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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A Escolha do Jorge: O Sol Dos Mortos

"O Sol dos Mortos" é a primeira obra do russo Ivan Chmeliov (1873-1950) a ser publicada na língua portuguesa através da editora Relógio d’Água.
Ivan Chmeliov, estabelece-se na Crimeia em 1918 numa época em que se sentia de modo agudizado as tensões entre Burgueses (Brancos) e Bolcheviques (Vermelhos), estes últimos que perseguiram as iniciativas contra-revolucionarias do Exército Branco instaurando o poder soviético naquela região do Mar Negro.
Perseguições, execuções sumárias, expropriação de bens e terras, confiscação de tudo o que era considerado excedente (alimentos e sementes, por exemplo) por aqueles que tomavam o poder à força foram algumas das razões que levaram à redução da população na Crimeia em nome da "grande experiência" como tantas vezes é referida no decurso da obra, isto é, a consolidação do socialismo.
Além das alterações políticas e sociais que estavam em curso, junta-se igualmente o fenómeno meteorológico excecional com calor excessivo no verão de 1821 e chuvas torrenciais e muito frio no inverno e primavera de 1822 contribuindo para uma redução significativa da produção agrícola, gerando um período de fome sem precedentes na região que culminou em situações de canibalismo em casos extremos conforme ditam os registos históricos de então.
Escrito em 1923 quando Ivan Chmeliov já se encontrava no exílio em Paris, "O Sol dos Mortos" é um livro cru tanto quanto violento graças às imagens que provoca no leitor. O autor produziu uma narrativa extremamente rica tanto quanto realista, de um realismo quase extremo, diria, ao ponto de chegar a magoar face às perseguições, execuções, humilhações, encarceramentos e tudo o mais que advém como consequência de toda uma população ser esmagada a todos os níveis.
Ao longo da leitura, foram várias as vezes que me recordei do conto "O Capote" (1842) de Nikolai Gógol (1809-1852), um dos contos que mistura realismo com fantasia com o objetivo de alcançar algum sentido de justiça após cometida a atrocidade ao personagem principal. Não diria que esse personagem seja um herói dado que ao longo de toda a história é ele próprio um sofredor dada a sua realidade e condição, sofrendo ainda mais devido à austeridade severa que impõe a si próprio no nobre intuito de comprar um capote feito por medida num atelier de um alfaiate de S. Petersburgo.
Se todo o ambiente descrito no conto "O Capote" deixa o leitor condoído face à miséria quase extrema do personagem principal, em "O Sol dos Mortos" a grande maioria dos personagens vive ainda em piores condições, passando mesmo muita fome. Como forma de sobrevivência, as artimanhas em roubar os vizinhos que ainda possuem galinhas, carneiros e vacas sobrepõe-se à vergonha de pedir esmola na pequena comunidade onde se desenrola a narrativa. Outros há que a fraqueza arrasta para a morte vindo os corpos a serem encontrados dias mais tarde.
Lemos já bastante sobre crises económicas e sociais ao longo da História que têm a sua origem em alterações climáticas ou em anos demasiado chuvosos, frios e/ou secos que, em épocas mais recuadas, antes da Revolução Agrícola e Revolução Industrial, rapidamente culminavam em períodos de fome, aumentando a mortalidade. Em todo o caso, no início do século XX, a agricultura e a indústria mantinham-se atrasadas na Rússia em comparação com a Europa Ocidental, daí que um ano muito chuvoso e/ou muito seco tem um impacto direto na mortalidade. Apenas a título de registo, na Crimeia a população diminuiu 15% entre 1921 e 1923.
A par das questões acima indicadas, também a gradual consolidação do regime soviético na Crimeia contribuiu para impor à população uma austeridade sem precedentes, ao ponto de a população ser espoliada de todos os seus pertences além daquilo que os dirigentes e outros fiéis seguidores do regime entendiam como estritamente necessário para viver, que era pouco mais que nada e tudo em nome da "grande experiência" em curso, a consolidação do socialismo.
"O Sol dos Mortos" retrata em certa medida aquilo que mais tarde se veio a concretizar em toda a URSS tendo como base o socialismo que não olhou a meios para atingir a sua finalidade, nem que para isso fosse preciso eliminar tantos opositores quantos os que se tivesse conhecimento ou suspeita, sobretudo no período em que Estaline esteve à frente dos desígnios da URSS até 1953.
Ivan Chmeliov dá voz aos oprimidos, a todos aqueles que chegaram ao fim da linha, da vida, tantas vezes em pele e osso, ao ponto de retratar com bastante rigor a miséria por que passava a população, mas também os animais, a natureza envolvente. Tudo e todos estão a morrer ante "a grande experiência" que aos poucos se afirma, uma máquina que a todos engole, sem clemência. O sol que tantas vezes é referido no curso da narrativa, ludibria, engana, esconde-se. Aqui é correto afirmar que quando o sol nasce não é para todos. Aqui o sol chega a ser tão negro quanto a noite invernal, pois, aos poucos, a todos condenará, invariavelmente, mais tarde ou mais cedo.
Citando Ivan Chmeliov "Prestai atenção (…), senhores lá de fora, com o vosso bem-estar, as vossas sábias filosofias e o interesse científico pela grande experiência com as cobaias humanas: isto aqui não é só a nossa desgraça… um belo dia pode acontecer que…" (introdução, p. 9)

