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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Escolha do Jorge: Primeiro os Idiotas

Bernard Malamud (1914-1986) foi publicado pela primeira vez no nosso país no final de 2013 com a edição de "O Barril Mágico", um dos livros de contos mais emblemáticos do autor tão apreciado por autores norte-americanos, nomeadamente por Flannery O´Connor. A obra obteve um bom acolhimento por parte da crítica, assim como do público em geral.

"Primeiro os Idiotas" é a mais recente aposta da Cavalo de Ferro continuando, deste modo, a publicação das obras de Bernard Malamud que é reconhecido como um dos nomes mais representativos da literatura norte-americana do século passado.

Ao longo dos doze contos desta nova obra, uma vez mais o autor traz para a escrita personagens, na sua maioria judeus, que procuram encontrar o seu lugar no mundo, tentando, de alguma forma, contrariar as vicissitudes inerentes à ideia de que o povo judeu é um povo sofredor. O mais pequeno vislumbre de alegria ou o almejar de um pequeno rasgo de felicidade é transversal ao longo de toda a obra através de personagens que na sua singularidade refletem o destino do povo judeu. A melancolia, tristeza, angústia, desespero e até loucura caracterizam de um modo ou de outro os personagens levando o leitor a refletir sobre a dureza das condições de vida das pessoas e, em especial, para os judeus, durante o período entre as duas guerras mundiais.

A escrita dócil e terna alternada com momentos de ironia e humor (por vezes negro) conquista o leitor nas primeiras páginas, envolvendo-o nas histórias de um modo intenso devido ao facto de a escrita de Bernard Malamud ser bastante visual e emotiva.

São muitas as situações que retratam o quotidiano de certos bairros de Nova Iorque presentes na obra, reflexo de os pais do autor serem proprietários de uma pequena mercearia num bairro de Brooklyn, demonstrando que o autor é conhecedor do dia-a-dia das várias comunidades daquela parte da cidade sendo tal visível através do conto "Negro é a Minha Cor Preferida".

O desespero de um pai que mendiga alguns dólares para comprar o bilhete de comboio para o filho deficiente de trinta e nove anos; o indivíduo branco que durante toda a vida se sente atraído pela comunidade negra sem conseguir fazer amigos; os problemas de consciência de um professor de literatura que se apaixona por uma ex-prostituta; uma viúva devota que vive num permanente purgatório; o pássaro-judeu cuja vida é fugir dos anti-semitas; o pequeno comerciante que vê abalada a sua esperança numa vida melhor ou o refugiado alemão que vive em profunda agonia por não se conformar com a subida de Hitler ao poder, são alguns dos heróis de causas perdidas que integram este volume de contos "Primeiro os Idiotas".

Para quem já conhece "O Barril Mágico", vai certamente querer conhecer este novo título de Bernard Malamud. Para quem se vai estrear com esta obra, fica a certeza de mais um belíssimo livro sendo garantidamente um dos que figurará entre os melhores livros publicados em 2014.

Excertos:

"- O que é que vamos fazer agora? – sussurrou Angelo, preocupado. – E se chamássemos uma vidente? Ou isso, ou então enterramo-lo.
- É preferível a astrologia – aconselhou Scarpio. – Vou ver a posição dos planetas dele. Se isso não resultar, tentamos a psicologia.
(…)
- Em que dia nasceste, Arturo? – perguntou calmamente, observando a reacção de Fidelman.
Além do dia, Fidelman disse-lhe também a hora e o local em que tinha nascido: Bronx, Nova Iorque.
Consultando as tabelas do Zodíaco, Scarpio desenhou num papel o mapa astral de Fidelman e estudou-o atentamente com o olho com que via bem. Ao fim de alguns minutos, abanou a cabeça e disse:
- Não admira.
- Qual é o problema? – perguntou Fidelman, sentando-se a custo.
- O teu Urano e Vénus estão em má posição.
- O meu Vénus?
- É ele que determina o teu destino. – Estudou melhor o mapa. – Com o ascendente de Touro, Vénus está em sofrimento. É por isso que estás bloqueado.
- Em sofrimento porquê?
- Psiu! – proferiu Scarpio. – Estou a ver o teu Mercúrio.
- Concentra-te em Vénus. Quando é que ela vai melhorar?
Scarpio consultou o mapa, anotou alguns números e símbolos e foi empalidecendo. Pesquisou mais algumas páginas do mapa, depois levantou-se e aproximou-se da janela suja.
- É difícil dizer. Acreditas na psicanálise?
- Mais ou menos.
- Se calhar, é melhor experimentarmos isso. Não te levantes.
(…)
- Tens algumas recordações da tua mãe? – perguntou Scarpio. – Por exemplo, alguma vez a viste nua?
- Ela morreu durante o parto – respondeu Fidelman, à beira das lágrimas. – Fui criado pela minha irmã Bessie.
- Continua, estou a ouvir – disse Scarpio.
- Não consigo. Tenho a cabeça vazia.
(…)
- Pode ser um problema médico. Toma qualquer coisa hoje à noite.
- Já tomei.
- Avida é complicada. De qualquer forma, anota os teus sonhos. Escreve-os assim que sonhares." (pp. 119-120)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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