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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A Escolha Do Jorge: Bach

O primeiro contacto que tive com as obras de Pedro Eiras foi "A Cura" (Quid Novi, 2013), o romance com uma forte componente de natureza psiquiátrica que alia as sessões de terapia com a literatura cativando logo nas primeiras páginas o leitor para o centro da narrativa. (Artigo sobre "A Cura" aqui).
No seguimento dessa obra e após alguma pesquisa sobre o autor, rapidamente nos apercebemos que as publicações abrangem vários territórios das letras e para além do romance, destaca-se ainda o teatro, a poesia e o ensaio, demonstrando a versatilidade do escritor.
"Bach" é o mais recente livro de Pedro Eiras, editado recentemente pela Assírio & Alvim e cuja apresentação em Lisboa teve lugar no início deste mês de novembro.
Ao contrário dos géneros indicados anteriormente, "Bach" não se inscreve em nenhuma das categorias podendo ser um misto de contos, romance, ensaio, algo inclassificável atendendo tantas vezes à necessidade de querermos segmentar, compartimentar tudo o que nos passa pelas mãos, talvez como forma de controlarmos a realidade à nossa volta, compreendendo, talvez, um pouco melhor essa mesma realidade da qual fazemos parte.
É talvez pelo facto de este "Bach" não ter rótulos que nos atrai tanto e ao não ser propriamente um livro imediato com uma estrutura linear como a dos romances que lemos habitualmente que por vezes sentimos receio de escrever sobre o que pensamos dele.
É precisamente ao evitar este "Bach" que acabamos por regressar a ele! As suas histórias, independentes entre si, conduzem-nos a personagens reais, de carne e osso, que existiram desde o início do século XVIII até ao início do novo século ainda que se quisermos ser mais precisos, é necessário não esquecer Jeshua Ben-Josef, ou simplesmente Jesus, a quem é reservado um capítulo (ou conto).
Este "Bach" não é um livro que fale ou explique sobre Bach, o compositor que marcou o século XVIII. Este "Bach" tem Bach como pano de fundo nalguns capítulos, ao passo que noutros é a música que também ocupa o seu lugar de relevo ou então a sua busca incessante como no próprio capítulo Jeshua Ben-Josef.
"Bach" abre novos trilhos do pensamento e da literatura dado que são lançadas as sementes para uma pesquisa sobre outros caminhos a percorrer. Questionamos muito com este "Bach", duvidamos se conseguiremos chegar ao sentido de alguns dos textos apresentados por Pedro Eiras, mas é nesse não saber feito que recebemos as ferramentas para ir mais além e trilhar o ainda não trilhado caminho do conhecimento.
Ler este "Bach" é falhar constantemente. Falhamos ainda mais ao tentarmos escrever sobre o livro, sobre "Bach" que tanto se nos mostra como se esconde, dificultando-nos a vida, naquele momento. É nesses momentos de dúvida e de incerteza que nos tornamos humildes ao sentirmo-nos esmagados com a beleza da obra, pois é nesses momentos que vislumbramos o entendimento de qualquer coisa, de diferente, inclassificável, tornando-se, pois, uma experiência estética e intelectual deveras estimulante.
Sobre este ponto, citamos o autor no capítulo (conto ou…) subordinado ao tema Gottfried Wilhelm Leibniz: "Sim – e que nesse mundo determinado, harmónico, o melhor de todos os mundos possíveis, exista uma razão para a própria dor, um fim último desejado, uma razão para a dissonância tal como se apresenta aos nossos ouvidos, parte de uma harmonia maior que só o concerto das mónadas poderia ouvir, a unidade de todos os entendimentos em Deus. Assim, uma razão para a neve, para Hanôver, as tulipas no vaso e as dores nas articulações do meu corpo. Uma razão para escrever e para não escrever, para a música e o silêncio, uma razão, por todas as coisas distribuída, uma pequena razão." (pp. 80-81).
Pedro Eiras conseguiu provocar danos (no bom sentido) ao transformar "Bach" numa obra inigualável sendo, pois, uma das obras mais criativas publicadas ao longo deste ano, o que reserva ao autor o desafio de se superar no seu próximo livro. Uma coisa é certa: Bach será sempre uma fonte inesgotável de inspiração!
Excerto:
"Nunca regressei a este texto sem medo.
Regressei tantas vezes. Regresso ainda. Sei as frases de cor: sublinhei-as nos livros tão gastos, copiei-as em cadernos, ficheiros no computador. Li cada frase, palavra a palavra, vezes sem conta, ao longo de tantos anos. Eram, continuam a ser densos mistérios, palavras com uma estranha luz dentro. Releio-as como se nunca as tivesse lido.
De certo modo, é verdade: já não são as mesmas frases, agora trazem-me o sabor das leituras e a memória dos anos. Recordo os instantes – o fragmento do tempo? – em que as li, de cada vez; debruçado sobre as folhas de um livro. Como se os dias passados se inscrevessem no papel, e os anos ficassem impregnados na tinta, apontamentos e sublinhados, tempo preso na mina do lápis. Leio, releio, reencontro quem fui, lendo, outrora. Comentários breves, tentativas sobrepostas, leituras sobre leituras: as notas à margem parecem-me agora omissas, insuficientes; e já nem a minha caligrafia é assim.
Quando li pela primeira vez este texto, li-o imediatamente com medo, e nunca regressei a ele sem medo. Nunca sem fascínio e a certeza de um mistério. Texto difícil, que iluminava como nenhum outro, com a sua noite densa escrita no meio do dia." (p. 85)

Pedro Eiras partilhou o último capítulo de "Bach" com os seus leitores:
https://www.youtube.com/watch?v=07kCK1LpVaM

Texto da autoria de Jorge Navarro

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