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quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Escolha do Jorge: Contos Húngaros

Adquiri há aproximadamente um ano o livro "Contos Húngaros" (Editorial Gleba) numa livraria de Lisboa que a par das novidades editoriais, apresenta também uma oferta considerável de livros antigos e esquecidos constituindo um manancial para todos os gostos. Livros como este (não consegui localizar a data da edição, mas que deduzo ter ocorrido na década de 50), não voltaram a ser editados posteriormente e tendo em consideração a data da sua edição, não deixa de ser uma aposta não só interessante, mas também ousada atendendo ao facto de o regime salazarista estar no seu auge, não esquecendo que a Hungria à data da edição deste livro integrava a "cortina de ferro" sob a alçada da então URSS.
Questões políticas à parte, esta compilação "Contos Húngaros" reúne quinze autores contemporâneos húngaros que de acordo com o prefácio constituem apenas alguns de entre tantos nomes que acabaram por ficar de fora deste exemplar. Era tal o número considerável de escritores de renome que a Hungria tinha nas primeiras décadas do século XX que foi editado um 2º volume de "Contos Húngaros" nesta mesma colecção.
Se por um lado, a vida e obra destes quinze escritores é para nós portugueses desconhecida, após a leitura da maioria dos contos o leitor fica com um desejo imenso de conhecer outras obras destes mesmos autores graças a contos cujas narrativas nos apaixonam, comovem e inquietam.
Tendo lido este livro há algumas semanas, trata-se de facto de um livro que não me sai da cabeça quer pelas histórias em si, pelos seus personagens, pela intensidade das cenas ou simplesmente por Budapeste e o Danúbio constituírem o pano de fundo de uma parte considerável dos contos, ocupando um lugar de destaque nas narrativas a par dos vários personagens. No seu conjunto, estes "Contos Húngaros" constituem de forma decisiva um dos melhores livros que li ao longo deste ano.
De um modo geral, os vários autores que integram a presente compilação apresentam uma sociedade cosmopolita que vive intensamente a cidade de Budapeste. As diferenças sociais são notórias entre a burguesia e as classes mais baixas, mas, em ambos os casos, todos precisam e vivem essa mesma cidade à exceção dos vagabundos que naturalmente se afastam para lugares escondidos tanto da cidade como da sociedade como que não havendo espaço para eles nesse todo que se confunde de alguma forma.
Estes autores apresentam as mulheres que lutam pela sua emancipação, tanto mulheres que tomam decisões sérias que noutros contextos e até sociedades como a portuguesa estariam a cargo dos homens, e também são apresentadas mulheres independentes que na sua forma de estar e de vestir constituem aspetos decisivos para a conquista de direitos que foram alcançados ao longo do século passado. Em todo o caso, o protótipo de mulher apresentada na generalidade destes contos é, sem dúvida, uma mulher moderna que luta pela sua afirmação na sociedade em que está inserida.
A intensidade psicológica da narrativa é outro dos aspetos trazidos a conto por alguns dos autores. Contos que para quem tem lido as obras do húngaro Sándor Márai (autor de "As Velas Ardem Até Ao Fim", entre outras obras) compreende perfeitamente a ideia de o leitor estar enredado numa teia psicológica fechada sem saber como sair ileso (e raramente sai), é algo que este mesmo escritor herdou de outros autores seus contemporâneos. A angústia e/ou desespero levada ao extremo culminando em tragédia com ou sem suicídio constitui um dos momentos altos, por vezes inesperados, de alguns dos contos desta coletânea, como em "Solidão" de A. Bonyi, "A Última Lição" de Aurél Kárpáti e "Elvira" de Lajos Zilahy.
A vida quotidiana é outro dos pontos a ter em consideração neste conjunto de contos na medida em que as cenas da vida real são descritas com bastante realismo, tanto aquelas passadas no espaço íntimo da habitação, como as cenas passadas nas ruas, nos cafés, restaurantes, banhos termais, entre outros, descrevendo, desta forma, o modo de vida em Budapeste no início do século XX.
O Danúbio, símbolo de civilização e referência para tantas cidades europeias, assume também nestes contos um papel decisivo na relação da população com Budapeste, unificando igualmente Buda e Peste, em cada uma das margens do rio e da cidade no seu todo.
O hino ao Danúbio atinge o seu ponto alto no conto "Um Homem Completamente Feliz" de Deszö Kosztolanyi (autor de "A Cotovia") em que Barthe Weigl, o herói da história, é um indivíduo da classe média e que sem grandes aspirações na vida, luta por um único sonho que é comprar um barco a motor para passar o seu tempo livre no Danúbio e, acima de tudo, uma forma de vida.
É precisamente com o sonho de Barthe Weigl que termino este breve texto partilhando aqui alguns excertos deste que é um dos contos mais belos da compilação "Contos Húngaros" contagiando-nos com o otimismo e determinação do personagem principal.
(Com o excerto abaixo podemos comparar a forma como se escreve o português nos dias de hoje com a forma como se escrevia há seguramente 60 anos.)
"A partir daquela data, êle é efectivamente feliz. Tem um aspecto mais sereno, mais franco e mais afável. Ganhou amor próprio e tornou-se mais razoável. Contìnuamente emana dêle uma estranha e sobrenatural alegria. Realizou o que pretendia, apesar de todas as dificuldades e a despeito de todas as intrigas. Não tem nada de seu, mas dispõe do seu barco a motor, um esplêndido barco a motor, dois cilindros, seis cavalos. Todos os anos, no verão, passa no Danúbio o seu mês de férias. Sulca as ondas, acompanha as regatas, ultrapassa o vapor de Viena, vôa sobre a crista branca de espuma das ondas, muito perfilado, sozinho, porque tem mêdo de que aconteça qualquer coisa ao seu gasolina. Repugna-lhe ter a bordo uma pessoa estranha, incluindo até o seu amigo, que lhe é dedicado de corpo e alma.
Êle conduz o barco a motor. Como eu era estúpido quando lhe preguntava onde o conduziria! Êle o conduz, simplesmente. Condu-lo no infinito dos seus sonhos. Até nos princípios do inverno, por entre a bruma, sob a chuva, se entrega a passeios no Danúbio, nas tardes de sábado e todo o dia de domingo. E, quando chega a primavera, ao alvorecer, à noite, antes e depois das suas horas de escritório, êle percorre o rio.
O homem que está sentado neste barco a motor é um empregado modesto, insignificante, mas feliz, muito feliz. (…)
No inverno, quando o Danúbio gela até à profundidade de um palmo e a camada de gêlo desaparece sob três pés de neve; quando as trevas ocultam os pilares da ponte, de tal maneira que não chegam a ver as águas do rio, diz que isso não durará sempre. Em Março tudo aquilo acabará. Sempre, e esteja onde estiver, só pensa numa coisa: que tem um barco a motor.
Há seis anos que o observo, que admiro esta felicidade que, em vez de diminuir e se atenuar, não faz senão crescer; esta felicidade que o próprio cumprimento dos seus deveres não matou. E é por isso que me atrevi a formular a opinião de que Barthe Weigl é um homem feliz, talvez o mais feliz do mundo.
Para ser feliz não é preciso muito: uma idéia fixa e um barco a motor." (pp. 141-142)

Texto elaborado por Jorge Navarro

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