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quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Escolha do Jorge: O Meteorologista

Olivier Rolin (n. 1947) apresenta-nos no seu mais recente livro "O Meteorologista" que poderá ser lido num misto de romance histórico e ensaio. Partindo de dados verídicos sobre Alexei Feodossevitch Vangengheim (1881-1937), o escritor francês começa por relatar-nos como surgiu o desejo de investigar sobre a vida e destino daquele que foi o primeiro director do Serviço Hidrometeorológico da URSS, em 1929, passando pela sua detenção, em 1934, altura em que é deportado para um Gulag numa das ilhas do arquipélago Solovki, no Mar Branco, até ao seu desaparecimento, em 1937.
É precisamente em 2010 na sequência da visita de Olivier Rolin ao arquipélago Solovki que o escritor trava conhecimento com Antonina Sotchina que lhe deu a conhecer um álbum com a reprodução das cartas que o meteorologista Alexei Feodossevitch enviava à sua filha Eleonora juntamente com desenhos de grande qualidade (que vêm no final deste livro) feitos durante o tempo em que permaneceu no gulag. "Havia herbários, desenhos feitos com traço firme, ingénuo e claro, coloridos com lápis ou aguarela. Via-se uma aurora boreal, gelo marinho, uma raposa preta, uma galinha, uma melancia, um samovar, um avião, barcos, um gato, uma mosca, uma vela, pássaros… Através das plantas, o pai ensinava à filha os rudimentos da aritmética e da geometria. Os lóbulos de uma folha figuravam os números elementares, a sua forma, a simetria e a dissimetria, uma pinha ilustrava a espiral." (p. 16)
É desta forma que os dados estão lançados para o nascimento de um livro que embarca no encalço de um homem que foi vítima da loucura estalinista à semelhança de vários milhões de russos que sucumbiram ante o terror que se instalou na URSS durante a década de 30 do século passado.
Deste modo, "O Meteorologista" não só tenta fazer justiça face a um período negro da História da ex-URSS que vitimou milhões de concidadãos, repondo a verdade, neste caso em concreto, sobre a inocência de Alexei Feodossevitch que se vem a comprovar, sendo igualmente uma forma de, uma vez mais, compreendermos que os assassinatos em massa na URSS durante o período estalinista tiveram, afinal de contas, um peso semelhante ao número de vítimas de judeus durante a 2ª Guerra Mundial ainda que, ainda hoje, o impacto seja substancialmente menor, (in)compreensivelmente, como se o valor da vida humana tivesse um peso e medida diferentes mediante a região do globo onde se perpetraram tamanhos atos de loucura assassina.
Impossível não ficar preso a este livro com a leitura das primeiras linhas em que Olivier Rolin nos apresenta um Alexei Feodossevitch completamente apaixonado pela natureza e pela necessidade de a compreender através de forma científica. "A sua ocupação eram as nuvens. As longas penas de gelo dos cirros, as torres florescentes dos cumulonimbus, os trapos esfarrapados dos estratos, os estratocúmlos que encarquilham o céu como as pequenas ondas da maré a areia da praia, os alto-estratos que se tornam véus do Sol, todas as grandes formas que andam à deriva orladas de luz, os gigantes de algodão donde caem chuva e neve e trovoada." (p.11)
O contributo de Alexei Feodossevitch conduziu, a partir de 1930, à institucionalização do boletim meteorológico com vista ao desenvolvimento da economia da URSS assente na agricultura que, segundo o autor, visava a "construção do socialismo e, mais precisamente, da agricultura socialista". (p. 27) "A parte que lhe cabia na construção do socialismo era essa: ajudar o proletariado revolucionário a dominar as forças da Natureza." (p. 42)
À medida que Alexei Feodossevitch Vangengheim vai fazendo carreira como meteorologista e face aos cargos relevantes que vai desempenhando ao serviço da consolidação do socialismo, é provável, segundo o autor, que as suspeitas da polícia política tenham aumentado enquanto o terror estalinista alastrava, não poupando ninguém, nem mesmo aqueles ligados às altas esferas do Partido que acabaram também por ser eliminados, sempre que necessário.
É neste contexto que Alexei Feodossevitch é preso em 1933 no seguimento de uma denúncia que comprovava a existência de uma organização contrarrevolucionária afeta ao Serviço Hidrometeorológico que tinha como objetivo criar "previsões conscientemente falsas, no intuito de prejudicar a agricultura socialista, e a desorganização ou destruição da rede das estações, nomeadamente aquelas cujo objetivo era combater as estiagens (…)." (p. 57)
Alexei Feodossevitch não vê alternativa senão em confessar aquilo que não é verdade, perante situações concretas de espancamento, humilhações e ameaças à família durante os interrogatórios.
Assim, entre 1934 e 1937, Alexei Feodossevitch encontra-se num Gulag, numa das ilhas do arquipélago Solovki, para onde foi deportado. Durante o período em que está preso, Alexei Feodossevitch refere várias vezes, nas cartas dirigidas à sua esposa, frases como "(…) Escrevi ao camarada Estaline que não perdi e que nunca perderei a confiança no Partido" (p. 68) ou "A minha confiança no poder soviético não está de modo algum abalada" (p. 81), o que segundo o autor, Alexei Feodossevitch Vangengheim "continua a ser um bom militante comunista, um bom soviético empanturrado de ideologia, o destino que o espera, e que não será o único a conhecer, não parece abalar as suas convicções. (pp. 84-85).
Durante este período, para além das tarefas diárias a que Alexei Feodossevitch está sujeito, também se dedica a desenhar para a filha como já foi dito no início do texto, a ler e a observar a natureza à sua volta e sempre com um olhar científico, fazendo jus à sua profissão de meteorologista, acompanhando, deste modo, a cadência das duas únicas estações do ano, o inverno e o verão, naquela ilha das Solovki.
Alexei Feodossevitch acaba por "desaparecer" no contexto do período que ficou conhecido por "Grande Terror" (1937-1938) em que o estado soviético, sob as orientações de Estaline, perseguiu milhões de concidadãos, cumprindo, deste modo, as quotas de assassinatos por região e república da URSS.
Face ao desejo de se fazer justiça, assim como de se repor a verdade em torno do meteorologista, Olivier Rolin investiga ao máximo tudo o que tem que ver com este indivíduo, articulando-se com alguns elementos do Memorial, uma espécie de associação ligada às vítimas do terror estalinista.
Em "O Meteorologista", Olivier Rolin capta a atenção do leitor para esta história apaixonante e que, através dela, confirmamos, uma vez mais, o quão longe foi o estalinismo.






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