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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A Escolha do Jorge: "Até Para o Ano em Jerusalém"

"Até para o ano em Jerusalém" é o mais recente romance de Maria da Conceição Caleiro publicado pela Companhia das Ilhas cuja narrativa se desenrola ao longo do eixo Gdansk/Danzig (Polónia), Lisboa, S. Miguel (Açores) e Rio de Janeiro (Brasil).
Maria da Conceição Caleiro apresenta-nos um livro pejado de emoções que percorre meio século de História contribuindo para o (re)encontro de várias gerações de uma mesma família. Certas contingências do ponto de vista político contribuem em certa medida para o desenrolar de alguns acontecimentos nas vidas das pessoas como forma de contornar as dificuldades vigentes. É precisamente o que acontece em "Até para o ano em Jerusalém" em que algo que não estava propriamente previsto altera por completo a vida de algumas pessoas e até de toda uma família.
À medida que lemos este livro, percebemos a forma como a autora domina as várias formas da língua portuguesa, o português falado no Brasil em oposição ao português falado em Portugal, não esquecendo a vertente regional, no caso específico da ilha de S. Miguel, em que a autora emprega corretamente todo um conjunto de termos e expressões típicas do falar dos micaelenses e que só alguém que conhece tão bem a ilha o consegue fazer de forma exímia como assim acontece ao longo da obra.
Com esta amálgama ou profusão de formas de falar português, concluímos o quão plástica e rica é a língua portuguesa. Este é sem dúvida um livro que presta um bom serviço à língua e cultura portuguesas mostrando igualmente a versatilidade da escritora no domínio da língua materna demonstrando em tantos momentos a capacidade em brincar com as palavras como se de um jogo linguístico se tratasse.
A autora não poupa o leitor na abordagem de alguns assuntos tendencialmente mais controversos, contribuindo para derrubar eventuais preconceitos graças à forma crua e direta sem qualquer pudor, encarando os temas de frente, com objetividade.
"Até para o ano em Jerusalém" conta a história de Vicente, um português, professor universitário no Rio de Janeiro, em passagem por Lisboa para finalizar o seu livro, apaixona-se por Maria Luís, a artista plástica, seropositiva, que assina com o estranho nome de Kowalevsky, nome que encontrou em antigas cartas que tinha em casa.
Será possível Maria Luís ultrapassar a condenação que sente face à negação do amor perante pesada herança herdada fruto do relacionamento anterior? Ultrapassará Vicente os preconceitos instalados na sociedade vencendo o amor entre estes dois seres humanos? Há uma aproximação efectiva, porém a prazo dado que Vicente terá de regressar ao Brasil, ao seu trabalho e… ao seu relacionamento que já se encontrava em banho-maria antes da sua viagem para Lisboa.
Já no Brasil, Vicente ouve o nome Kowalevsky ser pronunciado entre os seus colegas e a partir daí a narrativa evolui numa espiral sucessiva de acontecimentos, surpresas e que vidas vividas cujas histórias se cruzam e entrecruzam com alguns dos principais acontecimentos da História da segunda metade do século XX.
Vicente conhece Iossef e Ioshua, avô e tio de David vindos de Danzig (ou Gdansk), na Polónia, (cidade-enclave que gozava de estatuto especial desde o final do século XIX) e que, em 1939, assistiram ao desmantelamento e destruição da grande sinagoga da cidade e encaminhamento dos judeus para o gueto de Gombin e posteriormente para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau na sequência da das medidas tomadas por Hitler com vista a alcançar a "solução final".
Sobrevivendo à fome e às doenças, os irmãos Iossef e Ioshua conseguiram sobreviver ao campo de concentração manifestando grande desejo de viajar para o Brasil onde tinham à data alguns familiares e amigos que os receberiam.
É neste ponto de recuperação e de reencontro com a sua própria humanidade que Iossef parte da Inglaterra para S. Miguel (Açores) como forma de trampolim para chegar ao Brasil. Na ilha de S. Miguel acabará por se ficar algum tempo na sequência de se ter apaixonado por uma jovem local cujo amor o levou quase à loucura.
Vicente a dada altura, já tão envolvido e em permanente contacto com Maria Luís, cada um de um dos lados do Atlântico, dirá "Se não fiquei com Maria Luís, fiz tudo a partir de um acaso, para lhe devolver um passado de que ela não fazia a mínima ideia." (p. 196)
É esta questão do acaso que constitui todo o motor da narrativa de "Até para o ano em Jerusalém" reconstituindo-se um dos períodos mais negros da História do século passado, mas também o reconhecimento das nossas raízes e a necessidade de escavarmos o passado na tentativa de nos encontrarmos a nós próprios, trazendo à tona pessoas de carne e osso que também se amaram e que graças a elas chegámos nós também.
Maria Luís viaja com amigos e familiares para a ilha de S. Miguel na tentativa de reunir as várias peças do puzzle, na ânsia de reconstituição do passado familiar contribuindo igualmente para a reunião da família dos dois lados do Atlântico.
David Kowalevsky e Maria Luís conhecem-se entretanto passando a nutrir sentimentos que a certo ponto poderá ser encarado como algo de incestuoso. Mas conseguirá esta ligação ou união de sangue, entre o sangue contaminado de Maria Luís que herdou também sangue judeu perseguido no passado dar frutos com a relação com David? Maria Luís e David apaixonam-se e voltam a reencontrar-se em Jerusalém. Propositadamente em Jerusalém. Daí para a frente, só o tempo o dirá… Não é por acaso que a última exposição de Maria Luís é alusiva ao tema "Sobre-viventes – Formas de Resistência e Transgressão" (p. 192)
Maria da Conceição Caleiro traz-nos desta forma uma história original, muito ritmada, levantando várias questões que se devem manter vivas na consciência de todos nós e, no fundo, da própria História.

