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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A Escolha do Jorge: "De Re Rvstica"

O primeiro contacto que tive com a obra de Helder Gomes Cancela (n. 1967) foi no ano passado com a edição do seu mais recente romance "Impunidade" (Relógio d’Água) que constituiu uma das minhas melhores leituras de 2014. Passado um ano, ainda retenho com bastante nitidez os poucos personagens do livro, como o homem, a mulher, as duas crianças, a empregada e o seu filho, num cenário que tem como pano de fundo a cidade de Sevilha entre algumas deambulações incertas por Portugal.
"Impunidade" foi de tal forma marcante que ainda hoje ao fazer frequentes alusões ao livro, indico-o sempre como um livro sujo, perturbador, tem tudo quanto é mau que o ser humano pode alguma vez cometer sem dó nem piedade, um livro mau de tão bom que é porque dificilmente o esquecemos, de tão tenebroso que é. Ao escrever estas parcas palavras, sobretudo os adjetivos vêm-me à mente alguns dos acontecimentos que envolveram as crianças daquela obra e sinto um arrepio, nervoso talvez, pelo facto de um livro ser capaz de despertar sensações e sentimentos estranhos, maus e obscuros que nos levam a olhar para dentro de nós próprios e refletir sobre a questão ética enquanto humanos que somos.
Mas deixando a "Impunidade" de lado, e sem fugir propriamente dela, a leitura que esta semana proponho é "De Re Rustica" (Edições Afrontamento), o romance de Helder Gomes Cancela, publicado em 2011.
Embarcamos nesta obra com a mesma sensação de estranheza face aos ambientes descritos e dos próprios personagens que se reduzem a quatro essencialmente, mas ao mesmo tempo com uma perceção de ambiente já familiar graças à leitura de "Impunidade" ainda que desenvolva no leitor a ideia de que algo terrível está na iminência de acontecer.
Aqui o cenário como pano de fundo durante uma parte significativa da obra corresponde ao eixo entre Elvas e Badajoz, entre outras localidades da Extremadura Espanhola.
A ideia de viagem sem destino é a forma de vida intrigante do personagem principal que à semelhança dos demais intervenientes da obra nunca lhes conheceremos os nomes (o que também acontece, mais tarde, em "Impunidade"). De hotel em hotel e de localidade em localidade, em percursos diários médios na ordem dos duzentos quilómetros e com estadias breves em cada um dos locais, o personagem principal parece andar em movimentos circulares, repetindo alguns dos locais, evitando o contacto com terceiros em cada uma das unidades hoteleiras por onde vai passando.
Passa a haver um envolvimento com uma mulher que se transforma num hábito frequente, mas mais numa ideia em que cada um cede ao outro aquilo que tem em demasia sem que passe propriamente a ideia de se tratar de prostituição na verdadeira aceção da palavra, numa lógica, talvez, de cada um dá o que tem. "(…) cada um cedia ao outro parte daquilo que lhe sobrava, carne ou dinheiro. sem outro compromisso nem outro vínculo. apesar disso, o espaço entre a posse e a pertença era demasiado estreito para que uma e outra se pudessem distinguir." (p. 74)
Ao fim de um período de cedência de "carne-dinheiro", este não-casal desloca-se rumo a Portugal, à terra da qual o homem é o principal proprietário. É nesta mudança de cenário, agora ainda mais rural, que o leitor conhece os restantes dois personagens, um homem e uma mulher, outro não-casal, mas cuja relação tensa é ainda mais complexa do que se poderá imaginar.
Não entrando propriamente em detalhes, é na terra que os vários intervenientes vão aguçar as unhas uns aos outros mediante a necessidade em afirmar o direito de propriedade, quer se trate da terra ou da carne humana. É neste contexto, não menos complexo, que o leitor vai aos poucos suspeitando e/ou confirmando suposições face à estranha e ainda mais complexa relação entre os vários personagens, tornando-se a narrativa (quase) asfixiante de tão negra e tenebrosa face aos atos de manifesta malvadez em que o homem chega ao ponto de expulsar toda a sua raiva, destilando todo o ódio e loucura que só pode culminar em tragédia.
Para quem leu "Impunidade" certamente questiona-se sobre a possibilidade de um mesmo escritor conseguir ou não escrever algo tão maléfico e tenebroso e ao mergulharmos em "De Re Rustica" sabemos que um mal idêntico está à espreita a qualquer momento e quando tal acontece sentimo-nos perturbados, transtornados com os últimos acontecimentos. Assim, será difícil determinar qual das obras é mais ou menos aconselhável, qual delas é melhor. Em boa verdade, essas questões nem sequer se colocam na medida em que quem quer que embarque nestas obras de Helder Gomes Cancela não sairá ileso de tanta malvadez perpetrada pelo homem quando se entrega a atos ignominiosos sem dó nem piedade.
Talvez as viagens circulares na primeira parte de "De Re Rustica" constituam a antecâmara, o constante adiamento do destino que mais tarde ou mais cedo, o personagem principal, saberá que se irá cumprir. Tal como nas tragédias gregas.

