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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A Escolha do Jorge: A Gaivota

"A Gaivota" constitui a nona obra de Sándor Márai (1900-1989) a ser publicada pela Dom Quixote dando assim continuidade à edição da obra integral do autor húngaro em língua portuguesa.
Publicado inicialmente em 1943, em plena 2ª Guerra Mundial, "A Gaivota" alude ao período imediatamente anterior ao início do conflito em que um alto funcionário em exercício de funções num ministério, em Budapeste, tem a consciência de que no dia seguinte toda a ordem social e cultural do país aparentemente instituída entrará em colapso percebendo-se que tal acontecimento tem que ver com o início da guerra.
Ao contrário de outras obras de Sándor Márai em que a narrativa evolui num espaço fechado e claustrofóbico onde um dos interlocutores, a par do leitor, ganham consciência de uma culpa passada, arrastando-os para a angústia e a melancolia, "A Gaivota" pressupõe à semelhança de "As Velas Ardem Até ao Fim", a obra de referência do escritor, que estaremos perante uma narrativa passada em vinte e quatro horas.
O alto funcionário ministerial recebe uma visita inesperada de Aino Laine, uma jovem professora oriunda da Finlândia que recorre aos seus serviços a fim de ser ajudada na sequência do conflito que está à beira de eclodir e que a fez sair do seu país natal.
Este indivíduo, de quem nunca saberemos o nome, ao deparar-se com esta jovem enfrenta os limites da razão fazendo crer a si mesmo que está perante a revisitação da sua amiga então falecida por quem nutria sentimentos relativamente aos quais nunca concretizou a relação amorosa. Estão assim lançadas as bases para o desafio do espaço e do tempo na busca de um sentido para a vida e determinação ou afirmação dos povos na busca de um espaço que lhes é próprio.
O funcionário ministerial tem um rasgo de lucidez que poderia facilmente ser confundido com loucura, correndo, dessa forma, o risco de vir a ser mal interpretado e deitando tudo a perder tendo em consideração o elevado cargo político que ocupa em Budapeste.
O nome finlandês de Aino Laine, cuja tradução é "Única Onda", alude, segundo o funcionário, às origens comuns entre húngaros e finlandeses que participam de uma mesma raiz linguística. Aino Laine idealiza de forma poética a fusão entre os povos através da guerra no intuito do avanço e afirmação do seu espaço vital, e também a fusão através da união entre povos diferentes tendo como base o sangue. O sangue é a sustentação face ao avanço e afirmação do espaço vital dos povos através do sangue derramado nos conflitos e guerras, assim como através da união entre as pessoas contribuindo para a sua descendência.
Assim, "Única Onda" sintetiza a ideia poética no que respeita à afirmação dos povos, a sua determinação ainda antes da Europa ser reconhecida enquanto tal, enquanto símbolo ou sinónimo de civilização.
Deste modo, o funcionário reconhece em Aino Laine o regresso de Ili, o seu amor não concretizado, através de uma gémea, herdeira de todo um passado que está ligado até às origens destes dois povos, tratando-a várias vezes como uma parente distante.
É com o mundo em suspenso nas vésperas da guerra e com as mais importantes individualidades da burguesia de Budapeste que este funcionário convida Aino Laine para ir à Ópera nessa noite. Todos os valores culturais que marcam o quotidiano desta burguesia estão prestes a ruir e os seus gestos e silêncios e os seus olhares são o reflexo desse vazio iminente que adquirirá forma na manhã seguinte com a divulgação de uma determinada notícia.
Poderíamos ser levados a pensar que a solidão deste funcionário conduzi-lo-ia ao desespero e, consequentemente, à loucura fruto da guerra ou conflito interior, na medida em que o homem é feito de guerras, sendo também o produto de inúmeras guerras que atravessaram o rio do tempo, a História.
É também, por vezes, a loucura de certos indivíduos que está na origem dos conflitos bélicos como o que teve lugar na 2ª Guerra Mundial com o avanço do nacional-socialismo (nazismo).
Aino Laine é poeticamente comparada à gaivota que percorre longas distâncias, no entanto, as recordações marcam a diferença, pesam na vida de uma pessoa. As recordações constituem a história de cada um e, numa dimensão mais alargada, a história de um povo e, em última instância, a História da Europa.
Algo de grave está para acontecer com o raiar do dia e que marcará para sempre a vida dos europeus. A sua identidade é posta em causa, a sua cultura. Algo se perderá para sempre, a influência e importância da cultura judaica como centro gravitacional na Europa Central e de Leste.
"A Gaivota" de Sándor Márai tem alguns pontos em comum com "As Segundas Considerações Intempestivas" de Friedrich Nietzsche, obra iniciada com "observe-se o rebanho que pasta" que vive o momento e não o guarda ao contrário do homem que vive e guarda o instante através da recordação que produz, a memória que é necessário preservar.
"A Gaivota" constitui uma obra singular no contexto das obras de Sándor Márai a que estamos habituados que, neste caso em particular, apresenta-nos com um cariz e preocupação civilizacionais procurando o lugar da Europa na guerra, no novo conflito então iminente.
Excerto:
"Naquela desordem tremenda que caracterizava a migração dos povos, quando etnias, tribos e raízes linguísticas iniciam os seus caminhos, misturando-se e separando-se na procura de uma pátria neste mundo que, naquela altura, oficialmente, não se chamava Europa, naquele caos enorme tinham nascido muitos laços, mesmo entre povos que não possuíam raízes linguísticas comuns, mas também se tinham rompido povos que, através de uma lacónica linguagem ancestral, se entendiam mutuamente e tinham misturado os seus sangues, tanto no campo de batalha como no leito nupcial… Grandes épocas eram aquelas, semelhantes à nossa de hoje. Sangue, línguas, costumes, formas de vida, interesses, misturando-se e fermentando, tudo numa grande bacia, nas planícies da Europa, desde o Mar Mediterrâneo até às florestas nórdicas. Forças selvagens tinham amassado e misturado os povos, todo o humano transbordado, o mundo era um único fluxo, uma única onda…" (pp. 122-123)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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