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quinta-feira, 24 de março de 2016

A Escolha do Jorge: Sibéria

"Sibéria" de Olivier Rolin (n. 1947) é a mais recente proposta da coleção "Literatura de Viagens" integrada no catálogo apresentado pela Tinta da China. Para os seguidores das obras do consagrado escritor francês, o leitor há muito que se apercebeu de que a geografia ocupa um lugar de destaque na sua escrita, nas suas narrativas. No caso concreto de "Sibéria", é um livro que se apresenta como um misto de ensaio, memórias, mas também um livro que só tem a sua razão de ser graças à ponte que estabelece com a literatura russa ao revisitar «in loco» algumas das localidades e regiões da Sibéria.
Como definir a Sibéria? Parte integrante da ex-URSS ou atualmente da Federação Russa, a Sibéria tem o estigma de dor e sofrimento associado a milhões de mortos nos campos de trabalhos forçados (gulags) naquela imensa terra gelada à qual as deportações em massa chegavam na sequência do terror estalinista.
Mas a Sibéria além de tantas vezes ser apelidada de continente de gelo, Olivier Rolin avança com a palavra «solidão» como aquela que melhor assenta na imensidão de gelo aludindo ao sentido antigo e latino de «local deserto» («vastae solitudines») (p. 43)
Quantas vezes a análise e compreensão históricas sobrepõem certos acontecimentos em detrimento de outros como que hierarquizando-os em grau de importância ou quase esquecendo-os?
Neste sentido, Auschwitz, a máquina de guerra nazi, sobrepôs-se sempre aos gulags siberianos da era estalinista. Assassinatos em massa são sempre assassinatos em massa independentemente da geografia onde ocorrem. Se é importante que Auschwitz seja ensinado nas escolas para efeitos de memória futura, por que razão os gulags estalinistas não ocupam o mesmo grau de importância para efeitos de memória das gerações futuras? Muito provavelmente a própria geografia é a razão do esquecimento. E o frio intenso numa vasta região que tudo engole com o seu permanente vazio também.
Alexandr Soljenitsyne (Prémio Nobel de Literatura em 1970) foi quem alertou o mundo nos anos 70 do século passado para a existência e condições dos gulags. Outro nome menos conhecido, Varlam Chalamov, também já tinha alertado para o terror estalinista através da sua obra "Contos de Kolimá".
Olivier Rolin revisita igualmente outras obras de escritores russos, tais como, "Almas Mortas" de Nikolai Gógol, "Recordações da Casa dos Mortos" de Fiódor Dostoiévsky com, "A Ilha de Sacalina" de Anton Tchékhov, o único escritor russo que percorreu a Sibéria, e "Vida e Destino" de Vassily Grossman, entre outros.
Mas é impossível falar da Sibéria sem falar do transiberiano que percorre quase 10 000 km entre
Moscovo e Vladivostoque! A cidade situada num dos pontos extremos da Sibéria equipara-se à ideia
de se estar "no fim do mundo" (p. 54) Escreve Olivier Rolin sobre este aspecto: "Vladivostoque, desde que aprendi a ler um mapa, é um desses «nomes vertiginosos». Como Valparaíso ou Vancouver, ou Bornéu, talvez mais do que estes, porque o que o tornava extremamente longínquo não era apenas a distância, mas o interdito político. À direita do planisfério, nos confins da imensa Sibéria do ventre da qual a Ásia pende como as tetas da loba, era uma cidade fechada. No tempo em que a URSS cobria, segundo a fórmula consagrada, «um sexto das terras emersas», era inconcebível ir alguma vez a Vladivostoque. Estar ali era ao mesmo tempo estar «no fim do mundo», como se costuma dizer, e num tempo diferente daquele em que crescemos. Não necessariamente melhor, nem sempre melhor: diferente." (p. 54)
O último capítulo da obra "Magadan" é provavelmente aquele em que o leitor "desembarca" no inferno. Olivier Rolin viajou até este outro extremo da Sibéria graças à leitura de "Contos de Kolimá" de Varlam Chalamov (Relógio d’Água, 2006). Magadan é uma das regiões da Sibéria onde se situavam vários campos de trabalhos forçados sendo o de Kolimá o mais conhecido pelo facto de ser em si mesmo uma mina de ouro. De acordo com a historiadora Anne Applebaum na sua obra "Gulag", "foram deportados, de 1932 a 1957, entre um e três milhões de homens (números impossíveis de confirmar)." (p. 96)
"O desejo de esquecer, de apagar, é imenso, múltiplo, minucioso. Já não sabemos, cansámo-nos desta história terrível, sobreviver já é suficientemente difícil. É verdade que há um monumento aos deportados, de resto horrível, a «Máscara da Dor» mas foi erigido no cimo de uma colina onde não passa ninguém. «Os documentos do nosso passado foram reduzidos a nada, os postos de observação destruídos, os barracões arrasados da superfície da terra, o arame farpado enferrujado foi enrolado e transportado para longe, escreve Chalamov em "Os Contos de Kolimá". «Alguma vez existimos?» (…) «Que enigma, o coração humano. Amaldiçoo do fundo da alma o homem que imaginou edificar uma cidade nesta terra eternamente gelada, aquecendo-a com o sangue, o suor e as lágrimas de tantos inocentes. Mas ao mesmo tempo, é inegável, sinto uma espécie de estúpido orgulho… Como cresceu e se embelezou nos últimos sete anos, a nossa Magadan!»" (pp. 98-99)


Texto elaborado por Jorge Navarro

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