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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Escolha do Jorge: Diário da Guerra aos Porcos

Adolfo Bioy Casares (1914-1999) é um dos vultos incontornáveis da literatura argentina do século XX estando as suas obras publicadas em mais de vinte línguas. Entre os inúmeros prémios recebidos ao longo da sua carreira, o escritor foi igualmente agraciado com o Prémio Cervantes, o máximo reconhecimento da literatura em língua espanhola, em 1990.
"Diário da Guerra aos Porcos" (1969) é uma das obras de maior relevo no percurso de Adolfo Bioy Casares na medida em que transporta para a literatura um tema de uma grande atualidade, o do envelhecimento da população e do seu impacto nas gerações mais jovens.
Se a obra em si provoca alguma (ou mesmo bastante controvérsia), não deixa de nos dias que correm gerar uma preocupação acrescida atendendo ao facto de a natalidade ter diminuído progressivamente em muitos dos países considerados desenvolvidos, havendo, neste sentido, dificuldade na renovação das gerações, tendo, consequentemente, um peso significativo dos orçamentos dos países para fazer face às reformas dos idosos.
Imaginemos um país, neste caso especificamente, a Argentina, em que na sua capital Buenos Aires, um grupo de jovens que aumenta de dia para dia decide perseguir, sequestrar e mesmo matar idosos, ao ponto de muitos indivíduos deste grupo etário começarem a circular nas ruas apenas à noite quando há menos movimento e daí, menos probabilidades de acontecer alguma fatalidade.
Mas esta perseguição cerrada aos idosos vai muito para lá das questões relacionadas com o peso das reformas que recai sobre os mais jovens. Esta perseguição é tão incompreensível quanto lícita sendo esta a questão nevrálgica e original da obra "Diário da Guerra aos Porcos" apresentada por Adolfo Bioy Casares. A anunciada perseguição corresponde à negação que o ser humano tem sobre a ideia geral de envelhecimento. Se por um lado perseguir e matar idosos, aqui apelidados tantas vezes de "porcos" significa aniquilar pessoas consideradas de alguma forma inúteis para a sociedade, por outro lado acabou por ser um movimento que pecou pela base tendo o seu reverso da medalha na medida em que matar um idoso corresponde de algum modo a cometer suicídio dado que ao matar aquele determinado indivíduo nada mais é do que matar, aniquilar aquele em que me vou tornar dentro de alguns anos.
Complexo e não menos inquietante, o leitor entra nesta guerra de idades quase como se tratasse de uma guerra civil entre jovens e idosos que no fundo poderá ser interpretada como uma guerra do homem que de algum modo se reflete na luta entre a vida e a morte.
Interessantes são igualmente as questões levantadas no que respeita à idade ou momento/s em que um indivíduo se torna idoso. Necessita ter alguns problemas de saúde? Dificuldades de mobilidade? Deixa de exercer interesse no sexo oposto? A pele tem de ficar enrugada? Será um idoso a conjugação dos aspetos referidos anteriormente e de outros tantos que poderemos enumerar? E em relação aos sonhos e projetos de um idoso? Será que um idoso tem projetos? E sonhos? Quais serão? Terá tempo útil para os concretizar em vida?
"Diário da Guerra aos Porcos" é, pois, uma obra que nos marca mais não seja pela ideia da inevitabilidade do tempo que passa por nós deixando o seu rasto ao longo dos anos. Ninguém gosta da ideia de envelhecer e tudo tentamos, não propriamente para contrariar o ciclo vital (embora o recurso à cirurgia estética e outras terapias seja hoje uma realidade cada vez mais frequente), mas para que a vida que sobra seja vivida com mais dignidade e determinação em manter a cabeça e um espírito jovem. Sim, porque velhos são os trapos…
"Diário da Guerra aos Porcos" é mais um dos grandes livros de Adolfo Bioy Casares que regressa novamente às livrarias juntando-se a outras obras do autor argentino com igual valor literário, nomeadamente "Plano de Evasão", "O Herói das Mulheres", "A Invenção de Morel" e "O Sonho dos Heróis".

Excertos:
"- O que me aborrece nesta guerra ao porco - irritou-se porque, sem querer, chamou isso à perseguição dos velhos. - é o endeusamento da juventude. Parece que estão loucos por serem jovens. Que estúpidos."
"- Nesta guerra, os miúdos matam por ódio contra o velho que vão ser. Um ódio bastante assustado..."
"- (...) Há um novo facto irrefutável: a identificação dos novos com os velhos. Através desta guerra, eles entenderam de uma maneira íntima, dolorosa, que todos os velhos são o futuro de um jovem. Deles próprios, talvez! Outro facto curioso: invariavelmente, o jovem elabora a seguinte fantasia; matar um velho equivale a suicidar-se."
"- A juventude é uma presa do desespero (…). Num futuro próximo, se o regime democrático se mantiver, o homem velho será o amo. Por uma questão de simples matemática, entenda-me. Maioria de votos. O que é que nos mostra a estatística, vamos lá ver? Que a morte hoje não chega aos cinquenta, mas sim aos oitenta e que, amanhã, chegará aos cem. Perfeitamente. (…) Acabou-se a ditadura do proletariado, para dar lugar à ditadura dos velhos."
Texto da autoria de Jorge Navarro

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