Excertos:
"- Já ouviu falar do caixão original que lhe construí? – sorri o doutor, estreitando os olhos. – Lembra-se de um móvel triangular, de canto, que tínhamos na sala de jantar, pesado, de nogueira? Guardávamos nele a compota de damascos… dos nossos próprios damascos. Ah, que compota! (…) Pois, o móvel tinha uma portada de vidro que se fechava à chave… Francamente, nada pior do que um caixão! Tirei o vidro, tapei-o com tábuas. Porque tem de ser obrigatoriamente hexaédrico?! O triedro é mais simples e é simbólico: três em um! Sob os lados prendi cavaquinhos, para segurar, ficou perfeitamente cómodo! Comprar um caixão é impossível para mim, ora, alugado… Agora alugam os caixões, até ao cemitério! Lá, esvaziam-nos… Não: Natália Semiónovna era perfeitamente asseada, e como se trata de uma espécie de leito eterno… não ia depois ocupar o lugar de algum comedor de gatos com doenças venéreas, ou pior! Já é diferente ser coisa nossa, ainda por cima com cheiro à nossa compota preferida!..." (pp. 61-62)

"- Qual é a sua ocupação agora, doutor?...
- Estou a pensar. Penso: tanto material! E que contributo para a história… do socialismo! Coisa estranha: os teóricos, os fabricantes de palavreado não fizeram nem um preguinho para a vida, não limparam nem uma lágrima à humanidade, embora na boca não tenham outra preocupação que não seja a felicidade de toda a humanidade. Afinal, que seita sanguinária! Repare também: isto está apenas no início, estão apenas a ganhar gosto! Com o seu deus terreno! O principal foi que acalmaram os homens: se provêm do macaco, então toma lá o mandato! Qualquer piolho tem direito a agir destemidamente e sem restrições. Ei-la, a Grande Ressurreição… os piolhos! Olhe só que parábola! Parábola vitoriosa!" (pp. 77-78)

"- Já podemos criar uma nova filosofia da realidade irreal! Uma nova religião da «ausência da vida de lixeira»… quando os pesadelos se transformam em realidade e nos habituamos a eles de tal modo que o passado nos parece um sonho. Não, é inexprimível!" (p. 80)

"Na subida, vejo um velho alto, de capucho, com o xaile pelos ombros a agasalhá-lo, com uma cesta e um bordão comprido.
- Ivan Mikháilitch?!
- Meu querido!... Meu caro... - diz lastimosamente, e lança-me os seus olhos moribundos, que já choraram todas as lágrimas. - Ando a apanhar migalhas... Na padaria tártara estão a cortar pão... as migalhas caem... apanhei um punhado, vou comê-las com água fervida... Seria bom aquecer-me com chazinho... Aqueço a casa com a cómoda, a última... Ainda tenho as gavetas, com os materiais sobre Lomonóssov, com fichas de apontamentos... quatro gavetas muito boas! Não as posso... são materiais da histórias da língua... Estou a acabar o último livro... de acordo com o plano... todos os dias trabalho desde o amanhecer, quatro horas. Estou a enfraquecer... Vou à cozinha soviética, as cozinheiras praguejam... às vezes dão-me sopa, mas não há pãp... Os professores prometeram farinha... mas eles próprios não a têm..." (p. 200)


Texto da autoria de Jorge Navarro

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