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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A Escolha do Jorge: O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral (n. 1990) foi o vencedor do Prémio LeYa 2014 tendo o livro sido publicado no final de novembro. O mais jovem vencedor deste prémio trouxe a escrito uma história centrada nas vivências de uma família em que um dos seus elementos é portador de trissomia 21.

A história começa com a viagem dos dois irmãos, o narrador e o irmão Miguel, o personagem principal da obra, que se dirigem para o Tojal, uma aldeia praticamente desertificada do concelho de Arouca, onde ainda mantêm uma casa que os pais tinham adquirido para passar uns dias fora do Porto.

É ao longo das duas semanas de permanência dos dois irmãos na aldeia que o leitor fica a perceber o que motivou a viagem e o afastamento da cidade, do mesmo modo que nos é relatada a história da vida de Miguel desde criança até ao momento com 40 anos, idade somente cronológica dado que Miguel continua a ser uma criança.

Desde o relacionamento dos dois irmãos em criança, ao dia-a-dia de Miguel na APPACDM durante uma boa parte da sua vida, a relação com os pais, a dura decisão de o narrador ficar com a guarda do irmão após o falecimento quase repentino dos pais.

O tema da trissomia 21 não é de facto um tema de fácil abordagem e o leitor fica cativado pela escrita de Afonso Reis Cabral pela forma como expõe as ideias de forma clara e objetiva criando situações de humor, mas também de alguma dureza face à realidade dos factos e das situações expostas tanto em relação a Miguel, como por exemplo em relação aos colegas de Miguel na APPACDM.

Um dos pontos que abarca uma parte significativa de "O Meu Irmão" é o relacionamento entre Miguel e Luciana que frequenta a mesma instituição. No entendimento destes dois personagens, agem como se fossem casados imitando, deste modo, as pessoas fora da instituição, na sequência daquilo que sentem um pelo outro.

Esta questão do amor entre pessoas portadoras de deficiência mental é sem dúvida um tema difícil de abordar como se fosse em certa medida um assunto tabu dado que até na linguagem utilizada se verifica um certo cuidado dado haver o perigo de Miguel e Luciana "chegarem a vias de facto".

O certo é que o irmão de Miguel chega a refletir sobre a dificuldade que ele próprio teve em construir e manter um relacionamento em comparação com o irmão que ama indubitavelmente Luciana há já alguns anos sendo esse amor, como mais tarde constatou, o motor da vida de Miguel.

Há momentos de Afonso Reis Cabral que nos encostam à parede sobretudo para quem não conhece de perto o dia-a-dia das pessoas com trissomia 21 e são essas passagens que nos fazem querer mais do livro dado traduzirem simultaneamente realismo e reflexão, no entanto, esses momentos acontecem pouco mais que pontualmente ao longo de mais de 350 páginas, havendo partes que poderiam ter sido eliminadas cujas descrições serem verdadeiramente supérfluas.

Se por um lado o livro tem um bom tema de fundo ou temas para desenvolver, "O Meu Irmão" é um livro com estrutura, mas falta-lhe alma, falta-lhe aquela energia que nos faz manter a vibração ao longo de todo o livro, de querermos continuar e não parar por muito dura que seja a leitura. É precisamente isso que acontece sobretudo numa fase da narrativa mais próxima do final em que o autor se terá perdido um pouco tornando a história menos verosímil perdendo até o sentido a tomar
em certos momentos.

Desconheço se a versão final do livro terá correspondido à obra entregue antes da atribuição do prémio, no entanto, caso se tenha mantido é pena porque com alguns cortes e alguns ajustamentos na narrativa, "O Meu Irmão" teria ganho um novo fôlego, tal como os leitores e o autor, compreensivelmente.

Não deixa de ser interessante que para um país pequeno como o nosso e com um volume de vendas de livros relativamente baixo em comparação com outros países, atribua tantos prémios literários, com maior ou menor projeção, como se trata do caso específico do Prémio LeYa que ganha impacto não só pelo valor do prémio atribuído, mas também por congregar uma série de editoras do mercado editorial português. Assiste-se cada vez mais à crescente banalização da literatura neste país em que por este andar não se tardará a atribuir prémios literários ao virar de cada esquina, julgando-se com isso que todos os livros são bons em matéria de literatura propriamente dita ou que acrescentem algo ao que já existe.

Concluindo, "O Meu Irmão" de Afonso Reis Cabral é um livro mediano, significativo para quem, agora, iniciou a vida como escritor, servindo-lhe a atribuição do maior prémio literário português como motivação para continuar a melhorar num futuro próximo.

Excertos:
"O Masturbador era um rapaz desproporcionado. O cabelo caía-lhe para os olhos. Vestia a roupa velha das instituições de caridade.
Certas partes do corpo sobrepunham-se às outras. Por exemplo, a mão muito maior do que o cérebro. E o pénis ainda maior do que a mão. A sua alma fora engaiolada num corpo de poder e desejo. Nada comandava a máquina, ela comandava-se autonomamente e por isso fora escravizada pelas próprias engrenagens, pela própria pulsão. Tanto em público como em privado, nada do que ele quisesse era deixado por saciar e, assim, o pistão accionado perante as mulheres imperava no sistema da máquina. Babava-se, murmurava «Anda cá, minha panelinha de água quente».
Excitado, escondia-se nos corredores mais obscuros e baixava as calças. O resto passava-se como sempre, com excepção de que aquele monte de carne se abstraía do que o rodeava e, se por acaso o apanhavam em flagrante, prosseguia no vaivém aos urros. As educadoras fugiam também aos urros a chamar o contínuo, e este sabe-se lá quem chamava. Não chamava ninguém. Corria mais perturbado do que elas, dizendo para si «Ó menino, ó menino! Valha-me Deus!»
Depois de apanhado e obrigado a parar, desistiu de ao menos se recolher nos corredores e passou a tratar da excitação em público. Tanto lhe fazia, mesmo que uma ideia de consciência atirada para o fundo do mecanismo (talvez a alma na gaiola) lhe dissesse que estava errado. Tudo desde que o deixassem fazer o que queria. E assim, apesar do «Ó menino, valha-me Deus!», baixava as calças sempre que o pistão era accionado. E era accionado nem que fosse à manivela.
Quando o impediam, arranhava a cara, atingindo os olhos. É que não haviam equipado a máquina com válvula de descompressão e a energia acumulada necessitava de dispersar. Atacava os olhos, o mesmo canal por onde entravam imagens que o excitavam. Cegou o olho direito. Uma geleia branca alojou-se na cavidade macerada.
Já que precisava de arranhar, as educadoras aconselhavam-no «Faz isso no olho mau», tentando evitar que cegasse por completo.
A máquina queria primeiro as raparigas mais pequenas. Era isto: obliterar o que as tornava femininas, o desejo que ele sentia por elas. Para tal bastava ceder. Só assim a máquina deixava de sentir desejo, porque a presença feminina desaparecia pelo menos durante algum tempo depois de a máquina ter processado a paz dos fluidos." (pp. 143-144)

"Quando se é velho e pai de um deficiente, aprende-se a lidar com o medo. Quando eu for ainda mais velho, que será feito do meu filho? E quando eu morrer? E quando ele se tornar velho e eu já não existir? Este medo será com certeza constituído por muitos outros. E também uma parte física, quer dizer, olhar para as mãos, sabê-las extintas e, tal como as mãos, o resto do corpo, apesar de dentro desse corpo permanecermos iguais, sentirmo-nos novos – sermos afinal eternos. Não sei descrever a velhice porque a velhice não existe em abstrato." (pp. 239)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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