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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A Escolha do Jorge: O Cavaleiro Sueco

Uma das agradáveis surpresas do panorama editorial neste final de ano passa seguramente pela publicação do romance "O Cavaleiro Sueco" (1936) do escritor austríaco de origem judaica Leo Perutz (1884-1957).
Herdeiro de toda uma tradição literária da Europa Central, Leo Perutz apresenta-nos uma obra com o século XVIII como pano de fundo cujos personagens deambulam entre a ficção e a realidade graças a doses de fantasia distribuídas ao longo da narrativa.
É de certa forma a introdução da fantasia ao longo da obra que permite ao leitor a ideia de um certo sentido de justiça que é necessário impor numa época em que as guerras na Europa são uma constante, não esquecendo a clivagem existente entre o conhecimento científico que dificilmente impera em detrimento da superstição reinante entre os vários estratos da sociedade de então.
A Europa do Antigo Regime que parece ter estagnado em termos sociais ao longo de vários séculos, continua a ter como ponto assente a clivagem entre os privilegiados, uma minoria, e os subordinados, a maioria, que continua a viver em péssimas condições de vida dependendo dos primeiros para a sua sobrevivência.
É neste ambiente de guerras pela terra/território que ainda se combate na Europa do século XVIII, numa época anterior à revolução agrícola e industrial, por um lado, e às revoluções liberais, por outro, que se desenrola a obra "O Cavaleiro Sueco". A terra continuava a ser considerada a principal fonte de riqueza neste período, daí que o alargamento do território impunha-se aos governantes que com a colaboração de toda uma rede de nobres guerreiros com relações de vassalagem entre si, guerreavam entre impérios diferentes. Terra e glória serviam assim de mote para que as nações embarcassem nestes conflitos militares, por vezes duradouros, que em caso de morte viria a glória de Deus dado que havia a ideia generalizada de que os militares morreriam ao serviço de Deus, aludindo ainda para uma época em que Estado e Igreja se mantinham ligados.
Numa Europa cujas fronteiras em nada se assemelhavam com as da atualidade, pequenas regiões funcionavam como reinos em si mesmos que ora viam o seu território a alargar ou a diminuir fundindo-se tantas vezes noutros reinos. É nesta guerra que opõe o venturoso e jovem rei sueco Carlos XII ao czar russo através de uma contenda que se arrasta pela Europa Central durante vários anos que se desenrola toda a narrativa de "O Cavaleiro Sueco".
No decurso desta guerra há dois fugitivos que procuram refúgio num antigo moinho tratando-se, pois, dos personagens principais da obra, um nobre, desertor do exército sueco, e um ladrão perseguido pelas autoridades da região. Os dois indivíduos fazem um pacto com o fantasma do antigo moinho trocando de identidade entre si com vista a poderem salvar-se da situação até que o destino os volte novamente a unir. Assim, o ladrão assume-se como Cavaleiro Sueco ao passo que este perderá a sua identidade passando a realizar trabalhos forçados nas forjas do Bispo.
É esta troca de identidade entre os personagens que enriquece toda a obra, transformando-se mesmo na questão essencial ao ponto de o leitor se questionar a dada altura da narrativa se se verificou uma troca efectiva de identidade entre os personagens ou se tal pensamento não terá sido fruto da nossa imaginação.
Este jogo de "é-não-é" impõe-se gradualmente e na tentativa de tirar aos ricos para benefício próprio vai provocar algum confronto nos valores instituídos no que respeita à mentalidade cristã vigente. Uma vez que a Deus tudo pertence, não importa as mãos por que passam esses bens. "O ouro e a prata existentes nas casas dos padrecos é de Deus e de Deus continuam a ser mesmo que estejam nos nossos sacos." (p. 95)
Numa Europa em convulsão pelo gradual e inevitável desmoronamento do Antigo Regime, alguns dos padrões da Igreja são postos em causa da mesma forma que toda a sociedade se encontra à beira da rutura.
A tentativa de impor uma certa ideia de justiça social é outro dos temas de fundo desta obra ainda que de forma anárquica, numa perspetiva de dividir para reinar.
Mas este jogo de "é-não-é" ao ponto de cada um assumir no outro a sua identidade tratando-se de uma espécie de peça de teatro, vai acabar por colidir com os desígnios do destino na medida em que passado e presente acabarão por esbarrar entre si trazendo consequências inesperadas.
Este "é-não-é" vai acabar por surpreender o leitor na medida em que este concluirá que nunca poderia ter sido de outra forma, dado que o destino acabará por cumprir-se, inevitavelmente, mesmo perante um cenário trágico.
As questões que ficam por esclarecer, não propriamente para o leitor, são tidas por uma das personagens como "um segredo lúgrube, triste e imperscrutável" (p. 11) conforme consta no relatório preliminar (uma espécie de prefácio) de "O Cavaleiro Sueco".
É neste misto de realidade e ficção que Leo Perutz introduz de forma exímia o elemento relativo ao fantástico que nos arrebata os sentidos criando uma história do tipo aventura com algumas nuances de Robin dos Bosques, com muito humor, ironia e sentido de justiça, não esquecendo a ideia do saber esperar herdada da tradição judaica da qual o escritor é conhecedor.
As peças do puzzle encaixam-se por fim e o leitor fica completamente rendido a este livro que nos faz sonhar e ao mesmo tempo questionar as fronteiras da realidade e da ficção, além de que nos sentimos um pouco aventureiros como o espírito dos adolescentes face a esta ideia do jogo de papéis entre o "é-não-é" e o que "não poderia ter sido de outra forma" para que se cumprisse o destino, de certa forma um destino que deixou marcas para a posteridade. E na literatura também.

