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terça-feira, 27 de setembro de 2016

A Convidada Escolhe: História de Quem Vai e de Quem Fica

História de Quem Vai e de Quem Fica - Tempo Intermédio " - Elena Ferrante, 2013
A história de Lila e Lena agora com 25 anos, cada uma seguindo um percurso próprio que as afasta por longos períodos. Lila vai permanecer em Nápoles, enquanto Lena, que já partira para Pisa onde estudou e mais tarde se instala em Florença, com o casamento, apenas esporadicamente regressa ao seu bairro napolitano e encontra familiares, antigos amigos e Lina, a amiga inqualificável, ora íntima, ora esquiva, ora mordaz e agressiva, ora frágil.
Persistindo numa insegurança que é marca da sua personalidade, para Lena – a narradora – abre-se um mundo novo: debates e confrontos nas sessões de divulgação do seu livro, plenários e manifestações estudantis em ambientes efervescentes, contacto com jovens vivendo em comunidades, discursos políticos inflamados onde se debatem ideias antagónicas dentro da esquerda. O mundo está em ebulição: é o Maio de 68 em Paris; a guerra no Vietname; a ditadura na Grécia; a luta violenta entre fascistas e comunistas em Itália; as contradições no seio dos sindicatos e no movimento comunista internacional. Aliás, de entre os três primeiros livros da tetralogia de Ferrante, este é o mais político, tanto mais que se passa num tempo especial: "Eram tempos movediços, arqueavam-se em onda" num "… campo de batalha permanente que era a Itália e o mundo". Os movimentos feministas, o controlo da sexualidade através do uso da pílula contraceptiva não podiam também deixar de surgir neste volume que abarca as décadas de 60 e 70 do século passado.
Lina, a trabalhar numa fábrica de enchidos em condições deploráveis está prematuramente envelhecida, deprimida e doente e acaba, involuntariamente, por desempenhar um papel de "heroína" proletária que não escolheu nem quer assumir, porque o discurso e o modo de acção sindical e partidária não se coadunam com a sua independência e personalidade.
O afastamento longo das duas amigas após o casamento de Lena apenas era interrompido quando se falavam ao telefone: "Tornámo-nos, uma para a outra, fragmentos de voz, sem nenhum controlo do olhar." Era uma comunicação incompleta, não só pela distância, mas porque a própria imprevisibilidade de Lila havia criado em Lena um filtro protector de não exposição nem de revelação de sentimentos. Muitas das questões que as atormentam, nomeadamente o condicionamento das suas vidas em função da maternidade, a ausência, apatia e insensibilidade dos homens relativamente ao crescimento e ao cuidar das crianças, a vida "doméstica" e o casamento que se torna uma prisão, são coisas que não confessam nem partilham.
A maturidade e o passar dos anos revelam um mundo mais nítido, menos bonito do que aquele que Lena tinha imaginado quando pela primeira vez saiu do seu bairro napolitano. Os males do bairro são os males de Nápoles, de Itália, da Europa e do mundo. A corrupção, a deslealdade, os jogos de poder, a violência, as violências, os vários interesses movem-se onde quer que haja humanos, independentemente da classe social ou da origem.
Nada é simples nem linear. Muito menos as suas vidas pessoais.

Almerinda Bento

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