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quinta-feira, 23 de abril de 2015

A Escolha do Jorge: Uma Vida à Sua Frente

"Uma Vida à sua Frente" foi escrito sob o pseudónimo de Émile Ajar tendo garantido a Romain Gary a atribuição do Prémio Goncourt em 1975 pela segunda vez.
Contado pela voz de Momo, uma criança árabe de dez anos, vai levar-nos ao coração de Paris depois da guerra estando em casa de Madame Rosa desde bebé na sequência da morte da mãe e por pedido do pai.
Madame Rosa é uma judia polaca, antiga prostituta, que acabou por ir viver para França até ter sido enviada para Auschwitz, tendo acabado por sobreviver. Regressada a Paris depois da guerra, Madame Rosa retoma novamente a sua vida como prostituta até que atingindo certa idade, decide acolher crianças, filhos de outras prostitutas judias e árabes que se "defendem" como podem nas ruas de Paris sob a caução de dinheiro que tarda sempre em chegar.
O pequeno Momo vai descrevendo a vida daquele apartamento que se situa num sexto andar e com todo o corrupio de entra e sai de crianças que são deixadas ao cuidado de Madame Rosa, assim como dos amigos habituais que são solidários com a causa de Madame Rosa que se mantém ilegal naquele país.
Parafraseando Momo, entre "proxinetas", "travestitas", "p***s", cada um "defende-se" nas ruas de Paris para ser feliz e para ter algum dinheiro para sobreviver para o dia-a-dia dos seus filhos entregues a Madame Rosa.
À medida que a narrativa avança, também a idade de Madame Rosa não se faz perdoar e esta senhora que tanto tem feito pelos pobres e combalidos que tanto se "defendem" nas ruas em busca de uma vida melhor, a Madame Rosa começa aos poucos a perder as suas faculdades mentais ao ponto de deixar de conseguir interagir com as pessoas à sua volta.
Aos poucos, Momo assume as rédeas daquele apartamento na medida em que Madame Rosa por também ter graves problemas de mobilidade graças ao aumento significativo de peso deixando de conseguir sair de casa.
Momo com a ajuda da vizinha "travestita", Madame Lola, um ex-bouxeur senegalês que também se "defende" nas ruas de Paris, auxilia estes vizinhos com comida e dinheiro como forma de enfrentar o dia-a-dia com dignidade.
À medida que Momo vai descrevendo a perda das faculdades mentais de Madame Rosa, assim como os poucos traços de beleza que ainda lhe restam como vestígios dos tempos em que se "defendia" com grande estilo nas ruas de Paris, Momo vai-se adaptando à dura realidade da eventual perda que se avizinha.
É neste contexto que Momo tudo faz para que Madame Rosa se sinta feliz e acarinhada, compreendendo que face à inevitabilidade da natureza, também ele se encontra só no mundo. É a partir do momento em que toma consciência de que afinal é mais velho do que aquilo que o fazem parecer, que Momo assume uma atitude de grande responsabilidade perante aquela que sempre o protegeu e que de alguma forma é a sua mãe adoptiva assim como a única pessoa que tem no mundo.
É perante esta tomada de consciência que Momo se opõe às leis da natureza interrogando-se tantas vezes por que razão é permitido às pessoas mais novas abortar, não sendo possível, por outro lado "abortar" os idosos para que não sofram mais.
A forma inocente e doce de abordar alguns dos temas que preocupam a sociedade contemporânea é algo único e magistral na medida em que todo o género de preconceitos que assolam a nossa forma de pensar são aqui trazidos por Momo de uma forma carinhosa dando a ideia de os problemas da sociedade poderem ser resolvidos de modo extremamente simples ao contrário dos adultos que tudo complicam.
Se este livro traz consigo momentos que nos fazem esboçar inúmeros sorrisos, uma coisa é certa, não ficamos indiferentes às atitudes do jovem Momo que demonstram a essência do verdadeiro amor ao próximo.
"Uma Vida à sua Frente" é um livro que nos marca profundamente graças à sua magistral beleza. É a sua dimensão ética e estética que transformam este livro numa obra de arte! Uma vez que nem sempre aprendemos uns com os outros, ao menos que haja livros que são verdadeiros compêndios para a vida.

Excertos:
"A felicidade é uma bela porcaria, uma velhaca, e seria bom ensinar-lhe a viver. Não estamos do mesmo lado, ela e eu, e não me ralo com ela. Nunca me meti na política, ainda, porque alguém fica sempre a ganhar contra os outros, mas deviam existir leis para impedir a felicidade de se armar em sacana." (p. 60)

"Depois [Madame Rosa] pediu o seu roupão cor-de-rosa mas não conseguimos enfiá-la lá dentro porque era o seu roupão de p*** e tinha engordado demais em quinze anos. Eu acho que não se respeita as velhas p**** como se deve, em vez de persegui-las quando são novas. Eu, se pudesse, cuidaria somente das velhas p**** porque as novas têm proxinetas, mas as velhas não têm ninguém. Escolheria só aquelas que são velhas, feias e que não prestam para nada, seria o proxineta delas, ocupar-me-ia delas e faria reinar a justiça. Seria o maior chui e proxineta do mundo e, comigo, ninguém mais veria uma velha abandonada chorar no sexto andar sem elevador." (p. 90)

"A Madame Rosa tinha agora ausências cada vez mais prolongadas e passava às vezes horas inteiras sem sentir nada. Pensei no cartaz que o Senhor Reza, o sapateiro, afixava para dizer que, em caso de ausência, era favor dirigir-se a outro sítio, mas nunca soube a quem me dirigir, porque alguns até chegam a apanhar a cólera em Meca. Sentava-me no banco ao lado dela, agarrava-lhe na mão e esperava pelo seu regresso." (p. 103)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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