nazismo e o comunismo reflectindo, em certa medida, o resultado da sua passagem pela Alemanha ainda durante a fase de ascensão de Hitler, assim como a visita à URSS no período estalinista. Se cada um dos regimes ditatoriais é sobejamente conhecido com todas as consequências levadas a cabo no intuito de concretizar projectos políticos alucinantes que ceifaram a vida a milhões de pessoas culminando num conflito à escala mundial, em "Kallocaína" temos um regime totalitário que arruína por completo os cidadãos reduzidos à categoria de "consoldados" do Estado, em que todos são vigiados e controlados por todos, ficando despidos de todo e qualquer sentimento e pensamento, verdadeiros homens-máquinas.
O químico Leo Kall é apresentado como figura central da narrativa, um indivíduo obediente do sistema e convicto de todo um quadro de valores defendidos pelo Estado. A missão de Leo Kall é desenvolver uma substância, um "soro da verdade", a kallocaína, que neutraliza qualquer culpado face à evidência perante a verdade e sempre em defesa e segurança do Estado.
O medo instala-se. O medo mina e corrói. A desconfiança em relação aos outros torna-se regra culminando com as sucessivas denúncias. Denunciar para evitar ser denunciado torna-se assim a arma mais poderosa do Estado que, com a ajuda da kallocaína, desumaniza todo e qualquer indivíduo, na medida em que neste estado totalitário não existe espaço para sentimentos e pensamentos, daí que a solução é torná-los públicos também. Se cada consoldado pertence ao Estado, tudo o que lhe é inerente também lhe pertence, tornando assim o Estado ainda mais forte porque é vigilante por excelência.
Os sentimentos e pensamentos tornam o homem anti-social e potencialmente revolucionário, criminoso, um inimigo do Estado que é necessário eliminar, eliminando, desta forma, a diferença entre o domínio privado e o público.
Karin Boye apresenta-nos assim uma realidade distópica assente em deformações que identificou no seu tempo, antes e durante a 2ª Guerra Mundial, tendo por base os princípios que regiam o nacional-socialismo (nazismo) e o comunismo (estalinismo) e que aniquilaram milhões de pessoas que foram perseguidas por ambos os regimes.
Mas em todas as distopias temos sempre um herói que começa a reflectir e a questionar, passando a desenvolver sentimentos relativamente aos quais não estava preparado. A grande aventura inicia com essa descoberta, embora em "Kallocaína" não exista propriamente um "happy end". Um mal maior aproxima-se e este estado totalitário acaba por ser engolido por um estado totalitário ainda mais feroz.
Visionário ou não, este romance de Karin Boye tem como subtítulo "Romance do Século XXI" e, em boa verdade, continuamos a identificar na obra inúmeras "deformações" da realidade do nosso tempo, nestas duas primeiras décadas do virar do século, constituindo um alerta face a sinais que, tendo como base a realidade histórica, poderão estar na origem de políticas verdadeiramente corrosivas e nefastas capazes de minar o mundo, como a peste, uma peste que contamina até as economias reais e virtuais à conta dos mercados e bolsas invisíveis onde o verdadeiro inimigo se esconde e ninguém sabe quem é.

Excertos:
"E quem aguentaria ver isso? Obrigado, mas não por alguém. Obrigado pelo vazio e pelo frio… o gelo total que nos ameaça a todos. Comunidade, chamam-lhe vocês… comunidade? Fundidos uns nos outros? E é isso que gritam, cada um do seu lado do abismo. Não terá havido um momento, um único, na longa evolução das gerações, em que se poderia ter escolhido um outro caminho? O caminho tem de atravessar o abismo? Nenhum momento em que se pudesse ter impedido o carro armado do Poder de avançar em direcção ao vazio? Haverá um caminho para lá da morte que conduza a uma nova vida? Haverá um lugar sagrado onde o destino se reverta?" (p. 210)

"O que sei é que pais doentes e professores doentes estão a criar crianças ainda mais doentes, até a doença se ter tornado a normalidade e a saúde uma visão assustadora. De seres solitários nascem seres ainda mais solitários, de seres amedrontados nascem outros ainda mais amedrontados… Onde poderá estar escondida uma única semente de saúde que seja, que possa crescer e romper através do carro armado?..." (p. 212)

"Sou uma pequena peça na engrenagem. Sou um ser a quem roubaram a vida… E contudo: sei agora que isto não é verdade. Deve ser a kallocaína que me dá uma esperança irracional; tudo parece fácil, claro e pacífico. Ainda estou vivo, apesar de tudo o que me roubaram, e sei agora que ‘aquilo que sou vai para algum lado’." (p. 212)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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