Excertos:
"No banco do forno estava sentado um homem que tinha uma cara que parecia cabedal espanhol, pálida, amarelada enrugada e cheia de pregas, e os olhos achavam-se cravados na sua cabeça como duas cascas de noz ocas. Trazia um gibão de fazenda vermelha e um largo chapéu de cocheiro e, em cima do chapéu, uma pena, e os canos das suas pesadas botas de montar chegavam-lhe até aos joelhos. E como estava ali sentado em silêncio com os seus dentes descobertos e as suas trombas tortas, o medo apoderou-se de ambos, e o ladrão percebeu que aquele era o moleiro morto que tinha vindo do Purgatório para ver como estavam as coisas no seu moinho. E, por detrás das costas de Tornefeld, benzeu-se discretamente, invocando ao mesmo tempo o sofrimento e as chagas e a água e o sangue de Jesus, pensando que deste modo o espectro desapareceria imediatamente no meio de muitos vapores de enxofre e fedor e voltaria para o Purgatório. Mas o homem do gibão vermelho conservava-se ali e não se mexia, estava ali sentado e fitava os outros dois com o olhar, como uma coruja que se prepara para desferir uma bicada.
- Como é que o senhor entrou aqui? – perguntou Tornefeld com os dentes a bater. – Não o vi chegar.
- Uma velhinha trouxe-me numa jarra – disse o homem com um riso surdo, e com uma voz tão abafada como quando se atira pazadas de terra para cima da terra. – E vós? O que procurais aqui? Comeis o meu pão e bebeis a minha cerveja, e parece que eu devo dizer: Que Deus vos abençoe!" (pp. 26-27)

"- Que horas da noite é que já são?
- Para ti, o tempo esgotou-se e a eternidade começa – respondeu a Árvore de Fogo em vez do cirurgião militar. – Dirige os teus olhos para Deus, capitão. Em terra não há clemência para ti, muito em breve a morte ter-te-á nas suas garras, mas Deus é misericordioso. Por isso, confessa-te e reconhece os teus pecados!
- A comer carne e ovos durante a Quaresma, foi assim que comecei a pecar, era eu ainda rapaz – lamentou-se o Íbis negro em voz baixa.
Mas não era isso que os dois homens, o cirurgião e o Árvore de Fogo, desejavam ouvir.
- Também furtaste, roubaste, exerceste misteres desonestos, acumulaste muitos despojos – recriminou-o o Árvore de Fogo e bateu com o punho no peito como se estivesse na igreja a pronunciar o ‘sanctus’. – Que Deus tenha o que é de Deus, capitão, pensa na tua bem-aventurança!
- Roubei, furtei – prosseguiu o Íbis negro com a sua confissão. – Vivi do suor e sangue dos pobres.
- E agora, confessa-nos onde escondeste o dinheiro dos pobres! – exclamou o Árvore de Fogo. – Confessa-o antes que se faça tarde, e arrepende-te e lamenta os teus pecados, senão estás perdido de corpo e alma e pertences ao diabo para toda a eternidade!
- Não, meu sacripanta, não te vou dar esse prazer – ofegou o Íbis negro. – Prefiro que o diabo me leve daqui a dizer-te a ti, meu patife…
Tinha-se erguido no seu leito e interrompera o seu discurso, tinha reparado no ladrão que se perfilava junto da porta. E no seu delírio tomou-o pelo diabo que o vinha buscar.
- Está aqui! Está aqui! – gritou. – Porque não protegeram melhor a porta e as janelas? O Gaspar negro está aqui e quer agarrar-me." (pp. 84-85)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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