Excertos:
"Danzig, metrópole livre. Enclave. Enclave e livre, paradoxo mas era assim mesmo. Cidade soberba, cônscia da sua posição flexível, aberta, uma clareira, acessível por mar, mar do norte bem batido, às chegas e partidas permanentes, free port, manejável por uns e outros, extorquida indevidamente aos alemães. (…) Uma judiaria especial, judeus alemães, poloneses, russos, ambiguidade profícua, ora sob a lei germânica, ora eslava com ocasionais acintes prussianos, mas seria uma comunidades especial, cidade livre, paredes meias com a Alemanha, os que eram alemães, judeus alemães controlavam, traficavam benesses, mesmo depois da subida do Grande Cão ao poder, em 33. Como se nada parecesse vir a ser.
Cidade com consciência da sua posição dual como outport da cultura alemã dos limites da Europa eslava e com um mercado livre para os produtos da Polónia interior." (p. 90)

"E ele passou por S. Miguel, e por lá ficou agitado à espera, algum tempo abrigado ou foragido. Foi ajudado por um outro, judeu sefardita, homem rico, negociante do alto comércio que tinha ligações em Inglaterra. Bonds de Guerra, e não só. Barcos, marinha mercante. Por isso lá estaria, por isso transpôs o chamado corredor de Danzig onde se amontoavam judeus e mais judeus de partida, famílias inteiras de partida, ou partidas, que se apinhavam à espera. Foi-se de lá, para trás os seus. Mais tarde, seria fretado por gente de S. Miguel um navio que rumaria até ao sul do Brasil, depois logo se via, carregado de ilhéus migrantes, para onde mais açorianos já se tinham lançado, era a vida. Era a Pátria, partir. Ele foi junto. Depois assentou finalmente no Rio. Mas entre a chegada à ilha e a partida para o Brasil, algo se passou. Algo o reteve, algo o fez balançar. Presságios? Algo o altercou. Qualquer coisa o teria desorientado e conduzido ao rés-vés da loucura. Endoidou. Esgotaram-se-lhe os nervos com o que viu? O quê?" (p. 168)

"- Mas não era judeu? – perguntei.
- Era, era… e o doutor também. E quem o trouxe também.
- Mas o doutor ficou por cá e ele foi-se embora.
- E havia mais, ainda há. Têm para ali a igreja deles, os senhores já lá foram? Ali na rua do Brum. Ninguém diria, passa-se pela frente e ninguém diria. É como os escritórios dos outros, ricos e recatados. Tem de ser.
- E a rapariga…
- O quê da rapariga?
- Foi-se consolando…
Percebeu que tinha falado demais.
- No fim deu-lhe para endoudecer.
- A quem?
- A ele. Ela iria mais tarde para Lisboa. Teve lá a criança e por lá ficou, casou-se, parece.
- Não se casou nada. Isso é o que dizem.
- A história foi muito falada, faziam-se apostas, tomavam partido." (p. 173)

"O que é isto? – estranhou Maria Luís. Íamos ter um abalo. Ao contrário de alamedas frondosas e de fontes, regatos de água imaculada, esperava-nos um ermo em pó de areia vulcânica fendido por ravinas fundas e crateras. Gargantas de Inferno a céu aberto. Impressionava de facto. Devíamos ter esperado o dia. Mas foi a noite que o fez pressentir. Bocas que largam espirais de vapor, sufocante. Pareciam os respiráculos de inúmeras baleias a expelir aquilo que nem sei a não sei quantos metros. Vapor que era exalado pelas águas fervilhando nas caldeiras. Até o chão estava quente, até ele parecia borbulhar, querer movimentar-se sozinho. Deslumbrante e ameaçador. O cenário reduzia-nos." (pp. 180-181)

Texto da autoria de Jorge Navarro

2 comentários:

  1. a autora adorou a crítica…desmedida. corou, parece

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  2. Só agora vi o comentário... Sinto uma pena imensa que o livro não tenha uma maior divulgação. Forma, conteúdo, escrita ritmada, são alguns dos aspectos valorizados neste livro que foi dos melhores que li ultimamente.

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