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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A Escolha do Jorge: Auschwitz

São inúmeros os romances, biografias e ensaios alusivos ao Holocausto, um tema que por si só é inesgotável, não apenas pela capacidade que o assunto em si mesmo tem em continuar a chocar as pessoas passados mais de setenta anos depois da 2ª Guerra Mundial, pela necessidade, talvez, de trazer à luz novos episódios até então desconhecidos, outras histórias relacionadas com a crueldade perpetrada pelos nazis aos judeus, como forma de resgatar vidas através dos livros mantendo-as vivas através das palavras, mas também pela (in)capacidade de compreensão do ser humano no que respeita àquilo de que o Homem é capaz de levar por diante quando imbuído de um espírito, uma doutrina e um líder sádicos capazes de instaurar a loucura arrastando a Europa para um conflito bélico sem precedentes.
Todas estas publicações alusivas ao Holocausto visam sem dúvida a denúncia de uma barbárie (quase) inimaginável em pleno século XX, mas também cumpre a função de preservar a memória dos acontecimentos para as gerações futuras como forma de alerta de que o Homem "pisara o risco" no tocante a todos os códigos ético-morais instituídos na sociedade, assim como à violação do valor da vida em si mesma.
Para além dos géneros acima indicados que têm servido de base para a exploração (ou explicação) do Holocausto como denúncia dos actos ignominiosos dos nazis, podemos acrescentar a novela gráfica. Já Art Spielgelmann nos dera a conhecer "Maus", reeditado recentemente, em que o autor, filho de pais judeus polacos, apresenta uma novela gráfica em que os judeus são os ratos e os nazis os gatos, contando, dessa forma, a história dos seus pais, do mesmo modo que apresentava a ideologia nazi.
A par de Art Spiegelmann, o francês Pascal Croci (n. 1961) apresenta-nos "Auschwitz" reportando-se especificamente ao ano de 1944, e cuja narrativa decorre no campo de concentração e de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polónia. Respeitando a realidade histórica, Pascal Croci, apresenta-nos uma novela gráfica de grande qualidade, fruto da sua experiência e maturidade, revelando igualmente um conhecimento profundo sobre o tema, aliando para tal, o seu exímio talento na arte do desenho.
Longe de ser uma novela gráfica para jovens, "Auschwitz" choca e inquieta profundamente o leitor pelos desenhos cujos personagens tantas vezes olham para nós de modo apavorado ou nos casos em que a morte individual ou em grupo apresentam-se-nos quase de modo fotográfico como se o autor/artista tivesse captado aquele olhar num dado momento de horror.
Baseado em testemunhos reais conforme explicado na entrevista nas últimas páginas da obra, Pascal Croci tentou reproduzir situações concretas do quotidiano no campo de concentração e de extermínio de Auschwitz-Birkenau, desde a chegada dos prisioneiros, como em Março de 1944, com a chegada de um grupo de judeus checos que rapidamente foram despojados dos seus bens para passarem às câmaras de gás para a suposta "desinfecção" e, por fim, acabarem nos fornos crematórios.
Pascal Croci chama a atenção para o aspecto da ficção que entra nesta novela gráfica, o caso específico do casal Kazik-Cessia que o autor os apresenta como sobreviventes da loucura nazi, mas acabando vítimas dos sérvios, em Tuzla, durante a guerra da Bósnia-Herzegovina, em 1993, meio século depois do final da 2ª Guerra Mundial.
É nesta relação entre as duas guerras que Pascal Croci também marca pontos, na medida em que a Europa volta a repetir os erros do passado recente através do nacionalismo efervescente que se sentia na ex-Jugoslávia após a morte de Tito, arrastando o país para o seu desmantelamento, reacendendo-se ódios do passado que culminal numa guerra sangrenta. A "limpeza ética" voltou a estar na agenda política, desta vez na Sérvia, que envolveu parte da antiga Jusgoslávia numa guerra civil, mas foi na Bósnia-Herzegovina onde o lema foi aplicado com bastante rigor e crueldade sendo assassinados milhares de cidadãos sem dó nem piedade, verdadeiros massacres, aos olhos de todo o mundo e da ONU que durante anos nada fizeram para impedir tamanha chacina no coração da Europa à beira do século XXI.
É com essa chacina que "Auschwitz" termina, ficando o alerta ao mundo como forma de evitar futuros crimes contra homens, mulheres e crianças, vítimas de políticas erradas e destruidoras de valores civilizacionais edificados com (muito) sacrifício pelas gerações passadas. A paz é cada vez mais um valor utópico olhando para o mundo à nossa volta. Mas é imperativo educar para a paz no mundo porque num mundo sem paz prevalece o terrorismo.

Texto da autoria de Jorge Navarro






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