Excertos:
"dirigi-me para o estábulo, desamarrei o cabo, peguei no machado e despi o casaco. esquartejei a vaca a golpes de machado. o ferro enferrujado caía sobre a carcaça com um som surdo de madeira oca. a lâmina resvalava no couro sem penetrar. sentia-se a carne a ceder no interior, mas a pele resistia. ao fim de alguns minutos, aprendi a explorar as partes moles, as dobras dos tecidos, as juntas das articulações, primeiro o couro, ao comprido com as articulações, depois os músculos, os tendões, por fim, os ossos, no interstício das rótulas. no chão, num charco de aguadilha e restos de tecidos apodrecidos, o remover da carne expunha larvas de cor translúcida que se revolviam. eu tinha os pés empastados. o couro dos sapatos escorregava no empedrado. o impacto do machado fazia saltar pedaços de carne e bolsas de líquido que me atingiam na roupa e no rosto. limpava os olhos e continuava. ao fim de meia hora, tinha as mãos em sangue. já não as sentia. as folhas rebentavam, deixando exposta a epiderme e depois a carne. o sangue misturava-se com o líquido salobro que se soltava da vaca. era um trabalho mecânico. decepava as partes, atava-as ao cabo e arrastava-as até ao meio do pátio. juntava-as num monte. a cada percurso, o carro ia ficando mais sujo. a chave, o volante, a alavanca das mudanças, os estofos do banco do condutor. húmido e moldável, o couro dos estofos, e com ele o carro, tornava-se parte daquela amálgama de couro, carne e ossos em putrefacção. da mesma natureza. demorei mais de uma hora. um único e prolongado movimento da expulsão, o vai-e-vem do machado, o ir e vir do carro, o patinhar na lama de carne putrefacta.
por fim, à porta do estábulo já só restava um amontoado de carne solta, pedaços de ossos e baba coalhada. peguei numa pá e num balde e atirei tudo para o meio do monte. dirigi-me depois para o interior do estábulo. ao fundo, metade do espaço estava ocupado por fardos de palha empilhados até ao tecto. era uma palha velha e bolorenta, apodrecida nos lugares onde o zinco deixava entrar a chuva. arrastei os fardos até à porta, depois até ao monte de carne. acumulei a palha em volta. a maioria dos fardos desfazia-se antes de chegar ao pátio. recolhia a palha aos braçados e atirava-a para cima do monte. continuei até que toda a carne estivesse por uma camada de palha.
o céu tinha ficado completamente nublado. mais abaixo, entre o chão e as nuvens, corria um vento forte seco, com rajadas entrecortadas. estacionei o carro junto das escadas e subi até à cozinha, à procura de fósforos. desci, peguei no recipiente e espalhei a gasolina. recuei. humedeci a lâmina do machado com o resto da gasolina, acendi um fósforo e aproximei-o. por um momento, o ferro pareceu arder. peguei no machado pelo cabo e atirei-o para o meio do monte. a gasolina explodiu. no segundo seguinte, a palha ardia com a intensidade de um incêndio florestal. protegi os olhos e desviei o rosto, atingido pelo calor. suspendi a respiração durante uns segundos, sentindo à minha volta o ar rarefeito. inspirei, expirei. sentia a boca seca e a língua dura. o cheiro espalhou-se pelo pátio. o fumo negro elevava-se alguns metros até ser disperso pelo vento. as rajadas revolviam as chamas. avançavam, recuavam, parecendo ultrapassar os limites da fogueira." (pp. 194-195)

"aquilo já não me dizia respeito. por duas ou três vezes acordei decidido a sair dali. pressionei a rapariga. pediu-me que esperasse mais dois dias. e depois mais dois. não insisti, começava a parecer-me prescindível. eu precisava apenas de identificar aquilo de que poderia prescindir, e de o fazer agora já quase sem critério, como se isso correspondesse a enumerar uma a uma as coisas do mundo, enumerar o mundo. não era muito, nem era pouco. era tudo. mesmo quando tudo era só a miséria de tentar sobreviver. e o mais difícil, depois, não é saber imutável aquilo que aconteceu, mas, acontecido, saber que o objecto, móbil ou pretexto, não merecia o acto, que nunca merecera e que a sua presença ou a sua ausência não era suficiente para justificar aquilo que, apesar disso, ocupou esse espaço, esgotou um momento que não se repete, porque o corpo ou a alma não só já não suporta repetir-se, como o espaço ocupado permanece ocupado, ainda que apenas por um vazio do mesmo tamanho." (p. 206)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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