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quinta-feira, 26 de março de 2015

A Escolha do Jorge: "Thérèse Desqueyroux"

Publicado em 1927, "Thérèse Desqueyroux" é a mais significativa obra de François Mauriac (1885-1970) que foi agraciado com o Nobel de Literatura em 1952.
Partindo de um caso verídico que passou pelo tribunal em França, François Mauriac ficou de tal forma sensibilizado que procurou reconstituir toda uma história acabando por nunca abandonar a personagem Thérese Desqueyroux que continuou a figurar nas suas obras publicadas posteriormente.
Acusada de envenenar o marido Bernard, Thérèse acredita que poderá ainda obter o perdão deste e, de alguma forma, da sociedade em geral. Pertencentes a família de importância numa certa região, Thérèse e Bernard estiveram desde sempre ligados entre si através de laços que uniam as duas famílias desde tempos quase imemoriais.
Mas o que poderá uma jovem mulher pretender matar o seu marido? Conseguirá por ventura acumular tanto ódio, tanta raiva ao ponto de perder a noção da realidade intentando contra a vida do seu marido? Será que a falta de amor por este é por si só a razão motivadora de tal ato ignominioso? Mas o que está verdadeiramente na origem deste ato? Terá Thérèse consciência da perda dessa mesma consciência sendo, pois, conduzida por uma "força diabólica", como afirma a dada altura na narrativa?
"Que lhe diria ela? Por que confissão começar? Serão as palavras suficientes para conter este confuso encadeado de desejos, de decisões, de actos imprevisíveis? Como fazem todos aqueles que conhecem os seus crimes?... «Eu não conheço os meus crimes. Não sei o que quis. Nunca soube para onde tendia essa força diabólica dentro e fora de mim: eu própria me assustava com o que ela destruía pelo caminho…»" (pp. 20-21)
Mas o que será pior para Thérèse? Ter sido absolvida pelo facto de o seu marido ter deposto a seu favor ou ter sido presa por um determinado período de tempo apartada da família e dos amigos?
É este dilema que Thérèse nos apresenta ao longo da narrativa que evolui com um forte sentimento de tensão a aumentar no decorrer da leitura. A reflexão intimista por parte de Thérèse parte da ideia de a personagem ser apresentada como um monstro pelo facto de ter tido a desfaçatez de ter intentado contra a vida do seu marido e, depois, vir a ser transformada num objeto, acabando encurralada em casa para bel-prazer do marido sendo levada quase até à morte.
Mas para Thérèse, o que é verdadeiramente a morte se já se sentia morta antes de ter cometido um crime de morte?
É esta deambulação através da angústia de Thérèse que o leitor dificilmente esquecerá graças a uma escrita tão madura de François Mauriac. Este é o tipo de obras que após a leitura de algumas páginas rapidamente concluímos que estamos perante uma grande obra literária, assim como de um autor que domina com grande mestria a arte da escrita e do encantamento dos leitores.

Excertos:
"Onde está o princípio dos nossos actos? O nosso destino, quando pretendemos isolá-lo, assemelha-se àquelas plantas que queremos arrancar com todas as suas raízes." (p. 23)

"«Pobre Bernard – que até nem é pior do que qualquer outro! Mas o desejo transforma o ser que se nos abeira num monstro que não se lhe assemelha. Nada nos separa mais do nosso cúmplice do que o seu delírio: sempre vi Bernard mergulhar no prazer – e eu fingia-me morta, como se, ao menor gesto, aquele louco, aquele epiléptico, pudesse estrangular-me. Quase sempre, no ápice do prazer, descobria subitamente a sua solidão; a lúgubre insistência interrompia-se. Bernard voltava atrás e encontrava-me como que numa praia onde eu tivesse sido lançada, com os dentes cerrados, fria.»" (p. 37)
"Que cómico que tu és, com o teu medo da morte! Nunca sentes, como eu, a sensação profunda da tua inutilidade? Não? Não achas que a vida das pessoas como nós se assemelha já terrivelmente à morte?" (p. 57)
"E nada poderá suceder de pior do que essa indiferença, esse desprendimento total que a separa do mundo e do seu próprio ser. Sim, a morte em vida: ela experimenta a morte, tanto quanto o pode experimentar uma pessoa viva." (p. 85)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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